AMALDIÇOADOS!
18 Enquanto a Morte não vem....
Notas iniciais

Hilda respirou fundo para sentir o aroma de rosas que pertenciam ao pequeno jardim que sua filha cuidava com muito amor, naquele orfanato. Havia conhecido as crianças, a maioria meninas e vindas de lares desfeitos pela pobreza extrema. As maiores haviam escapado de ser vendidas para bordéis, enquanto as pequenas e rápidas evitaram o destino de ser exploradas como batedoras de carteira ou limpadoras de chaminé.
— A senhora volta amanhã? – perguntou Lívia.
— Sim, eu volto. – respondeu a abadessa.
— Desculpa eu perguntar... – cochichou a menina. – Como pretende deixar o hábito? O meu pai é muito rico?
Com um sorriso tenso, Hilda tocou o rosto da filha.
— Eu ainda não tenho todas as respostas, mas quero que saiba que, agora que eu a encontrei, nunca mais ficaremos separadas.
— Se meu pai for rico o suficiente, podemos transformar este lugar em um internato, com preceptoras e cuidadoras até as meninas terem idade para casar ou... fazer outra coisa.
Olhando dentro dos olhinhos brilhantes e vivos, Hilda sorriu.
— É uma ideia excelente, mas veremos isso depois. Agora eu devo ir.
— Mamãe, quer dizer, abadessa. – falou Lívia com o rosto corado.
O simples nome dito de forma espontânea fez Hilda sentir uma emoção ainda mais forte.
— Minha menina... – disse ela abraçando-a.
— Desculpe, eu não devia ter lhe chamado assim. Eu posso lhe trazer problemas. – disse Lívia.
— Não tem importância. – falou Hilda. – Não sabe a felicidade que me proporcionou me chamando de mãe.
A menina abraçou-a, ainda mais e sussurrou baixinho:
— Eu te amo, mamãe...
— Eu também te amo, meu amor... – respondeu a abadessa e, de repente, compreendeu realmente, o que era sentir amor.
— A irmã Saori já sabe sobre mim?
A pergunta direta fez a abadessa lembrar-se da cena horrível que acontecera e também da preocupação com a segurança da noviça.
— Sim, ela sabe.
A menina sorriu.
— Todas as crianças amam a irmã Saori. Ela bem que podia virar preceptora, não acha?
Sem saber o que dizer, Hilda desconversou:
— Bem, você precisa voltar aos seus afazeres e eu, aos meus. Aguarde o meu contato, está bem?
— Sim, mamãe... – cochichou, novamente, a menina.
Hilda deixou o orfanato com o coração apertado, porém decidido. Precisava ajudar a encontrar Saori. Talvez, devesse procurar o padre Aspros, novamente. Quando o encontrara estava muito abalada. Quem sabe, agora, o religioso com fama de ser um dos melhores e mais importante exorcista do vaticano, pudesse ajudá-la.
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O Blackburn Rovers era um clube elegante e fechado para cavalheiros. Grandes salões decorados em tons discretos de bege e creme, mesas para o jogo ou, simplesmente, para uma bebida faziam do lugar um refúgio perfeito para uma conversa. Shura olhou em volta, suas obrigações como médico legista nunca o tinham levado a um lugar assim. No entanto, Afrodite parecia muito à vontade, como se pertencesse àquele lugar, embora fosse estrangeiro.
— Pelo que vejo, nunca esteve em um lugar como este. – disse o loiro.
— Não, nunca estive. Mas, você parece bastante familiarizado. – respondeu o médico.
Enquanto falavam em tom baixo, um homem baixo trajando uma casaca preta contrastando com a camisa impecavelmente branca se aproximou para recebê-los.
— Senhores, sejam bem-vindos. – disse ele com uma expressão séria, embora o tom de voz fosse amável.
— Gostaríamos de uma mesa privada. – falou Afrodite com um sorriso.
O homem olhou para ambos e piscou, surpreso. Em seguida, pigarreou e disse em tom baixo:
— Por favor, me acompanhem.
Shura olhou para Afrodite que continuava tão à vontade como se aquela situação fosse corriqueira. A sedução natural e a beleza daquele homem eram capazes de romper com a tradicional fleuma inglesa. Inesperadamente, começou a compreender a admiração de sua mãe por ele.
Notando a hesitação de Shura, os brilhantes olhos azuis de Afrodite o fitaram com intensidade.
—Está arrependido de ter me convidado?
— Claro que não! Apenas...
— Apenas o quê?
Uma expressão que misturava admiração e desejo flamejou nos olhos escuros de Shura.
— Sua beleza é uma arma poderosa.
— Arma?
Pela primeira vez, Shura sorriu e se descobriu dolorosamente excitado e envolvido pelo olhar inquisidor e pelo discreto rubor na face de Afrodite.
— Perdão, me expressei mal. Uma arma é uma comparação grosseira, mas... foi o que me ocorreu quando percebi o que é capaz de fazer com um simples sorriso.
— Bem, vou tomar como um elogio.
Sentaram-se em uma mesa de canto com vista para o porto. Ao longe, podia-se ouvir um violino e logo, ambos foram servidos com uma taça de conhaque.
— Então, o que me espera nessa Lua de sangue, senhor Afrodite?
Os olhos cristalinos pareceram adquirir um brilho que misturava azul e prata.
— A sua herança, doutor Shura. E, com ela, seu poder pessoal.
Shura suspirou.
— Sou um médico, o único poder de que preciso é conhecimento e habilidade para vencer a morte ou, pelo menos, desmascará-la e dar paz àqueles tocados, violentamente, por ela.
Afrodite tocou a mão do médico.
— Ser um Ceifador de Aton nos mostra outra dimensão da morte. Ela não é um fim como todos pensam.
O toque suave fez Shura estremecer e, de repente, seu sangue circulou depressa, irrigando certos lugares que o deixaram desconfortável. Afrodite sentiu o desejo do médico em si, também, e retraiu o toque. De repente, as palavras se tornaram desnecessárias e a natureza instintiva do médico se fez presente na energia que se formava entre eles, despertando sensações que o guerreiro mantivera adormecidas por séculos e que quase imploravam para que ele cedesse.
Não, não devo! Disse Afrodite para si mesmo, porém antes que esboçasse qualquer reação, foi Shura quem tomou uma atitude.
— Eu vivo cercado pela morte, mas não é isso que me preocupa neste momento. – disse o médico colocando a mão sobre a dele.
— Doutor, eu acho melhor...
— Não negue o que está acontecendo entre nós. Meu corpo reage ao seu, meus pensamentos se vão quando olho em seus olhos. Por Deus, senhor Afrodite, isso me enlouquece tanto ou mais que saber desta maldita herança!
Um suspiro suave escapou dos lábios carnudos e vermelhos.
— O senhor já teve um amante?
— Não. – confessou Shura. – Nunca me senti assim com outra pessoa.
— Eu tive um companheiro, ele enlouqueceu sob a magia negra do Vizir e eu tive que matá-lo. Pode imaginar a sensação de ter que matar aquele que ama? Eu só me mantive vivo, porque pretendo vingá-lo.
Shura franziu o cenho.
— Eu... sinto muito.
— Nunca mais tive outro.
— E você ainda o ama, após todos esses séculos?
— Eu o amarei para sempre. – respondeu Afrodite, sentindo as próprias palavras açoitá-lo com a culpa, porque mesmo que estivesse negando, o homem a sua frente mexia com suas entranhas e com suas emoções.
A informação dita daquela forma fez Shura manter o vinco entre as sobrancelhas e terminar de beber o conhaque. O líquido desceu quente e áspero, mas ele não se importou.
— Perdoe-me, fui inconveniente. Acho melhor irmos embora, mas cada um para o seu destino. – disse o médico se levantando.
— Prometi a sua mãe, ensiná-lo e vou fazê-lo. O que sente é, apenas, a natureza se pronunciando. Logo encontrará alguém para amar e então saberá do que estou falando.
O médico não respondeu, sentia uma raiva crescente e um ciúme descabido de um morto. Disse para si mesmo que aquilo tudo era loucura. Como podia estar apaixonado por um homem que mal conhecia? Que desejo descabido era aquele?
Percebendo a luta interna de Shura, Afrodite se obrigou a utilizar-se da força e altivez de sua linhagem Vilka.
— Aprender a lidar com sua natureza é imprescindível para a sua segurança e a de todos. Deixemos as questões menos importantes de lado. Precisa honrar sua herança.
O tom de voz firme, apesar do timbre suave, fez Shura engolir seus questionamentos.
— Tem razão, senhor Afrodite. Sou um homem, não um rapazinho escravo de seus hormônios.
O loiro sorriu tenso, mas também aliviado. Por um instante, temeu que o médico se afastasse.
— Podemos exercitar seus sentidos antes da Lua de Sangue. Hoje à noite, na segunda vigília iremos ao parque e o senhor compreenderá melhor.
— Segunda vigília?
— Oh, perdão. Resquícios de uma cultura secular. A segunda vigília corresponde ao horário da meia-noite até às três da madrugada. Portanto, é melhor descansar um pouco, doutor.
Shura assentiu e ambos deixaram o clube. O trajeto até sua casa foi feito em silêncio. Na carruagem, o médico refletia sobre os últimos acontecimentos e, quando se deu por conta, já estava à porta de sua casa.
Ao adentrar a sala, Shura percebeu que estava sozinho. Sua mãe deveria ter saído, então foi até o quarto e desabou na cama. Sentia-se exausto, mesmo com o torpor que seu corpo experimentava provocado pelo conhaque. Fechou os olhos, dando-se conta que não dormia bem há dias. Eram, apenas, duas ou três horas de sono, depois se levantava e tornava a analisar os casos horrendos cuja explicação fugia de qualquer lógica e agora, ele compreendia isso.
A escuridão apossou-se de si e ele apagou...
Os olhos de Shura eram os de um homem faminto e admirado da beleza alva do corpo à sua frente.
— Você está aqui... Você é tão belo... – sussurrou ele tocando os lábios entreabertos de Afrodite com os dedos.
O guerreiro sentiu o rosto quente e estremeceu ante ao toque e ao elogio e então sentiu os lábios de Shura tocar os seus bem devagar, um beijo lento e profundo como se o médico estivesse fazendo amor com sua boca, enquanto as mãos acariciavam os seus mamilos, tornando-os mais rígidos.
Entre gemidos roucos, o loiro inverteu as posições e foi a vez dele beijar o médico, depois descer a boca pelo ventre rijo, roçando os lábios até colocar a língua no umbigo e chegar ao falo lambendo-o, demoradamente, enquanto suas mãos alisavam as coxas torneadas e as nádegas redondas e rijas.
Ao sentir o calor da boca do amante em seu membro, da sensação da língua acariciando-o, dos dedos adentrando seu corpo, Shura gemeu rouco e ergueu os quadris, arfando e segurando os cabelos fartos de Afrodite, atraindo-o para si. Seus lábios tremiam e seus olhos estavam inebriados e febris de êxtase.
O loiro chupava a glande, enquanto sua mão direita acariciava a coxa ao lado e a sua outra mão segurava a extensão do falo, puxando-o para baixo para aprofundá-lo em sua boca, sentindo o quadril do amante se mover e fazer amor com seus lábios...
Deliciava-se com os gemidos de Shura passando a língua, sentindo o gosto e a textura, reconhecendo a forma rija e pulsante, e aos poucos ia aprofundando a felação até chegar ao fundo da garganta.
Em pouco tempo, na voragem que o consumia, Shura gemeu abafado, gozando na boca de Afrodite que engoliu sugando bem a glande e eliminando qualquer gota que tivesse exposta. O loiro sorriu malicioso e Shura sentiu o próprio membro latejar e tocou em si mesmo, subindo e descendo a mão de forma provocante.
Atacou a boca do loiro e sorveu da saliva e do próprio prazer, deixando-se inundar pela seiva da vida e sentir a língua de Afrodite enroscar-se na sua, novamente. Tomado pela luxúria, lambeu a boca, o queixo e o peito de Afrodite, esfregando-se no amante, como se seu corpo adquirisse vontade própria e necessitasse de algo mais, um desejo urgente e selvagem de fundir-se a ele, de sentir-se dentro dele.
Passou um braço em volta dele, puxando-o para mais perto e apertou a boca contra o rosto do loiro e deslizou até tomar-lhe, novamente, os lábios e beber da língua ávida na sua...
Shura compreendeu e afastou as pernas trêmulas de Afrodite, mantendo a conexão do olhar e deslizou para o aconchego cálido daqueles quadris. Ergueu-se, enquanto Afrodite se apertava contra ele, e ardorosamente se empurrou para o interior do corpo dele como se estivesse possuído.
Ofegaram juntos quando a estocada provocou prazer e dor em cada célula e ficaram com os olhos fechados em saborosa cumplicidade, até que a pulsação da cavidade invadida e do falo que adentrava, estivessem em perfeita sintonia.
Shura se afastava e mergulhava repetidamente dentro do corpo de Afrodite ouvindo o ritmo dos gemidos, guiado pelas mãos, boca, olhar e o sibilo do ar entre seus dentes...
O loiro sentia-se como se fosse se desfazer cada vez que Shura inundava-o com suas estocadas lentas e profundas, o corpo agitando-se ao sentir um prazer tão intenso e uma ânsia deliciosa que preenchia seu corpo de tormento e tremor.
O prazer se acumulava em ambos os corpos até não haver lugar para mais nada e continuava crescendo, transbordando de suas peles para aquele momento único do orgasmo... Shura continuava movendo-se para dentro de Afrodite, sentindo-o arder e seu falo roçar-lhe a pele, túrgido, pulsante e quente. As mãos fortes e macias apertando o corpo forte e imprimindo marcas na pele, sua respiração alterada e seu olhar úmido depositando-se, totalmente, sobre o amante...
Os gemidos e ofegos se intensificaram, os movimentos dos quadris entraram no ritmo forte de avanço e recuo, chocando-se com força. Shura sentia seu falo pulsar e desejar tocar Afrodite ainda mais fundo, enquanto o loiro projetava-se de encontro ao seu corpo, acolhendo-o, desejando ser um só com ele. As pupilas de ambos ficaram negras e dilatadas, as unhas cravaram-se, sincrônicas na carne um do outro...
— S-Shura... — gemeu Afrodite sentindo-se envolver pelos tremores do gozo, seus olhos em agonia e sua boca abrindo-se para sorver o ar.
— Eu... Eu t-te amo! – disse Shura também sentindo o orgasmo chegando, os dentes cerrados, a pele em fogo.
O corpo de Afrodite moveu-se convulso, seus lábios se abriram e sua cabeça foi lançada para trás, enquanto Shura também sentia o corpo retesar e o gozo cavalgá-lo como se estivesse possuído pelo próprio Osíris. Ele puxou o loiro para mais perto e ofereceu seus lábios ao guerreiro. Beijaram-se e suspiraram de prazer, enquanto or tremores do orgasmo ainda os sacudiam e mesmo depois, as bocas bailavam juntas até que o ar ficasse quente e rarefeito, obrigando-os a afastar os lábios para respirar de novo. E então...
— Shura...
— M-Mãe? – falou Shura percebendo-se molhado de suor e algo mais...
Lara vislumbrou a roupa colada no corpo suado do filho e seus sentidos de Vilka, perceberam o aroma do sêmen no ar. Para ela, o instinto sexual não era vergonhoso e sim natural, embora não esperasse encontrar aquela cena...
— Pensei ter ouvido... Bem, não importa. Vou preparar o jantar. – disse ela fechando a porta de imediato.
Envergonhado, Shura levou a mão aos cabelos e continuou deitado. Aquele sonho tinha sido muito real, ele sentira prazer e tivera um orgasmo. O que significava tudo aquilo? Agora, tudo parecia mais intenso, mais vivo e mais real. Inferno, como lidaria com este desejo desenfreado por alguém que amava outro, mesmo este outro estando morto?
As questões eram muitas, a maioria sem respostas imediatas ou satisfatórias. Haveria de lidar com tudo aquilo ou seria derrotado pelo poder ancestral que possuía.
Uma coisa de cada vez, Shura. Repetiu para si mesmo, enquanto pensava como enfrentar sua mãe, após aquela cena deplorável...
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Milo estava tão absorto com aquela revelação que não notou quando a lenha na lareira crepitou espalhando fagulhas pela sala. Esquecera-se de colocar a tela na frente e agora, brasas cintilantes pululavam no tapete Aubusson. Afrodite chegara, no exato instante e, com uma rapidez própria de um guerreiro, avançou e pisoteou as pequenas chamas que se formaram, antes que danificassem por completo o tapete.
— O que aconteceu? – perguntou Afrodite.
— Nada. – respondeu Milo.
Um sorriso irônico aflorou nos lábios bem delineados do Vilka.
— Ah, então o senhor apenas deseja incendiar sua própria casa.
O vidente terminou de beber o conhaque, antes de decidir se compartilhava a informação que o deixara perplexo. Os olhos azuis de Afrodite se estreitaram e ele compreendeu que Milo enfrentava um dilema. Por um lado, o vidente cedia a Imnotep de forma consciente e voluntária. Porém, ele sabia que esta relação espiritual cobrava um preço.
— Perdoe-me, está me hospedando e não tenho o direito de questioná-lo ou constrangê-lo.
O tom de voz e a forma como Afrodite se comportou deu a Milo a chance de decidir.
— Sei quem és, Afrodite e o considero como um importante aliado. Sabes da minha ligação com Camus e o quanto é importante que desempenhemos nosso papel nesta questão. Só que... Bem, eu não esperava que o ruivo fosse filho do deus Loki.
Um lampejo do que poderia ser perplexidade extrema brilhou nos olhos de Afrodite, mas sumiu tão rápido que Milo admirou-lhe a serenidade.
— Todos temos nosso papel neste drama secular. Se pudermos contar com a ajuda do filho de um deus, melhor.
Milo sorriu e o Vilka também. Havia um bom entendimento entre eles e, o simples fato de Afrodite não manifestar reações exacerbadas o deixava aliviado.
— Acho que Camus desconhece sua origem. – disse o vidente com um suspiro.
— Isso pode vir a ser um problema.
— Eu sei, mas precisamos alertá-lo. Ele precisa saber do que é capaz.
— Vocês dois são íntimos, tenho certeza que achará um modo. Esta noite, também eu terei uma missão importante.
Foi a vez de Milo encará-lo.
— O médico?
— Sim, ele finalmente descobriu quem é.
— Como ele está?
— Está bem, mas precisa aprender a lidar com isso ou teremos problemas. Vilkas mestiços são raros e proibidos.
— Você não me parece perturbado com isso, quer dizer, não com o fato de ele ser mestiço.
— O doutor Shura é um homem honrado e eu pretendo ajudá-lo.
— Bem, então nós dois estaremos ocupados, logo mais.
Neste exato momento, Shina entrou, pálida e assoando o nariz num lenço de linho.
— Isso acabou de chegar... A-A-AAAtchimmm! Desculpem-me. – disse a jovem levando o lenço ao nariz e estendendo um envelope ao vidente.
Milo não precisou abrir para saber do que se tratava. Imagens de um subterrâneo e pessoas gritando povoou sua mente. O tal leilão ilegal mudara de dia e hora. Ele ocorreria, dali a um dia, nas galerias londrinas onde a pobreza e a marginalidade se tornavam parceiras. Aos poucos, ele vislumbrou a peça central do leilão, o manto egípcio que pertencera à rainha.
— Obrigado, Shina. Agora vá descansar, você não está nada bem.
Apesar da dor de garganta que estava sentindo, Shina não queria ser deixada de fora da aventura que imaginava.
— Eu vi o selo da carta. É sobre o leilão, não é? Eu gostaria muito de ir. – disse ela fazendo bico.
— Temo que não seja um lugar para uma dama. – falou Milo.
— Inferno! – praguejou a jovem.
Milo e Afrodite olharam-na com uma expressão de surpresa.
— O que foi? Nunca ouviram uma dama xingar?
O sarcasmo dela, unido ao olhar fulminante fez ambos sorrir, porém foi Milo quem falou:
— Preciso de você aqui para tomar conta das crianças, pois passarei um tempo fora. Confio em você e prometo recompensá-la.
Com uma mesura feita de má vontade e um movimento fluido, Shina deixou a sala. Milo fitou, mais uma vez o envelope fechado e inspirou fundo. Que este jogo das sombras comece e termine logo. Disse para si mesmo, enquanto se servia de uma taça de conhaque e oferecia uma à Afrodite.
— O que pretende fazer? – questionou o Vilka.
— O tempo está se esgotando, vou procurar Camus.
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A noviça Saori não conseguia se lembrar da última vez em que comera ou dormira. O lugar estava sempre escuro ou na penumbra. Não conseguia ver seus raptores, apenas ouvi-los. Um deles lhe deixava uma tigela com sopa e outra com água. Quando tinha de fazer suas necessidades, lhe era deixado um penico e depois recolhido de forma constrangedora para si.
Estava tomada pelo entorpecimento e tudo o que conseguia fazer era continuar orando. A escuridão, o ar fétido e úmido fazia com que perdesse a noção do tempo e a exaustão lhe nublava a visão.
Suas roupas e seu cabelo estavam sujos, até mesmo as suas mãos delicadas pareciam as de alguém que trabalhava na carvoaria. Oh, Deus... preciso achar um jeito de fugir. Pensava ela.
De vez em quando ouvia ruídos alternados de correntes e pingos d’água. Depois, ouviu vozes roucas discutindo algo. Tentou escutar, porém sua mente estava nublada e lenta. O cansaço físico e emocional pesava em seu corpo fragilizado pelo medo e pelas condições insalubres do lugar.
— Deixe-me sair, apenas mais esta noite! – gritou Defteros.
Aspros virou-se para o irmão acorrentado. A última vez que permitira tal ato, suas vidas foram ameaçadas e sua presença detectada. Não podia arriscar, só faltava um dia. Apenas um dia!
— Controle-se! Depois de amanhã nosso destino será mudado e teremos paz.
— Paz! Paz! Eu tenho sede!
— Nós beberemos do sangue do Escolhido e o sacrifício do Selo da maldição nos libertará. Aguente!
Defteros puxou as correntes com força e grunhiu como se estivesse sentindo dor. Aspros se aproximou dele, tomado de uma compaixão extrema. Seu irmão fora o mais afetado pela maldição, perdendo a sanidade após a possessão demoníaca. Há muito custo o convencera a engendrar um plano que os libertaria e agora faltava pouco para que acontecesse...
Sei que não sou digno, mas se merecer a vossa piedade peço que me conceda forças para ir até o fim. Rezou Aspros para o Deus que defendera quando ainda era um templário.
A expressão insana, unida às transformações que sofrera ao tornar-se um demônio vampiro eclipsava as feições, antes belas, de Defteros. Ele encarou Aspros com fúria.
— Você não entende! Não preciso da sua misericórdia, preciso de sangue!
Aspros não respondeu. Apenas olhou na direção onde deixara a noviça.
Defteros grunhiu, mais uma vez e puxou com força as correntes. Exasperado, Aspros suspirou e tomou uma decisão. Logo, a criatura gigantesca que Tatsumi havia protegido, estava acorrentada, próxima a Defteros.
— Sacie sua sede com este infeliz. – disse Aspros.
A criatura arregalou os olhos. Acostumada a obedecer, não sabia que, ao deixar-se acorrentar, seria o alimento de um vampiro demônio.
— M-Mas, m-meu s-senhor... – murmurou a criatura.
— Você é forte, ele não vai matá-lo. E, além disso, você tem uma missão para cumprir. – disse o padre.
Defteros arreganhou as presas, os olhos avermelhados com um brilho dourado acentuando a expressão demoníaca.
Um grito de terror irrompeu o ar e Saori, ao ouvi-lo, se permitiu chorar, derrotada pelo medo crescente que minava as suas forças...
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Os jardins da mansão estavam silenciosos. Sentado com as pernas cruzadas e os pés em oposição às coxas, Ikki meditava junto do irmão que também permanecia em silêncio e com os olhos fechados.
Da janela, Hyoga observava os dois quando as portas da sala de estar fecharam-se atrás dele. Por um tempo, o jovem observou o homem que mexia consigo e constatou que não conseguia lutar contra aquele sentimento forte e profundo que jamais experimentara em sua vida.
O silêncio, que tomara conta do recinto, foi rompido, apenas, por uma brisa vinda de fora e as batidas de Frankenstein.
— Entre. – disse o jovem.
O médico estava animado, havia um brilho estranho em seus olhos, mas Hyoga deixou passar.
— Já providenciei tudo. Amanhã levaremos sua mãe para o lugar apropriado.
Hyoga deu um meio sorriso e tornou a olhar para os jardins. Sabia que Ikki não aprovava nada daquilo e envolvê-lo seria um desrespeito às crenças do samurai.
— Não comente isso com mais ninguém. somente eu, você e Isaak estaremos envolvidos no processo.
— Seu guarda-costas, ele...
— Não vamos envolvê-lo nisso e nem o menino.
A expressão do médico mudou, mas Hyoga estava ocupado com outra cena para perceber. De repente, ele viu um homem gigantesco invadindo os jardins. Ikki de imediato pegou a katana que deixara junto ao corpo, enquanto Shun se colocava entre ele e a criatura.
— Mas que diabos significa isso? – exclamou Hyoga deixando a janela para ir até os jardins.
Frankenstein foi até a janela e ali permaneceu com os lábios cerrados e apertados formando uma linha fina. Em outros tempos, ele teria seguido o jovem, mas neste exato momento, ele apenas deixou escapar um leve sorriso e o ar da sala pareceu ficar denso e frio...
Nos jardins, Ikki olhava feio para Shun que continuava entre ele e aquela criatura gigantesca. A grama onde o grandalhão pisara, estava totalmente amassada, evidenciando o peso e a massa muscular que ele possuía.
— Afaste-se, Shun! – disse o samurai.
— Não, Ikki! O kami não é mau e ele está ferido! – gritou o menino.
Com um movimento rápido e fluído, Ikki colocou sua katana na bainha, novamente. Só então percebeu que a criatura, apesar de enorme e grotesca, parecia mais frágil que Shun e se aproximava do menino como se também fosse um.
— Calma, kami. O que aconteceu? Quem feriu você? — questionou Shun.
O grandalhão apenas chorava, sacudia a cabeça e tocava no pescoço onde se podia ver dois furos por onde escapava um filete de sangue.
Hyoga chegou no exato momento em que os três se olhavam com estranhamento e Ikki estendeu o braço, impedindo-o de se aproximar da criatura.
— Está tudo bem, ele não nos fará mal. – disse Hyoga recusando a proteção do samurai. – Venham, vamos levá-lo para dentro.
— Como podem saber disso? Quem é este... homem? – inquiriu o samurai.
— Ele era ajudante do bispo Tatsumi. – falou Shun.
Os olhos frios de Hyoga pousaram na criatura e depois se voltou para o samurai.
— Ele só tem tamanho.
Com um suspiro exasperado, Ikki concordou e Shun tomou a criatura pela mão. Juntos, os três adentraram a mansão sob o olhar afiado de Vítor Frankenstein.
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Embora seu pupilo estivesse pronto para invadir a abadia, Camus resolveu passar em sua casa e procurar o inspetor para dividir com ele suas conclusões sobre o caso da noviça. Como aprendera tão bem com seu pai adotivo, investir impetuosamente contra um inimigo, sem reconhecimento prévio apropriado e reforços, era tão perigoso quanto estúpido.
Enfiou uma pistola no cinto, antes de chamar uma carruagem de aluguel.
— Muito bem, vamos repassar tudo.
Seiya ouvia com atenção, porém, estava visivelmente nervoso e tenso. Pensava no que teriam feito com a doce Saori e, ao mesmo tempo em que se preocupava com o destino dela, também sentia culpa por constatar que sentia algo mais pela jovem. Lembrou-se do sorriso meigo, da força e destemor que ela demonstrara. Céus, estava apaixonado por uma religiosa!
— Senhor Camus?
— Sim, Seiya, o que foi?
— Acredita que chegaremos a tempo? Não é melhor irmos na frente e enviarmos uma mensagem ao inspetor?
Uma súbita expressão de compreensão cruzou o rosto de Camus. Ele reconheceu no olhar aflito, as emoções que ele também nutria por certo grego. Não era, apenas, preocupação, havia um sentimento profundo envolvido nas ações de seu pupilo.
— Todos esses crimes tem um fundamento religioso. Saori tem um papel chave nesta história e eles não farão nada com ela, antes do momento certo.
— E como saberemos que não é o momento?
— Ainda não aconteceu a Lua de sangue, esqueceu?
— Estou nervoso. – disse Seiya enfiando os dedos nos cabelos.
— Eu sei, mas deixe o nervosismo em seu lugar. Precisa focar, agora. Se quisermos salvar Saori, antes precisamos estar preparados.
— Sim, senhor.
A carruagem chamada começou a se mover lentamente. Os segundos se arrastaram em minutos e tanto Camus quanto Seiya haviam repassado o plano várias e várias vezes, ficando, totalmente, preparados para o confronto.
O ruivo olhou pela janela e viu que alguém montado à cavalo emparelhava com a carruagem. Com o cenho franzido, ordenou ao condutor que parasse para ver quem era o cavaleiro. Assim que a carruagem estancou, Camus abriu a porta e, para sua surpresa, o cavaleiro era alguém que ele conhecia muito bem.
— Olá, Camus. Antes de continuar a sua viagem, precisamos conversar.
Seiya olhou de um para o outro, enquanto Camus descia e fitava o cavaleiro com um misto de intimidade e impaciência.
— Não temos muito tempo, Milo. Isso, você já deve saber, não é mesmo?
O vidente sorriu.
— Sim, eu sei. Mas, o que tenho para contar a você fará a diferença no momento certo.
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