AMOR EM CAMPO
41 Capítulo 40: Domingo
Notas iniciais

medida que os dias avançavam, Gabriel se sentia cada vez mais à vontade na companhia da família de Rafaela. Durante as refeições, a conversa fluía leve, espontânea, cheia de pequenas interrupções e risadas fáceis. Ele começou a perceber o quanto a namorada se parecia com o pai: não só na fisionomia, mas no senso de humor afiado, nos gestos tranquilos e na forma serena de observar o ambiente antes de emitir qualquer opinião.
No domingo pela manhã, antes que a casa despertasse por completo, os dois escaparam por alguns minutos até a praia.
Caminharam descalços pela areia ainda úmida, com o mar quebrando preguiçosamente a poucos metros dali. Gabriel segurava os dois pares de chinelos em uma das mãos, enquanto a outra permanecia entrelaçada à de Rafaela.
— Então é aqui que você cresceu? — ele
perguntou, contemplando a extensão azul à frente.
— Aqui e nas ruas ao redor — Rafaela sorriu, o vento bagunçando seus cabelos soltos. — Passei boa parte da infância achando que todo mundo tinha uma praia no quintal.
— Eu teria sido uma criança insuportável se tivesse crescido assim.
— Você já é insuportável sem praia.
— Pior que é verdade.
Rafaela riu, o som leve se misturando ao barulho constante do mar. Alguns minutos depois, entraram na água rasa, brincaram como duas crianças e voltaram para casa antes que dona Sônia começasse a procurá-los para o café da manhã.
Mais tarde, logo após uma caminhada sem pressa pela vizinhança tranquila, os dois se acomodaram na rede do jardim dos fundos.
O sol já subia no céu limpo, a luz filtrando-se por entre as folhas largas da mangueira. O quintal mantinha aquele silêncio confortável, quebrado apenas pelo som distante do rádio ligado baixo na cozinha. A rede balançava devagar, num ritmo preguiçoso.
— Preparado para voltar para a rotina amanhã? — perguntou Rafaela, virando o rosto na direção dele.
— Para ser bem sincero? Não. — Gabriel sorriu, dando um impulso leve com os pés no chão para manter o balanço. — Acho que estou começando a me sentir em casa aqui.
Ela mordeu discretamente o lábio inferior, contendo o sorriso que insistia em aparecer.
— Vai me dizer que não está sentindo falta dos caras? — provocou ela.
— Pior que não. Até porque aqui tem o seu pai, que é meio caladão e observador igual ao Daniel, e a Micaela, que fala tanta besteira quanto o Diego…
— E a minha mãe, que cozinha bem e tem um gosto musical meio duvidoso igual a você? — Rafaela o interrompeu, caindo na risada.
— Olha a audácia da nerdzinha. — Gabriel avançou os dedos na cintura dela, atacando sem piedade.
— Para! Gabriel, para… — Rafaela pediu, contorcendo-se toda na rede, sem fôlego de tanto rir.
Gabriel cessou o ataque, mantendo as mãos nas costelas dela, o rosto a poucos centímetros do seu.
— Sorte sua que eu te amo, senão você ia fazer xixi nas calças de tanto rir.
A frase simplesmente caiu no ar.
Gabriel só percebeu o peso do que tinha dito quando o som das palavras já havia preenchido o espaço entre os dois.
Rafaela congelou no mesmo instante. O riso sumiu, dando lugar a pupilas dilatadas e uma atenção absoluta. Ela o encarou por longos segundos, o peito subindo e descendo depressa.
— Você… — ela começou, a voz reduzida a um sussurro frágil. — Você acabou de dizer que me ama?
O sangue subiu pelo pescoço de Gabriel, queimando até a ponta das orelhas.
— Não.
— Gabriel!
— Eu disse?
— Disse.
— Então… — ele engoliu em seco, olhando para a copa da mangueira por meio segundo antes de voltar a encará-la. — Talvez eu tenha dito.
— Você me ama?
Dessa vez, ele não recuou. Respirou fundo, desarmando qualquer pose, deboche ou defesa.
— Amo. — Gabriel sustentou o olhar assustado dela, até um sorriso meio torto e ridiculamente sincero surgir em seus lábios. — Amo, sim.
Ele a encarou por mais um instante, vendo o choque silencioso dela, e completou baixinho:
— E você não precisa me responder nada agora. Tá tudo bem.
Rafaela assentiu devagar, o coração martelando contra as costelas.
— Eu sei.
Então, sem rodeios, ela apenas se inclinou e o beijou.
Foi um beijo calmo, profundo, como se cada fração de segundo ali fosse preciosa demais para ser apressada.
Até que passos firmes ecoaram pelo cimento do quintal.
Seguidos por um pigarrear alto e deliberado.
Os dois se afastaram depressa demais para disfarçar. Gabriel ajeitou a postura na rede num salto descoordenado, enquanto Rafaela tentava recompor o fôlego e o cabelo.
Marcos estava parado a três passos deles, de braços cruzados sobre o peito e com uma expressão séria… ou pelo menos tentando sustentar uma com muito esforço.
— Oi, pai… — Rafaela tentou soar natural, falhando miseravelmente. — A gente estava só… conversando.
— Uhum. Conversando. — O homem coçou a barba grisalha, alternando o olhar afiado de um para o outro com a calma de quem já viveu muito. — Sei bem o tipo de conversa.
Gabriel se colocou de pé.
— Bom dia, senhor.
Marcos o mediu de cima a baixo, deixando o silêncio pesar por um segundo teatral, embora houvesse uma centelha divertida no fundo dos olhos escuros.
— Bom dia. A rede aqui de casa é para tirar uma sesta, rapaz. Não para ensaiar cena de novela das oito, ouviu bem?
Rafaela cobriu as bochechas coradas.
— Pai!
— Mas já que você está de pé, Gabriel… — Marcos prosseguiu, ignorando a filha. — A Rafaela comentou que você até se vira bem na cozinha.
Gabriel piscou, atordoado pela guinada de assunto.
— Eu… dou meus pulos, senhor.
— Ótimo. — Um meio sorriso surgiu no canto da boca de Marcos. — Porque o churrasco de domingo não vai cair do céu. E já que você está se mostrando tão à vontade no meu quintal…
Ele indicou com o queixo a área coberta da churrasqueira de tijolos.
— Vem comigo. Vamos ver se, além de jogar bola, você tem peito para lidar com fogo de verdade.
Marcos girou nos calcanhares e começou a caminhar em direção ao canto do muro. Gabriel esperou o sogro dar alguns passos e inclinou-se até Rafaela, sussurrando com aquela marra típica:
— Com o da brasa eu posso até apanhar, mas com o seu fogo eu lido de olhos fechados, nerdzinha…
— Como é que é a história aí atrás? — A voz grossa de Marcos ressoou como um trovão, virando de repente com a sobrancelha arqueada.
Os ombros de Gabriel travaram no teto na mesma hora. Uma gota de suor frio escorreu pela sua nuca. Ele virou o pescoço em câmera lenta, engolindo em seco.
— Eu disse que… — apontou para a churrasqueira, improvisando no desespero: — Que para lidar com fogo de verdade exige controlar muito bem a temperatura, senhor. A ciência da brasa.
Marcos olhou para a filha, que estava afundando na rede em choque, e depois para o jogador. Ficou três segundos em silêncio. Um silêncio que pareceu durar um ano inteiro.
— Entendi.
O homem voltou a andar.
— E você, mocinha? — chamou ele sem olhar para trás. — Sua mãe e sua irmã estão precisando de braços lá dentro. Anda.
Rafaela viu os dois se afastarem e soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Riu sozinha, constatando que guardaria aquela manhã na memória para o resto da vida.
Gabriel acompanhou o sogro até a bancada. O cheiro de carvão estalando e fumaça já dominava a área aberta quando Marcos vestiu o avental escuro.
— Já comandou brasa antes, garoto?
— Já, sim, senhor. Lá em casa geralmente sou eu quem assume.
Marcos assentiu e lhe entregou o pote de sal grosso.
— Então hoje a honra é sua. Mostra aí.
Gabriel começou a salgar as carnes, enquanto Marcos ajeitava as brasas no fundo com a pá. Por alguns minutos, o trabalho foi silencioso e ritmado. Até o dono da casa cortar o compasso:
— Você sempre fala desse jeito?
Gabriel ergueu os olhos, a mão suspensa sobre a tábua de madeira.
— Desse jeito como?
— Como se tivesse resposta pronta na ponta da língua pra tudo.
Gabriel soltou um riso curto, honesto.
— Não. Só quando estou nervoso.
Marcos virou o rosto para ele com o espeto na mão.
— É mesmo?
O camisa dez percebeu tarde demais o deslize. Pigarreou, empertigando a postura:
— Quer dizer… não que eu esteja nervoso agora.
— Sei. — O canto da boca de Marcos entregou a diversão.
Gabriel balançou a cabeça, rindo da própria burrice.
— E o senhor gosta de deixar as pessoas desconfortáveis, né?
— Só os marmanjos que fazem graça sobre o fogo da minha filha e depois fingem que estavam falando de brasa.
Gabriel fechou os olhos por um segundo, a saliva desceu rasgando pela garganta.
— Marcos, eu…
— Escuta, garoto. — Marcos fincou o espeto na tábua com um baque seco, virando-se de frente para o atacante. — Eu já tive a sua idade. Não sou ingênuo a ponto de achar que você e a Rafaela passam o tempo de vocês jogando dominó ou rezando o terço quando estão sozinhos. Sei muito bem como o mundo funciona. Mas aqui é a minha casa, e a Rafaela é a minha filha. Piadinha de duplo sentido sobre ela na minha frente passa da linha. Entendeu onde fica o limite?
A marra de Gabriel derreteu inteira. A postura dele ficou reta, sustentando a chamada com respeito.
— Entendi, senhor. Desculpa. De verdade. Não vai se repetir.
Marcos o analisou por três segundos compridos — tempo suficiente para fazer Gabriel sentir o suor frio escorrer pelas costas —, antes de soltar um arfar pelo nariz e pegar o espeto de carne de novo.
— Ótimo. Porque a Rafaela gosta de você. Seria uma pena se eu tivesse que explicar para ela o motivo de eu ter te colocado na churrasqueira junto com as carnes.
Gabriel soltou o fôlego que estava represado no peito, rindo de nervoso com a mão ainda meio bamba segurando o pote de sal grosso.
— Eu gosto muito dela também, senhor. — Ele encarou o sogro.
— Eu sei.
— Sabe?
— Homem quando não gosta não dirige oitenta quilômetros pra passar o feriado inteiro com a família da garota e ainda acorda cedo pra bater perna na praia.
Gabriel ficou quieto, enquanto Marcos espetava as peças de picanha.
A gordura chiou alto contra as pedras quentes, perfumando o quintal.
— Então não precisa me jurar nada — continuou Marcos, fitando as chamas. — Só não faz besteira e cuida bem da minha menina.
A palavra bateu seca no peito de Gabriel.
Besteira.
O fantasma daquela aposta estúpida no pátio da faculdade, no começo do semestre, subiu pela garganta como bile. O peso da mentira quase o sufocou.
— Não pretendo fazer nenhuma besteira, senhor.
Marcos assentiu com a cabeça, sereno.
— Ninguém pretende. Agora fica de olho nessa carne aí antes que você consiga decepcionar duas gerações da família num domingo só.
Gabriel soltou uma gargalhada limpa, espantando a sombra que tinha descido sobre a cabeça.
— A pressão aqui é maior do que final de campeonato, Marcos.
— Bem-vindo à família, garoto.
Ele abriu duas latas de cerveja gelada com um estalo alto e entregou uma ao atacante. Gabriel agradeceu, sentindo o alumínio suado na mão, e olhou em direção à janela da cozinha. Rafaela estava encostada no vidro, sorrindo com um alívio evidente no rosto.
Lá dentro, Sônia finalizava a salada de maionese enquanto Micaela secava os pratos. Rafaela permanecia na porta, acompanhando a fumaça subir.
— Seu pai não vai enfiar um espeto no peito do seu namorado, Rafaela — disse Sônia, sem tirar os olhos da tigela. — Ele só quer ter certeza de que o menino aguenta a pressão.
Rafaela suspirou.
— Eu sei, mãe. Mas o Gabriel é importante para mim. Não queria que ele ficasse deslocado.
Sônia secou as mãos no avental, aproximou-se da filha mais velha e ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha dela com carinho maternal.
— O seu pai nunca o trataria como intruso, minha filha. Se o intimou para a grelha, é porque quer ter a certeza de que ele é homem de verdade para cuidar do que nós temos de mais precioso.
Micaela intrometeu-se com a toalha de prato no ombro:
— O general só tá testando se o camisa dez sustenta a banca fora de campo. Deixa de neura, Rafa.
Rafaela riu com a provocação da irmã, mas apoiou o ombro no batente, reflexiva.
— Mãe… — ela baixou a voz. — Como a senhora soube?
— Soube do quê, meu anjo?
— Que amava o meu pai de verdade. Que ele era o cara certo.
Sônia olhou pela janela, onde Marcos gesticulava animado, contando alguma história antiga para um Gabriel que ouvia com atenção.
— Ah, minha filha… não teve fogos de artifício nem mágica de cinema. Foi a soma de um monte de coisas pequenas da rotina. Foi quando ele apareceu ensopado debaixo de um temporal só para me devolver um fichário que eu tinha esquecido na escola. Foi quando ele passou a tarde inteira no sol ajudando meu pai a consertar uma cerca, sem nem saber segurar um martelo direito.
Rafaela sorriu, imaginando a cena.
— E foi, principalmente, quando percebi que qualquer coisa que acontecia no meu dia — fosse uma notícia muito boa ou uma porcaria completa —, ele era a primeira pessoa com quem eu queria falar. O amor é quando a vida inteira parece mais fácil de carregar só porque a pessoa tá por perto.
Sônia fitou os olhos da primogênita:
— Você tá com medo do tamanho do que tá sentindo por ele?
Rafaela olhou para o quintal bem na hora em que Gabriel dava uma risada alta de alguma piada do pai.
— Não é medo. É que… tá tudo indo muito rápido. E ele é o oposto exato de qualquer plano que eu já fiz na vida.
— Pois para de calcular e aproveita — rebateu Micaela, servindo os copos. — Porque o Gabriel olha pra você como se você fosse o artigo científico mais fascinante do planeta. E olha que todo mundo aqui sabe como você é chata e difícil de entender às vezes.
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A mesa de madeira foi posta sob a sombra farta da mangueira. Travessas cheias de arroz, farofa crocante, maionese e a picanha fatiada ocupavam o centro do banquete.
Micaela, munida de sua máquina fotográfica e com a língua solta, deu uma garfada na carne antes de lançar o ataque:
— E aí, Gabriel, a Rafaela já teve a decência de te contar sobre o famoso Concurso de Dança da Vila?
Rafaela quase se engasgou com o refrigerante.
— Micaela, cala essa boca!
— Nem pensar! A Letícia cismou que as duas tinham que montar uma coreografia de funk. A Rafaela passou três dias sustentando a tese de que a anatomia humana não tinha sido projetada para aquela aerodinâmica… até a Letícia apelar pra chantagem emocional.
Gabriel largou o garfo no prato, fascinado.
— A Rafaela? A minha nerdzinha aqui… — ele apontou para ela, chocado. — Dançando funk em cima de um palco?
— Não só dançou, como levou o troféu pra casa! — Micaela bateu na mesa, gargalhando. — Nunca vi ninguém descer no quadradinho com tanta precisão. Um marco na história cultural de Saquarema!
Rafaela fuzilou a irmã com o olhar:
— Eu odeio você com todas as minhas forças.
Gabriel virou-se para a namorada com um sorriso de orelha a orelha:
— Por que essa informação crucial foi omitida do meu relatório?
— Porque eu queria manter o restinho de dignidade que me sobrava!
— O problema todo — Marcos comentou, saboreando a carne — foi o vídeo que o vizinho me mandou na manhã seguinte. Eu não sabia se aplaudia a coordenação motora absurda da minha filha ou se deixava ela de castigo até os trinta anos.
A mesa toda explodiu em risos. Gabriel fitou a namorada e sentiu o peito arder de contentamento.
Quando os olhares dos dois se cruzaram em meio à bagunça da conversa, Rafaela balançou a cabeça numa falsa indignação, mas com um brilho divertido nos olhos escuros. Gabriel apenas ergueu a lata de cerveja na direção dela num brinde silencioso, com aquele meio sorriso cúmplice que só os dois entendiam.
Mais tarde, o silêncio da madrugada abraçou a casa toda.
Deitado de costas na cama de solteiro do antigo quarto de Rafaela, Gabriel encarava o teto escuro. O peso das palavras de Marcos e o aviso sobre não fazer besteira não saíam da sua cabeça. Ele queria muito ser o cara que a família dela enxergava ali. Mas o segredo da aposta parecia uma granada sem pino no bolso da calça. A resolução veio clara e inegociável: assim que desembarcassem de volta em Niterói, ele contaria absolutamente tudo para Rafaela. Assumiria o estrago. Mesmo que isso custasse o relacionamento.
Ele precisava jogar limpo com ela.
O atleta quase pegava no sono quando a maçaneta rangeu bem de leve. A silhueta de Rafaela entrou no cômodo, acompanhada pelo rastro floral do seu perfume.
— Rafa? — sussurrou ele, levantando o tronco. — O que você está fazendo aqui?
Ela engatinhou pelo colchão com cuidado até se acomodar sobre os joelhos, ao lado dele.
— Não consegui dormir — confessou ela, os olhos brilhando no escuro. — Fiquei o dia todo te vendo ser o genro perfeito… e pensando em quando a gente finalmente ia ter cinco minutos sozinhos.
O pulso de Gabriel deu um salto imediato. Quando ela se curvou, passando a boca quente e macia pelo pescoço dele, o camisa dez cerrou os dentes com força.
— Nerdzinha… — repreendeu ele.
— Tô com saudade, Gabriel — ela murmurou, sentando-se no colo dele e enroscando os braços nos ombros do atleta antes de beijá-lo com fome.
As mãos dele desceram para a cintura dela, trazendo o corpo dela de encontro ao seu pau já duro. Mas, no instante em que os dedos de Rafaela puxaram a barra da camiseta dele para cima, a imagem de Marcos estendendo a cerveja na churrasqueira piscou na mente do atacante. O "bem-vindo à família". A confiança daquele homem que tinha lhe pedido para não fazer besteira.
Com um esforço titânico, Gabriel segurou os pulsos dela, quebrando o beijo. Encostou a testa na dela, os dois buscando ar no breu do quarto.
— Calma. Para um segundo — pediu ele, a voz grossa de frustração.
— O que foi? Não quer?
— Eu quero pra caralho. — Gabriel soltou um suspiro pesado, levando as mãos para o rosto dela e alisando a pele quente das maçãs com os polegares. — Tô quase subindo pelas paredes aqui. Mas não posso. Não debaixo do teto do seus pais. Não hoje.
— Gabriel, meus eles estão apagados lá no fim do corredor, nem vão sonhar…
— Eu sei, gata. Mas eu bebi com teu pai hoje, olhei no olho do cara e tive uma conversa séria. Não vou desrespeitar o teto dele desse jeito — ele forçou um sorriso torto, os olhos queimando na penumbra. — Se eu fizer isso aqui, no teu quarto de infância com ele dormindo na porta ao lado, vou me sentir um merda amanhã. E eu quero ser o homem que ele acha que sou.
Ele a puxou com força para um abraço apertado, enterrando o rosto no vão do pescoço cheiroso dela.
— Amanhã a gente volta pra Niterói — sussurrou contra a pele dela. — E no minuto em que a porta do meu apartamento bater atrás de nós, eu vou te cobrar cada segundo dessa agonia. Mas aqui dentro o jogo é outro. Aqui eu só vou te beijar na testa, te desejar boa noite e te mandar vazar de volta pro quarto da tua irmã.
Rafaela soltou uma risada quente contra o peito dele, impressionada com a fibra daquele homem. Afastou-se devagar, fitando-o na escuridão com um brilho de admiração e desejo estampado na cara.
Deixou um selinho demorado nos lábios dele antes de escorregar para fora do colchão. Foi até a porta na ponta dos pés e olhou por cima do ombro antes de girar a maçaneta:
— Amanhã, Gabriel Duarte. Nem pense em amarelar.
A porta estalou de volta no batente com um clique quase inaudível.
Gabriel jogou a cabeça no travesseiro, soltando um gemido longo de sofrimento. O corpo todo reclamava de vontade acumulada, mas ele não conseguiu evitar o sorriso satisfeito que brotou no escuro.
A volta para Niterói prometia pegar fogo.
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