AMALDIÇOADOS!

16 Decifra-me ou devoro-te...


Notas iniciais
♥ Olá, galera amada do bem!!! Mais um capítulo que continua esclarecendo o papel de cada um nesta trama ... Espero que gostem!!!

Dizer que preferimos a verdade é bem diferente de termos a verdade sendo lançada em nosso rosto como uma bofetada. Foi com este pensamento que Shura deixou a mansão, após a conversa com Milo e Afrodite.

O vidente não poupara detalhes, inclusive os mais exóticos como dar passagem a um espírito secular responsável por parte das suas habilidades, a proliferação de criaturas lendárias nas ruas de Londres e, por fim, a razão de todo aquele horror: uma vingança terrível revelada em um trágico quebra-cabeça.

Entretanto, nem todo o amontoado de fatos e descrições mexeu tanto consigo quanto aquela pergunta: Você sabe a história do seu nascimento? Conhece a sua verdadeira origem?

A pergunta não fora feita pelo vidente e sim pelo espírito egípcio que ele dizia apossar-se do seu corpo e ele, Shura, que não acreditava muito nessas coisas viu-se, de uma hora para outra, sem chão.

O homem que falava com ele não era Milo. Podia-se notar na entonação da voz e nos trejeitos do corpo, o que transformou aquele questionamento em um enigma doloroso. Não, ele não sabia. Mas, o que havia para saber? Sua mãe morrera no surto de gripe que acometera a vila e ele fora adotado pela mulher conhecida como La Bruja Blanca. A não ser que a história da sua vida não fosse verdadeira, era tudo que sabia!

Visivelmente perturbado, Shura levou a mão aos cabelos em um gesto de nervosismo. Afrodite tocou-lhe o ombro e ele afastou-se, como se tivesse sido espetado por um espinho.

– Perdão, eu... – pela primeira vez, Afrodite viu-se sem jeito.

– Peço desculpas aos dois, mas tenho que ir. – disse o médico dirigindo-se para a porta.

Milo não tentou detê-lo e Afrodite encarou o vidente com uma expressão de surpresa.

– O doutor Shura... Ele não está bem. – disse o ilusionista.

– Eu sei, mas não podemos impedir que ele descubra o que precisa saber sobre si mesmo.

– E o que ele precisa descobrir?

– Sua verdadeira origem.

– Sobre o que você está falando? – insistiu Afrodite.

Antes que Milo respondesse, Shina entrou saltitante, trazendo um envelope.

– Milo, veja! – disse ela sem nenhum constrangimento por interromper a conversa.

– O que foi? Porque todo esse entusiasmo?

– Este convite foi entregue hoje e eu soube, por fontes fidedignas que todos os nobres importantes de Londres o receberam.

– Convite? Para quê? Que eu saiba, a temporada de bailes e óperas só começa no mês que vem. – disse Milo.

– Não é esse tipo de convite.

Milo suspirou notando que Afrodite parecia incomodado.

– Deixe-me ver. Caso não tenha notado, eu e Afrodite estávamos conversando.

– Oh, perdão, senhores! Mas, um convite como este muda tudo! – respondeu Shina com as bochechas vermelhas de excitação.

Quando o vidente abriu o envelope e leu, seu semblante expressou surpresa e seu corpo estremeceu.

– O que foi? – perguntou Shina, sorrindo, excitada.

Milo não respondeu. Em sua mente, imagens sobrepostas planavam como se fossem telas pintadas no ar. O sol forte e avermelhado, o aroma das especiarias, a areia que mais parecia um tapete dourado...Tudo se encaminhava para o final e todos os que deviam compor o cenário secular, estariam reunidos como devia ser!

Após, algum tempo, ele sorriu de um jeito estranho, parecendo algo entre estar aliviado e, ao mesmo tempo, ansioso.

– Tem razão, senhorita Shina, este convite é muito especial.

Afrodite olhou dentro dos olhos de Milo, reconhecendo o brilho de triunfo que um dia vira nos olhos de Imnotep.

– Porque este convite é especial? Posso saber?

– O tempo dos nossos destinos se aproxima. – respondeu Milo e Afrodite voltou ao assunto inicial.

– O que o doutor Shura tem a ver com tudo isso?

Milo ficou sério, depois sorriu, e Afrodite sofreu um golpe por compreender o que seu coração já havia tentado lhe dizer e ele ignorara por achar ser impossível.

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Lara estava com um bebê nos braços quando Shura chegou em frente a sua casa. Não foi preciso que ele falasse nada, pois sua expressão dizia tudo. Ela sorriu para a jovem mãe que encontrara na calçada e entregou-lhe o menino.

– Ele está com o peso certo e muito saudável.

– Obrigada!

Assim que a jovem seguiu em frente, ela voltou-se para Shura com um suspiro.

– Sei que não avisei que viria, mas, antes de qualquer coisa, venha abraçar a sua mãe.

Shura obedeceu e Lara abraçou-o forte, fazendo-o relaxar por alguns breves segundos.

Madre...

Mi hijo...

– Vamos entrar. – disse ele abrindo a porta escura e pesada.

Um fogo forte ardia em uma lareira, obra da governanta que, antes de sair, sempre deixava a casa aquecida para quando ele voltasse do morgue. Segundo ela, o calor afastava os maus espíritos. Só os fantasmas perdidos gostam do frio!

A luz penetrava por uma pequena abertura nas cortinas abertas criando um facho que se projetava na parede. O aposento era mobiliado com simplicidade, as paredes eram claras e continham dois diplomas enquadrados e uma pintura sacra mostrando a Virgem Maria com o menino Jesus. Havia móbiles de janela construídos com ervas aromáticas que Lara lhe dera quando ele deixara a casa materna, tornando o ambiente suavemente perfumado.

Sua mãe ainda estava do mesmo jeito que ele se lembrava. Não fosse por alguns fios grisalhos, ele não diria que ela beirasse aos 50 anos. Ela parecia nunca envelhecer!

– Então... Sei que você tem muitas questões para perguntar. Eu vim ao seu encontro, porque senti que era a hora certa. Sente-se aqui, comigo. – disse ela pegando a mão do médico e puxando-o até um sofá.

A voz dela tinha um timbre profundo e seu olhar era tão penetrante que ele se sentia devassado nas camadas mais profundas de sua alma. Sempre fora assim, desde que era um menino.

– Madre... Quem sou eu, afinal?

Lara sorriu, afetuosa, e Shura quase acreditou que ela diria que tudo aquilo era uma bobagem. Afinal, ela o tinha salvado da morte e contado essa história muitas e muitas vezes. Ele era um sobrevivente e ela o tinha adotado, criado e amado por vinte e nove anos.

– Eu sabia que este dia chegaria e agradeço a Anúbis por você já ser um homem feito e, portanto, capaz de arcar com as revelações que tenho a fazer. – disse ela e Shura sentiu faltar-lhe a respiração, embora mantivesse a postura ereta e o olhar firme.

Uma mexidinha de sobrancelhas e os olhos escuros de Lara se encontraram com os dele.

– Bem, vou contar-lhe uma pequena história...

Há muitos séculos atrás, depois da guerra que dizimou muitos de nós, deixamos o nosso lar no Egito e acabamos nos espalhando pelos quatro cantos do mundo. Meus pais vieram para Espanha, acompanhando os ciganos e, durante muito tempo, nós vivemos bem e felizes.

Nossa raça podia andar de dia como humano e à noite como lobo; éramos os Vilkas, filhos de Anúbis e dispostos a tudo para preservar a paz e a ordem, fosse no Egito ou fora dele. Tínhamos saúde e força inabaláveis e uma longevidade que superava a dos homens. Mas, depois de tanto tempo vivendo com os homens, meus pais e eu fizemos um pacto de não nos transformar mais. De certo modo, nós renegamos nossa herança em nome de uma “vida normal”, cada vez mais parecida com a espécie humana, porque os tempos mudaram e a magia foi substituída por outro tipo de conhecimento.

Entretanto, quando em determinado período, a lua cheia se torna vermelha, nós ouvimos o chamado da ancestralidade, o toque do deus Anúbis a lembrar-nos da nossa origem guerreira. Quando isso acontece, não conseguimos evitar o desejo da transformação. É o que todos chamam de “Lua de sangue”.

Foi numa “Lua de sangue” que nós nos transformamos e buscamos um lugar isolado para honrar nosso deus e pai. Nós só não esperávamos que um humano nos visse e, apavorado, trouxesse caçadores para nos exterminar.

Eles nos chamaram de “Hombres lobo”, nos acusaram de matar o gado e até pessoas. Usaram armas de fogo que dilaceravam a carne, usando balas de prata, um metal que considerávamos sagrado no Egito e que tinha o poder de nos ferir. Meus pais foram mortos, porque hesitaram em matar os seres humanos e eu fiquei ferida, mas consegui fugir.

Depois de muito correr, eu acabei chegando à hacienda de Don Lorenzo, um viúvo que vivia retirado e sozinho nas terras férteis da Catalunha. Ele cuidou de mim, não fez perguntas e nós dois acabamos nos apaixonando.

Os Vilkas não podiam se unir, intimamente, aos humanos. A regra era clara, embora fosse, constantemente, quebrada. Eu fui uma das que ousei fazê-lo e sofri as consequências, mas jamais me arrependi. Lorenzo foi meu único amor e me deu a maior benção que eu podia ter recebido, um filho.

A gravidez na nossa espécie dura quatro meses e dificilmente vinga quando acontece com um humano. No entanto, eu engravidei e senti que tudo estava bem. Lorenzo ficou muito feliz e, contra a minha vontade, contratou criados para me ajudar na lida doméstica. Mas, quando o bebê nasceu forte e saudável, em tão pouco tempo de gravidez, ele soube que havia algo errado e os criados também.

Eu acabei contando a verdade e, pela primeira vez, após a morte dos meus pais, transformei-me para que ele me visse, verdadeiramente. Pensei que ele ia me rejeitar ou até me matar, mas ele não o fez. Ao contrário do que eu esperava, ele disse que me amava e comprou o silêncio de todos, menos de uma jovem que o desejava em segredo e acabou contando sobre nós.

Uma noite, três homens invadiram a hacienda e Lorenzo os matou. Depois disso, nós fugimos, mas não podíamos arriscar a vida do nosso filho, então o deixamos com Telma, uma irmã de Lorenzo que vivia em Lastres e atraímos o perigo para onde íamos. Meses depois, Lorenzo sofreu um ataque fulminante do coração e eu fiquei sozinha, vagando, durante algum tempo, na tentativa de despistar qualquer um que ainda estivesse nos perseguindo. Viajei pela Europa e acabei conhecendo uma feiticeira nas terras escocesas que me acolheu e ensinou a arte de curar.

Após um ano, eu voltei a Lastres. Ao chegar, havia uma epidemia de gripe dizimando a população da vila. Com os conhecimentos que eu havia adquirido eu consegui salvar algumas pessoas, mas Telma estava gravemente doente e acabou morrendo. Então, eu recuperei meu bebê e me fixei aqui.

Shura estava perplexo, os olhos arregalados, a boca seca.

– Essa história... Quer dizer que a senhora é minha verdadeira mãe e eu sou uma espécie de mestiço?

– Sim, mi hijo. Eu sou uma Vilka e você tem meu sangue.

– Mas, isso é... loucura!

– Não, é a mais absoluta realidade. Quem o levou a questionar a sua origem? – perguntou Lara.

– Um vidente. Ele diz ser receptáculo de um tal Imnotep e disse que era importante que eu soubesse a minha verdadeira origem..

– Imnotep? – a expressão de Lara mudou. Ela franziu o cenho e Shura viu um brilho feroz em seus olhos escuros.

– Você sabe quem ele é? – questionou o médico.

– O Sumo Sacerdote de Heliópolis. Ele abdicou de caminhar em direção à imortalidade para vingar e proteger o faraó.

– Como assim?

– Quando os Vilkas foram chamados a lutar em nome de Akhenaton e descobriram ser uma armadilha do Vizir, Imnotep retirou-se no interior da pirâmide em busca de mais poder. Contava-se que ele se fundiu a um deus estranho, para combater o Vizir e proteger o faraó. No entanto, a situação política se agravou e Akhenaton teve de desposar Nefertiti para acalmar os ânimos. Dizem que o faraó amava um jovem general e o fato de casar-se o impediu de continuar este romance, o que o deixou triste, ao ponto de adoecer gravemente. Meses depois, mesmo com todos os cuidados, poções e magia, Akhenaton veio a falecer. Imnotep, mesmo mais poderoso do que era, não conseguiu salvá-lo. Entretanto, ele havia convocado os Vilkas remanescentes para ajudá-lo a combater o Vizir, aprisionando-o em um lugar no Duat. Sabendo que o Vizir tinha sido derrotado, o Sumo Sacerdote exigiu ser sepultado vivo ao lado de Akhenaton para protegê-lo e ter a certeza que ele reencarnaria e teria a chance de uma nova vida. A rainha Tiy, o Vizir e Imnotep ficaram ligados pela vingança e, portanto, não descansarão até que ela se cumpra.

– Você conheceu Imnotep?

– Não, eu nasci logo após a morte dele.

– Como isto é possível? São séculos, mãe! Séculos!– disse Shura.

– Eu sei que é difícil crer e tudo isso, mas é a verdade. Você tem sangue Vilka e viverá muito mais que um homem normal. Terá que aprender a conviver com isso.

– E quanto à transformação? O que vai acontecer comigo?

– Os Vilkas puros controlam a transformação de forma consciente e ela é natural e indolor. Alguns mestiços, não conseguem dominar esta etapa e, após a sua primeira Lua de sangue, costumam sofrer a ação da lua cheia em seus corpos. A transformação, nestes casos, costuma ser dolorosa. É por causa deles que surgiram as lendas sobres Los Hombres Lobo ou Lobisomens. Foi por isso que eu vim, você viverá a sua primeira “Lua de Sangue” e eu estarei ao seu lado. Eu o ensinarei a ser um Vilka.

Shura ainda não tinha processado todas aquelas informações quando ouviu a porta se abrir e, Olívia, a governanta entrar acompanhada de outra pessoa.

– Senhor Shura, espero que não se importe, mas este belo jovem abordou-me, ainda na calçada, perguntando se podia falar com o senhor e eu disse que sim. Não sabia que estava com visita.

O médico encarou aqueles olhos límpidos e azuis. De repente, suas emoções conflitantes pareceram diluir-se naquele brilho sedutor e misterioso que parecia envolvê-lo como uma carícia bem-vinda.

– Senhor Afrodite.

– Doutor Shura, tomei a liberdade de procurá-lo, porque desejo retribuir a sua gentileza. – falou o ilusionista.

Lara olhou para o belo homem e seus lábios se abriram em um sorriso trêmulo.

– Por Osíris e Anúbis... Um dos Ceifadores de Aton. Mas que honra, meu senhor! – disse ela curvando-se diante de Afrodite.

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Ikki olhou para Hyoga que dormia em seus braços e tocou-lhe os cabelos desalinhados. Por Amaterasu, como ele era belo e parecia tão jovem e frágil em seus braços, embora soubesse da força e autoridade que ele possuía.

O jovem remexeu-se e abriu os olhos com um sorriso fazendo o samurai sentir um estremecimento dentro do peito. Pareceu-lhe que já havia vivido aquele momento.

– Dormiu bem? – perguntou ele a Hyoga.

– Profundamente.

O samurai tocou-lhe o rosto e Hyoga fez o mesmo com ele.

– Sabe, pode parecer loucura, mas... você e eu, sinto como se já tivéssemos vivido algo assim. – disse o jovem.

– Eu sinto o mesmo.

– Verdade?

– Sim, parece que mesmo que eu queira, não posso ficar longe de você.

Hyoga sorriu e aproximou os lábios dos de Ikki.

– Você será meu... Para sempre. – disse o jovem.

– A eternidade não será o bastante... – falou o samurai.

Ditas as palavras, Ikki puxou Hyoga para si e tomou-lhe os lábios num assalto intenso e violento. A língua do samurai adentrava a boca do jovem nobre mergulhando no vazio tépido e preenchendo todos os espaços, buscando a língua úmida que tocava a sua com avidez.

Hyoga sentia-se queimar pelo desejo ardente do samurai e seu corpo ergueu-se ansioso contra as mãos e língua que o tomavam sem trégua, ora lambendo e sugando seus lábios e pescoço, ora mordiscando-o no tórax deixando um rastro quente e molhado.

A mão de Ikki deslizava entre os mamilos rígidos e movia-se pelas costas, barriga, quadril apossando-se, deixando a marca dos dedos e dos dentes na pele alva. Depois, de um jeito dominante, a mão se moveu para a coxa rija de Hyoga e ele espalmou seu sexo fazendo-o gemer alto e arquear o corpo em desespero quase chegando ao clímax com o gesto de afirmação e posse.

Ele começou a acariciá-lo com os dedos quentes, fortes e experientes, preparando-o para a penetração e o corpo de Hyoga se ergueu loucamente para o prazer daquele toque.

Emitindo gemidos e ofegos, o jovem já quase implorava para ser possuído quando Ikki afastou a boca e levantou a cabeça, olhando-o no rosto por um momento longo, como se quisesse gravar aquele instante na memória antes de voltar a beijá-lo, mergulhando em sua boca, faminto, devorando-o enquanto movia os dedos dentro dele.

Hyoga estava em fogo, sua cabeça girava como um vulcão de ânsia. O desejo desenfreado ardia nele como aquele sol exótico se pondo nas areias do deserto que, tantas vezes, lhe surgira em sonho, consumindo seus pensamentos, sua razão...

Sem aguentar mais ele pediu:

– Não me torture, Ikki...

Sorrindo, o samurai segurou-lhe a coxa com força, levantou sua perna e seu corpo se moveu contra o dele. Com uma estocada forte e profunda que fez Hyoga gritar, ele finalmente mergulhou, preenchendo-o, completamente.

A boca do jovem se abriu soltando um gemido que vinha das profundezas da garganta e ele agarrou-se ao guerreiro, sentindo-se penetrar muitas e muitas vezes com ardor e força.

A cada mergulho os dois gemiam juntos e se olhavam nos olhos e depois o lugar onde seus corpos se uniam... A constatação do fogo que os unia, envolvendo-os numa espiral de paixão sexual e, muito mais, se acentuava com o encontro azul dos olhares febris.

O movimento dos corpos, o suor, os ofegos e a força daquele sentimento que ultrapassava a luxúria começaram a ativar uma poderosa energia e o prazer de ambos atingiu o pico num surto avassalador fazendo arder a pele e trazendo o orgasmo.

Ikki grunhiu e empurrou-se para dentro de Hyoga repetidas vezes e enquanto o jovem estremecia numa liberação violenta e soluçante, a cabeça dele se levantou, o pescoço se arqueou, o corpo inchou e enrijeceu-se ainda mais e ele deu uma estocada convulsiva e se derramou dentro de Hyoga, gemendo alto e tombando sobre ele.

– Ah! Hyoga... – disse Ikki em voz baixa e enrouquecida, enquanto sentia seu coração bater feito um tambor.

O jovem sorriu, sentindo mais uma vez aquela completude que o aquecia por dentro e o fazia sentir-se mais forte. Mas, quando encarou o samurai, algo sombrio nos olhos dele o fez estremecer.

– O que foi? – perguntou Hyoga vendo o guerreiro levantar-se um tanto rápido para quem recém havia se entregado daquele jeito.

– Shun! Ele precisa de mim.

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Egito, 1364 AC...

Amunet era uma menina curiosa que nascera com uma deficiência na perna esquerda. Por conta disso, ela ficara limitada em seus movimentos e ajudava nas tarefas domésticas do palácio.

Sendo irmã de Ikeni, o jovem general que guardava o faraó, ela tinha passagem livre e adorava verificar todos os recantos grandiosos do lugar.

Quando Akhenaton adoeceu, ela apiedou-se dele e também do irmão que amava. Mesmo tendo tão pouca idade, ela já compreendia o que acontecia entre os dois e torcia para que ambos pudessem ser felizes, embora sempre lhe dissessem que pessoas do seu nível jamais poderiam sonhar com algo assim.

– Ikeni! – chamou, ela, ao vê-lo sair dos aposentos do faraó.

– Minha pequena, o que faz aqui? – perguntou o general com uma ternura que somente ela conseguia acessar.

– O faraó está melhor?

Ikeni suspirou, tocando-lhe o rosto. Seus olhos estavam marejados.

– Não vejo melhora e isso me consome.

As lágrimas afluíram aos belos olhos verdes de Amunet.

– Eu trocaria de lugar com ele, se pudesse.

Ikeni sorriu, abraçando o corpo mignon da irmã.

– Eu sei minha pequena. Eu também o faria.

– Vocês se amam!

– Fale baixo... O faraó está com a rainha e devemos respeitá-la.

A menina assentiu e, enquanto os dois conversavam, o médico entrou nos aposentos do faraó com remédios e instrumentos. O general deixou sua irmã para postar-se ao lado de seu rei.

O médico verificou a testa de Akhenaton e deu-lhe uma poção para beber. Antes que o faraó bebesse, Ikeni adiantou-se e provou um gole. Akhenaton abriu os olhos e sorriu.

– Tem medo que me deem veneno? Não faria muita diferença. – falou o faraó com a voz enrouquecida.

– Estou aqui para protegê-lo. – respondeu o general cuidando o tom de sua voz para não trair-se revelando que havia mais que preocupação em sua presença ali.

Nefertiti permanecia ao lado de Akhenaton com uma expressão contrita. Ela sabia dos sentimentos de seu marido para com o general, mas fingia não saber. Ao contrário do que acontecia em casamentos por conveniência política, ela aceitara casar-se por amor. Amava e admirava Akhenaton com devoção e esperava que um dia ele a amasse, pelo menos um pouco. Ele não era como muitos de seus antecessores, ele era justo e piedoso. O homem mais belo que já tinha visto.

– Saiam todos. Apenas, Ikeni, deve permanecer. — disse Akhenaton forçando a voz que já estava enfraquecida.

– Eu também? – perguntou Nefertiti tentando não expressar tristeza e desapontamento.

– Sim, esposa. Por favor...

Obediente, ela assentiu e olhou na direção do jovem general. Ele baixou os olhos em sinal de respeito e ela, apesar de tudo, não conseguia odiá-lo por ele ter o coração do homem que amava.

Akhenaton estendeu a mão na direção do general, assim que a rainha saiu. E Ikeni a pegou entre as suas, num gesto instintivo.

–Ah... como seu toque é deliciosamente quente. – murmurou o faraó com os olhos semicerrados.

– Precisa se recuperar logo, assim poderemos desfrutar dos toques um do outro.

O jovem faraó curvou os lábios em um sorriso triste.

– Não minta para mim, já bastam os médicos e sacerdotes. Até mesmo Imnotep age como se eu fosse sobreviver. Eu sei que falta pouco tempo para mim e, se quer saber, talvez seja melhor assim.

– Não diga isso, o Egito precisa da sua liderança.

– O Egito... dei minha vida e a vida daqueles que amo por ele. Neste momento, eu só queria poder amar e ser amado.

– O senhor é muito amado.

– Como um deus louco que ousou desejar que todos fossem iguais. É isso que pensam e talvez tenham razão... Beije-me. – pediu o faraó.

Ikeni aproximou-se dos lábios ressecados e os beijou suavemente. Akhenaton sorriu e abriu os olhos.

– Adeus, meu amor... – disse o faraó suspirando.

O jovem general estremeceu ao sentir a mão de Akhenaton relaxar. Os olhos do faraó pareciam fixar-se em algum lugar além, os lábios entreabertos...

–Meu amor... – sussurrou Ikeni sentindo as lágrimas escorrerem pelo rosto.

Akhenaton estava morto.

Imnotep chegou logo depois do último suspiro daquele que amava e venerava. Tornara-se mais poderoso e, mesmo assim, não pudera evitar a morte trágica que suspeitava ser obra do Vizir e dos sacerdotes de Amon. No entanto, Harakhty havia sido derrotado pelos Vilkas e ele, Imnotep, o aprisionara no Duat. Ainda assim, o Sumo Sacerdote experimentava a dor da derrota e perda. Ele faria o Vizir pagar e o condenaria por toda a eternidade.

Depois de um longo processo, onde seu corpo foi honrado com festas, cânticos e a leitura do Livro dos Mortos, Akhenaton foi encaminhado à Casa dos Mortos. Sua alma e seu corpo foram entregues aos deuses Anúbis e Osíris para que pudesse empreender a sua jornada. Imnotep vestiu a máscara de Anúbis acompanhando a cerimônia, recitando orações, enquanto as carpideiras choravam e lamentavam a partida do rei-deus.

Nefertiti chorou muito e se arrependeu de ter deixado os aposentos de seu amado quando ele exalava o último suspiro. ”Ele morreu nos braços daquele que amava”, ela repetia para si mesma, mortificada por não ser o alvo daquele imenso amor.

Ikeni permaneceu firme, apesar da dor terrível que sentia, até o momento em que viu Amunet conversando com a rainha. Nefertiti voltou-se para ele com um sorriso em meio às lágrimas. O jovem general estremeceu.

– General Ikeni, que benção sua pequena irmã se tornou. – disse ela acariciando o rosto da menina.

– Minha irmã é tudo que me resta.

– Eu sei e, por isso, perguntei se ela tem certeza do que deseja fazer.

O jovem aproximou-se da menina. Amunet estava firme e decidida, os grandes olhos verdes brilhando.

– Irmãzinha, o que você deseja?

– Eu irei com Akhenaton para o Além-vida. Eu não o deixarei sozinho!

A fala da menina fez Ikeni ser tomado pelo pavor. Amunet acompanharia Akhenaton na morte. Ela seria sacrificada e sepultada ao lado dele para guiá-lo e servi-lo.

– Amunet... você é muito jovem. Você é tudo que me restou. – disse ele com a voz embargada.

– Eu te amo, irmão. Estou fazendo isso por você também. Eu lembrarei o nosso rei do grande amor que vocês tiveram um pelo outro. – sussurrou ela.

Nefertiti se aproximou dos dois.

– Por muitos séculos, os servos e familiares próximos eram sacrificados para servir o rei no outro mundo. Akhenaton jamais exigiria isso, mas Amunet ofereceu-se por amor e quando isso acontece, Aton, nosso deus, derrama suas bênçãos e luz sobre todo o Egito. Ela não será mais, uma simples serviçal. Ela será consagrada e se tornará uma sacerdotisa de Aton. Quando Osíris, o juiz supremo pesar o seu coração e encontrar pureza e entrega, ela entrará de mãos dadas com Akhenaton no mundo dos mortos e poderá pedir uma graça ao deus dos mortos e da vida eterna.

Imnotep aproximou-se do general, tocando-o no ombro.

– Eu estarei ao lado dela. Falhei em proteger Akhenaton, mas não o abandonarei na jornada que ele empreenderá. Ele não será amaldiçoado pela magia negra do Vizir. Isso, eu asseguro!

Ikeni olhou-o, perplexo. Sabia que o Sumo Sacerdote havia sido amante do faraó, porém não esperava que ele se sacrificasse. Era comum confeccionar uma escultura representativa dos altos sacerdotes, preservando-os. Imnotep não era um simples sacerdote, ele era um dos guardiões do conhecimento secreto, um dos únicos capaz de ler os livros antigos que continham as fórmulas mágicas, dádivas dos deuses que protegiam os homens das "desgraças do destino".

– Minha pequena... – disse Ikeni abraçando-a forte, o corpo sacudindo com os soluços.

O tempo de preparação do corpo do faraó transcorreu rapidamente. Nos setenta dias em que o embalsamamento foi conduzido, Amunet se tornou uma sacerdotisa e foi instruída, pessoalmente, por Imnotep. Durante o período, gozou de todos os benefícios, recebeu a honra de ostentar o título de servidora do ka, e ficou ao lado do seu irmão que também foi honrado.

Quando chegou o dia de sepultar Akhenaton na rica mastaba no Vale dos reis, o cortejo parou todo o Alto Egito. Servos, escravos, nobres, sacerdotes, todos seguiram em procissão até o Vale dos Reis, numa prova de amor e devoção ao seu rei.

A capela da mastaba tinha as paredes revestidas de baixos-relevos e pintadas com cenas da vida cotidiana e dos ritos funerários. Nas pinturas, Akhenaton aparecia sentado à mesa saboreando as oferendas, ao lado do Sumo Sacerdote e também junto do general que o protegera e amara.

Fórmulas religiosas e mágicas que auxiliariam o faraó em sua longa viagem até o mundo dos mortos havia sido pintada, pessoalmente, por Imnotep, que supervisionara dia e noite tudo que havia sido feito.

No serdab, compartimento que não se comunicava com o exterior, seria colocado estátuas do morto, de seus familiares, assim como a pequena Amunet que sentaria à esquerda do sarcófago feito de ouro e Imnotep que se sentaria à direita.

Nefertiti estava ricamente vestida, a peruca negra e longa enfeitada com contas feitas de oura, prata e lápis lazúli. Bela e altiva, ela segurou o cálice de ouro e o deu à pequena Amunet.

Os sacerdotes rezaram, Imnotep queimou incenso e as carpideiras entoaram um lamento. A menina levou aos lábios, bebendo o veneno que evitaria o horror do sepulcro em vida. Ela estremeceu por breves segundos e, neste momento, seu irmão que assistia a cerimônia, sentiu uma dor tão forte que temeu não suportar. Os olhos verdes, antes brilhantes, adquiriram o mesmo brilho mortiço que o faraó, no instante da sua morte. Ela foi caindo, lentamente, sendo amparada por dois sacerdotes que a colocaram em um pequeno trono no lado esquerdo do sarcófago.

Imnotep recitou a invocação do Livro dos Mortos:

– “Salve, ó tu Aton! Apareces cheio de beleza no horizonte do céu, disco vivo que iniciaste a vida. Enquanto te levantaste no horizonte oriental, encheste cada país da tua perfeição. És formoso, grande, brilhante, alto em cima do teu universo. Teus raios alcançam os países até ao extremo de tudo o que criaste. Porque és o Sol, conquistaste-os até aos seus extremos, atando-os para teu filho amado. Por longe que estejas, teus raios tocam a terra. Guia estes teus dois filhos. banha-os com a tua luz.”

Com isso, a cerimônia terminou, a mastaba foi selada e Imnotep sentou-se em seu lugar. Só então ele serviu-se do conteúdo da taça e fechou os olhos...

O cortejo deixou o Vale dos Reis. Ikeni caminhava ao lado da rainha, seu corpo entorpecido pela dor. Ele olhou, uma última vez para trás e viu o sol poente deixar tudo em tons de vermelho e dourado.

No interior do túmulo, uma grande luz invadiu a câmara e um homem belo e com olhar bondoso saiu de dentro dela, portando o ankh na mão direita e um escaravelho na mão esquerda.

Amunet viu seu corpo ser envolvido pela luz. Sentia uma enorme paz e leveza.

– Deus Osíris... – murmurou ela.

O deus fitou-a com seus olhos de luz.

Tua pureza e amor me atraíram, sacerdotisa de Aton. Diga-me, pequena, qual o teu mais profundo desejo?

– Guiar o faraó e lembrá-lo do amor entre ele e meu irmão.

Só isso?

– Não sou digna de pedir mais do que já possuo. Tenho um irmão que amo e continuarei a servir meu rei.

Tua humildade e teu amor são forças, além deste tempo. Tu retornarás a este mundo sem limitações físicas e reencontrarás teu amado irmão. Vocês dois continuarão como guardiões, até que o tempo se complete e então, todos vocês juntar-se-ão a mim na eternidade. Esta é a minha benção para ti!

Assim que Osíris concluiu sua fala, Amunet olhou para o lado e Akhenaton sorria para ela e para Imnotep. O faraó estendeu-lhe a mão e ela sorriu. Os dois entraram num vórtex brilhante como o sol, enquanto Imnotep continuou ali.

O Sumo Sacerdote gesticulou e outro portal se abriu. Uma luz avermelhada e densa desceu sobre ele e a voz profunda do deus chacal retumbou como um trovão.

Tu me invocaste, Sumo Sacerdote de Heliópolis. Poucos homens tem tal poder. Diga-me o que desejas!

– Deus Anúbis, eu peço, apenas, que minha alma possa vagar nas sombras. Permita que eu seja um guardião da vingança e faça pagar, aqueles que ousaram usar da mentira e perversidade contra o meu rei, Akhenaton.

O deus fitou-o com seus olhos de fogo.

Caminhar nas sombras é andar de mãos dadas com Apófis, a serpente do caos. Tua alma será consumida, este é o preço!

– Eu pagarei o preço de bom grado.

Anúbis abriu os braços e o ambiente mudou. Já não era mais a mastaba e sim uma espécie de bolha onde seres antropozoomóficos surgiam e desapareciam em meio à bruma transparente. Imnotep sentiu sua alma ser sugada para dentro da bolha e a última coisa que seus olhos viram foi a si mesmo evanescendo dentro da escuridão...

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– Shun? – a voz grave de Ikki chamou, enquanto segurava seu irmão.

O menino se levantou de repente, jogando as cobertas para o lado. Então, olhou para os olhos azuis e preocupados de Ikki.

– O que houve? – perguntou ele, sorrindo.

– Eu é que pergunto. Você gritou meu nome.

Shun sorriu e olhou para Hyoga que estava ao lado do samurai.

– Me desculpe, eu estava sonhando.

– Foi um pesadelo? – perguntou Hyoga.

– Não, foi um sonho estranho, mas bom.

– E que sonho foi esse? — Hyoga sentou-se ao lado do menino, estendendo-lhe a mão.

Com os olhos brilhando, Shun olhou para Hyoga e para o irmão, tomando a mão de cada um nas suas.

– Vocês dois se amam, não é? Eu estou aqui para proteger esse amor! – disse o menino deitando, novamente.

Ikki e Hyoga se olharam e, em seguida, tornaram a olhar para Shun que, instantaneamente, voltou a dormir.

Notas finais
♥*♥ AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Beatrice, Angelique, Kass, Lanny Missmuse, Demétria Picies, Brunaryu, DiteMasck,Gaía, Mel Dark, Lady Dark, Perséfone, Angel Rose Black,Cálica, suzyfs, Jenferr, MilaScorpions, Tuany, shyna, PalasAthena, Vlada Poe, Lucas Costa, Aghata Marie, Junko, Aki Yo, Haleth Jhaeion e quem mais chegar. ♥Meninas: Obrigada pelo carinho, prometo responder aos reviews logo. Sei o quanto a vida tem as suas exigências e, mesmo assim, vocês me honram com seus comentários! Saibam que eu valorizo muito este carinho de todas vocês e, mesmo demorando, eu darei um retorno a todos! ♥ Obrigada, também aos que leem em silêncio. Aos que favoritam e recomendam.