AMALDIÇOADOS!
14 O Selo da Maldição
Notas iniciais

As mãos macias seguraram Akhenaton como se nunca mais fosse soltá-lo, apertando-lhe as costas, o ombro, a cabeça, desesperado para trazê-lo cada vez mais perto, até que se fundisse ao seu corpo e se derretesse em ânsia gemendo e arfando ao sentir a rígida ereção pulsar junto a sua.
Apesar de nunca ter tido um amante, o jovem faraó perdia-se no frenesi de fome pelo corpo de Imnotep, o Sumo Sacerdote de Heliópolis, aquele que o apoiara e também o iniciara na senda dos prazeres da carne.
Imnotep tomou o falo de Akhenaton em sua boca, começando a sugá-lo de forma ávida e gemia enquanto o fazia. Intensos, os gemidos eram acompanhados do ar quente da respiração entrecortada, o som vibrando na carne quente e túrgida, o movimento cadenciado e úmido ao longo da ereção pulsante sob os seus lábios e dentes, fazendo Akhenaton arquear-se de encontro a si com a orgia explícita do desejo umedecendo seu olhar e fazendo-o abrir as pernas como se transmutasse o seu corpo numa oferenda de amor... Ele era o faraó, o deus vivo do Egito. E, no entanto, era apenas um homem enlouquecido de paixão quando Imnotep o possuía...
O Sacerdote apertou os lábios contra a base do falo, perto da virilha e sugou-o ainda mais forte, sentindo todo o corpo do faraó vibrar, cavalgando-lhe vigorosamente a boca com convulsões urgentes e fortes, o aroma forte e as gotas que antecediam o prazer se anunciando... Então retirou a boca e olhou-o com um brilho e um sorriso sádico que pareceu a Akhenaton o mais encantador que ele já tinha visto.
– Sou seu servo, mas... desejo que goze comigo e me sinta dentro de você... – disse Imnotep já não suportando mais o latejar do falo, desejoso de penetrar Akhenaton.
Os lábios exibiram um sorriso tímido e o belo rosto se aninhou na curvatura do ombro forte, enquanto Imnotep deslizava a mão por trás das coxas torneadas e entre elas. Os dedos longos deslizaram para dentro da profundidade quente que os esperava. Ele acariciou os lábios delicados, enquanto o sopro úmido de Akhenaton ofegava contra a sua garganta em gemidos de prazer.
Depois de senti-lo se mover de encontro a sua mão, Imnotep se afastou e sua mão larga segurou-lhe a coxa, levantando a sua perna e movendo o falo túrgido para a entrada que já pulsava ansiando em ser penetrada. Com um movimento único, ele finalmente mergulhou dentro do faraó fazendo-o gritar e arfar, quase sem ar.
O falo rígido mergulhou muitas e muitas vezes naquele ninho quente que era o corpo do amante e, a cada estocada eles gritavam e gemiam juntos...
O Sumo Sacerdote sentiu uma espiral de prazer abarcar seu membro. Era quente, estreito e pressionava seu falo de um jeito alucinante e perfeito, provocando um prazer tão intenso, quanto sagrado.
Ele movia-se com força, sua virilidade intumescida arremetia profundamente e Akhenaton arqueava as costas, gemendo cada vez mais rápido e alto, a boca entreaberta para sorver o ar, a cabeça jogando-se para trás ao sentir o amante aprofundado em seu corpo... Apertou o corpo de Imnotep segurando-o pelas nádegas, cravando os dedos nela de forma ardente e desesperada, deliciando-se em ouvi-lo grunhir de prazer, enquanto se arremetia cada vez mais forte contra si...
Uma vertigem, seguida de um tremor convulsivo tomou ambos os corpos e para Imnotep foi como se tudo a sua volta se desfizesse, antes de ele se derramar dentro de Akhenaton, sentindo o sêmen quente de ele projetar-se, ao mesmo tempo, contra o seu abdômen.
Os dois gritaram alto sob a luz tremeluzente dos archotes, a luz fraca envolvendo-os e abraçando-os como se fosse um xale, enquanto ouviam as respirações arfantes unidas às batidas frenéticas de seus corações...
Imnotep caiu sobre Akhenaton, sentindo o sêmen de o amante escorregar em seu abdome e, antes que ele falasse algo, levou os dedos ao corpo e depois os sugou, sentindo na boca o gosto do prazer do faraó. Olhou-o com os olhos faiscantes e sussurrou:
– Tu és divino... em todos os sentidos.
Akhenaton riu alto e o Sumo Sacerdote também. E aquele momento flutuou nas areias do tempo, anônimo, feliz, e eterno...
Milo fitava Afrodite em silêncio. Ao adiantado da hora, ambos resolveram voltar de carruagem, encontrando um condutor que, prontamente, os atendeu. O vidente estava intrigado, lembrava-se de fragmentos de uma conversa e, de vez em quando, imagens fragmentadas de uma vida que não era a sua bailavam em sua mente e ele sabia ser de Imnotep. Sabia também que o belo homem a sua frente tinha algo a ver com estas conversas e lembranças. Recordava-se, claramente, do entusiasmo exagerado de Shina ao convidá-lo para hospedar-se na mansão e achava que o ato tinha sido fruto de uma pequena exibição de hipnose por parte do ilusionista. Precisava descobrir qual o papel dele nessa história.
Afrodite, por sua vez, sabia que Milo era um homem forte, cuja alma nunca seria facilmente dominada. E o mais incrível era que, mesmo usando o seu dom de criar uma falsa realidade, ainda assim, Milo parecia perceber além do véu da ilusão. A força espiritual do vidente era uma espécie de alimento para Imnotep e isso poderia constituir-se em um problema... Ele parece estar esperando que eu dê um passo em falso.
– Fale-me sobre as suas habilidades, senhor Afrodite. O que o levou a ser um ilusionista? – perguntou o vidente rompendo o silêncio e os pensamentos do Vilka.
– Eu diria que a vida me empurrou nesta direção, eu nunca fui amante desta rotina miserável, imposta pela sociedade. E o senhor? Porque se tornou vidente?
– De certa forma, aceitei este dom como uma benção. Mas, agora, não tenho tanta certeza.
– Não?
– Diga-me, senhor Afrodite...
– Por favor, não há necessidade do “senhor”, me chame de Afrodite.
– Muito bem, Afrodite. Já que me concedeu a intimidade de chamá-lo pelo nome, vou direto ao ponto. Quem é você, realmente?
O ilusionista elevou uma sobrancelha e antes que ele respondesse, a carruagem sofreu um solavanco violento e pendeu para um lado, fazendo os dois se desequilibrarem de imediato.
– Desculpem senhores! Algo bateu na traseira e uma das rodas quebrou! – gritou o condutor.
Afrodite moveu-se com agilidade, seguido por Milo que já se preparava para descer e ajudar. O condutor surpreendeu-se com a disponibilidade de ambos e agradeceu a ajuda, porém tratou de fazer tudo sozinho. No entanto, quando viu o que havia colidido com o veículo, seus olhos se arregalaram e ele recuou com um grito abafado de terror.
– Mas o que foi? – perguntou Milo.
Afrodite sentiu o cheiro muito antes de visualizar o que era. Era um odor ocre, uma mistura terrosa mesclada com sangue humano... O Vilka tocou o braço de Milo, porém o vidente seguiu em frente e o que viu o fez franzir o cenho.
– Mas que diabos é... isso? – deixou escapar Milo.
O condutor estava em choque. Ele tremia em frente à criatura grotesca que se contorcia tendo o corpo metade humano e metade monstro, enquanto Milo e Afrodite se juntavam a ele.
– “Beir ar an ceo!”– murmurou o Vilka e a bruma tradicional de Londres avolumou-se, como por encanto, encobrindo a todos.
Milo olhou para Afrodite e o Vilka pensou ter visto Imnotep, mas não era ele. O vidente continuava senhor de seu corpo e sua alma e o fitava com uma expressão grave. Maldição, a ilusão que criara não fora suficiente para enganá-lo!
– É o bispo Tatsumi. Como ele... se transformou nesta criatura? – questionou Milo.
Afrodite mordeu o lábio.
– Eu não sei.
– Não podemos deixá-lo aqui. Faça o condutor esquecer que isso aconteceu. – disse o vidente.
Afrodite encarou-o.
– Como assim?
– Não é hora para dissimulações, Afrodite. Sei que pode criar ilusões e até mesmo hipnotizar. Faça isso agora ou este homem vai enlouquecer e nos dar problemas.
O loiro gesticulou fitando o condutor nos olhos e a realidade se alterou. O homem viu uma enorme falha na rua calçada com granito e, enquanto tentava entender e parar de tremer, Afrodite disse algumas palavras em tom baixo e monótono fazendo-o fechar os olhos. Instantes depois quando ele os reabriu, a névoa estava densa e os dois passageiros estavam ao seu lado.
– Senhor, a roda afundou neste buraco e quebrou. Providencie ajuda para tirá-la daqui. Nós seguiremos a pé. – disse Milo.
– Ah, está bem. Obrigado pela gentileza, senhores. Eu vou buscar ajuda. Perdoem o incômodo. – respondeu ele.
Assim que ele se foi, Afrodite aproximou-se de Tatsumi e tocou-lhe a fronte. A transformação já havia terminado e o bispo estava trêmulo e com o corpo ardente e febril.
– Temos que tirá-lo daqui, antes que o condutor volte.
– A única saída é levá-lo até Shura. Ele saberá o que fazer. – disse Milo.
– E o que diremos a ele? Que o bispo se transforma em gárgula? – falou Afrodite com uma sobrancelha levantada.
– Diremos que o encontramos na rua e ele se sentiu mal. O que não podemos é deixá-lo assim.
– Está bem. – disse Afrodite tomando o corpo avantajado nos braços com facilidade.
– Você... Você não quer ajuda? – questionou o vidente.
– Não é preciso.
– Isso é muito esquisito. Esse homem pesa muito mais que você. Se alguém ver você carregar o bispo deste jeito, teremos problemas.
– Tem razão.
Mais uma vez, Afrodite gesticulou e uma ilusão se fez presente, enquanto ele carregava Tatsumi.
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– Quando será o grande momento? Essa espera me angustia. – disse Hyoga massageando a nuca.
– Precisamos de eletricidade e do momento certo. – respondeu Victor.
– Ficaremos à mercê de uma tempestade? E se custar a chover?
– Não é preciso haver uma tempestade. As configurações atmosféricas em determinada data podem fornecer o que precisamos. Peço, apenas, um pouco mais de paciência, sei que logo teremos uma tempestade de raios.
Hyoga suspirou. Sentia-se esquisito e inquieto. Olhou para Isaak que parecia mais sério que de costume.
– Vou mandar trazer café e algo para comer. – disse o preceptor.
– Obrigado, Isaak, mas já está tarde e eu vou me recolher. Boa noite, senhores. – falou Hyoga se sentindo estranhamente cansado.
– Como quiser. E o senhor, doutor Victor?
Victor Frankenstein encarou Isaak. Havia um brilho diferente nos olhos do médico, algo que caminhava em uma linha tênue entre o desejo e a insanidade...
– Eu apreciaria o café, senhor Isaak. No entanto, não gostaria de fazê-lo sozinho. Dar-me-ia a honra da sua companhia?
Isaak engoliu em seco. O que estava acontecendo ali? Nunca o médico o olhara daquele jeito e nem lhe falara com tal atrevimento!
– Creio não ser possível, senhor Victor.
– Ora, mas que pena...
Ainda chocado com a fala do médico, Isaak vestiu a “expressão facial” mais seca e autoritária que a habitual, falou calmamente e saiu.
– Com licença, tenho que concluir meus afazeres. Pedirei à empregada para trazer seu café.
Victor ainda olhou-o por trás como se estivesse apreciando a anatomia traseira de Isaak e, em seguida, tornou a olhar em volta. Sentia-se diferente, mais forte e com energia. Também notara o frio e austero preceptor, uma novidade que lhe recordava ter um corpo e lhe fazia bem, embora não entendesse o porquê. O mais interessante era que fazia muito tempo em que não se interessava por alguém. Seu último amante fora um colega de universidade há muito tempo atrás e muito antes de suas experiências com a criatura. Não costumava sentir necessidade de sexo, seu prazer residia nos avanços de suas pesquisas e experiências. No entanto, seu corpo o estava alertando para o desejo tanto tempo sublimado...
Quando a jovem criada lhe trouxe a bandeja com café e biscoitos, ele fechou os olhos, inspirou o aroma do café recém-passado e sorriu. A vida podia ser muito prazerosa... Acharia um jeito de quebrar a resistência de Isaak e ter muito prazer com ele.
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Camus chegou à mansão antes de Milo e Afrodite. Ao bater na porta, Shina atendeu e olhou-o, percebendo o nervosismo do ruivo.
– Senhor Camus, em que posso ajudá-lo?
– Eu gostaria de falar com Milo, por favor.
– Milo ainda não voltou. Aliás, ele não estava com o senhor?
– Nós nos despedimos há pouco e ele voltou com o senhor Afrodite, mas lembrei de algo extremamente importante e que preciso discutir com ele.
O olhar de Shina passou de sério à malicioso. Algo importante... Sei...
– Bem, só lhe resta esperar. Por favor, me acompanhe até o escritório.
Tentando parecer calmo, Camus assentiu e acompanhou Shina. Ao entrar, lembrou-se de cada detalhe da conversa que havia tido com Milo naquela sala. Sentou-se na mesma poltrona escura que o vidente sentara naquele dia e observou a lareira acesa. O fogo ondulava, criando formas e estalando. O calor lembrou-lhe a pele ardente de Milo e seu baixo-ventre pulsou.
– Gostaria de uma bebida? Um conhaque? – perguntou Shina.
– Sim, obrigada. – respondeu movendo o corpo para disfarçar a excitação que ameaçava ficar evidente sob a calça justa.
Camus inspirou fundo e fixou o olhar no líquido ambarino, antes de sorver um gole. Estava nervoso e não ter encontrado Milo o deixava, ainda mais ansioso. Onde ele estaria metido com aquele homem?
O som de vozes junto à porta o fez voltar a cabeça no mesmo instante que a maçaneta girou.
– Camus? O que houve? – perguntou Milo adentrando o escritório.
– Onde você estava? Vocês saíram antes de mim. – falou o ruivo.
O vidente franziu o cenho e, logo em seguida, sorriu:
– Eu e Afrodite resolvemos beber e conversar em outro lugar. – mentiu o vidente.
A resposta trouxe um brilho feroz aos olhos rubro-acastanhados de Camus. Ele sorveu o restante do conhaque e tornou a encarar Milo.
– Estão tão íntimos em tão pouco tempo. O que sabe sobre este homem?
– Sei o suficiente. E não somos íntimos, somos, apenas, dois profissionais com interesses e habilidades semelhantes.
– Habilidades semelhantes? Então está se colocando no mesmo nível que um ilusionista? Um embusteiro? — o sarcasmo visível no tom de voz.
– Aonde pretende chegar, Camus?
A ira e o ciúme nunca foram bons companheiros do homem. A frase dita pelo homem que o tinha criado surgiu em sua mente como se ele estivesse ali, dizendo-a de forma clara e imperativa.
– Afrodite não é quem diz ser. Há algo de estranho em seus atos e comportamento. – respondeu o ruivo, novamente controlado.
– Eu sei.
– Sabe?
– Sim, Camus, eu sei. Afrodite não é um homem comum, assim como você. Eu diria que ele tem mais semelhanças com você do que comigo. Eu estava brincando quando disse que fomos beber juntos. Quando estávamos vindo para cá, presenciamos algo inusitado. Sabe o bispo Tatsumi? Ele chocou-se com a carruagem que havíamos tomado para voltar. O homem se transforma em gárgula, dá para acreditar? De repente, Londres se transformou num antro de aberrações! E o pior de tudo, minha intuição me diz que... eu e você temos responsabilidade nisso.
Camus suspirou.
– Eu creio que Afrodite é o lobo que atacou o assassino no parque.
Milo fitou-o sem demonstrar surpresa.
– Ele é forte e capaz de criar ilusões poderosas. Também não se alterou ao ver o bispo daquele jeito. Não ficaria admirado se ele fosse mesmo uma criatura sobrenatural. E eu acho que ele... de certa forma conhece Imnotep e por isso faz questão de estar comigo.
– Como é o nome completo dele?
– Afrodite Christoffer Vargen.
– Vargen... Esse sobrenome em sueco quer dizer lobo.
– E se ele for? Pelas atitudes dele, pelo menos, ele está do nosso lado.
– Mande chamá-lo, vamos esclarecer isso de uma vez.
No quarto, alheio à conversa entre Milo e Camus, Afrodite trançava o cabelo, enquanto relembrava a expressão de Shura ao recebê-los trazendo o bispo desacordado. O médico continuava a surpreendê-lo com as suas atitudes, pois em nenhum momento se mostrava perplexo ou hesitante. Ele agia rápido e, ao colocar os olhos sobre o bispo, soube de imediato o que fazer.
– O que aconteceu? – perguntara ele.
– Nós o encontramos na rua, ele parecia estar tendo um mal súbito. – respondera Milo.
O olhar do médico para os três foi incisivo, porém ele nada falou. Sinalizou para que o colocassem na poltrona de sua sala e foi pegar sua maleta. Tatsumi murmurava palavras desconexas e se mantinha inconsciente. Após examiná-lo, Shura colocara compressas de álcool sobre a fronte do bispo, franzira o cenho e dissera que precisavam levá-lo para o hospital.
– Ele está com uma febre muito alta, até a pele está rachando. Não podemos tratá-lo aqui.
Assim que deixaram o bispo no hospital, Shura o havia interpelado com uma expressão grave:
– Senhor Afrodite, gostaria de conversar com o senhor, mas não agora. Podemos nos encontrar amanhã?
– E o que nós dois teríamos para conversar, doutor Shura?
– Um assunto do seu interesse.
– Verdade? Bem, meu tempo está corrido e eu ainda preciso organizar meu show e...
– Será uma conversa rápida.
Algo nos olhos negros do médico chamou a sua atenção. Sentiu-se estranho, como se a aura de Shura não lhe fosse estranha e, mais uma vez, sentiu nele uma energia guerreira, quase obscura...
– Muito bem, doutor, eu conversarei com o senhor.
– Ótimo, jante comigo. Eu o espero amanhã às 20h00min em minha casa.
A ideia de jantar com o médico lhe era desconfortável, mas era um Vilka, um guerreiro. Retroceder frente um desafio nunca fora e nunca seria uma opção em sua vida secular.
Camus esperava uma atitude de Milo, mas não aquela.
– Venha, comigo. – disse o vidente pegando o ruivo pela mão.
– Milo, onde...
– Você não quer esclarecimentos? Pois vamos começar por alguns... Esqueça o Afrodite.
– Milo, seja racional, nós precisamos saber...
O vidente ignorou os protestos e continuou arrastando o ruivo pela mão até chegar ao quarto iluminado por uma lamparina fraca, o que emprestava um clima íntimo ao ambiente. A cama com dossel estava arrumada, a colcha de veludo vermelho contrastava com os travesseiros brancos e a imagem gravada na cabeceira.
Camus compreendeu as intenções do vidente e ficou sério, a respiração querendo tornar-se ofegante.
– Milo, nós não...
– Shhhhh... – Milo aproximou-se do ruivo e tocou-lhe os lábios com o indicador, impedindo-o de falar. – Não fale e não pense. Apenas sinta... Estaremos protegidos aqui, eu me encarreguei disso.
Milo esticou a mão e fechou os dedos longos em torno da nuca de Camus, apossando-se da boca entreaberta a e sentindo, mais uma vez, a textura inebriante dos lábios do francês. Ao mesmo tempo, deixou escapar um ofego selvagem, enquanto invadia o interior da boca com a língua e Camus o correspondia com a mesma impetuosidade.
Os braços fortes do ruivo envolveram a cintura estreita do grego, sincronicamente ao ato de Milo ao erguer os seus para lhe enlaçar a nuca, colando ainda mais os corpos ardentes de desejo.
– Mon Dieu... – deixou escapar Camus, enquanto sua boca deixava os lábios entreabertos e vagava pelo pescoço de Milo. As mãos se enterrando nos cabelos longos, deixando os fios se entrelaçarem sedutoramente em seus dedos.
Quando tornou a voltar aos lábios de Milo, Camus encarou-o com as feições tensas de desejo. O grego sustentou-lhe o olhar com o mesmo ardor.
– Eu quero você, Camus... A magia de Imnotep, desta vez, será usada para nos dar este momento.
Camus fitou aqueles olhos azuis enlouquecedores e sua boca exigente se apossou dos lábios ainda molhados pelo beijo anterior em uma exploração erótica que tirou o fôlego de Milo. A frieza e o autocontrole de Camus cederam lugar a carícias ousadas...
As roupas foram despidas com pressa, facilitando o acesso das mãos, bocas e línguas. Deitados e nus, os dois podiam tocar-se, dar vazão àquela ânsia que os consumia cada vez que estavam próximos.
Cada movimento dos corpos despertava uma intimidade natural, os batimentos do coração ecoando no pescoço, a pele se arrepiando ao roçar dos lábios, o poder das mãos apertando, atiçando as ereções...
Milo alisava a pele que revestia os músculos duros do peito e dos braços de Camus, deliciando-se com a sensação de tê-lo sobre si e pressionava sua nudez de encontro à dele, fazendo-o sentir o falo já ereto roçando no seu que despontava pulsante.
Vagando com seus lábios e sua língua pelos mamilos túrgidos, sugando-os e mordendo-os, Camus continuava a exploração, totalmente transtornado, imerso na luxúria que o grego despertara em si de forma enlouquecedora...
Enquanto beijava Milo, Camus buscava as mãos do grego e deslizava as suas sobre elas, até entrelaçar os dedos nos dele, estreitando o contato dos corpos, sentindo os fluidos do desejo gotejando, ao longo das coxas que se entrelaçavam, unindo-os na ciranda frenética do prazer, fazendo-os suar e ofegar como se aquele encontro fosse o último.
Enfeitiçados um com o outro, os dois se beijavam, provavam e mordiam. Camus levava a mão de Milo à boca, sugando seus dedos devagar, lambendo o dorso e a palma de sua mão, enquanto o grego também o mordiscava, acariciando-o com os lábios grossos, fazendo o ruivo sentir-se possuído pelo prazer e gemer baixo e rouco, quase em transe.
O francês nunca sentira, com outra pessoa, aquela voracidade e o sentimento que a acompanhava. Com Milo, parecia outro homem, completamente entregue ao prazer que era, ao mesmo tempo, recente e secular, um gozo primitivo que o afastava da racionalidade dominante, trazendo calor ao corpo e alimento à alma...
Pulsava dentro dos dois uma paixão e um instinto mais profundo que a razão. As mãos se extasiavam em tocar as costas largas, um do outro, em sentir a totalidade das coxas musculosas roçando uma na outra, a pulsação dos corpos que se desejavam e se despiam de toda a couraça erguida pelo medo da possessão...
A visão de Milo, entregue e sensual ao extremo, excitou Camus de uma forma inédita que misturava um desejo faminto permeado por um sentimento que parecia ter sido tatuado em seu coração. Afastou as pernas do amante e se insinuou ainda mais entre elas, enquanto sua língua traçava círculos molhados lambendo e sugando a pele rente ao pescoço, a nuca, a curvatura dos ombros...
Continuava explorando os lugares mais íntimos do corpo do grego, seus quadris se alinhando sobre os dele, as mãos deslizando para o meio de suas pernas para sentir-lhe o falo rígido e tocá-lo, arrancando gemidos ainda mais altos. A língua escaldante continuava a morder e atormentar Milo com aquele frenesi carnal que tornava a pele ardente e o sangue pulsante e ensandecido...
O coração de Camus batia loucamente e o de Milo também. A penetração aconteceu lenta e profunda. Os movimentos intensos dos quadris se somaram a ela, cobrindo a pele com uma febre lasciva que se expandia e os fazia gemer roucos.
Ao fitar a expressão de prazer no rosto de Milo, o francês imprimiu mais força, tocando as paredes da entrada estreita sem parar, atingindo um ponto profundo dentro do vidente e fazendo-o gemer alto e projetar à pélvis de encontro a dele, sentindo uma profunda conexão com tudo ao seu redor.
Sentindo os tremores do orgasmo, Milo rebolou contra o corpo do ruivo e sentiu-o cravar os dedos em seu quadril, enquanto com a outra mão tomava seu falo pulsante e imprimia o mesmo movimento que seu corpo empreendia. O vidente arqueou as costas e gozou, sentindo Camus se enterrar todo em si, pressionando fortemente o ponto sensível tão escondido, o corpo dele roçando seu sexo com mais intensidade, o atrito prazeroso fazendo sua pele incendiar.
Camus sentiu Milo estremecer e gozar, seu sexo sendo apertado com o espasmo o outro. O sêmen do grego molhando sua mão, o rosto dele em fogo, enquanto gritava seu nome com a voz rouca, seu corpo tremendo e o puxando ainda mais para dentro... Não aguentou e gozou também, puxando Milo para um beijo apaixonado, enquanto se sentia totalmente dentro do amante.
Milo gemeu entre o beijo intenso, enquanto Camus ainda se movia, esgotando cada gota de seu prazer bem fundo dentro dele. O ruivo manteve as mãos em torno da cintura do grego, não saindo de imediato de dentro daquele corpo ardente. Aos poucos foram parando de se mover...
Os corpos ficaram unidos num abraço cúmplice, com Camus deitado sobre o corpo de Milo, até a respiração voltar a serenar e o coração parar de retumbar em seus ouvidos e todos os recantos corpo. Os dois se olharam e Milo tocou o rosto do francês vendo os olhos rubros fixar-se dos seus.
– Espero que tenha esclarecido a coisa mais importante dessa história. – disse o vidente.
– E o que seria? – perguntou Camus, ainda ofegante.
– Que não há força, neste mundo, capaz de me separar de você. Entre Imnotep e Loki pode haver desejo, mas entre nós existe mais que isso, existe amor. – respondeu Milo.
Camus acariciou o rosto afogueado com o cenho franzido.
– Às vezes, penso que não o mereço...
– Então faça por merecer... Nunca desista de mim.
O francês nada disse, apenas beijou Milo bruscamente, com uma paixão dolorida e indomável. Quando as bocas se afastaram, batidas insistentes na porta do quarto os fizeram retornar à realidade.
– O que foi, Shina? – perguntou o vidente abrindo a porta enrolado num lençol.
– O doutor Shura está aí e disse que precisa falar com você, urgente.
– Shura?
– Ele disse que o bispo Tatsumi morreu e que precisa falar com você e o senhor Afrodite.
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Defteros estava com os olhos fechados, sentindo os pingos de água caindo sobre seu rosto. O cheiro de mofo misturava-se ao do incenso que queimava lentamente. As pontas do pentagrama continham gotas de sangue recém-derramadas.
– Tatsumi está morto... – disse ele.
– Você também sentiu. – murmurou o gêmeo mais velho.
A voz de Aspros continha uma nota de cansaço.
– Isso significa que o demônio despertou. Temos que preparar a oferenda final e fechar o círculo. – falou Defteros.
– Faça isso e não se desvie! Encontre a vítima que fecha o Duat para que possamos atrair o demônio e nos libertarmos. Enquanto isso eu vou providenciar outro avatar para nós.
– Eu o farei. – disse Defteros já sentindo a excitação de uma nova caçada.
– Esta noite, Defteros! O tempo está se esgotando.
Os olhos avermelhados de Defteros se fixaram no pentagrama e Aspros apertou a imagem do medalhão que carregava consigo.
O gêmeo mais velho inspirou fundo e deixou os subterrâneos. Com a morte de Tatsumi deveria sair do anonimato e assumir tarefas na Abadia até enviarem outro bispo. Esperava não estar mais ali quando isso acontecesse!
Ao alcançar as escadas, ouviu vozes e encostou-se à parede fria. De repente, foi tomado por uma espécie de euforia. Uma alma inocente e poderosa! Seria ele o Escolhido? Aquele que o demônio usaria para derrotar Imnotep e que, finalmente, os libertaria do selo da maldição?
– O bispo Tatsumi não está e ninguém sabe dele. – disse Shun.
– Eu sei. Vamos esperar um pouco.
– Ikki, eu sinto uma coisa esquisita neste lugar. – falou o menino.
– Bobagem, Shun. São apenas as dimensões deste templo. Tudo aqui é muito grande.
– Não é isso. Mas, deixa pra lá.
Aspros murmurou e inspirou devagar. Em seguida, afastou-se da parede e foi ao encontro dos donos das vozes.
– Olá! Eu sou o padre Aspros. Realmente, o bispo não se encontra, mas, se eu puder ajudá-los, terei muito prazer em fazê-lo. – disse ele.
– Boa noite, padre. – falou Ikki curvando-se para frente.
Shun olhou fixamente para o homem a sua frente. O padre sorria solícito, mas o menino não se sentia confortável. Os olhos do homem continham um brilho de maldade e outra coisa que o menino não soube identificar.
– Ora, ora, mas que belo rapazinho. Qual o seu nome? – perguntou Aspros.
– Me chamo Shun. — respondeu o menino se controlando para não mostrar temor.
– Vocês são estrangeiros, não? Lembro-me de o bispo ter falado algo a respeito.
– Sim, senhor. Eu combinei com o bispo de ficar aqui até arranjar um emprego.
– E meu irmão já arranjou. Nós agradecemos a gentileza, mas estamos indo embora. – falou Shun, para surpresa de Ikki.
– Vejo que, apesar de muito jovem, você é decidido, rapazinho. – disse Aspros tocando o ombro de Shun.
Uma descarga elétrica, seguida de uma escuridão densa e sufocante fez o corpo de Shun estremecer e ele desmaiou.
– Shun! – gritou Ikki amparando o irmão.
– Ele desmaiou. Deve estar doente. – disse o padre.
– Meu irmão nunca adoece. – respondeu Ikki franzindo o cenho e tomando Shun nos braços.
– Traga-o até os meus aposentos. Vou cuidar dele.
Ikki sentiu-se estranho, gelado por dentro. Shun estava pálido e o clima, ali, parecia denso. De repente, sentiu-se temeroso com aquele homem, logo ele que não temia ninguém.
– Eu agradeço, padre. Mas, vou levar meu irmão ao médico.
– Médico? Não será preciso, eu aprendi primeiros socorros. Vou tratá-lo.
O samurai hesitou, não desejava ser desrespeitoso, mas algo dentro de si gritava para sair dali. Rezou para a deusa Amaterasu que o iluminasse sobre a decisão que deveria tomar.
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Saga já tinha deixado o banho e vestido a elegante roupa. Kanon o aguardava pensativo, porém em paz. Tinha esperanças de reaver o manto da rainha Tiy e estava otimista quanto à volta da visão perdida. Tudo isso se devia a noite de amor que tivera com Saga. Quanto tempo guardara para si aquele sentimento? As expedições ao Egito, as descobertas arqueológicas, a história revivida na pele... Tudo se constituía em um pano de fundo para aquele amor proibido que encerrara em seu coração. Mas, agora, ele viveria, intensamente, sem culpas, sem medo.
– Está pronto? – perguntou Saga ao ver o irmão em pé junto à janela.
– Sim. A que horas é o leilão?
– Após a meia-noite.
– Acha que pedirão muito por ele?
– Fatalmente, sim.
– Eu não devia tê-lo enviado.
– Você não poderia prever que o tal Capitão tivesse interesse no tal artefato e o roubaria, descaradamente.
– Você sempre me defende. – falou Kanon sorrindo.
– Eu sou mais velho, é o meu dever. – respondeu Saga se aproximando do irmão.
Kanon sentiu a respiração cálida em seu rosto. Em seguida, os lábios de Saga tocaram os seus e ele entreabriu os lábios, dando passagem à língua que buscou a sua com uma lentidão sensual e terna. O gêmeo mais novo entregou-se ao beijo até ouvir um pigarrear.
– Perdão, senhores, mas chegou essa carta, agora mesmo. – disse Julian entregando um envelope branco à Saga.
O duque franziu o cenho ao ler a carta.
– Aqui diz que o leilão será adiado para daqui dois dias em lugar a ser informado.
– Adiado? – falou Kanon num tom desesperado.
– Sim. – respondeu Saga levando a mão aos cabelos bem penteados.
– Ele diz o motivo?
– Diz apenas que por motivo de força maior, o leilão foi adiado.
– Não entendo... – disse Kanon, frustrado.
– Pois eu sim, certamente, ele deseja ampliar o convite. Quer ter a certeza de lances milionários.
– Maldição! Quanto mais isso demorar, mais distante fica a minha cura.
– Fique calmo, Kanon. Nós vamos resolver isso. Eu darei o maior lance, pode ter certeza.
Kanon abraçou Saga com carinho e temor. Se o irmão estivesse certo, o Capitão estaria contando com a participação de muitos homens ricos. E se houvesse alguém com maior poder aquisitivo neste leilão?
Sentindo a agonia de Kanon, Saga estreitou o abraço e sussurrou:
– Não tema. Eu arrematarei este artefato. Por bem ou por mal! Pensou o duque, quando sentiu na pele a angústia, daquele que amava, mais que tudo em sua vida.
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Na carruagem, Saori mantinha as mãos cruzadas sobre o colo. Desde que havia deixado a taverna com a abadessa, as duas permaneciam em silêncio. Hilda evitava encará-la e vice-versa.
– Pode perguntar. – disse a abadessa, por fim.
– Eu fui sincera quando disse que espero que um dia a senhora confie em mim. Até lá, seus segredos lhe pertencem. – falou a jovem noviça.
Hilda olhou-a com intensidade. Tivera, apenas, uma amiga e ela morrera jovem, vítima de uma forte gripe. Além de Poseidon, com quem dividira sonhos e alegrias, não tinha mais ninguém. A vida no convento era dura e quem pensasse que abraçar a vida religiosa era uma proteção contra as perversidades da vida, estava enganado. Tornara-se dura e fria para não terminar como algumas freiras que adoeciam de tristeza e até morriam.
– Eu e Poseidon nos conhecemos quando jovens e nos apaixonamos. Eu fiquei grávida e meus pais me mandaram para o convento, depois de o expulsarem e o machucarem muito. Eu acreditei quando me disseram que meu bebê havia morrido no parto. Encontrá-lo vivo e descobrir que tive uma menina foi um choque, mas também a maior benção que eu podia receber, assim como reencontrar Poseidon me fez acreditar que a felicidade existe.
Os olhos violáceos de Saori brilharam aquosos. Era emocionante ouvir uma história daquelas.
– Deus é maravilhoso. – disse a noviça.
– Eu nunca acreditei muito nele. – confessou Hilda.
– A senhora sofreu muito. Mas, agora, tudo terminou.
– Será?
– Mas é claro! Tenho certeza que o Capitão cuidará de tudo. Todos ficarão felizes!
– Você me intriga, Saori. Eu sempre a tratei mal e, no entanto, você nunca me condenou. Vejo que abraça a fé católica com verdadeiro fervor e, no entanto, vê esperanças para mim e Poseidon.
A noviça sorriu.
– Quando ingressei na vida religiosa, eu o fiz por livre e espontânea vontade. Eu sempre acreditei que minha missão seria amar e cuidar daqueles que precisassem. A abadessa Calvera foi uma mestra forte e gentil. Aprendi muito com ela. Ela sempre me disse que o amor é o dom maior. Maior, até mesmo, que os dogmas a que nos sujeitamos.
– Quando eu olho para você, vejo a imagem de Clara de Assis. Lembro-me de ter ouvido as histórias sobre ela e São Francisco, quando fiz os votos perpétuos. Em minha amargura, eu escarnecia do amor dos dois, sublimado pela fé e pela caridade. Mas, agora, vejo ser possível existir uma vocação verdadeira. Calvera teve uma morte horrível, mas creio que se existe mesmo um céu, ela está nele.
Antes que Saori continuasse a conversa, a carruagem sofreu um solavanco. Um som abafado de um corpo caindo fez ambas arregalarem os olhos. Então, o teto da carruagem foi rasgado e um par de olhos vermelhos e brilhantes surgiu, fitando as duas religiosas. O instante não durou muito, Aspros sorriu exultante ao encontrar, enfim, a última vítima, aquela que se tornaria o selo da maldição.
– Não! – gritaram Hilda e Saori, enquanto o vampiro tomava a noviça nos braços e desaparecia no negror da noite.
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