AMOR EM CAMPO
62 Capítulo 64: Do Zero
Notas iniciais

A alta do hospital veio com uma lista de vitaminas e recomendações que Rafaela considerava um insulto à sua produtividade, mas que Gabriel seguia como se fossem táticas de uma final de campeonato.
— Eu já disse que não preciso de babá — ela protestou, embora suas pernas ainda parecessem feitas de gelatina.
— E eu já disse que você não vai ficar sozinha — ele rebateu, destrancando a porta com a naturalidade de quem já era o dono da chave. — Pelos próximos dias, o quarto da Letícia tem um novo inquilino.
Rafaela parou no meio da sala, os olhos arregalados.
— Você não vai morar aqui, Gabriel, você tem a sua casa, tem... os seus parças!
— Eles sobrevivem sem mim. Você, pelo visto, não — ele disse, largando a mochila dele no quarto vago e voltando para a sala para pegá-la pela cintura, guiando-a até o sofá. — Sem discussão, nerdzinha. Agora fica sentadinha aqui que eu vou preparar o almoço.
Os dias seguintes foram um borrão de cuidado e descobertas. Gabriel era uma força da natureza: ele organizava os horários dos remédios, transformava a cozinha pequena em um centro de produção de sucos naturais e, à noite, sentava-se ao lado dela com o notebook aberto.
— Essa parte aqui sobre a abertura dos estômatos... — Gabriel comentou, franzindo o cenho enquanto lia os slides sobre fotossíntese em plantas de clima árido. — Não ficaria mais claro se você explicasse como uma estratégia de defesa? Tipo um time que joga na retranca durante o dia para não perder água e só ataca, ou melhor, abre os poros, à noite, quando o clima está mais favorável e o risco de desidratação é menor?
Rafaela olhou para ele, genuinamente impressionada. Ver o camisa 10 dos Falcões usando analogias de campo para entender a sobrevivência das plantas no deserto era a coisa mais inesperada e estranhamente sexy que ela já vira.
— Quem diria que o capitão do time ia virar especialista em botânica de clima árido? — ela brincou, encostando a cabeça no ombro largo dele.
— Eu só quero que você brilhe nessa apresentação, Rafa. E que não desmaie no meio do ciclo de Calvin.
⚽⚽⚽
Eles estavam sentados à mesa do jantar. Gabriel havia preparado um frango com legumes que insistia em dizer que era "dieta de atleta", mas que estava surpreendentemente bom. O silêncio era preenchido apenas pelo som dos talheres raspando nos pratos, quando Gabriel falou em um tom baixo, quase envergonhado.
— Eu ia deixar para te contar isso na quinta-feira, quando a gente se encontrasse... mas as coisas tomaram um rumo meio louco, né? — Ele hesitou por um momento, girando o copo de água entre os dedos, antes de olhar para ela. — O Moura me chamou alguns dias atrás. Ele vai me escalar como reserva para o amistoso de sábado. Pode parecer pouco para quem olha de fora, mas para quem estava suspenso por tempo indeterminado... cara, já é muita coisa. É o meu pé de volta no gramado. Pode parecer pouco para quem olha de fora, mas para quem estava suspenso por tempo indeterminado... cara, já é muita coisa. É o meu pé de volta no gramado.
— Gabe! Isso é maravilhoso! — Ela segurou a mão dele sobre a mesa, apertando com força. — Não é pouco. É o começo da volta do Capitão.
No meio da comemoração silenciosa, o celular de Rafaela vibrou sobre a mesa. Era Micaela. Antes que ela pudesse atender, Gabriel estendeu a mão, o olhar decidido.
— Posso falar com ela?
Rafaela entregou o aparelho, surpresa pela iniciativa. Gabriel respirou fundo, a postura de confiante dando lugar a uma humildade sincera.
— Oi, Mica. É o Gabriel. — O silêncio do outro lado foi imediato e pesado, cortando o ar da cozinha. — Escuta... eu queria pedir desculpas. Pelos dias de silêncio, pelo sumiço... eu não conseguia lidar com a vergonha de ter decepcionado vocês. O jeito que a sua família me acolheu, com tanto carinho... eu senti que tinha jogado tudo fora e não sabia como olhar na cara de ninguém. Me perdoa?
— Bom... — O tom de Micaela veio cortante, gélido, em nada lembrando a pequena força da natureza solar que ele conhecera meses atrás. — Se a minha irmã te perdoou, quem sou eu para ficar contra? Agora passa para a Rafaela, por favor, Gabriel.
O golpe foi seco. Gabriel sentiu o peso da rejeição implícita, mas não forçou. Ele apenas assentiu para o nada, engolindo em seco, e estendeu o celular para Rafaela, que observava a cena com o coração apertado.
— Oi, mana... É, aconteceram algumas coisas esses dias. Calma… vou te contar tudo — disse Rafaela, lançando um olhar de apoio para Gabriel enquanto se afastava em direção ao quarto para ter privacidade.
Gabriel ficou sozinho na cozinha. Ele não se sentou. Em vez disso, focou na louça do jantar, lavando cada prato com uma concentração quase punitiva. O ruído da água era o único som que preenchia o vazio deixado pela frieza de Micaela.
Quando Rafaela retornou algum tempo depois, notou a mudança imediata no humor dele. Os ombros largos estavam tensos, e o olhar, embora suave ao vê-la, carregava uma sombra de derrota.
— Dá um tempo a ela, tá bom? — ela disse, aproximando-se e tocando o braço dele. — Ela vai te perdoar. Ela só é... uma Andrade.
— Tá tudo bem, Rafa. Eu entendo — ele respondeu, secando as mãos e puxando-a para um abraço apertado, escondendo o rosto na curva do pescoço dela, onde o cheiro dela era o seu único porto seguro. — Eu vou reconquistar a confiança de todos novamente. Um Andrade de cada vez.
Rafaela se permitiu ficar ali, acolhida pelo calor dele por longos segundos, antes de se afastar devagar. Ela olhou para os olhos dele, a expressão séria, embora terna.
— Por falar em reconquistar... — ela começou, cruzando os braços e encostando-se na pia. — A gente precisa conversar sobre os próximos dias, Gabriel.
O maxilar dele travou por um instante, o instinto de defesa de jogador subindo, mas ele apenas assentiu.
— Pode falar, nerdzinha.
— O médico me deu alta, minhas pernas não tremem mais e eu consigo fazer meu próprio suco de uva — ela disse, com o tom firme. — Eu sou absurdamente grata por tudo o que você fez essa semana. De verdade, Gabe. Você me salvou. Mas você se mudar para o quarto da Letícia foi uma situação de emergência. Nós dois sabemos que a gente não... não voltou. Pelo menos não ainda.
Gabriel engoliu em seco. A verdade doeu, mas ele não recuou. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles, mas sem tocá-la, respeitando o espaço.
— Eu sei — ele admitiu, a voz baixa e honesta. — Eu não achei que pagar o seu aluguel ou fazer sopa me dava o direito de exigir que você me aceitasse de volta. Eu errei feio com você, Rafa. Quebrei a sua confiança do pior jeito possível. Se eu estou aqui, é porque eu não conseguia respirar sabendo que você estava doente e sozinha. Mas eu sei o meu lugar. Eu volto para casa amanhã, se você quiser.
Rafaela o avaliou. O orgulho dele tinha ficado para trás no hospital; o homem na frente dela era real. Ela suspirou, sentindo o coração ceder um milímetro.
— O seminário é depois de amanhã. Minha cabeça ainda gira um pouco se eu fico muito tempo no computador — ela confessou, desviando o olhar, sentindo as bochechas esquentarem. — Você pode ficar até quinta. Para me ajudar com os slides. Mas, na sexta, você volta para os seus parças. E sobre nós... a gente vai um passo de cada vez. Sem pressa. Você vai ter que me conquistar do zero, Duarte. Ficou claro?
Um meio sorriso — aquele de lado, que sempre desarmava as estruturas dela — surgiu nos lábios de Gabriel. O alívio em seu peito era quase palpável.
— Do zero. Entendido, chefe — ele estendeu a mão para ela, em um pacto silencioso. — Eu jogaria o campeonato inteiro de novo só para ter uma chance com você.
Pela primeira vez em muito tempo, aquela casa não parecia um lugar de dívidas e solidão. No abraço dele, que agora parecia um acordo selado, parecia um refúgio. Um forte que eles estavam construindo, tijolo por prejuízo, contra o mundo lá fora.
⚽⚽⚽
Na manhã seguinte, o sol batia forte no Campo Três do CT, refletindo no orvalho que ainda insistia na grama. O cheiro de mato cortado e o som metálico das travas das chuteiras batendo no cimento eram a música favorita de Gabriel. Mas, por um segundo, sua mente ainda estava na cozinha apertada de Rafaela, conferindo mentalmente se ela tinha tomado o remédio e se o café da manhã que ele deixou pronto fora suficiente.
Ele estava no centro do gramado, puxando um treino específico de posicionamento com Cadu. Gabriel simulava o avanço do ataque e corrigia o calouro no corpo a corpo, testando o tempo de reação do garoto.
— Postura, Cadu! Antecipa a passada, não deixa o cara girar em cima de você — Gabriel orientava, a voz firme ecoando pelo campo.
Cadu limpou o suor da testa, respirando fundo, mas com um brilho de gratidão nos olhos. Ele sabia que o veterano estava sacrificando o próprio tempo livre para blindá-lo ali.
— Olha ele aí! O Enfermeiro do Ano e o seu pupilo — Diego gritou de longe, chutando uma bola na direção deles assim que cruzou a linha lateral com Daniel.
Gabriel dominou a bola no peito com a facilidade de quem respira, amortecendo o impacto e colocando-a no chão com um meio sorriso. Daniel vinha logo atrás, ajeitando a camisa de treino sobre os ombros largos e avaliando o treino dos dois. Como zagueiro titular, Daniel cruzou os braços e olhou para Cadu com uma aprovação silenciosa.
— E aí, Gabe? Como vai a vida de recém-casado? — Daniel provocou, passando o braço pelos ombros do capitão com aquela intimidade bruta de vestiário. — Já começaram as brigas por você deixar a tampa do vaso levantada?
— Vão se ferrar — Gabriel riu, mas não se afastou do abraço do amigo. Deu um aceno para Cadu ir beber água. — É temporário. Ela ainda está fraca pelo susto da semana passada. Alguém tem que garantir que ela não vai esquecer de comer e desmaiar de novo.
— Ah, claro. O "Enfermeiro Gabe" em ação — Diego continuou, fazendo uma pose dramática, mas logo suavizando a expressão. — Cara, falando sério... tô feliz que vocês tenham se acertado. De verdade. E o garoto ali está evoluindo rápido com os teus toques; Daniel que se cuide na zaga principal.
Daniel soltou uma risada, olhando na direção de Cadu.
— Que isso, o moleque é bom, tem futuro. Se o Gabe continuar lapidando ele assim, logo, logo o Moura puxa ele para o nosso vestiário. Mas e aí, capitão? Como está sendo dormir naquele cubículo?
— Eu também estou feliz, caras — Gabriel respondeu, e o tom de voz, embora brincalhão, carregava uma nota de seriedade que fez os dois amigos silenciarem por um breve segundo. — Mas confesso que estou sentindo falta do meu colchão. É sério. A casa dela é minúscula, o sofá parece feito de tijolos e o banheiro é um ovo.
— E eu estou sentindo falta de comer comida de verdade, na moral, Gabriel. Será que a nerdzinha não deixa a gente morar lá também? — Daniel soltou, dando um soco amigável no ombro dele. — Se eu tiver que comer mais alguma coisa feita pelo Diego, quem vai parar no hospital sou eu. Hoje de manhã ele deixou o ovo cozinhando por uma hora porque achou que a casca amolecia junto com a clara. Juro por tudo.
Gabriel se curvou para frente, soltando uma gargalhada genuína que ecoou pelo campo aberto, espantando a tensão dos últimos dias.
— Você é um ingrato, isso sim, Daniel! — Diego rebateu, fingindo indignação.
De longe, o apito do técnico Moura cortou o ar como uma navalha, anunciando o início das atividades. O clima de brincadeira dissipou-se instantaneamente, dando lugar à disciplina dos Falcões.
— É, bora ralar um pouquinho — Daniel disse, recuperando o foco. — E você, vê se foca aqui agora, Capitão. O Moura está de olho em cada passe. Se você entrar no amistoso de sábado com a cabeça na sua mulher, ele te manda de volta para a arquibancada.
— Pode deixar — Gabriel ajustou o colete de treino, os olhos voltando a brilhar com a intensidade competitiva que o tornara o melhor do time. — No sábado, o Capitão volta ao jogo com foco total. Mas hoje à noite... hoje à noite eu ainda tenho um seminário sobre plantas de clima árido para revisar.
— Insuportável! — Diego berrou, correndo para o círculo central, enquanto Gabriel soltava um último riso, sentindo que, depois de muito tempo, estava com os dois pés exatamente onde deveriam estar.
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