AMALDIÇOADOS!

15 Entreato de horror


Notas iniciais
♥*♥Galera amada do Bem!!! Em primeiro lugar, peço desculpas pela demora em postar. Em segundo, obrigada pela parceria, pela atenção e pelo carinho. ♥Gratidão, SEMPRE!!!

Shura tinha o cenho franzido quando aceitou o cálice de conhaque oferecido pelo mordomo, enquanto aguardava Milo e Afrodite. A bebida desceu-lhe quente pela garganta, assim como o fervilhar de seus pensamentos.

A morte não lhe era estranha, nem assustadora. Porém, quando se tratava de assassinatos brutais ou aquele tipo de situação, não conseguia manter a neutralidade. Despertava em si o sentimento que a situação estava saindo do controle e algo devia ser feito de imediato para romper aquele ciclo de horrores que acontecia em Londres.

Milo adentrou o escritório onde Shura aguardava. Notou-lhe a tensão e também a expressão cansada do médico. Um olhar mais atento, viu que as vestes de Shura estavam sujas de sangue.

– O que aconteceu, doutor? – perguntou o vidente.

– Para alguém com os seus talentos, acho que a pergunta deveria ser desnecessária, não é mesmo? – respondeu o médico.

O tom irritado do médico fez Milo elevar uma sobrancelha.

– Não uso da vidência o tempo todo, não tenho autoridade, nem vontade para isso. Acho que isso responde a sua pergunta, ou não.

– Desculpe, estou um pouco descompensado por tudo isso. O bispo, ele... ele simplesmente explodiu como se tivesse algo dentro dele. Foi uma experiência terrível e estranha. – disse Shura passando a mão pelos cabelos negros.

– O bispo explodiu? – a voz melodiosa de Afrodite se fez presente, chamando a atenção de Shura.

– Sim. – respondeu o médico e seu olhar pousou sobre o ilusionista.

Afrodite vestia um robe de seda azul escuro, os cabelos soltos em uma cascata loira e sedosa. Sempre que ele aparecia, Shura se via preso em uma rede invisível de sedução e estranhamento.

– Nós não sabemos a causa disso. Quando o levamos até o senhor, foi porque é médico e percebemos que o bispo precisava de um. – falou o ilusionista.

– Escutem vocês dois! Chega de enigmas e mentiras, eu sei que há algo obscuro por detrás de tudo isso e os senhores sabem mais do que demonstram.

Milo e Afrodite permaneceram em silêncio, até o vidente servir-se de conhaque e tornar a encarar o médico.

– Tem razão, doutor. Mas, não sei se está preparado para saber do que, realmente, se trata tudo isso.

– Eu estou aqui, não? E já fui envolvido, seja lá no que for. Por favor, chega de jogos. Conte-me o que está acontecendo.

Os olhos azuis do vidente buscaram os do médico e, por alguns segundos, Milo franziu o cenho, perplexo com o que viu neles.

– Muito bem, meu caro Shura, vamos à verdade.

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Hilda estava em choque. A cena ficava passando em sua mente de forma incessante. A primeira coisa em que ela pensou foi em Poseidon e era ali, na taverna que deixara, horas atrás, que ela o esperava, trêmula e angustiada.

Raphael lhe trouxe uma caneca com chá e logo, Poseidon adentrou a sala com uma expressão preocupada.

– O que houve? – perguntou ele ao ver a palidez de Hilda.

– U-Um m-monstro! Uma criatura que eu pensei só existir nas lendas! Saori foi levada e... e o cocheiro abatido.

Poseidon franziu o cenho ao pegar nas mãos geladas da abadessa.

– Calma. Conte-me tudo com detalhes.

– E-Eu já disse tudo, foi só o que eu consegui ver. Aquela criatura com olhos vermelhos puxando Saori da carruagem e levando-a. Eu achei que tinha enlouquecido! O que vamos fazer?

– Vá até a polícia. Raphael irá acompanhá-la. Eu vou ver o que descubro sobre o assunto.

A abadessa não se mexeu e Raphael sentou-se ao seu lado.

– Não se preocupe, senhora. Eu estarei ao seu lado e vou protegê-la.

– Obrigada. – disse ela e seu olhar voltou-se para Poseidon que olhava para a caixa que deixara sobre a mesa, quando adentrara a sala.

O homem conhecido como Capitão pensava no que Hilda contara, enquanto tocava a caixa contendo sua valiosa peça. Resolvera guardá-la em um cofre até o leilão e estava indo fazê-lo, quando recebera o recado que Hilda precisava dele.

– O que tem nesta caixa? – ela ousou perguntar.

Poseidon quase sorriu, lembrando que imaginara Hilda nua, vestindo aquele manto.

– Vou mostrar. – disse ele abrindo a caixa.

Quando Hilda viu o manto, seus olhos viajaram na beleza do dourado magnífico que contrastava com aqueles belíssimos detalhes em azul.

– Meu Deus... – disse ela.

Rapidamente, Poseidon retirou a peça da caixa e colocou-a sobre os ombros de Hilda. A abadessa sorriu, mas, em seguida, sentiu-se estranha. Uma vibração tomou conta do seu corpo e ela oscilou, sendo segurada por Poseidon.

– O que houve? – perguntou ele, sentindo-a estremecer.

– N-Não sei... acho que estou nervosa e cansada.

– Raphael, tem um quarto decente vago? – perguntou Poseidon.

– Sim, capitão. Por favor, me acompanhem.

Passando um braço pelos ombros de Hilda e o outro por baixo dos joelhos, Poseidon a ergueu, arrancando um protesto dos lábios delicados.

– O que está fazendo?!

– Você precisa descansar – disse ele olhando para aqueles olhos profundamente azuis e sentindo um desejo atroz que sabia não poder saciar, naquele momento.

– Eu posso andar.

– Você está tremendo. Descanse um pouco e depois Raphael a levará até a delegacia.

– As freiras sentirão a minha falta, preciso contar sobre Saori.

– Não pense nisso agora. Deixe para contar depois ou haverá pânico.

Vencida, Hilda rendeu-se àquele contato prazeroso. As batidas regulares do coração de Poseidon ressoavam nas costelas dela. Uma sensação de segurança fazia com que desejasse passar o braço pelo pescoço dele e descansar em seu ombro bronzeado. Após alguns segundos de hesitação, ela rendeu-se a isso, também.

Com um olhar satisfeito, Poseidon estreitou aquele contato e, quando colocou Hilda sobre a cama, beijou-a, suavemente nos lábios, antes de dizer:

– Eu a amo... Vou cuidar de você e de nossa filha.

Hilda sorriu e olhou para as mãos enluvadas.

– Tire as luvas.

Poseidon rangeu os dentes e hesitou.

– Você não quer ver isso. – disse ele com uma expressão melancólica.

– Sim, eu quero.

As bochechas dele ficaram vermelhas e Hilda tocou-lhe o rosto.

– Não há nada em você que eu não aprecie.

Devagar, ele puxou as luvas, revelando as mãos deformadas pelas queimaduras. Rapidamente, ele olhou para os olhos de Hilda, mas o que viu deixou-o com um misto de surpresa e euforia. A abadessa não demonstrava repulsa, nem piedade. Ela tomou-lhe ambas as mãos nas suas e as beijou, causando-lhe um estremecimento.

Os dois sorriram um para o outro como costumavam fazer quando tinham dezesseis anos, antes de toda aquela tragédia tirar-lhes a chance de construir um futuro juntos.

O olhar dele baixou para lhe observar a boca e o coração de Hilda deu um pulo. A respiração de ambos ficou presa e o ardor pareceu expandir-se naquele espaço.

Poseidon pigarreou e Hilda desviou os olhos.

– Você precisa descansar. – disse ele se afastando da cama.

– Obrigada e... Desculpe-me.

– Desculpar-se de quê?

– Não queria constrangê-lo. Eu, apenas quero que saiba que o amo e não me importo em ser tocada sem as luvas.

Poseidon sorriu e Hilda sentiu-se mais leve e menos angustiada.

– Durma, meu amor. Logo, estaremos juntos para sempre.

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Encolhida em um canto, Saori segurou forte o crucifixo e rezou com voz trêmula, enquanto ouvia vozes roucas que falavam baixo, o som abafado pelo barulho da água que ecoava por todas aquelas paredes.

Nosso Senhor proteja-me! Rezava ela, em silêncio, enquanto tentava vislumbrar alguma coisa naquele lugar. Ainda não entendia o que tinha acontecido, sua mente buscava processar o fato de ter sido raptada por uma criatura horrível cujo rosto humano parecia conter traços demoníacos.

Lembrou-se, com repugnância do cheiro de sangue e de incenso, uma mescla de odores que pareciam recentes e seculares, algo que não conseguia explicar, mas que sentia na pele. Porém, o pior de tudo foi encarar os olhos avermelhados e as presas que pareciam de um animal selvagem. Por Deus, Nosso Senhor! Que criatura era aquela?!

Saori as sentira em seu pescoço, uma violação da pele de forma lenta e repugnante, um roçar atrevido que a fez gritar de horror. Entretanto, antes que ele as cravasse em sua carne, alguém o impediu. Não! Você só o fará no momento certo. Ela é uma das peças chave do ritual, não estrague tudo!Contenha a sua sede ou vou acorrentá-lo até lá!

A voz continha autoridade, mas ela não conseguiu enxergar-lhe o dono. Então, foi abandonada ali, naquele aposento úmido e pequeno, que mais parecia uma despensa.

Aspros tocou o medalhão que carregava, antes de acorrentar Defteros que, muito próximo da vítima perfeita, tinha sérias dificuldades em se controlar. O sangue de uma virgem era como o mel do Paraíso. Impossível não viciar-se, desejar mais, porque a cada vez que o experimentava parecia estar mais próximo do Criador, a despeito que o ato o afastava Dele e o aproximava das trevas e do demônio.

Ah, irmão... Estamos próximos do fim, de romper esse elo maldito. Aguente mais um pouco, não ponha tudo a perder.

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Com Shun em seus braços, Ikki se sentia dividido. Porém, quando aquela criatura surgiu com os olhos arregalados, ele não teve dúvida, soube que precisava tirar Shun daquele lugar.

– O-O mestre... Eu sonhei que o mestre... o mestre morreu. Kami viu! – a criatura enorme e pálida falava sem parar.

Aspros não esperava aquela situação inusitada. Tatsumi se foi, mas deixou-me essa herança funesta!

– Volte para os seus aposentos. – ordenou ele à criatura.

– O-O m-mestre...

– Faça o que eu mandei. – reinterou o padre.

Ikki aproveitou o momento, interpretando a entrada daquela criatura como um sinal.

– Agradeço a sua ajuda, padre. Mas, eu e meu irmão estamos indo embora. Adeus.

Envolvido com a criatura, Aspros não pode impedir a saída de Ikki. Irritado, ele olhou para o grandalhão, mas em seguida, se acalmou. Não era hora de desperdiçar seus peões.

– Venha comigo, meu filho, vamos conversar... – disse ele tocando o ombro da criatura.

Enquanto Aspros cuidava da situação na abadia, Ikki alcançava as ruas londrinas com Shun em seus braços. O menino abriu os olhos, assim que chegaram à calçada, para alívio do samurai.

– Você está bem? – perguntou ele.

– O que aconteceu? Eu só lembro que senti uma coisa estranha, uma pressão forte nos meus ouvidos e no meu corpo.

Ikki suspirou.

– Você desmaiou.

Os grandes olhos verdes do menino se estreitaram.

– Não gostei daquele padre. Onde estamos indo?

– Vamos até a mansão do senhor Hyoga.

Um sorriso iluminou o rosto pálido de Shun e ele abraçou o irmão com força.

As carruagens andavam depressa e havia um burburinho sob o céu cinza coberto pela fumaça das carvoarias. O samurai verificou o dinheiro que possuía e atacou uma carruagem de aluguel. O cocheiro olhou-o, desconfiado, mas ao ver o dinheiro, tratou de refrear sua expressão e forçar um sorriso que mostrava seus dentes tortos e amarelados.

– Para onde, senhor?

Ikki estendeu um papel com endereço. O homem leu e assumiu seu posto.

No interior da carruagem, Ikki refletia sobre os últimos acontecimentos, enquanto Shun olhava pela janela. A cidade era um grande caldeirão onde pessoas bem apessoadas disputavam espaço com mendigos, vendedores e ladrões.

O menino estava intrigado em ver tantas crianças pelas ruas, enquanto adultos bem vestidos circulavam entre eles sem lhes dar a mínima atenção. Lembrou-se do seu país e de como tudo era muito diferente.

A carruagem estacionou frente à mansão de Hyoga e Ikki hesitou um pouco, antes de descer.

– Vamos? – perguntou Shun.

– Vamos. – respondeu o samurai.

No interior da mansão, Hyoga olhava para o papel timbrado contendo instruções, local, data e hora, com o cenho franzido. Apesar de saber que a sociedade londrina tinha pleno conhecimento da sua existência, não esperava receber aquela espécie de convite.

– Não está com fome? – perguntou Isaak notando que Hyoga apenas beliscara a torta de pombo que fumegava em seu prato.

– Sabe quem está por detrás disso? – questionou Hyoga ignorando a pergunta.

– Pelo que eu soube, existe um famoso leilão que acontece de tempos em tempos, organizado por um homem misterioso conhecido como Capitão.

– E quem é esse homem?

– Uma espécie de ladrão ao estilo Robin Hood.

Uma centelha de curiosidade se acendeu na expressão de Hyoga.

– Pode ser divertido.

– Creio que divertido não é a palavra correta.

Antes que Hyoga continuasse a conversa, batidas na porta anunciavam uma visita. Isaak foi abri-la e, quando o fez, sua expressão fechou-se de imediato.

– Gostaria de falar com o senhor Hyoga. – disse Ikki.

Isaak abriu a boca para falar quando Hyoga surgiu por detrás dele.

– Ikki! Shun! – exclamou o loiro.

– Nós resolvemos aceitar o seu convite. – disse Shun com um sorriso tímido.

– Verdade? – os olhos azuis de Hyoga brilharam.

– Sim, é verdade. – respondeu Ikki, comovido com a alegria que viu nos olhos de Hyoga.

– Isaak, mande preparar os aposentos da ala norte. É melhor que fiquemos todos juntos. – disse Hyoga.

Uma pontinha de indignação passou pelo olhar afiado de Isaak, mas ele nada disse.

– Estão com fome? – perguntou Hyoga.

– Não. – disse Ikki.

– Sim! – disse Shun.

Hyoga sorriu e Ikki o acompanhou. O sorriso vinha mais fácil quando estava junto daquele homem. Mesmo não concordando com os planos de Hyoga, era com ele que o samurai sentia-se mais à vontade e também experimentava emoções que afloravam de maneira intensa, quase incontrolável.

– Venham, vamos fazer um lanche e vocês me contarão tudo.

Na companhia dos dois, Hyoga recuperou o apetite e comeu bem, enquanto conversavam. Costeletas de carneiro com molho, presunto cozido com champignon, torta de pombo e maças carameladas foram devoradas com gosto.

Quando terminaram a refeição, Isaak retornou com uma expressão séria.

– Eu acabei de sabei que o bispo Tatsumi faleceu. Não era na abadia que vocês dois estavam? – perguntou ele olhando fixamente nos olhos de Ikki.

– Sim, nós estávamos, mas não sabíamos que ele tinha morrido. Nós esperamos a volta dele, mas como ele não retornou, nós deixamos o lugar. – respondeu o samurai.

Shun ficou com uma expressão triste e preocupada.

– Quem cuidará do Kami, agora?

– Kami? – questionou Ikki.

– Sim, o Kami é a criatura que eu ataquei aqui, nesta casa. Ele não é mau, ele apenas obedecia ao bispo e o bispo queria fazer mal ao senhor Hyoga.

– Do que você está falando? Que história é essa?

– Shun está cansado e talvez esteja confundindo as coisas. – disse Hyoga desconversando.

O menino freou a língua, entendendo que se continuasse a falar, Ikki poderia voltar atrás e desistir de permanecer na mansão.

– É verdade, acho que me confundi. – disse o menino, bocejando.

Isaak ainda tentou continuar a conversa, porém Hyoga não lhe deu espaço.

– Falaremos sobre esse assunto, amanhã. Isaak vá ver se o doutor Víctor precisa de alguma coisa, sim?

– O doutor saiu.

– Então comunique aos serviçais da casa que temos novos hóspedes.

Visivelmente contrariado, mas mantendo a fleuma, Isaak obedeceu. Assim que ele os deixou, Ikki e Shun subiram a escada em direção aos quartos indicados por Hyoga.

Os novos aposentos eram amplos e confortáveis. Ikki colocou o lampião ao lado da cama e fechou as cortinas. Shun olhou para as duas camas e escolheu a sua com uma alegria infantil.

Uma cena doméstica agradável. O pensamento ocorreu a ambos, ao mesmo tempo. Eles captaram a expressão um do outro e Ikki pensou em voltar ao assunto anterior, mas resolveu deixar para depois. Shun se deitou e fechou os olhos. Segundos depois, já estava dormindo.

Ikki custou um pouco mais, mas também caiu no sono. Diferente das outras vezes, ele foi adentrando o mundo dos sonhos com uma estranha sensação de estar revivendo outra realidade. Uma realidade adormecida em outro tempo, outra cultura, outro lugar...

As colunas do pátio no templo de Luxor eram exuberantes e o ar exalava o aroma das especiarias do deserto.

Ikki viu-se como guardião daquele lugar, seu nome era Ikeni e sua vida se resumia a cuidar da pequena Amunet e servir seu rei e deus, o faraó Akhenaton.

A noite caía sobre o deserto e uma aragem quente permanecia em todos os espaços, apesar do frio tornar-se presente ao escurecer.

O jovem faraó Akhenaton costumava andar pelo pátio para meditar e obter respostas. Recaía sobre seus ombros uma responsabilidade gigantesca, afinal ele era o deus daquela gente e lhes devia a segurança que as divindades prometiam. Em uma destas andanças ele notou o bravo soldado que guardava o palácio e o templo. Um exemplo de lealdade e beleza, o esteio silencioso que o fazia sentir-se seguro nas noites em que a solidão se tornava sua companheira.

– Ikeni. Esse é o seu nome, não? – disse ele.

– Sim, meu senhor. – respondeu o soldado, surpreso em ver que o faraó sabia o seu nome.

– Foi você quem acompanhou a execução de minha mãe. Vi quando a ajudou quando ela tropeçou e também quando impediu que outro soldado a molestasse. Foi muito gentil, de sua parte.

– A rainha sempre terá o meu respeito, não importando o que digam. – respondeu o soldado ousando responder e olhar nos olhos de seu rei.

O jovem faraó se aproximou, seus olhos escuros estavam cheios de gratidão e outro sentimento que lhe era proibido externar, principalmente com um subalterno, um mero soldado das castas inferiores.

– Serei, eternamente, grato pela sua lealdade. – disse ele, tocando- o com sua mão divina.

O ato desencadeou uma amizade profunda e sentimentos que foram se solidificando como as pirâmides erguidas para os homens deuses. Akhenaton solicitava a sua presença, sempre que podia, para conversar e o havia nomeado como seu general, responsável pela sua segurança pessoal.

Às vezes, quando respondia ao chamado do faraó, encontrava Imnotep, o Sumo Sacerdote de Heliópolis, conselheiro e amante daquele que detinha seu coração. Seu peito doía, mas sabia o seu lugar.

Muitos amavam Akhenaton: o jovem sacerdote chamado Ipi-ha-ishutet, o Sumo Sacerdote e ele, Ikeni, um simples soldado que só tinha sua força e lealdade para oferecer. Serviria seu deus amado sempre, nessa e em outras vidas. Permaneceria firme e jamais demonstraria seus sentimentos.

Então um dia, Akhenaton o chamou como sempre fazia. Seu semblante estava sério, enquanto segurava uma taça com vinho.

– Em que posso servi-lo, meu senhor?

– Beba comigo.

Ikeni franziu o cenho.

– Sou seu servo e, portanto, indigno de tal ato, meu senhor.

– Por favor, esqueça as diferenças entre nós. Esta noite, somos, apenas, homens. – disse o faraó estendendo a taça na direção do jovem general.

Ele aceitou a taça, notando algo no ar.

– Algo o incomoda, meu senhor? Algum inimigo?

O modo como ele o olhou trouxe uma pulsação forte em seu baixo ventre. Akhenaton o olhava com desejo e se aproximava como um lobo do deserto, os olhos fixos em si...

O deus vivo do Egito tocava o seu rosto com a devoção de um homem apaixonado e o ato causou surpresa e estranhamento.

– Meu senhor...

– Há muito tempo eu desejo isso...

– Mas, o Sumo Sacerdote...

– Imnotep foi meu mestre na arte de amar outro homem. Mas, já faz algum tempo que ele já não satisfaz minhas necessidades. Eu não desejo, apenas os prazeres do corpo, eu desejo sentir algo mais... algo que já sinto há bastante tempo por você, meu nobre guerreiro.

– Está dizendo que...

O general não concluiu a frase, seus lábios foram cobertos pela boca ansiosa do faraó e ele correspondeu com igual voracidade, sentindo o gosto do vinho na língua que buscava a sua, a ânsia da paixão há tanto tempo suprimida.

Depois daquele beijo, tudo aconteceu rápido, intenso, divino... Ikeni sentia um desejo insano, libertado pelo simples toque das mãos macias e das palavras roucas que Akhenaton deixava escapar.

O faraó despiu-se da aura de poder e fitou o rosto daquele por quem se apaixonara. Eram os olhos de um homem atormentado pelo desejo e, a partir dali, tudo aconteceu vertiginosamente...

Os corpos se encontraram nus, as pupilas dilatadas...

Ikeni sentia o corpo do faraó sobre o seu, movendo-se, encaixando-se em seu membro, o perfume de mirra e sândalo da pele sagrada penetrando em suas narinas...

Viu um sorriso amplo de satisfação naquela boca que soltava seu nome em forma de um gemido baixo e longo. Seu corpo ficou terrivelmente excitado com aquela visão. “Aquilo era real?”

O general fechou os olhos, novamente, talvez fosse um sonho... “Mas, não era”. Eram as mãos de Akhenaton tateando todos os recônditos do seu corpo e ele fazia o mesmo com ele. Pareciam enlouquecidos e sem um pingo de constrangimento por aquela ser a primeira vez que se entregavam àquela intimidade... “Um deus e seu general”.

Nada importava, somente a vontade de continuar com aqueles toques e de prolongar o beijo que acenava com todo o prazer contido naquele ato. Ambos sentiam a saliva escorrer pelos lábios, as línguas se buscando com uma liberdade que nenhum dos dois jamais tivera em um beijo.

Ikeni fechou os olhos com força e mordeu os lábios ao sentir a mão de Akhenaton em seu membro. Mas, em seguida os abriu para observar-lhe o olhar lúbrico. Um olhar de quem sabia exatamente o que estava fazendo e desejando.

O encaixe foi perfeito, Akhenaton sentou-se sobre o falo rijo e se agachou sobre Ikeni, roçando as nádegas em seu membro ereto. Depois, percebendo que o general sentia uma excitação tão urgente que o fazia estremecer, enterrou-se por completo, arrancando um gemido alto do outro e sentindo-o pulsar forte, duro e cheio de vigor dentro de seu corpo.

Os músculos do ventre de Ikeni estavam contraídos, os mamilos rijos despontando na pele suada, a respiração ofegante... Os dois se olharam e sorriram, antes de o faraó deitar-se sobre ele e buscar os lábios para mais um beijo lento, molhado, intercalado de gemidos e sussurros que se misturaram ao movimento ondulante dos corpos.

As coxas roliças se moviam com maestria sobre as de Ikeni, fazendo a boca entreaberta do general, ceder espaço para gemidos desenfreados e mordidas cheias de luxúria.

O subir e descer do corpo sobre o falo túrgido arrancava tremores e as mãos fortes de Ikeni apertavam-se sobre as coxas de Akhenaton, aprofundando a penetração, deixando as marcas dos dedos, enquanto a boca ávida demorava-se no pescoço e nos mamilos, sentindo o gosto da pele salgada, da saliva...

Akhenaton gemeu alto, quando se sentiu tocado fundo do corpo, ao mesmo tempo em que os dentes alvos de Ikeni mordiscavam a curva do seu pescoço e ele se esfregava com frenesi em seu falo gotejante de excitação. A possessão prazerosa fazendo-os se agarrar um no outro, com loucura e uma libido implacável.

Os movimentos ficaram mais rápidos e veementes, ambos gemiam cada vez mais alto e os corpos se chocavam numa louca tentativa de fusão extrema. O suor cobria seus corpos, em minúsculas gotas, a respiração não tinha mais controle, anunciando que todo aquele ardor os aproximava do clímax.

– Ikeni... – gemeu o faraó e o orgasmo irrompeu quente e abundante no tórax do general, enquanto ele estremecia convulso, contraindo-se em torno do membro ereto que estava mergulhado dentro de si.

Ao sentir-se engolido e chamado pela voz rouca do homem que amava, Ikeni também gozou, envolvido pelo delicioso aperto da cavidade que o massageava, estreitando-se em torno de seu falo, enlouquecendo-o de um prazer delirante que o fez estocar mais fundo e rápido, derramando-se dentro do faraó deus...

Sacudido por aquele clímax intenso e perturbador, Akhenaton desabou sua cabeça sobre o corpo de Ikeni. O soldado passou a língua nos lábios, molhando-os, ainda de olhos fechados, a respiração ofegante...

O faraó, também de olhos fechados, retirava-se do interior dele e desabava ao seu lado com o coração pulsando por todos os poros do seu corpo.

Ambos ficaram em silêncio, ainda chocados pelo grau de prazer e da necessidade atroz de permanecer nos braços um do outro. Akhenaton encostou-se no ombro de Ikeni e, então, os olhares se encontraram fazendo o general perceber que a sua vida estava ligada a de Akhenaton para toda a eternidade...

Ikki acordou de repente, o corpo suado e uma incômoda ereção forçando a calça com que deitara. Tinha vontade de levantar-se, mas não queria causar nenhum transtorno. Respirou fundo, tentando lembrar-se do que sonhara, mas parecia que uma névoa baixara sobre a sua mente.

Shun fez um barulho com a boca e ele olhou para o rosto do menino. Ele parecia tranquilo e era isso que importava. Voltou a fechar os olhos e a imagem de Hyoga mostrou-se forte, em sua mente. A atração que sentia pelo jovem era inexplicável, parecia que sua vida só começara, após conhecê-lo e isso o intrigava.

Uma batida fraca na porta interrompeu seus pensamentos. Ele se levantou e abriu, surpreendendo-se com a presença dele.

– O que aconteceu? – perguntou o samurai.

– Não consigo dormir...Podemos conversar um pouco? – disse Hyoga e seu olhar causou, em Ikki, uma estranha e profunda comoção..

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Dohko ouvira o depoimento de Hilda com o cenho franzido e uma expressão preocupada. O oficial ao seu lado, um homem de tez escura e uma cicatriz que ia de um canto do olho direito até o lóbulo da orelha, anotava tudo com suspiros intercalados que ora pareciam de impaciência, ora de descrédito.

– A senhora tem certeza que não era um ser... humano? – insistiu o inspetor.

– Tenho! Já disse mil vezes que era uma criatura lendária.

– Um vampiro?

Hilda olhou para Raphael que permanecia no recinto, com os braços cruzados e olhar firme.

– Se me permite, inspetor, a senhora Hilda não teria motivos para inventar uma história dessas. – disse o dono da taverna.

Com um suspiro, Dohko encerrou o depoimento. Assim que Hilda se levantou, Camus surgiu, acompanhado de Seiya que parecia ter sido despertado às pressas.

– Senhor Camus, que bom que veio. – falou Dohko.

O ruivo olhou para Hilda, notando a angústia da abadessa.

– Eu já estava vindo falar com o senhor, quando encontrei seu mensageiro no caminho. O que aconteceu, inspetor?

– Novos elementos nesta situação macabra. A abadessa e a noviça Saori estavam voltando em uma carruagem, quando uma criatura descrita como sendo um vampiro as atacou e levou a pobre moça, consigo.

– O quê? Saori foi levada? – falou Seiya com os olhos arregalados.

Hilda e Camus olharam para o jovem que estava, visivelmente, desnorteado.

– Você conhece Saori? – perguntou Hilda.

– B-Bem, eu... sim, eu a conheço. Ela ajudou o senhor Camus e...

– A noviça foi muito gentil me ajudando em uma situação delicada. – falou Camus.

– O que vamos fazer? Essa criatura é o assassino. Se demorarmos, ele matará Saori. – disse Seiya com um tom alterado.

– Ele não a matará. – disse o ruivo.

Todos voltaram seus olhares para Camus.

– Como pode ter certeza disso? – questionou Hilda.

– Eu estava vindo, justamente para expor o resultado das minhas investigações. Todas essas mortes compõem uma figura, aquilo que os egípcios chamam o Círculo do Duat.

– Círculo do Duat?

– Existe uma lenda egípcia que se confunde com fatos históricos e que eu acho ser o pivô destas mortes misteriosas, mas não vou contá-la agora. O Círculo do Duat é um ritual de selamento místico, onde se busca aprisionar as almas que permanecem vagando à espera de vingança.

Dohko franziu o cenho.

– Mas, isso é uma insanidade!

– Sim, é. Mas, para o assassino, cada vítima representa um elemento do círculo. As primeiras seis representam seis faces obscuras do ser humano: a ingratidão, o egoísmo, a traição, a maldade, o ciúme e a covardia. A sétima vítima fecha o círculo e deve ser pura de corpo e alma. Ela se torna o selo da maldição, seu sangue atrai as almas e o círculo se fecha.

– Então, Saori é a sétima vítima! Como sabe que ela não será morta, imediatamente? – perguntou Seiya.

– Porque o selo da maldição só pode acontecer na Lua de sangue, um eclipse lunar que se torna o primeiro de quatro eclipses totais da Lua. Estes eclipses ocorrem em sequência e desde a antiguidade, este fenômeno ficou conhecido como tétrade. Os antigos acreditavam que sempre que o fenômeno ocorre, portais místicos são abertos, tanto aos anjos, quanto aos demônios. Por causa da coloração avermelhada que a Lua adquire durante este eclipse, ela recebe a denominação de "Lua de sangue".

– E quando será isso? – perguntou Dohko.

– Daqui a quatro dias. Até lá, precisamos achar Saori.

Notas finais
♥Meninas que sempre comentam, vocês alegram o meu dia, sempre!!! Obrigada pelo carinho, porque sei o quanto a vida tem as suas exigências e, mesmo assim, vocês me honram com seus comentários! ♥ Obrigada, também aos que leem em silêncio. Um dia, gostaria de receber, ao menos um olá. ♥ Obrigada aos que favoritam e recomendam. Conheço vocês pelos avatares e agradeço a honra.