AMALDIÇOADOS!

2 Alianças profanas!


Notas iniciais
**♥**Lindas: MilaScorpions, DiteMasck , Angelique Obrigada por ler , comentar e dar aquele impulso para a fic!!! Logo, logo respondo os reviews de vocês. Bjs, amadas!

Uma lua maravilhosa e brilhante enfeitava o céu escuro como um grande disco de metal reluzente. Camus Lecrerc observava a noite, permitindo-se usufruir daquela beleza por alguns instantes, antes de retomar seus estudos, enquanto fumava um cigarro.

O clima úmido e chuvoso de Londres era bem diferente da sua terra natal e, de certo modo, oportunizava que se distanciasse do seu passado e focasse, apenas, no presente e nos artefatos egípcios que fora procurado para atestar sua veracidade. Eram, apenas, jarros e papiros contando histórias de quatro mil anos.

Um dos papiros contava sobre uma das esposas de Amenhotep III, a rainha Tiy que fora escolhida entre a plebe e que teria usado de magia para assassinar o marido e colocar seu filho Akhenaton no trono.

Histórias como aquela eram comuns no Egito Antigo e tornava aquela civilização um mistério. Assim como ele...

A Pedra de Roseta era o decodificador para todos aqueles séculos de informações, sendo algumas lendas, outras, fatos que podiam ser comprovados naqueles objetos a sua frente.

Leu e releu sobre o manto amaldiçoado que teria sido colocado sobre Amenhotep III e fez algumas anotações. No entanto, quando chegou à parte em que os hieróglifos contavam sobre o destino da rainha, Camus estremeceu.

Contava a história que Tiy, amada de Amenhotep, tinha dele total atenção e ele lhe dava presentes magníficos, como o lago artificial que mandara construir para que ela navegasse em segurança e a hora que desejasse. O faraó só tinha olhos para ela e ouvia sua opinião em todos os assuntos. No entanto, assim que seu filho Amenhotep IV completou quinze anos, Amenhotep III morreu misteriosamente, acometido por uma estranha febre cujos sacerdotes não conseguiram curar.

Logo que assumiu o trono, Amenhotep IV trocou seu nome para Akhenaton e, com isso, desagradou os sacerdotes de Amon.

Tiy que era devota de Aton e conselheira do filho foi acusada de tramar a morte do marido para que o filho ascendesse ao trono e fizesse profundas mudanças religiosas, acabando com o politeísmo e instituindo o culto do deus único Aton, a divindade representada pelo disco solar e uma das mais antigas do Egito.

Foi então, que o relato do filho da rainha chamou sua atenção...

As paredes da antecâmara estavam iluminadas pela luz do sol, Aton estaria com minha mãe no fim. Os rostos daqueles que um dia a veneravam, agora a olhavam com indiferença. No altar do grande deus Osíris, a balança de ouro refletia as imagens distorcidas dos sacerdotes de Amon, agora, meus inimigos e de minha mãe.

Ela sabia que seria acusada e proibiu-me de ajudá-la. “Permaneça firme”, ela disse. “Se esse é o preço para que tu reines e tragas prosperidade, força e poder ao Egito, eu aceito de bom grado, mesmo sendo inocente da acusação que me fazem”!

De repente, Camus visualizou a rainha vestindo uma túnica de linho branco. Tinha os pulsos amarrados como se fosse uma criminosa comum. A coroa de outro e os trajes, os anéis e braceletes lhe foram tirados. No entanto, Akhenaton permitiu que ela permanecesse com um manto magnífico tecido em fios de ouro com enfeites em lápis-lazúli e esmeraldas.

Ela ouviu a sentença de cabeça erguida.

Morte por execução! – gritou o Vizir.

Tiy olhou cada um dos sacerdotes nos olhos.

– Sou inocente e meu sangue exigirá vingança! Meu filho será protegido por Aton e todos aqueles que tramaram contra mim vagarão no Inferno de Set!

– Chega assassina! Executor, cumpra a sentença, agora!– gritou o Vizir.

O homem deu um passo à frente. Uma máscara de prata escondia seu rosto, deixando visível, apenas os olhos negros e frios. Ele ergueu o braço e manteve a espada sobre a cabeça por alguns instantes. Em seguida, a lâmina desceu, desferindo o golpe fatal.

Ante a visão, o coração de Camus disparou e sua boca secou. De repente, não era mais a rainha que enfrentava a morte e sim sua mãe.

Ele a via desenhar símbolos com seu próprio sangue e falar numa língua estranha, enquanto os gritos ecoavam pela neve.

Ved'ma! Ved'ma! (Bruxa! Bruxa!) – gritavam as vozes de homens e mulheres.

– Kamyu! Kamyu, viens ici! Rapide, mon fils! (Camus! Camus, venha aqui! Rápido, meu filho!) – gritou sua mãe com o sangue escorrendo da mão delicada.

Ele foi até ela com os olhos arregalados e o coração retumbando dentro do peito. Ela mantinha um pequeno punhal de prata junto ao corpo, a arma que permitira fazer verter o sangue rubro.

– Mére! (Mãe)- sussurrou com sua voz de menino.

Ela o beijou e abraçou. Disse algumas palavras carinhosas e depois traçou algo em sua testa, enquanto murmurava em uma língua antiga e desconhecida.

Loke hör min förfrågan! Spara mitt barn och behandla det som om det vore din egen! (Loki ouça o meu pedido! Salve o meu filho e cuide-o, como se fosse seu!)

Ainda lembrava a sensação do sangue quente nas mãos dela e do olhar aflito, porém forte e seguro...

Então, algo aconteceu. Ele sentiu que mãos invisíveis apertavam sua carne e o ar se tornou denso e quente. Depois, tudo evanesceu...

Sua infância transformou-se em um amontoado de lembranças fragmentadas que mais pareciam um sonho louco que não tinha fim e nem se encaixava na realidade visível.

O homem que viera aceitar como pai o encontrara perambulando pelas ruas frias da Sibéria. Era severo e corpulento, mas o criara como se fosse seu filho até o dia da sua morte.

Em seguida, viu-se adulto com um raro talento para desvendar fenômenos psíquicos e pesquisar civilizações perdidas no tempo.

E agora, ali estava ele, vivendo em Londres como uma das maiores autoridades em todo e qualquer fenômeno que exigia um olhar aguçado e uma mente sagaz.

Fim da história.

As imagens cessaram como por encanto e Camus levou os dedos às têmporas que latejavam. Respirou fundo e afastou-se dos pergaminhos sobre a escrivaninha. Tornou a olhar a lua majestosa e apagou o cigarro que tinha em mãos.

Assim que se levantou, ouviu batidas insistentes na porta. Era Seiya, seu aprendiz e parecia afobado, como sempre.

– O que houve? – perguntou Camus.

– O inspetor! O inspetor Dohko deseja vê-lo! Aconteceu outra morte na madrugada! O doutor Shura perguntou-me se o senhor estava ocupado e se poderia ir à delegacia pela manhã.

Camus franziu o cenho, mas nada disse. Olhou para o jovem e tratou de guardar os artefatos que estavam dispostos sobre a mesa.

– O senhor irá? – insistiu Seiya.

– Sim, eu irei. – respondeu Camus e sua voz continha um tom cansado.

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Alguém sacudia levemente o ombro de Milo. Ele despertou lentamente, os lábios se moldando num sorriso preguiçoso, como aqueles que surgem após uma noite de amor.

– Hummm... O que foi? – sussurrou o vidente.

– O duque está aí e deseja vê-lo. – disse Shina.

– O duque? Que horas são? – perguntou Milo sentando e passando a mão nos cabelos bagunçados.

– São sete horas. Parece que a negativa de ontem só atiçou a curiosidade dele... – falou Shina com um sorrisinho. – Vai recebê-lo?

– Vou. Apenas me dê um tempo para me vestir.

Shina assentiu e deixou-o sozinho. Milo olhou para o relógio, verificando que tinha dormido pouco e sonhado muito. Um sonho estranho e inquietante que parecia ter minado as suas forças...

Em seu sonho, um homem jovem estava sentado no centro da Grande pirâmide de Quéops em posição de lótus. Seu semblante estava calmo e ele parecia muito além daquele lugar. Um filete de luz lunar projetava-se sobre ele e as paredes de pedra pareciam sussurrar segredos que ultrapassavam a noite dos tempos...

O jovem fez algumas posições com os dedos das mãos e abriu os olhos. De imediato, seu corpo se elevou no ar e ele murmurou as frases sagradas... Uma bruma fria preencheu a câmara, envolvendo-o como se fossem um manto íntimo, sensual...

Um ser exótico apresentou-se a ele, vestindo uma estranha roupa que parecia fazer parte da sua pele e portando uma coroa com cornos. O rosto era cruelmente belo e seu olhar, tão frio como uma lâmina, apesar do brilho rubro que parecia dois orbes de fogo.

Ele sorria, mas seu sorriso parecia trazer promessas do mal...

Din djärvhet och mod är stora, dödligt! (Tua ousadia e coragem são grandes, mortal!)

Ditas as palavras, o estranho ser tomou o rosto do jovem nas mãos gigantescas e o beijou, fazendo-o estremecer como se estivesse convulsionando. Em seguida, correu os dedos pelo corpo esguio, desnudando-o por completo.

Acostumado ao calor abrasivo do Egito, o jovem sentiu sua pele doer com o frio das mãos habilidosas daquele ser. No entanto, quando os olhos faiscantes fitaram os seus, suas entranhas ferveram e ele desejou sentir, intimamente, aquele corpo fascinante e poderoso.

Como que lendo seu pensamento, o ser exibiu seu sexo ereto e pulsante. E como se o jovem nada pesasse, elevou-o com facilidade e o encaixou em seu falo, fazendo-o gritar.

Sem piedade, penetrou-o com fúria, rasgando-o por dentro, fazendo-o sangrar e sentir-se despedaçado. No entanto, apesar de toda a violência, o jovem experimentou um prazer sobrenatural, algo que ultrapassou os limites do seu corpo e o fez gemer e ofegar a cada estocada brutal.

Enquanto o ser continuava a penetrá-lo, o corpo enorme de uma cobra materializou-se ao redor dos dois e girou, criando espirais de fogo até que o ser regojizou-se nas entranhas do jovem, inundando-o com seu sêmen e grunhindo alto com o orgasmo.

A sensação do gozo dentro de si era insuportavelmente gelado e quente, ambos ao mesmo tempo, fazendo-o desfalecer...

Inconsciente, o jovem foi deixado pelo estranho ser no chão da câmara. Seu corpo machucado começou a recompor-se e a mão do ser o fez despertar com um simples gesto.

“Vakna, dödlig! Detta behagade guden Loke och för att ensam, kommer ditt liv att bibehållas trots mage att åberopa destão krafter bortom din förståelse. Från och med idag, när jag vill, jag kommer att ha det!” (Acorde mortal! Deste prazer ao deus Loki e só por isso, tua vida será mantida, apesar da ousadia de invocar forças que estão além da tua compreensão. A partir de hoje, sempre que desejar, eu virei possuí-lo!)

O jovem ainda estava estonteado com tudo aquilo, mas seus olhos encontraram os do deus e ele balbuciou:

– D-Deus... Loki... C-Como?

“Sou um deus nórdico, de muito além destas terras! Invocaste o futuro e nele, meu toque e presença! Nossos caminhos estavam destinados a se encontrar e só por isso, tu não foste destruído, Imnotep!”

– S-Sabe o... meu nome... E eu... eu entendo as vossas palavras...

O deus sorriu e, mais uma vez, o jovem experimentou o desejo...

“Teu corpo me pertence agora e sempre, mortal! Séculos são como a areia deste lugar! Não importa quando, nem como, voltaremos a nos encontrar!”

As últimas palavras ainda ressoavam em sua mente quando Shina o acordou. Costumava ter sonhos premonitórios desde criança, mas aquele não predizia o futuro e sim revelava o passado daquele que se apossava de si para a arte divinatória. O que significava tudo aquilo?

Suspirou, deixando a enorme cama de dossel com cortinas de musselina branca e vestiu uma camisa de mangas largas e uma calça marrom justa.

Refletiria sobre o sonho, mais tarde. Sentia-se cansado, estranhamente cansado...

Então, do nada, a imagem do ruivo que assistira ao seu show veio a sua mente. Os olhos dele, o tom de voz... Havia algo nele que o atraíra e repelira, ambas as sensações, ao mesmo tempo.

Lavou o rosto na bacia de prata e ajeitou os longos cabelos com as mãos. Àquela hora da manhã, não estava nem um pouco a fim de impressionar ninguém. Deixou os aposentos e foi receber o duque.

– Senhor Milo! Perdoe o incômodo de ter vindo há esta hora. – falou Saga ao ver o vidente adentrar a sala.

– Não há razão para que se desculpe. Em que posso lhe ser útil, Sua Graça?

– Por favor, dispense a formalidade e me chame de Saga. O que me trouxe aqui é que... bem, ao chegar em casa ontem, após o espetáculo, vi que tinha recebido uma carta de meu irmão. Ele disse estar bem, mas meu receio é que ele esteja escondendo algo. Gostaria de saber se o senhor pode dizer algo tocando na carta?

Milo sorriu, aceitando a xícara de chá que Shina oferecia aos dois.

– Deixe-me vê-la. – falou o vidente.

O duque estendeu o envelope. Assim que Milo tocou o papel, imagens rápidas e confusas lhe vieram à mente.

Escaravelhos, papiros e a lua cintilante, refletida na superfície de um lago. Parecia que milhares de diamantes azuis haviam sido espalhados pelos deuses... Descalço, um homem abria os braços e sorria para o ar da noite, até que uma sombra se abateu sobre ele e penetrou-lhe a boca e as narinas.

Assim como veio, a imagem se desfez e Milo entregou a carta ao duque com o cenho franzido.

– Seu irmão precisa de ajuda. Sugiro que o traga de volta à Londres, imediatamente.

Saga suspirou.

– Eu não sou vidente, mas senti a mesma coisa. Bem, obrigado pela sua gentileza. – disse o duque retirando a carteira do bolso.

Milo o interrompeu.

– Isto não é necessário.

– Eu interrompi o seu descanso. Faço questão de ressarci-lo.

– Já que dispensou a formalidade entre nós, Saga, digo que já estava me preparando para começar o dia. Foi um prazer ajudá-lo.

Saga era um homem bonito. Tinha olhos verdes e instigantes, parecendo os de um deus egípcio. Milo imaginou-o trajado em ouro e segurando um cetro, tendo ao lado seu irmão gêmeo. Malicioso, continuou compondo a história mental, vendo os dois em situação de intimidade. Às vezes, se via imaginando ou vendo cenas que deixariam os conservadores com os cabelos em pé e se divertia com isso.

– Espero que tudo de certo. – finalizou o vidente.

– Assim que voltar à Londres, faço questão que jante em minha casa. – falou o duque.

Milo assentiu e, em seguida, esparramou-se na poltrona. Shina veio ao seu encontro com uma bandeja cheia de pães e café.

– Tome. Servi o chá, porque mostra refinamento e os nobres apreciam. Mas, você precisa mesmo é de um café bem forte e puro.

O vidente sorriu.

– O que seria de mim sem você?

Shina corou.

– Ah, isso chegou logo depois do duque. – disse a jovem lhe estendendo um envelope.

Milo estranhou o envelope escuro, sem identificação. Abriu-o e, para sua surpresa, havia um bilhete escrito com uma caligrafia nervosa, porém requintada:

“O pecado de um é o pecado de todos! A morte receberá a sua rainha na noite da luxúria... Ninguém é inocente, ninguém será perdoado. Os sacrifícios continuarão até que o círculo se complete!”

Uma friagem imediata atingiu suas mãos e ele enxergou a escuridão. Uma náusea profunda o tomou e o cheiro de sangue inundou suas narinas, fazendo-o vacilar.

– Milo?

– Preciso ir até a delegacia, Shina. Por favor, providencie uma carruagem. – disse o vidente tomando a xícara de café na mão e sorvendo um gole para amenizar a sensação desagradável que se apossara de si.

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Dohko estava profundamente perturbado. Passara a noite na delegacia, refletindo sobre todos aqueles crimes hediondos que pareciam agulhas fincando em sua mente. No entanto, o último fora o pior de todos. Calvera, uma religiosa que sempre fizera o bem, protegera os mais fracos e não conseguira protege a si mesma. Que espécie de animal faria aquilo? Qual instinto bárbaro permanecia no ser humano para que fosse capaz de tal atrocidade?

– Inspetor. – a voz do policial parecia vir de longe, mas estava a poucos metros de si.

– Sim, Maxwell.

– O senhor Leclerc chegou.

– Mande- o entrar.

Camus adentrou a sala e deu um passo à frente para apertar a mão de Dohko e, neste meio tempo, Milo subia as escadas e também era conduzido à sala do inspetor. O sol fraco do início da manhã penetrou o cômodo naquele momento e banhou os cabelos do vidente com uma aura dourada.

O ruivo encontrou-lhe o olhar e lembrou-se do desconforto ao conhecê-lo. No entanto, com roupas normais, aquele homem evocava o velho clichê de “alguém devastadoramente belo e perigoso”, diferente do homem cuja performance assistira no teatro.

– Bom dia. Espero não estar interrompendo, mas recebi isso e achei que devia procurá-lo, inspetor. – disse o vidente.

Dohko franziu o cenho, aceitando o papel estendido por Milo.

– O que é isso?

– Uma carta sem remetente que me foi entregue esta manhã. Acredito que ela tem a ver com estes assassinatos brutais que tem acontecido por toda Londres, achei que deveria deixar esta carta com o senhor.

– Fez bem, senhor...

– Milo. Milo Stephanopoulos.

– Bem, senhor Milo. Agradeço a sua atitude. Pode se sentar? Vou pedir que tomem o seu depoimento.

O vidente assentiu, sentindo sobre si o olhar de Camus, um olhar tão afiado que sua nuca formigou. Era pura descrença que havia naqueles belos e inquietantes olhos rubros.

– Bom dia, senhor... Camus. – falou com um meio sorriso.

– Bom dia, senhor Milo. – respondeu o ruivo com um olhar zombeteiro. – Ouvi falar que o senhor é uma dos maiores videntes desta temporada. Não sentiu nada ao receber esta carta?

– Sei que não acredita do que sou capaz, senhor Lecrerc. E sim, eu senti algo quando a recebi. Escuridão, morte e sangue. Quem enviou isso está por trás destas mortes terríveis e está tentando nos dizer algo.

Camus não havia se sentado, portanto estava em um ângulo acima do vidente. Ele andou um pouco e tornou a encará-lo.

– E o senhor não sabe o que é?

Milo não desviou daqueles olhos inquisidores que exibiam uma tonalidade avermelhada e profunda. Uma abundância de emoções jazia naquelas profundezas, mas algo as impedia de aflorar, uma frieza aguda, afiada, quase impenetrável...

– Eu não analiso, racionalmente, o que vejo. Acontece. Algumas visões são cristalinas, mas essa não é.

Os olhos de Camus se moveram para cima e para baixo, analisando a expressão corporal de Milo. O vidente parecia calmo, os movimentos dele eram estudados... Talvez seja uma tática de pôr-se em evidência e assim chamar mais público para o seu espetáculo.

– É claro que não. – falou Camus, por fim. Certa nota de desprezo inserida na frase pronunciada.

Ele cruzou os braços sobre o peito, o que o fez parecer poderoso e inflexível. Milo balançou a cabeça e sorriu, amargo.

– Sei o que pensa de mim, senhor Leclerc. Mas, acredite, nem tudo tem uma explicação lógica. Se o tivesse, não estaríamos à mercê de alguém capaz de tantas atrocidades.

Ditas as palavras, o vidente se levantou e Dohko lhe estendeu a mão.

– Senhor Milo, mais uma vez, eu agradeço a sua colaboração.

– Não é preciso agradecer, inspetor. Estarei a sua disposição se necessitar de minha ajuda.

O rosto de Camus era uma máscara rígida de indiferença. Aquela última frase só confirmava os seus pensamentos sobre aquele homem. Milo era perigoso. Não porque fosse, totalmente, um charlatão, mas sim porque havia um grau de sensibilidade nele e um grande senso de oportunidade.

O vidente fitou-o, pela última vez.

– Adeus, senhor Camus.

– Adeus. – respondeu o ruivo.

Assim que Milo deixou a sala, Dohko dirigiu-se à Camus.

– Pois bem, senhor Camus, espero que possa nos ajudar com este caso macabro.

– Farei tudo o que estiver ao meu alcance, inspetor.

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Enquanto as noites se revelavam perigosas, os dias revelavam que a vida continuava a pleno vapor em Londres. E, naquela manhã, um navio vindo de terras distantes, aportou em meio ao fog, resultado da união entre a fuligem das chaminés e a névoa matinal.

A bordo, homens e mulheres de diferentes classes sociais avistavam a paisagem londrina. Alguns sorriam, outros franziam o cenho. Porém, dois jovens japoneses mantinham suas emoções sob uma máscara de autocontrole, embora a situação em que se encontravam não fosse uma das mais tranquilas...

– Onde iremos ficar? – perguntou Shun Amamiya.

O mais velho tocou o cabo da katana como que absorvendo a energia necessária da têmpera e força da lâmina.

– Não se preocupe, eu darei um jeito. – respondeu Ikki.

Shun sorriu e agarrou a mão do irmão.

– Sei que vai dar um jeito, confio em você.

Ikki sorriu também. Amava aquele menino com todo o seu coração e faria de tudo para preservar-lhe o bem-estar. Olhou em volta, percebendo a movimentação e também o desembarque de um jovem bem vestido que parecia tão deslocado quanto ele. A beleza do rosto e os cabelos loiros chamaram a sua atenção. Os fios eram tão dourados e brilhantes que pareciam conter o sol. Algo dentro de si se alegrou com aquela visão, a primeira que lhe era agradável naquele país cinzento e malcheiroso.

Hyoga pressionou o lenço contra o rosto. Os odores rançosos e fétidos que lhe embrulhavam o estômago não vinham apenas das frutas e legumes podres lançados à água ou das carretas de peixe. Não, o cheiro vinha dos homens corpulentos que arrastavam caixas e as amarravam em cordas para serem elevadas e retiradas nos navios. Entre elas, estavam os seus pertences...

– Eles não sabem o que estão fazendo. – resmungou o homem, à direita do jovem. – Vão acabar estragando as suas coisas!

– São, apenas, objetos, Isaak. Pior é este cheiro! Deus, eles não tomam banho neste país?

Os carregadores continuavam sua tarefa, alheios à conversa sobre sua higiene pessoal.

– Essa corda não segurará! – gritou um deles.

A caixa contendo um baú de cedro, algumas esculturas e ferramentas, oscilou, porém Hyoga não se abalou. Aquilo não era o mais importante e sim a outra caixa de quase dois metros que trazia o tesouro mais valioso e jazia, balançando sobre o espaço entre o píer e o navio.

O jovem prendeu a respiração e foi até um dos homens que supervisionava a ação.

– Capitão Eli, eu exijo que coloque mais homens para assegurar que a minha carga permaneça inteira!

O capitão meneou a cabeça e se virou para o marinheiro do convés.

– Pegue firme, William! – gritou ele.

De repente, o cabo do guindaste fez a caixa girar no ar. Os homens tentaram segurá-la com ganchos, mas ele girava sem parar. As pessoas gritavam e Hyoga sentia o sangue ferver.

– Capitão Eli, se algo acontecer com aquela caixa, eu juro que..!

– Afaste-se, meu jovem!

O cabo do guindaste rangeu, o braço de metal oscilou e todos arregalaram os olhos, esperando a queda.

Hyoga olhou ao redor em busca de ajuda. As pessoas pareciam paralisadas, esperando o desastre que estava por vir.

– Não! — gritou Hyoga.

– Temos que balancear o peso! – gritou alguém.

Hyoga olhou na direção da voz e viu um homem moreno com vestes orientais que pegara a corda do guindaste e se inclinara para trás, impedindo a caixa de baixar mais.

– Andem, me ajudem aqui antes que ela despenque! – gritou ele com os músculos dos braços retesando por baixo do quimono.

Dois outros apareceram para ajudá-lo e mais o capitão. Juntos, contrabalançaram o peso, inclinando-se para frente até que a caixa chegasse ao solo.

A multidão dispersou. Alguns desapontados, outros aliviados e admirados da força e coragem daquele oriental.

Respirando fundo, Hyoga se aproximou do estranho que se dispusera a ajudá-lo.

Com uma expressão séria, o japonês analisava as mãos. Seus cabelos revoltos e negros oscilavam com o vento.

– Você se machucou! – exclamou Hyoga ao ver os vergões nas mãos do homem.

– Não foi nada. – falou Ikki.

– Eu lhe agradeço. — disse o loiro enrolando seu lenço na mão dele, sem deixar de observar as palmas calejadas e cheias de cicatrizes. – Estes ferimentos têm de ser desinfetados. Isaak dê-me outro lenço!

– Não é preciso. – retrucou o japonês sentindo-se incomodado com aquele contato físico.

Algo na voz grave e no olhar incisivo fez Hyoga deter sua ação.

– Deixe-me ajudar de algum modo, por favor.

– Se quer me ajudar, deixe que eu trabalhe para o senhor. Preciso de um lugar para ficar e também ganhar o sustento. Estou chegando agora e não sei nada sobre este país, com exceção da língua.

– Pois bem, venha conosco. Isaak mostrará tudo ao senhor... Como é mesmo o seu nome?

– Eu me chamo Ikki Amamiya e aquele menino é meu irmão Shun.

– Eu sou Hyoga Romannof. – disse o loiro estendendo a mão.

O jovem japonês aceitou o cumprimento e curvou-se, como era costume em seu país. Shun juntou-se aos dois e sorriu para Hyoga que se sentiu tocado pelo olhar inocente do menino. Isaak se aproximou olhando sério para os dois japoneses e, em seguida focou em Hyoga.

– A carruagem nos espera. – disse ele com uma postura forçadamente ereta.

– Então vamos. – falou Hyoga e os quatro deixaram o porto rumo à mansão que esperava o jovem russo.

Entrar naquela mansão era como adentrar um mundo completamente diferente. O esplendor era magnífico e os detalhes da arquitetura eram de extremo bom gosto. Pinturas requintadas disputavam o espaço nas paredes com ilustrações pagãs, evidenciando que seus antigos donos possuíam um gosto peculiar.

Perto da escadaria de mármore, havia uma escultura em tamanho natural de um ser mitológico, uma gárgula. A face demonstrava selvageria e força, o corpo vigoroso tinha as asas semiabertas e o olhar era intenso, quase vivo...

– Bem, chegamos. – disse Hyoga.

Ikki olhou todo aquele espaço, a sala imensa, o longo tapete vermelho que cobria o piso escuro. Ao seu lado, Shun estava maravilhado. No Japão, os espaços eram pequenos e a arquitetura austera. Ali, se sentia em outro mundo.

O homem que acompanhava Hyoga era seu preceptor e não parecia muito satisfeito com a presença dos dois estranhos.

– Acho que agiu de forma precipitada. – murmurou ele ao ouvido de Hyoga.

– Preciso de um guarda-costas e, pela ação dele no porto, considero-o adequado à função.

– Eu sei, mas... e o menino? Uma criança é sempre curiosa.

– Deixaremos as portas sempre fechadas. E, além disso, os orientais não são conhecidos pela curiosidade. São austeros e obedientes.

– Fala como se os conhecesse.

– Posso não conhecê-los, mas vi do que aquele homem é capaz. Devo a integridade do meu tesouro a ele. Portanto, deixe as suas desconfianças de lado e os acomode de modo que fiquem confortáveis.

– Será feito como deseja.

– Isaak...

– Sim?

– O médico com quem viemos nos encontrar... Quando ele irá nos receber?

– Ainda hoje. – respondeu Isaak com um brilho no olhar.

– Hoje? Está falando sério? Como conseguiu?

O preceptor tocou na cicatriz profunda em seu rosto.

– O doutor Victor Frankenstein ficou muito interessado no seu caso, jovem senhor.

Hyoga sentiu uma profunda excitação e sorriu esperançoso. Sua expressão mudou da dureza para a alegria juvenil. Tinha, apenas, vinte e um anos, porém sentia-se tão velho quanto um ancião. Vir a Londres significava muito para si, era a oportunidade de refazer sua história pessoal e vencer a tragédia que insistia percorrer todos os passos da sua vida.

O coração de Isaak bateu descompassado, mas nada disso ficava evidente na expressão grave e contida. Seus atos eram firmes e sua única preocupação era com o jovem sob sua responsabilidade. Amava Hyoga com todas as suas forças e dedicava sua vida a ele. Se o médico pudesse restaurar a alegria ao seu jovem pupilo, ele agradeceria aos deuses ou aos demônios, não fazia diferença. O importante era ver aquele amava feliz, não importava o preço...

Notas finais
Obrigada a todos que derem a sua energia boa, passando por aqui. Seja lendo e comentando ou lendo em silêncio!!! Bjs e boa semana!