AMALDIÇOADOS!
17 Marionetes da condenação...
Notas iniciais

Egito, meses antes da morte de Akhenaton...
Sahathor It-amun olhou para papiro enviado pela comissão real. Tinha acabado de oferecer incenso no altar de Aton, o grande disco solar que resplandecia sob a luz das tochas tremeluzentes dispostas lado a lado nas paredes grandiosas do templo. Pedira proteção para a família real e para todo o povo do Egito.
Encarou o servo enviado pelo vizir, mantendo o olhar sereno e a voz firme, afinal, apesar de ser um sacerdote de Aton, estava familiarizado com aquele tipo de interrupção burocrática.
— Muito bem, Khalili, diga ao vizir que eu lerei com cuidado e retornarei a ele, mais tarde.
O servo conservou os olhos baixos, porém permaneceu firme no mesmo lugar como se fosse uma das inúmeras palmeiras do deserto.
— O vizir ordenou que eu esperasse o senhor ler e que voltasse com uma resposta.
Sahathor franziu o cenho e desdobrou o pergaminho. Leu, atentamente, tentando não transparecer seu desagrado, nem o estremecimento interno. O vizir era um homem astuto e perigoso que visava dominar a casta de sacerdotes e, para isso, os investigava permanentemente.
— Diga ao vizir que irei vê-lo, imediatamente. Apenas, preciso terminar minhas obrigações aqui. – falou seco.
O escravo fez uma reverência e deixou o templo. Sahathor suspirou e fitou as imagens em alto e baixo relevo. Os deuses silenciosos permaneciam em sua posição rígida e hierárquica. Osíris, Anúbis, Hórus eram testemunhas da sua dedicação ao sagrado e, mesmo tendo abandonado a casa para viver uma vida de ofícios espirituais, ainda se preocupava com seu irmão gêmeo e zelava por ele.
Por que, Kanakht?O que o leva a desafiar os deuses? O pensamento invadiu-o como se tivesse sido alvejado por uma flecha. Seu irmão gêmeo se tornara um rebelde, quando ele, Sahathor, decidira fazer os votos como sacerdote. Ele nunca aceitara a separação e, constantemente, agia de forma a chamar-lhe a atenção. Mas, roubar um túmulo? Por Aton, ele não tinha necessidade de fazê-lo! Profanação era um dos crimes considerado mais hediondo, naquelas terras.
Cansado, Sahathor deixou o templo. Apenas a lua cheia pairava no céu, lançando seu brilho avermelhado sobre as areias do Egito. Ele atravessou os jardins construídos em grandes planos horizontais, com a mesma geometria sagrada dos templos. A simetria, lindamente constituída de palmeiras, videiras, figueiras e plantas aquáticas, fora construída para acalmar a mente e trazer beleza. No entanto, nem mesmo a arte ou o aroma das flores e frutos conseguia aliviar seu coração angustiado.
Dirigiu-se até o grande salão do palácio onde teria que, mais uma vez, ser afrontado com as ações de seu irmão. Ao adentrar a gigantesca porta central, ele caminhou altivo. A túnica branca e o manto de pele de leopardo atestava que ele era o segundo profeta, sacerdote encarregado da organização econômica do templo. Cabia-lhe o controle dos recursos próprios e das doações, certificando-se de que a quantidade necessária de oferendas estivesse disponível a cada dia. Um grande número de administradores trabalhava para ele e sua honra e honestidade jamais poderiam ser contestadas.
— Sahathor It-amun... Espero que tenha algo para dizer que não seja, simplesmente, a negação costumeira. – falou o vizir.
— Não posso negar que Kanakht é meu irmão, somos gêmeos como Geb e Nut. Entretanto, assumimos destinos diferentes e não posso...
— Você renuncia a este laço? – interrompeu o vizir, abruptamente. – Porque se não renunciar, será responsabilizado junto com ele!
O impacto da intimação fez Sahathor estremecer por dentro. Tinha prestígio e o respeito de todos. Apesar de amar o irmão, não podia perder tudo o que havia conquistado. Ele refletiu e achou por bem não confrontar o vizir.
— Eu renuncio. – disse, tentando manter a firmeza na voz.
— Muito bem, fazes o que era esperado de um homem na tua posição. Kanakht foi encontrado e será punido. Serão quinze chibatadas!
O sacerdote engoliu em seco, seu irmão sofreria o castigo em público e depois seria levado para a prisão. Era humilhante e, embora renunciasse ao laço fraterno, ainda assim seria apontado, nas sombras, como irmão de um renegado.
— Eu gostaria de ver meu... Gostaria de ver o prisioneiro antes que o levem. Como representante de Aton, tenho o dever de prepará-lo para a punição. – disse o sacerdote.
— Que seja! Ele está na antessala, aguardando a sentença. – falou o vizir.
Sahathor tocou em seu manto como que pedindo forças. Era dedicado à Aton, mas acreditava nos deuses antigos e todas as noites, orava pedindo iluminação e esclarecimento. Caminhou em um ritmo lento para que não pensassem que estava ansioso, tinha de fingir indiferença ou o vizir continuaria a observá-lo.
Os guardas lhe deram passagem, em silêncio. Quando entrou na antessala, Kanakht elevou os olhos e encontrou os seus. Era como ver a si mesmo de um modo mais selvagem e profano. Seu irmão tinha um olhar afiado, intenso... Era fácil perder-se na imensidão daqueles orbes escuros.
— Sahathor... Então eles foram buscá-lo. Acreditas no que disseram sobre mim? Ah! Mas, porque eu pergunto. É claro que acreditas ou não estarias aí, com esse olhar acusador. — havia ironia e amargura na voz de Kanakht.
O sacerdote inspirou fundo e continuou encarando o irmão mais novo.
— Desonraste a nossa casa e por quê? Tua rebeldia e sede de aventuras só trouxeram problemas para ti e para mim! Não o entendo, Kanakht. Juro por Osíris que eu gostaria de compreender!
— Jurando por Osíris? Um sacerdote de Aton?
— Não sei por que ainda perco meu tempo. Não levas nada a sério, nem tua vida, nem tuas atitudes. Não amas e nem te importas com ninguém, Kanakht?
Em segundos, Kanakht estendeu a mão e puxou o sacerdote para junto de si. E, quando Sahathor o encarou, notou que os olhos do irmão já não estavam frios, havia fogo neles. Um fogo que fez suas entranhas se retorcerem. Não houve tempo para dizer nada, Kanakht cobriu sua boca num beijo feroz.
O sacerdote sentiu um arrepio de medo e desejo e isso o desconcertou. Ele viu-se abrindo os lábios e sentindo a língua ávida na sua, o gosto de vinho e mel inundando seus sentidos. Gemeu, quase sem sentir, até que a razão o fez reagir.
— O-O que está fazendo? – disse ele empurrando o irmão.
— Mostrando com quem me importo e amo.
— Kanakht... Não ouse. – falou Sahathor num fio de voz.
— Não ousar... o quê? Dizer a verdade? Você deixou a nossa casa e se enterrou aqui por pura covardia!
— Isso não constitui a verdade! Eu me tornei sacerdote para...
— Fugir!
— Estás louco. – disse o sacerdote ajeitando as roupas e o manto.
Num segundo, as mãos de Kanakht estavam em seus ombros novamente, segurando-o contra a parede.
— Se estou louco, então porque vejo seu corpo reagir ao meu? – murmurou o jovem tocando a orelha do irmão com os lábios.
Sahathor engoliu em seco. Aquela voz em seu ouvido, o hálito quente... Tudo tinha um efeito devastador nos seus sentidos. Era como se todo o seu corpo ficasse alerta, ansiando por algo, ansiando por ele...
— Está vendo? Sua boca diz e o seu corpo o desmente, sacerdote... Você me deseja e sempre me desejará. – prosseguiu o mais novo vendo-o cerrar os olhos.
— Você está perdido. Solte-me!
Kanakht retirou as mãos e as elevou, em sinal de rendição.
— Pode ir, irmão. Só quero que saiba que não roubei túmulo algum. Juntei-me ao bando que pilha à noite no Vale dos Reis a pedido de Imnotep. Ele suspeita que os roubos só sejam possíveis se houver ajuda daqueles que administram as necrópoles.
— Como assim? Trabalhas para Imnotep?
— Ele foi o único com disposição para me ouvir, sem julgamento. Sim, eu fiz coisas das quais me arrependo, mas ao acolher-me, Imnotep garantiu que eu tivesse a oportunidade de expiar meus pecados.
— Então porque ele não está aqui para defender-te?
— Porque, assim como tu, eu também penso no bem maior. Há uma conspiração se formando, posso senti-la no ar. O vizir a quem serves deseja a queda do faraó e, consequentemente, de Imnotep.
— Vais ser castigado e preso.
— Eu sei.
— Verei o que posso fazer por ti. – falou o sacerdote, após um suspiro.
— Sahathor...
— Sim?
— Não faça nada. Certamente, já renunciou a mim, não é?
A pergunta fez o sacerdote ruborizar e sentir-se incomodado. Seu coração, mais uma vez apertou-se dentro do peito.
— Tive de fazê-lo, mas...
— Então deixe como está. O vizir não deve saber que está sendo observado. Serão, apenas, quinze chibatadas e estará acabado. Serei preso, mas não permanecerei trancado por muito tempo. E, além do mais, apesar de ter me renegado, jamais deixarei de ser teu irmão. Cada vez que olhar para si mesmo, estará me vendo também. – disse Kanakht, sorrindo.
Sahathor olhou-o por um bom tempo. “Sim, o amava”, pensou ao navegar no sorriso sedutor que sempre fora capaz de fazer desaparecer a dor. Gostava de seu papel como sacerdote, não era somente um líder espiritual, mas alguém que deixava as coisas em ordem e mantinha o funcionamento de tudo. No entanto, as palavras de Kanakht reverberaram no fundo de sua alma, mas ele as trancafiou, novamente. “Talvez em outra vida...”.
— Está bem. Mas, assim que puder, irei falar com Imnotep.
Os dois se despediram sem mais nenhum contato físico. O sacerdote deixou o palácio com o coração apertado, apesar do alívio em saber que seu irmão não era um ladrão de túmulos.
Duas semanas se passaram e logo, a doença de Akhenaton colocou todos os sacerdotes em uma jornada de orações e sacrifícios pelo restabelecimento do faraó. Todos permaneciam jejuando em isolamento, oferecendo sua vida e suas intenções ao seu rei e deus.
Nesse meio tempo, Kanakht foi castigado e preso. Sahathor soube que ele tinha sido levado para a prisão que ficava nas montanhas escuras, próxima do Vale dos Reis na margem oriental do rio Nilo.
Distante de si, seu irmão permaneceu trancafiado na escuridão e adquiriu uma enfermidade mortal e desconhecida. Quando, por fim, conseguiu ir vê-lo, Kanakht já havia morrido.
A dor sofrida por Sahathor foi tão forte que ele quase enlouqueceu. Por semanas ele venerou o corpo de Kanakht, na Casa dos Mortos, proporcionando a ele o embalsamamento digno de um rei. E quando, por fim, sepultou-o na mastaba luxuosa, colocou uma corda em volta do pescoço e se enforcou, tornando-se o eterno guardião daquele que amava.
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A névoa mal começava a se dissipar naquele começo de manhã e Kanon segurava a xícara com café fumegante. Aos poucos, acostumava-se com aquela escuridão forçada que o fazia permanecer em algum lugar muito além dali. Sempre se sentira chamado pela aventura, pela necessidade de fazer algo grandioso, que transcendesse o simples fato de ter nascido nobre e viver na opulência. Porém, agora, refletia se o preço por tudo isso valera a pena.
— Mais café, Vossa Graça?— perguntou Julian em sua postura cerimonial como mordomo.
— Não, obrigado. Onde Saga foi tão cedo?
— Foi cavalgar no parque. Disse que precisava se exercitar um pouco e depois trataria de alguns negócios.
Kanon suspirou. Se não estivesse cego, poderia acompanhar o irmão ou, talvez, ele não quisesse a sua companhia. Desde que haviam feito amor, Saga ficava ao seu lado, somente nos momentos em que faziam as refeições ou discutiam algum assunto. Após o leilão ter sido transferido, as oportunidades dos dois ficarem juntos se tornaram escassas e isso o entristecia.
O dia transcorreu monótono e solitário. Kanon voltou para o seu quarto e adormeceu. Poucas horas, mais tarde, batidas na porta o despertaram. Acordou com o coração disparado, achando que devia estar sonhando e se levantou da cama, tateando os objetos e móveis próximos a ela.
— Quem está aí? – disse esfregando os olhos.
— Sou eu. – respondeu Saga abrindo a porta. Ele tropeçou no tapete e quase caiu sobre o irmão.
Kanon sentiu o cheiro de conhaque em seu hálito.
— Esteve bebendo?
— Seu poder de observação, mesmo sem enxergar continua me impressionando. – disse o duque.
— Porque fez isso?
Saga desabou na cama do irmão.
— Porque sou um fraco, um sujeito deplorável! – disse ele tentando se levantar, mas o pé escorregou e ele caiu sobre a cama, novamente.
— O que está dizendo?
— Preciso de mais conhaque. Mande Julian trazer.
— Bebida é a última coisa de que você precisa. O que aconteceu, Saga? – perguntou Kanon e sua voz tinha um tom terno.
O gêmeo mais novo não podia enxergar, porém sentia a energia do corpo do irmão. Sabia que ele estava com o cabelo bagunçado, embora preso em um rabo de cavalo baixo, seu cachecol estava amarrotado e o colete semiaberto. A barba insinuava-se no belo rosto e, provavelmente, os olhos verdes estariam avermelhados.
— Fique aí e me conte o que aconteceu? – falou Kanon. – Vou pedir que Julian traga um café bem forte.
— Eu tive um sonho. Um sonho terrível em que eu renegava você e, em seguida, você morria em um lugar horrível e escuro. Foi tudo tão real, tão doloroso. Acordei com uma sensação de opressão no peito. – falou Saga levando a mão ao pescoço.
Kanon soltou o ar com força.
— Estou dando trabalho a você, por isso acaba tendo pesadelos por minha causa.
— Não! Não diga isso... Todo o tempo em que fui casado, eu tentei... juro que tentei esquecer o que sinto por você. De certa forma eu o reneguei para poder viver uma vida que a sociedade considera correta e normal. Mas, você sempre esteve em meus pensamentos e agora, eu farei de tudo para não perdê-lo.
Saga parecia mais novo e um tanto mais vulnerável da forma como estava posicionado na cama. Mesmo sem vê-lo, Kanon sabia que seus braços se abriam em plena entrega e que ele o fitava com o mesmo amor que sentia. Ele chegou mais perto da cama e Saga moveu-se, trazendo-o para cima de seu corpo. Os dois ficaram peito com peito, coxa com coxa...
— Eu nunca mais vou renegá-lo... Nunca mais! – disse Saga e lágrimas escorreram dos seus olhos.
Os botões do paletó dele lhe apertavam a lateral do tronco. Kanon sentiu a corrente do relógio de bolso. O queixo áspero se esfregou em seu rosto, enquanto o cheiro do conhaque e o salgado das lágrimas misturaram-se com os sentimentos que ambos já não escondiam de si mesmos.
— Eu te amo, Saga... Mas não desejo que se prejudique por minha causa. Já causei transtornos demais.
— Você é a pessoa que eu mais amo, neste mundo, Kanon. Jamais me deixe... Jamais. – disse o duque e os dois permaneceram abraçados em uma cumplicidade que se estabelecia além do desejo e além do tempo...
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Defteros grunhia e puxava as correntes. As paredes úmidas testemunhavam sua agonia, enquanto Saori, apenas orava. Apesar de ser alimentada, ela comia pouco e já sentia a fraqueza tomar conta de seu corpo. Aquela prisão escura e deprimente a fazia ter vontade de chorar, mas ela se segurava e rezava para ser encontrada.
Quanto mais se aproximava do dia, mais a natureza demoníaca dos gêmeos os fazia sentir sede de sangue e a proximidade com o selo da maldição só aumentava-lhes o tormento.
Aspros pensava em tirar Saori da Abadia, até o dia da cerimônia, mas isso constituía um risco. Talvez pudesse encontrar outro lugar. Um lugar que fosse bem afastado e permitisse que a escondesse. Entretanto, agora devia preocupar-se com outras coisas. Sem o bispo Tatsumi, tornara-se necessário ser visto pelos fiéis. Andou pelos corredores escuros até chegar ao altar da abadia, onde rezaria a missa ao final da tarde. Que ironia do destino... Maculado pelo sopro do demônio e,ainda assim, seria ele quem conduziria a cerimônia religiosa que aquelas pessoas com seus pecados patéticos buscavam como redenção.
— Padre Aspros.
A voz feminina o fez voltar-se para a entrada da Abadia. Ele fez um rápido sinal da cruz e foi até a freira que o chamara.
— Sim, Madre superiora. O que posso fazer para ajudá-la? – disse ele cuidando o tom de voz.
— Precisamos conversar. – disse Hilda.
— Quer se confessar? – perguntou ele.
Hilda fitou-o, sentindo um estranho formigamento no corpo. Era como se aquele homem tivesse uma escuridão em volta de si. No entanto, diante dos acontecimentos, ela precisava conversar.
— Não, vim falar sobre outro assunto. – disse ela olhando para o altar onde a imagem da cruz parecia se agigantar.
— E que assunto seria, Madre? – os olhos de Aspros foram ficando avermelhados e o tom de voz também mudou.
Hilda permanecia com os olhos fixos na cruz, como se estivesse buscando forças naquele símbolo sagrado.
Observando-a, Aspros não esperara que a freira fosse tomar a iniciativa de tocar no assunto sobre os últimos acontecimentos. Podia ler, não só a mente dela, mas a linguagem corporal pouco à vontade com o hábito e o lugar. Sentiu o pulsar do sangue dela, o calor do corpo, a forma como ela respirava... Controle-se! Disse para si mesmo.
Sentindo um desconforto na nuca, Hilda voltou-se para o padre. De repente, pareceu confusa, as imagens e ideias se chocando em sua mente.
— A-Acho que... devo deixar para outra oportunidade. Não me sinto muito bem, desculpe incomodá-lo. – disse ela.
— Tudo bem, Madre. Estarei aqui quando se sentir melhor. – falou Aspros e Hilda sentiu, novamente, aquele formigamento estranho.
No fundo da abadia, Shura estava ajoelhado, olhando para o altar, sem dar-se conta dos dois bem à frente de si. Angustiado e confuso, ele fora até a abadia rezar um pouco e tentar compreender as mudanças em sua vida.
Ele não percebeu quando Hilda passou apressada, pelos bancos de madeira. Porém, quando Aspros vinha, em sua direção, Shura sentiu seu corpo todo vibrar. Fiéis foram entrando na abadia e aquela vibração foi se diluindo, ao mesmo tempo em que seus sentidos pareciam expandidos. O suor de um homem que parecia nervoso, o perfume intenso e doce de uma senhora idosa, o cheiro da pele de um bebê, o hálito de conhaque de um bêbado...
— Deus!— murmurou para si mesmo, quando uma corrente elétrica percorreu seu corpo com uma violência dolorosa, fazendo sua cabeça latejar.
Aspros abriu uma pequena porta que dava para a sacristia, a fim de colocar a estola e então presidir a missa. Neste exato momento, Shura deixou a abadia sob o olhar reprovador de algumas pessoas.
Quando desceu os degraus, desconectando-se do lugar, o médico pensou que seu corpo voltaria ao normal, mas não... Mendigos, vendedores, ladrões de carteira e panfleteiros agiam, conforme, suas necessidades, exalando, cada um, um cheiro específico que ele não desejava sentir, mas não tinha escolha.
Ao ver um garoto sujo cujo cachorro pulguento lambia suas feridas, ele enfiou a mão no bolso, retirou algumas moedas e deu-as à criança, mesmo sabendo que ela pertencia a uma gangue que roubava os transeuntes. Então, após receber um sorriso desdentado e desviar de uma pequena multidão fedorenta de mãos estendidas, decidiu que precisava, urgentemente, de uma garrafa de conhaque.
— Você vai sobreviver.
Antes mesmo que se virasse, ele reconheceu a voz e o cheiro. Deus! Pelo menos ele exalava um aroma inebriante de rosas junto de uma pele limpa.
— Não precisa ficar me seguindo. – falou Shura com aspereza.
— Estou neste caminho bem antes de você. Sua mãe é uma mulher formidável e nós costumamos ajudar uns aos outros. – respondeu Afrodite sem se abalar com o tom agressivo do médico.
— Minha mãe age como se você fosse um deus. Tudo isso ainda parece loucura.
— Eu sei, por isso estou disposto a ajudá-lo. Esta cidade vai enlouquecê-lo se não aprender a lidar com seus sentidos. A consciência deles pode sobrecarregá-lo, exatamente como está acontecendo agora.
Shura encarou Afrodite, os olhos azuis do loiro acalmando-o, como se tivesse bebido láudano.
— Muito bem, senhor Afrodite. Beba comigo e me explique o que é, especificamente, ser um Ceifador de Aton.
Afrodite sorriu.
— Será um prazer, doutor Shura.
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— A senhora voltou!
O grito de felicidade ecoou pelas paredes mal pintadas do orfanato e, antes que Hilda esboçasse um gesto, Lívia abraçou-lhe o pescoço e apertou o corpinho junto ao dela.
Desacostumada de gestos de afeto e ainda atordoada pelo encontro com o padre Aspros, Hilda foi surpreendida, mas aceitou o abraço da filha.
A Abadessa fechou os olhos, envolveu-a em seus braços, afundou o queixo em seus cachos loiros e inalou seu perfume. Era tão gostoso... era o cheirinho de sua filha!
— Perdão! – disse a menina se afastando, logo em seguida.
— Não há o que perdoar, eu... Eu vim vê-la e...
— A senhora veio me ver? E a irmã Saori?
Hilda limpou a garganta, não tinha pensado no que dizer à menina quando saiu da abadia e viera direto ao orfanato. Sentira uma angústia tão grande que pensara de imediato na menina.
— A irmã Saori foi... Ela está ocupada e não pode vir. – mentiu a abadessa.
— Então venha, vou lhe mostrar o jardim! – disse a menina pegando-a pela mão.
Hilda foi, deixando-se contagiar pela alegria infantil. Pelo menos, ali, podia ficar perto da filha e longe das atrocidades que se somavam uma após a outra.
— Sabe, esta noite tive um sonho. – falou a menina com as bochechas coradas.
— Um sonho? Quer me contar? – insistiu Hilda.
— Não sei se a senhora vai gostar...
— Porque acha isso?
— Porque no sonho, a senhora era a minha mãe.
Lágrimas invadiram os olhos claros de Hilda. Ela abraçou a menina com força, quase fazendo-a ofegar.
— Deus seja louvado... – murmurou ela. – O seu sonho... Se ele fosse verdadeiro, Lívia? Você gostaria que eu fosse sua mãe?
O coração da menina disparou e ela olhou com os olhos arregalados.
— A s-senhora quer ser minha mãe? Quer me adotar?
Hilda olhou-a bem dentro dos olhos. As duas estavam entre roseiras brancas e um perfume intenso dominava aquele lugar quase caindo aos pedaços.
— Bem, eu tenho algo a contar. É uma longa história... Quer ouvir?
Lívia ouviu tudo com atenção. Às vezes mordia o lábio inferior e apertava a mão de Hilda que segurava a sua com ternura. Quando o relato terminou, ela abraçou a abadessa com a mesma força que fora abraçada.
— Como vai ser agora? A senhora é freira.
— Escute com atenção. Eu vou deixar o hábito, mas tem que guardar segredo. Seu pai e eu vamos cuidar de você.
A menina sorriu, mas logo o sorriso morreu.
— O que foi? – perguntou Hilda.
— As outras crianças... Eu tenho cuidado delas. Quem fará isso, quando eu me for?
Admirada pela solidariedade e maturidade da menina, Hilda a segurou pelos ombros e fitou-a bem dentro dos olhos.
— Nós daremos um jeito.
Perante a resposta da mãe, Lívia voltou a sorrir.
— Venha, quero que as conheça. – disse ela e, pela primeira vez em dias, Hilda sentiu uma alegria genuína, apesar de tudo o que vinha acontecendo consigo.
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Camus e Seiya andaram pelo aglomerado de ruazinhas e becos sem saída, onde as construções se amontoavam precariamente umas sobre as outras. O pouco de luz que penetrava entre os tetos inclinados era filtrado pela fumaça cáustica de carvão expelido pelas chaminés.
Detrás dos edifícios, um labirinto de escadas podres e plataformas precárias mostrava outra face de Londres, um retrato sórdido da diferença entre as classes.
— Ninguém viu nada. – falou Seiya, levando a mão aos cabelos negros.
— Eu não espero que tenham visto algo. – disse Camus.
Levando a mão ao nariz e cuidando para não pisar nos detritos expostos a céu aberto, Seiya olhou para o ruivo com uma expressão de surpresa.
— Como assim? Então porque estamos refazendo a rota de onde as vítimas foram abandonadas?
— Por que o local onde cada uma foi deixada nos dará informações sobre o Círculo do Duat.— respondeu Camus.
— Não compreendo.
— As primeiras vítimas, a prostituta e a compulsiva por comida foram desovadas em locais como esse, a representação do submundo. A terceira e a quarta, em locais considerados mais nobres, mas ainda ruas por onde transitam pessoas, ou seja, o mundo dos vivos. A quinta e a sexta, especificamente em frente à delegacia, o local da lei dos homens. O que significa que a sétima vítima, aquela cuja inocência fechará o círculo, só poder ser sacrificada e deixada em um local sagrado.
— Um local sagrado? Como uma igreja? – questionou Seiya.
— Sim, Saori deve ter sido levada para uma igreja. – respondeu Camus.
— Mas como vamos saber em qual? Existem muitas igrejas em Londres, como vamos verificar em todas e chegar a tempo? – falou o jovem com uma expressão atormentada.
Camus pensou, analisou e chegou à resposta.
— Não será em qualquer igreja. Será aquela cuja arquitetura lembre a grandiosidade e solidez existente no Egito. E, em Londres, a igreja que corresponde a essa descrição é a Abadia de Westminster. É lá que nós a encontremos.
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Milo Stephanopoulos interrompeu o ato de beber um gole de conhaque ao olhar para o espelho que majestosamente refletia sua imagem. A porta da biblioteca, na qual estava sentado, enquanto refletia, abriu-se e fechou-se abruptamente. Um aroma pungente de sândalo e mirra encheu o cômodo. Ele sorriu.
— Estou cansado de dançar a sua melodia, Imnotep. – declarou o vidente.
A imagem do Alto sacerdote revelou-se dentro do espelho.
— Nossa aliança trouxe benefícios para ambos, grego.
— Não quero que nada de mal aconteça ao Camus. Ele acaba de descobrir onde está o Selo da maldição. Tanto tu, quanto o deus ao qual ele está ligado, precisam de nós e eu quero saber o porquê.
Imnotep sorriu, o espelho atraiu o olhar de Milo para além dele, uma paisagem desértica que ele nunca visitara fisicamente, mas sua alma conhecia muito bem.
A areia formava montes altos e dourados, refletindo a luz intensa do sol e o vermelho sanguíneo da lua. Ambos os astros pareciam contrapor-se como inimigos, mas também complementarem-se como amantes.
Rostos e corpos dançavam entre o humano e o animal, o vento lhes soprava vida e movimento, até virarem pó e água, céu e deserto. A sincronia era infinita e de uma beleza trágica. As construções gigantescas e sólidas espiralavam dentro de estrelas.
Então a areia virou homem, mulher, criança e deus. Feições se sucederam uma após a outra, até a luz brilhar e cegar fazendo tudo desaparecer.
—Ele ousou desafiar os deuses e trazer unidade ao Egito. Fui seu conselheiro, seu sacerdote e seu amante. Akhenaton desafiou a história e se tornou o deus dos deuses. Prometi protegê-lo e. A ambição do vizir trouxe guerra, morte e uma maldição que, em parte, foi conjurada por mim. Uni nossos destinos na vida e na morte, porém fui arrogante e paguei o preço, falhei com meu rei e meu deus. Então, busquei na teia do tempo, poderes que me permitissem restaurar o sonho daquele que amei. Fui agraciado com um aliado divino e tornei-me seu servo por livre arbítrio. Loki me ajudará a destruir Harakhty para sempre! Ele jamais voltará a este mundo ou a qualquer outro.
Milo franziu o cenho.
— Por que precisa de nós? Não pode, simplesmente, unir-se à Loki e acabar com tudo isso?
— Será preciso um grande poder para impedi-lo e é por isso que eu o escolhi, grego. Nossa relação não é de uma simples possessão, tu possuis o sangue da minha linhagem e tua vidência é capaz de transcender e manipular o tempo. Unindo teu poder ao do filho de Loki, nós enviaremos o maldito para o Duat e ele jamais poderá retornar.
— Filho? Camus é filho de Loki?
Imnotep sorriu.
— Sim, grego, teu amante é um semideus.
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