AMOR EM CAMPO

45 Capítulo 48 - Família


Notas iniciais
Oi, amores! 🤍 Capítulo de coração quentinho chegando. Hoje é dia de conhecer a origem da Rafaela, encarar o sogro nível final boss, sobreviver à energia caótica da Micaela… e descobrir que, às vezes, o maior desafio não é entrar em campo, mas sim na casa de quem a gente ama. Boa leitura e, como sempre… leiam com carinho! 💙

Camisetas dobradas. Desdobradas. Dobradas de novo.

Pegava uma, largava outra. Conferia o celular. Voltava para a mala.

— Você tá organizando isso há vinte minutos — Rafaela comentou, sentada na cama de Gabriel. — Vai jogar uma final ou conhecer meus pais?

Ele passou a mão pelo cabelo, soltando um suspiro curto.

— Tô bem, tá? — respondeu rápido demais. — Só… quero causar uma boa impressão.

Rafaela arqueou uma sobrancelha.

— Você? O cara que entra em campo com o estádio cheio sem piscar?

— Isso é diferente — ele retrucou, sério. — Lá eu sei o que tô fazendo. Aqui… — apontou para a mala — eu não faço ideia se levo camisa social ou se seu pai vai me achar metido demais.

Ela riu, se aproximando e o abraçando pela cintura.

— Amor, relaxa. Não precisa de camisa social. Meu pai só vai te analisar por umas… — fingiu pensar — duas horas. Depois disso, se ele te chamar para ajudar no churrasco, você foi aceito.

Gabriel engoliu em seco.

— Ótimo. Sem pressão nenhuma.

Rafaela segurou o rosto dele entre as mãos, sorrindo.

— Ei. — falou baixo. — Eu não te levaria se não tivesse certeza. Eles vão gostar de você.

Ele sustentou o olhar dela por um instante, o nervosismo misturado com empolgação.

— Eu tô feliz — confessou. — Só… um pouco apavorado.

— Combinação perfeita — ela provocou, beijando-o rápido.

No dia seguinte, os dois acordaram cedo.

Gabriel estava na cozinha preparando café da manhã, tentando parecer calmo enquanto virava ovos na frigideira.

Rafaela, ainda de pijama, organizava os itens de sobrevivência que havia comprado — biscoitos, barras de cereal, chocolates, salgadinhos —, colocando tudo em uma bolsa térmica pequena.

— Você tá levando comida como se a gente fosse atravessar o deserto — ele comentou.

— Eu conheço você — ela respondeu. — Quarenta minutos de estrada e você já vai estar dizendo que está morrendo de fome.

— Calúnia.

— Fato comprovado.

Depois do café, malas fechadas, bolsa térmica pronta, documentos conferidos três vezes por Gabriel — que claramente estava canalizando a ansiedade na organização —, eles foram para o carro.

O porta-malas fechou com um baque seco. Rafaela olhou para o carro e depois para ele, arqueando as sobrancelhas.

— Animado?

Gabriel assentiu, lutando para manter o frio no estômago sob controle.

— Tô curioso para conhecer a Micaela — respondeu, mantendo um tom leve, embora suas mãos estivessem geladas. — Ela me adicionou no Instagram e me enviou uma enxurrada de mensagens. Ela sempre escreve em caps lock daquele jeito ou era empolgação comigo?

— Você ainda não viu nada — Rafaela respondeu, rindo.

Ele abriu a porta do passageiro com gentileza, e Rafaela entrou.

O carro saiu devagar, a cidade ficando para trás, dando lugar à estrada longa, ao céu aberto, àquela tensão gostosa que misturava ansiedade, expectativa e um frio bom no estômago.

Quando o veículo pegou a rodovia, Gabriel perguntou:

— Como estão as coisas com a Letícia?

Rafaela desviou os olhos para a estrada.

— Na mesma. Ou pior. Ela evita conversa, some quando tô em casa… e quando a gente se encontra, finge que não existo.

Gabriel diminuiu um pouco a velocidade, atento ao tom dela.

— Mas o que aconteceu entre vocês?

Ela soltou um suspiro curto, apoiando o cotovelo na porta e o queixo na mão.

— Vi um hematoma no braço dela. Não era grande, mas… não parecia acidente.

O maxilar de Gabriel travou instantaneamente. Seus dedos apertaram o volante até as juntas ficarem brancas, um reflexo instintivo de quem reconhecia que aquele tipo de marca não nascia de um esbarrão descuidado.

— Você falou alguma coisa?

— Tentei. — Rafaela deu de ombros. — Mas ela ficou na defensiva. E, depois disso, se fechou de vez.

Fez uma pausa.

— O pior de tudo foi ela tentando passar pano. Falou que aquilo não era “nada” , que ele ficava chateado às vezes, que era “normal”.

— Isso é doentio, Rafa. — O tom dele subiu, a mão apertando o volante com força excessiva. — Me dá o endereço. Eu resolvo isso agora.

Rafaela olhou para ele e, por um segundo, ela quis dizer "sim". Quis que ele fosse o herói de armadura reluzente e resolvesse tudo com a mesma facilidade com que marcava um gol. Mas a realidade da vida real era um jogo muito mais sujo.

— E você vai fazer o quê? — ela perguntou, com uma tristeza que o desarmou. — Vai bater na porta dele? Vai ameaçá-lo? Gabriel, se você fizer isso, ela vai defendê-lo. Ela vai se fechar ainda mais e me odiar por ter te contado.

— Eu não posso ficar parado vendo isso acontecer! — ele rebateu, a frustração transbordando.

— Não é assim que funciona! — Rafaela elevou o tom, e uma lágrima solitária finalmente escapou, traçando um caminho rápido pelo seu rosto. — Eu queria que fosse. Queria que eu pudesse simplesmente pegar ela pela mão e arrastar para fora do incêndio. Mas a Letícia precisa querer sair, Gabriel. Se eu tentar apagar o fogo à força, ela vai se queimar tentando proteger quem começou o incêndio.

Gabriel olhou para ela, vendo o desespero nos olhos da mulher que ele amava. O impulso de "resolver" colidiu com a impotência da situação. Ele passou a guiar o carro apenas com uma das mãos a outra, segurou a mão dela e a levou aos lábios depositando um beijo demorado.

— Ela disse que eu dei "sorte" com você — Rafaela continuou, a voz embargada. — Como se a minha felicidade fosse uma ofensa para a dor dela. Eu me sinto péssima por estar feliz, por estar aqui com você, indo ver meus pais, enquanto ela está lá, manipulada e vigiada.

Gabriel manteve a mão dela entre as suas, o polegar desenhando movimentos lentos na pele dela.

— Rafa… olha pra mim.

Ela virou o rosto devagar, os olhos ainda marejados.

— Você não precisa se sentir culpada por estar feliz.

A frase foi dita sem pressa. Sem peso. Como um fato simples.

— Mas ela…

— Eu sei — ele interrompeu com cuidado. — Eu sei que dói. Eu sei que você queria que ela estivesse bem também. Mas a sua felicidade não é traição.

Ela engoliu em seco.

— Parece que é.

— Não é. — Ele apertou a mão dela um pouco mais. — Você não está escolhendo entre ela e você. Você está vivendo a sua vida.

Rafaela respirou fundo, tentando organizar o nó no peito.

— Só parece injusto.

— É injusto — ele concordou. — Mas a injustiça não é sua.

Silêncio.

O carro seguia pela estrada, o sol entrando pela janela e iluminando o rosto dela.

— Você merece estar aqui comigo. Merece estar feliz. Merece conhecer essa fase boa da sua vida sem se punir por isso.

A voz dele estava estável. Convicta.

— A dor dela não diminui porque você sofre junto. E também não aumenta porque você está sorrindo.

As lágrimas escorreram de novo, mas agora havia algo diferente nelas.

Menos culpa.

Mais compreensão.

— Você pode se preocupar com ela — ele continuou — sem apagar o que a gente está vivendo.

Rafaela soltou o ar devagar.

— Eu tenho medo de estar sendo egoísta.

Gabriel balançou a cabeça.

— Egoísmo seria fingir que nada está acontecendo. Você não está fazendo isso. Você está atenta. Só não pode se punir por não conseguir controlar o que está fora do seu alcance.

Ela apertou a mão dele de volta, sentindo o calor dele. O peso não sumiu, mas agora parecia dividido.

— Só promete uma coisa — ele pediu, a voz grave. — Se você vir que ela corre risco real, a gente não vai esperar ela decidir nada. A gente vai agir. Combinado?

Rafaela assentiu, limpando o rosto com o dorso da mão.

— Combinado.

A estrada seguia aberta à frente, o sol começando a subir, e apesar das incertezas — da família, da amiga, do que ainda precisaria ser enfrentado — havia ali uma certeza silenciosa:

Eles estavam indo juntos.

📚📚📚

Quando a placa indicando a última saída para a cidade de Rafaela surgiu à frente, algo diferente apertou e aqueceu o peito dela ao mesmo tempo.

— Estamos chegando — Rafaela anunciou, com um sorriso que não conseguiu conter.

Gabriel diminuiu a velocidade e trocou de faixa sem dizer nada. A estrada começou a mudar de textura, o asfalto dando lugar às ruas de paralelepípedo. As casas surgiam aos poucos, mais baixas, mais próximas umas das outras. Ruas familiares para ela, completamente novas para ele. O ar parecia diferente. Mais leve. Mais cheio de memória.

— É ali — disse, apontando.

O carro parou em frente à casa.

Era simples. Muro baixo. Pintada em um tom claro, telhado de cerâmica avermelhada e uma pequena varanda na entrada. As janelas tinham grades brancas e cortinas claras por trás do vidro. Um jardim pequeno, bem cuidado, com algumas flores e plantas ao longo da parede, deixava tudo com aquele ar de casa viva, acolhedora. Daquelas que parecem guardar histórias nas paredes.

Rafaela ficou alguns segundos olhando.

Não importava quanto tempo passasse. Aquela casa ainda era o lugar onde ela se sentia inteira, à vontade, pertencente.

Antes de descer, ela se virou para Gabriel, estudando o rosto dele por um segundo a mais.

— Preparado?

Ele abriu a boca para responder, mas não teve tempo.

O portão se abriu com força e uma garota baixinha surgiu quase pulando para fora, as tranças longas balançando nas costas, o sorriso aberto, o mesmo sorriso de Rafaela, só em versão mais escancarada, mais barulhenta.

— CHEGARAM! — ela gritou, se virando para dentro da casa. — ELES CHEGAAAAARAM!

Rafaela soltou uma risada, abrindo a porta do carro.

— Micaela… — avisou, num tom que misturava carinho e resignação.

A garota correu até eles e parou a um palmo de Gabriel. Antes que ele pudesse estender a mão, a câmera que ela trazia no pescoço subiu em um flash. O clarão disparou contra o rosto dele, cegando-o instantaneamente. Gabriel piscou forte, tentando enxergar através dos pontos de luz que dançavam na retina.

Micaela, alheia ao desconforto dele, abaixou o equipamento e passou a analisar o resultado no visor digital com olhos curiosos, vivos, atentos demais. Claramente alguém que adorava registrar o mundo para depois tirar conclusões rápidas.

— Então você é o Gabriel — concluiu ela, com um sorriso de satisfação. — Hm. Melhor ao vivo

— Oi… — disse, ainda piscando, tentando recuperar a visão. — Você deve ser a Micaela.

— A própria — ela confirmou, abrindo um sorriso ainda maior. — Irmã favorita. Única, mas favorita mesmo assim.

Rafaela balançou a cabeça, fechando o carro.

— Dá um desconto. Ela estava esperando por isso há dias.

— Na verdade, espero isso há anos, irmãzinha — Micaela corrigiu. — Já estava convicta de que você ia ficar para titi… ai! — ela reclamou, esfregando o braço onde Rafaela havia dado um beliscão rápido. — Violência doméstica!

— Oi para você também, peste.

Antes que Micaela pudesse retrucar, uma voz mais grave ecoou de dentro da casa:

— Micaela! Que gritaria é essa, menina?

— Já parei! — ela gritou de volta, sem diminuir o volume. — É que o Gabriel chegou!

Gabriel sentiu o estômago revirar com aquela ansiedade elétrica que antecede algo importante.

Rafaela percebeu. Entrelaçou os dedos nos dele, firme. Um gesto simples, seguro.

— Vem — disse, tranquila. — É só a minha casa.

Assim que atravessaram o portão, o som da casa tomou conta.

Uma panela batendo na pia. Passos apressados. Um rádio ligado baixo em alguma estação de músicas dos anos 80.

Micaela saiu correndo na frente deles, praticamente saltitando.

— MÃÃÃE! — anunciou, dramática. — O namorado da Rafa chegou!

— Micaela! — Veio a bronca automática de dentro da casa. — Para de gritar como se tivesse alguém morrendo!

Mas a bronca perdeu força no meio do caminho.

A mãe de Rafaela apareceu na porta da cozinha, secando as mãos no pano de prato, o rosto se abrindo num sorriso imediato ao ver a filha.

— Minha menina… — disse, puxando Rafaela para um abraço apertado. — Que saudade.

Rafaela respirou fundo naquele abraço, como quem finalmente pousa.

— Também senti, mãe.

Então, a mulher ergueu o olhar para Gabriel. Observou com calma. Um olhar curioso, mas gentil.

— E você deve ser o Gabriel — concluiu, abrindo um sorriso acolhedor. — Seja bem-vindo.

Ela estendeu a mão, mas logo desistiu do gesto formal e o puxou para um abraço rápido.

— É um prazer finalmente te conhecer! A Micaela não para de falar de você. Como foi a viagem? Vocês devem estar com fome.

Gabriel piscou, um pouco desarmado com a recepção calorosa.

— Foi tranquila… e estou, sim, um pouco. Muito prazer em te conhecer também, dona Sônia.

— Que dona, menino! Me chama de Sônia — respondeu a mãe de Rafaela, já pegando na mão dele com carinho e o conduzindo para dentro da cozinha, como quem recebe um filho. — Relaxa, filho. Aqui ninguém passa fome.

Aquilo ajudou.

Mas não resolveu tudo.

Porque, na cozinha, sentado à mesa com cara de poucos amigos, estava o pai de Rafaela.

Cabelos grisalhos, bem aparados. Postura ereta. O tipo de presença que ocupava o espaço sem precisar dizer nada. O olhar era atento, não hostil, mas claramente avaliando.

Ele não sorriu.

Apenas continuou encarando.

Gabriel sustentou o peso daquele olhar. Era a mesma pressão de um batedor de pênaltis encarando o goleiro nos acréscimos. Ombros alinhados. Respiração controlada.

Rafaela percebeu a tensão sutil no corpo dele e deu meio passo à frente.

— Oi, pai — chamou, num tom que misturava carinho e aviso silencioso.

O homem levantou devagar.

Aproximou-se primeiro da filha.

— Oi, garotinha. — Depositou um beijo na testa de Rafaela e a puxou para um abraço firme, quase protetor. — Que bom que você está em casa.

Rafaela sorriu contra o peito dele.

— Também estou feliz de estar.

Só então ele voltou a atenção para Gabriel.

Agora, mais perto. Impossível de ignorar.

E o verdadeiro primeiro round estava prestes a começar.

Rafaela se afastou do abraço do pai devagar, mas manteve a mão apoiada no braço dele, um gesto de carinho… e de mediação.

Ela respirou fundo antes de falar.

— Pai… esse é o Gabriel.

Gabriel deu um passo à frente. Queixo erguido, respeitoso, não arrogante.

— Boa tarde, senhor.

O pai de Rafaela o analisou dos pés à cabeça. Ela sentiu o próprio coração acelerar. Não por medo. Mas porque aquele encontro significava mais do que parecia.

O homem estendeu a mão.

— Marcos.

Gabriel apertou a mão dele com firmeza equilibrada.

— Gabriel.

O aperto durou um segundo além do comum.

Um teste.

Gabriel sustentou o olhar.

Marcos soltou primeiro.

— A viagem foi tranquila?

— Foi, sim, senhor. Estrada calma. — Fez uma pausa curta. — Obrigado por nos receber.

Marcos inclinou levemente a cabeça.

— A casa é da minha filha. Quem ela traz aqui é bem-vindo.

Não era exatamente uma aprovação.

Mas também não era resistência.

Rafaela sentiu um peso sair dos ombros.

— Ele joga na faculdade, pai — acrescentou, tentando suavizar o clima.

Marcos soltou um pequeno resmungo que poderia ser riso.

— Já ouvi. A Micaela agora é praticamente líder da torcida organizada jovem dos Falcões.

— E sou mesmo! — A irmã respondeu empolgada.

O clima quebrou um pouco.

Marcos voltou a olhar para Gabriel.

— Futebol ensina disciplina… — comentou, pensativo. — Espero que ensine respeito e responsabilidade também.

Recado dado.

Gabriel assentiu, sério.

— Ensina, sim, senhor.

Rafaela observou os dois.

E, naquele instante, percebeu algo importante: não era um confronto.

Era um reconhecimento.

O pai dela precisava saber quem estava segurando a mão da filha.

E Gabriel, mesmo com o coração batendo mais rápido que em final de campeonato, estava ali.

Marcos deu um passo para o lado.

— Vou deixar vocês se acomodarem. — disse, finalmente, abrindo espaço. — A gente conversa mais tarde.

Marcos lançou um olhar direto para Gabriel e ele entendeu na hora o que ele queria dizer.

Rafaela riu, aliviada.

E quando a mão de Gabriel encontrou a dela outra vez, o aperto foi discreto.

Mais tarde, enquanto a mãe de Rafaela se ocupava na cozinha e Micaela falava sem respirar sobre absolutamente tudo, Gabriel se viu observando.

Ali sentada à mesa, rindo solta, Rafaela parecia outra. Ou talvez fosse a mesma de sempre, só sem nenhuma defesa.

Rafaela ergueu o olhar e o viu a observá-la.

Sorriu como quem pergunta: está tudo bem?

Gabriel respondeu do mesmo jeito.

Um sorriso curto. Estava.

— Espero que você goste de massa, Gabriel. — disse Sônia, rindo. — Fiz lasanha à bolonhesa, que a Rafaela ama desde pequena.

— Gosto sim. E estou pensando nessa lasanha desde que ela me mandou mensagem falando sobre isso — respondeu Gabriel, sentindo-se cada vez mais confortável.

Na hora do almoço, a mesa foi preenchida com pratos fartos, cheiro de comida caseira e um barulho constante de talheres, risadas e interrupções animadas.

O pai de Rafaela comeu em silêncio por alguns minutos antes de finalmente apoiar o garfo no prato e olhar para Gabriel com mais atenção.

— E você está cursando o quê mesmo? — perguntou, num tom tranquilo, mas firme.

— Educação Física — respondeu Gabriel. — Estou no terceiro período.

Marco fez um gesto com a cabeça e continuou.

— E pretende seguir no futebol profissional ou pensa em outra coisa?

Gabriel não desviou o olhar.

— Eu quero jogar o máximo que puder. É meu sonho desde moleque. Mas também penso em me formar, trabalhar com treinamento… talvez abrir algo meu no futuro.

Marcos o observou por um segundo.

— Bom ouvir isso. Futebol é bonito quando dá certo. Mas não é eterno.

— Eu sei.

Gabriel manteve o tom tranquilo.

— Meu pai sempre falou isso também.

Isso pareceu interessar Marcos.

— Seu pai jogava?

— Não. — Gabriel sorriu de canto. — Mas ele sempre teve medo de eu achar que talento resolve tudo.

Marcos soltou um pequeno “hm”.

Um canto da boca do pai de Rafaela se ergueu discretamente.

— Planejamento é coisa de homem responsável — ele disse, voltando ao prato.

Rafaela, do outro lado da mesa, soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo.

Micaela, por outro lado, não tinha qualquer intenção de deixar o clima ficar sério demais.

— Já que estamos falando de planejamento… — ela disse, apoiando os cotovelos na mesa e olhando para Gabriel com um brilho conspiratório nos olhos. — Você sabia que a Rafaela tinha um plano de vida completamente diferente até uns anos atrás?

— MICAELA — Rafaela já começou a protestar.

— Ué, é verdade! — a irmã rebateu, animada. — Ela dizia que ia casar só depois dos trinta e cinco, morar sozinha com pelo menos três gatos e escrever artigos científicos até morrer.

Gabriel segurou o riso.

— Três gatos?

— No mínimo — Micaela continuou, impiedosa. — E não era só isso. Ela tinha um diário onde escrevia “projeções de relacionamento ideal”. Tipo… lista de critérios.

Gabriel virou devagar para Rafaela.

— Lista de critérios?

Rafaela estava tensa.

— Era… pesquisa comportamental.

— Claro — Micaela concordou, fingindo seriedade. — Pesquisa que incluía coisas como “não pode ser fútil”, “precisa gostar de debates profundos” e “não pode usar regata em público”.

Marcos pigarreou, segurando o riso.

Sônia levou a mão à boca, claramente divertida.

Gabriel olhou para a própria camiseta.

— Então eu já falhei em pelo menos um requisito.

Rafaela cruzou os braços.

— Eu tinha quatorze anos!

— E chorou por três dias quando um garoto do ensino médio disse que você era “intimidadora demais” — completou Micaela, com gosto.

— MICAELA!

A mesa explodiu em risadas.

Gabriel se inclinou um pouco na direção dela, falando baixo:

— Intimidadora, é?

Rafaela revirou os olhos, mas o sorriso entregava tudo.

— Ignora ela.

— Eu estou começando a achar que você sempre foi assim — ele disse, divertido. — Só escondia melhor.

Micaela apontou para ele.

— Gostei de você. Sobreviveu ao primeiro almoço e ainda sabe provocar.

— Ainda não acabou — Marcos comentou, tranquilo, bebendo água.

E o clima, apesar das brincadeiras, era leve.

Não havia tensão real.

Só a sensação boa de que Gabriel estava sendo, pouco a pouco, encaixado ali.

E Rafaela, mesmo constrangida com as histórias, não conseguia parar de sorrir.

Depois do almoço, entre o café e a sobremesa, Gabriel já se sentia em casa. As paredes já não pareciam estranhas, e o riso compartilhado com a família de Rafaela a fazia esquecer da ansiedade inicial.

Naquela tarde, ele percebeu que havia algo precioso em conhecer o mundo de outra pessoa e ser bem recebido nele.

E, mesmo que não dissesse em voz alta, uma parte dele já sabia: aquele feriado seria o primeiro de muitos.

Enquanto todos descansavam, Rafaela chamou Gabriel de canto com um sorriso discreto no rosto.

Ela o levou para o quintal dos fundos. O lugar era amplo, com um chão de cimento gasto que levava até um pedaço de grama bem cuidado. Vasos de plantas coloriam os cantos, uma mangueira antiga fazia sombra generosa e uma rede balançava preguiçosamente, presa entre duas colunas da varanda.

Ela se sentou na borda da varanda e puxou Gabriel para perto, encostando a cabeça no ombro dele.

​Ali, entre o cheiro doce de manga no pé e o som distante de um rádio vindo da cozinha, ele sentiu uma tranquilidade que não conhecia. Longe das provas, das cobranças e das quatro linhas do campo. Ali, o tempo parecia desacelerar.

​— Você parece mais leve aqui — disse ele, observando o perfil dela iluminado pela luz suave da tarde.

​— Acho que aqui sou mais… eu mesma — respondeu ela, apertando levemente a mão dele. — É estranho, mas eu queria que você conhecesse isso. Minha casa, minha família, esse ritmo. Faz parte de mim.

​Gabriel assentiu devagar. Entendia agora o motivo do convite. Ela não queria só apresentar o namorado; queria que ele conhecesse a raiz. O chão de onde ela veio. E ele estava pronto para ver — e amar — cada parte.

​ Depois de alguns minutos, Micaela apareceu com uma bola de futebol furada, mas ainda funcional.

​— Vamos ver se você joga tudo isso mesmo, ou se é só marketing — provocou a garota.

​— Você que pediu — Gabriel respondeu, levantando-se com um sorriso desafiador.

Ele começou leve. Deixou-a tomar a bola uma vez, fingindo um tropeço. Na segunda, não. Na terceira, já estava driblando com uma facilidade elegante, girando a bola ao redor de Micaela enquanto ela soltava gritinhos de frustração e alegria.

​— EI! — ela protestou, rindo enquanto tentava, sem sucesso, roubar a bola. — Isso é injusto! Você é profissional!

​— Futebol é sobrevivência, pequena — ele brincou, passando a bola por entre as pernas dela com um toque sutil.

​Rafaela assistia da varanda, com os braços cruzados e um sorriso largo demais para disfarçar. Em um momento, Gabriel dominou a bola com o pé, olhou para ela e piscou. O estômago de Rafaela deu aquele salto familiar.

​ Marcos se aproximou em silêncio e sentou-se em uma cadeira de vime ao lado dela na varanda. Ficaram alguns segundos apenas observando o borrão de energia que era Micaela correndo atrás de Gabriel.

​— Ele é rápido — o pai comentou, a voz grave cortando o ar.

​— É — Rafaela concordou.

Marcos assentiu, mas logo desviou o olhar do quintal e voltou a atenção para a filha.

— E você?

Ela franziu levemente a testa.

— Eu…?

— Faculdade. — Ele explicou. — Como está indo?

Rafaela soltou um pequeno suspiro, meio riso.

— Puxado. Esse período está pesado. Fisiologia Animal e Bioquímica estão tentando acabar comigo.

Marcos soltou um riso curto.

— Já não bastava decorar nome de osso de bicho quando era criança?

— Agora decoro como o corpo inteiro funciona — ela respondeu, cruzando os braços. — E ainda tenho que entender as vias metabólicas.

— Parece divertido.

— Divertidíssimo — ela respondeu, sarcástica.

Ele sorriu de canto.

— Mas você gosta.

Não era pergunta.

Rafaela concordou com um pequeno gesto de cabeça.

— Gosto.

O pai ficou em silêncio por um momento, observando o rosto dela com aquela atenção tranquila de quem conhece cada expressão desde sempre.

— E o trabalho?

— Tá indo bem — ela respondeu. — Cansativo às vezes, mas estou sempre cercada de livros, então eu gosto.

Marcos concordou devagar.

— Você sempre gostou de ler. Me admira que não tenha feito faculdade de literatura.

Ela deu de ombros.

— Quem sabe depois que eu terminar essa…

— Estudiosa igualzinho a mim… mas a teimosia puxou da sua mãe — ele corrigiu.

Rafaela riu.

Mais alguns segundos de silêncio confortável se instalaram entre eles.

No quintal, Micaela finalmente conseguiu roubar a bola e saiu correndo, comemorando alto demais.

Gabriel levantou os braços em derrota exagerada.

— GOL HISTÓRICO! — Micaela gritou.

Marcos observou a cena com um pequeno sorriso.

— E esse rapaz aí… — ele comentou, casual.

Rafaela sentiu o estômago dar um pequeno nó.

— O que tem ele?

— Você gosta mesmo dele?

A pergunta não veio carregada de julgamento.

Só curiosidade.

Rafaela demorou um segundo antes de responder.

— Sim.

Marcos virou um pouco o rosto, olhando diretamente para ela agora.

— É sério?

Ela sustentou o olhar.

— É.

O pai assentiu devagar.

Não parecia surpreso.

— Dá pra ver.

Rafaela arqueou uma sobrancelha.

— Dá?

— Você fica diferente perto dele.

Ela desviou o olhar, um sorriso pequeno escapando.

— Diferente como?

— Mais leve.

Aquilo a pegou desprevenida.

Ela ficou em silêncio por um instante.

— Ele é bom pra mim — disse por fim. O pensamento indo para Letícia, o hematoma no braço, o jeito como ela precisa estar sempre se justificando.

Marcos observou a filha por alguns segundos.

Depois, voltou o olhar para o quintal.

Gabriel agora ajudava Micaela a posicionar o pé para chutar a bola direito.

— Hm — murmurou o pai.

Marcos apoiou os braços nos joelhos novamente.

— Ele é paciente também.

Rafaela virou o rosto.

— Como assim?

Marcos se sentou na beirada da varanda onde Gabriel estava momentos antes e passou os braços ao redor do ombro da filha.

— Porque ele podia humilhar sua irmã ali em cinco segundos — disse, com um meio sorriso. — Mas não faz.

Ela riu e encostou a cabeça no ombro dele por um segundo.

Gabriel não sabia que estava sendo observado.

E talvez fosse exatamente por isso que Marcos parecia satisfeito.

— Paciente… — repetiu o pai, mais para si mesmo.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, ainda olhando para o quintal.

Então se levantou devagar.

Antes de entrar na casa, parou ao lado de Rafaela e deu um leve tapinha no ombro dela.

— Bom garoto.

E seguiu para dentro.

Rafaela ficou na varanda por mais um momento, observando Gabriel e Micaela jogando bola.

E, naquele momento, Rafaela teve a estranha sensação de que Gabriel acabara de passar em um teste que nem sabia que estava fazendo.

⚽⚽⚽

A casa foi silenciando aos poucos.

O rádio foi desligado. A louça terminou de secar. As conversas deram lugar a passos mais leves e portas se fechando com cuidado. Rafaela estava no quarto da irmã, deitada num colchão improvisado no chão, mexendo no celular sem realmente prestar atenção em nada.

Pensava nele.

No jeito atento com que ele ouviu sua mãe.

No respeito diante do pai.

Na paciência quase divertida com a Micaela.

Gabriel tinha ido para o antigo quarto dela fazia alguns minutos. Separados. Regras claras. Portas fechadas.

Rafaela levantou devagar. Olhou para a irmã que dormia profundamente.

Abriu a porta com cuidado de quem conhece cada rangido daquela casa. Andou pelo corredor na ponta dos pés até parar diante da porta do quarto onde ele estava.

Bateu duas vezes, bem baixinho.

— Entra — a voz dele veio baixa.

Gabriel estava sentado na beira da cama, camiseta simples, passava uma toalha pelo cabelo ainda úmido do banho. Quando a viu, o sorriso veio automático. Aquele só dela.

— Ei… — ele murmurou, surpreso e sorrindo ao mesmo tempo. — Tá tudo bem?

Rafaela entrou e fechou a porta atrás de si, apoiando as costas nela.

— Vim ver como você está. — disse. — Primeiro dia é… muita coisa.

Gabriel largou a toalha na cama, soltando um suspiro baixo.

— É — admitiu. — Mas… no melhor sentido possível.

Ela se aproximou, parando entre os joelhos dele. As mãos encontraram os ombros dele num gesto simples, íntimo.

— E então? — perguntou, curiosa. — O que achou?

Ele pensou por um segundo, como se escolhesse as palavras com cuidado.

— Sua mãe é incrível. Sua irmã é um furacão. — Sorriu. — E seu pai… ainda me observa como se estivesse avaliando se eu mereço respirar o mesmo ar que você.

Rafaela riu baixo.

— Isso significa que eles te adoraram.

— Ótimo — Gabriel respondeu, fingindo alívio. — Já estava me preparando psicologicamente para cavar uma trincheira no quintal amanhã.

Ela se aproximou mais.

— Eu fiquei com medo de você se sentir deslocado — confessou.

Gabriel levantou o rosto, sério agora.

— Não me senti. Me senti… acolhido. — Ele segurou a cintura dela. — E isso é diferente.

Rafaela não respondeu com palavras.

Só se inclinou e o beijou.

O beijo era silencioso, quase sem fôlego, com os ouvidos atentos a qualquer ranger de assoalho no corredor. Um beijo de boa noite que carregava tudo o que eles não podiam fazer ali e tudo o que sentiam mesmo assim.

Quando se afastaram, ela encostou a testa na dele.

— Boa noite, campeão.

— Boa noite, nerdzinha — ele respondeu, sorrindo.

Ela abriu a porta com cuidado e saiu pelo corredor do mesmo jeito que veio, o coração leve demais para caber no peito.


Notas finais
E foi assim que o Gabriel sobreviveu ao primeiro dia… e, talvez sem perceber, passou no teste mais importante de todos. 💛 E a Micaela? Já o adotou. Oficialmente. Com direito a interrogatório, exposição de passado e torcida organizada particular. 😂 A Sônia? Basicamente pronta para alimentá-lo até o fim dos tempos. E o sogrão… bom, o sogrão observou. Analisou. Testou. E soltou um ‘bom garoto’ que vale mais que qualquer aplauso. 👀🔥 Mas me contem: — Vocês acham que o Gabriel já conquistou o Marcos de vez ou ainda vem prova surpresa por aí? — E a Micaela… ícone ou maior perigo dessa família? 😂 E, enquanto o coração aquece desse lado… a gente sabe que nem todo mundo tá vivendo essa leveza, né? 💔 Na próxima sexta a gente se encontra para curtir mais esse feriadão. Bjs.