AMALDIÇOADOS!

3 Destinos entrelaçados...


Notas iniciais
**♥** Oi, galera do bem!!! Feliz 2015 para todos!!!

Junto com a luz tênue da lua Hyoga entrou no quarto e, como sempre, parecia enfeitiçado pela imagem macabra e deslumbrante.

Flutuando em meio ao líquido transparente, jazia a mulher que lhe dera a vida, Natássia, sua amada mãe. Os cabelos loiros, quase brancos ondulavam em um bailado lúgubre, como se tivessem vida própria e buscassem a luz fugidia. O rosto belo e suave parecia adormecido, enquanto o restante do corpo permanecia suspenso em meio às forças químicas daquele ambiente que simulava o ventre de uma mulher...

– Mãe... – sussurrou ele tocando o vidro.

Às suas costas, Isaak se mantinha em silêncio reverente. Sua função era manter aquele asilo sagrado até que o milagre fosse possível e o fazia, religiosamente, desde o fatídico acidente...

As lembranças daquele dia ainda estavam claras em sua mente...

O rosto transtornado de Hyoga, então com 16 anos e o corpo sem vida de Natássia Romannof.

A família de Natássia era proprietária de um grande estaleiro. A construção de navios de grande porte ajudou a firmar o nome Romannof no mundo dos negócios. Sucesso, poder e riqueza se sucederam, assim como a equivocada certeza da invulnerabilidade...

Quis o destino que a única vez em que Hyoga e sua mãe viajassem em um dos navios da família, a tragédia se abatesse sobre os dois. Um grande iceberg atingiu a embarcação lançando os dois ao mar e deixando-os à deriva nas águas gélidas.

Quando tudo parecia perdido, Natássia gritou e implorou por ajuda e a ajuda veio. Os detalhes de como tudo aconteceu nunca foram revelados. Hyoga mergulhou dentro de si mesmo e Natássia foi sepultada no mausoléu da família junto com a alegria que outrora existia entre ela e seu filho amado.

Um ano depois, Hyoga foi para a Universidade de Durham e quando voltou estava diferente do menino sensível que fora um dia. Dispensou todos os empregados e permaneceu, apenas, com ele, Isaak. Depois disso, ele mesmo abriu o túmulo de sua mãe e a retirou de lá.

Natássia estava intacta, não sofrera a degradação da morte... Os olhos fechados pareciam prontos a se abrirem, a boca entreaberta fazia imaginar que ela bocejaria ou diria algo, a pele como um cetim branco permanecia intocada.

Um milagre? Feitiçaria?

Ele recordou-se do terror e, ao mesmo tempo, da fascinação ao aproximar-se do corpo dela. O cabelo comprido cobria suavemente os ombros e os seios pequenos e redondos, a pele lisa e alva parecia cintilar... Ele jamais vira um corpo vivo tão belo quanto aquele tocado pela morte.

Ao olhar para Hyoga, notou que o jovem Romannof não se mostrava surpreso, fato que entenderia muito tempo depois, quando ele lhe revelaria toda a verdadeira história sobre a tragédia que sofrera...

Enquanto os dois permaneciam no aposento, Shun andava pela casa, observando tudo fascinado. As molduras das portas eram douradas e faziam um rico contraste com a madeira vermelho-escura. Esculturas em mármore pareciam vivas e o menino se deteve em uma delas que reproduzia um belo anjo...

– Shun! O que está fazendo aqui?

A voz grave de Ikki retirou o menino de sua atenta observação fazendo-o estremecer.

– E-Eu apenas estou olhando.

– Não nos deram permissão para andar pela casa. Vamos voltar ao quarto.

– Sim, irmão.

Quando ambos se encaminhavam para deixar o corredor, a porta se abriu e o olhar incisivo de Isaak recaiu sobre os dois. Ikki inclinou-se e falou:

– Perdoe-nos. Meu irmão deixou o quarto e...

Hyoga ficou sério, mas logo sorriu.

– Shun, venha cá. – disse ele.

O garoto se aproximou com os grandes olhos verdes cheios de expectativa.

– Sim, senhor.

– Deve ser muito tedioso ficar recolhido o tempo todo. Vou mostrar-lhe a biblioteca, lá poderá explorar à vontade.

Isaak franziu o cenho e foi acompanhado por Ikki.

– Se me permite senhor Hyoga, eu e meu irmão iremos nos recolher. – disse o japonês tocando o ombro do irmão com posse.

Shun ficou decepcionado, mas obedeceu. Um brilho de aprovação riscou os olhos de Isaak ao fitar Ikki. Hyoga sentiu a tensão e suspirou.

– Está bem, fica para uma próxima oportunidade.

Ikki curvou-se e saiu rapidamente. Shun o acompanhou em silêncio.

– Me perdoe irmão. – disse o menino, baixinho.

– Somos empregados aqui e não devemos nos envolver em nada além do nosso serviço. Fui claro?

– Sim, irmão.

Ikki sabia que estava sendo duro com o menino, mas era assim a educação de um samurai. Discrição, silêncio, saber o seu lugar.

O quarto onde estavam alojados era espaçoso, cheio de móveis, bem diferente da austeridade que estavam acostumados. Shun foi até a janela e ficou com o olhar perdido no horizonte. Ikki aproximou-se dele, agora com ternura.

– Eu sei que não é fácil para você, mas assim que der, viveremos nossa vida de forma diferente.

– Nunca poderemos voltar, não é? – disse Shun com tristeza.

Um suspiro profundo escapou da boca do japonês e sua mente viajou no tempo...

Japão, dois meses atrás

A voz grave do patriarca reverberava pelas paredes, criando um eco que ficara gravado em sua alma...

Nunca alguém da Casa Amamiya uniu-se a alguém inferior, uma oiran! Não permitirei que seja você, a fazer isso! Já basta termos que mudar nosso estilo de vida e renegar nossa herança samurai.

No ambiente revestido de biombos ricamente pintados e pinturas que reproduziam cenas e deuses dos tempos antigos, Ikki cerrou os dentes. Aos 23 anos, alto e encorpado, era um homem feito e desejava tomar suas próprias decisões.

Satsuma Amamiya levantou-se, virando o saquê na mesinha onde ele se encontrava.

– Se cruzar aquela porta, não será mais o meu filho!

Ikki encarou o pai.

– Eu já tomei a minha decisão, meu pai. A era dos samurais terminou, não passamos de proscritos a serviço de um imperador que não manifesta nenhuma vontade de manter a tradição. Não serei um cãozinho obediente! Vou viver a minha vida.

O japonês fitou o filho profundamente dentro dos olhos azuis e raros. Ele era seu primogênito, aquele em que colocara todas as responsabilidades do clã. Seu filho mais novo, Shun, era enfermiço e delicado demais. Não acreditava que ele viveria muito tempo. Ikki era a sua única esperança, o único com forças para resistir...

– Você está decretando o fim desta família. Espero que possa viver com isso. – disse Satsuma, derrotado.

Ikki hesitou alguns instantes, porém a paixão que tomava o seu coração o cegava para o resto. Do lado de fora da mansão, seu cavalo já o esperava, preparado. O jovem curvou-se ao pai e saiu. Agradeceu ao servo que cuidara de tudo e rumou para o destino que o aguardava.

Ao sentir a agradável aragem afagar seus cabelos negros, o jovem se acalmou e notou a lua pálida envolver a copa das árvores. Uma noite como aquela, diminuía a cólera que havia tensionado todos os músculos do seu corpo e trazia lembranças...

Lembranças da noite em que fora ao Leque Dourado e conhecera Esmeralda, a bela e doce cortesã estrangeira que o iniciara na arte do amor. Ela dançara para ele, o quimono longo, arrastando-se pelo chão, o obi de brocado brilhante caindo solto em forma de cascata nas costas, a luz avermelhada das lamparinas acompanhando os movimentos suaves do corpo delgado, realçando o contorno das curvas perfeitas...

Ela possuía um sorriso tímido que se abria como uma lótus, a pele macia tocando a sua, o sexo úmido e quente oferecendo prazeres jamais sonhados. Seus belos cabelos loiros, tão diferentes das mulheres orientais, eram elegantemente, presos no alto da cabeça e se desfaziam em uma cascata que emolduravam seus seios alvos e pequenos. A cintura fina podia ser abraçada com apenas uma de suas mãos e os pés delicados e tão femininos o incitava a beijá-los até a exaustão... Seu corpo todo o fascinara e o jovem Amamiya perdeu-se de amores pela “oiran” mais cortejada do Leque Dourado.

À medida que o cavalo avançava por entre as sombras noturnas, sua mente visualizava a mulher de corpo mignon, macio e benfeito que esperava por ele.

Já fazia três meses que vinham se encontrando e ela lhe dera exclusividade. Seus braços, seu perfume, sua arte e seu amor, só para ele... “Eu sei que é impossível ser sua esposa, mas desejo somente o meu senhor em meu corpo...” Dissera ela quando faziam amor e essa frase determinara a sua decisão: tomá-la para si e fazê-la sua esposa.

Menos de uma hora, mais tarde, Ikki passou sobre o arco à entrada do Leque Dourado de onde seguiu até um pátio murado, guardado por dois dragões esculpidos em jade cujas bocas jorravam água cristalina.

Ali, desceu do cavalo e entregou as rédeas ao rapaz encarregado de cuidar das montarias. Depois, seguiu a passos largos para a ala especial do estabelecimento que continha um acesso privativo às dependências internas e uma discreta passagem para os aposentos de Esmeralda.

Com o coração acelerado, ele chegou à porta de correr e a abriu, um tanto afoito. Entretanto, a cena que presenciou não era o que ele esperava...

– Ikki-sama... – murmurou Esmeralda, tendo o corpo de um cliente sobre o seu.

O jovem não pensou nas consequências, apenas agiu. A ira transparecendo nas feições viris.

– Saia de cima dela! – gritou ele.

O homem não fez nenhum movimento brusco. Ao contrário, virou-se lentamente para encarar quem o estava interrompendo em um momento como aquele.

– Se preza a sua vida, deixe este quarto, imediatamente, rapaz! – disse o homem voltando a beijar Esmeralda no pescoço.

– Eu disse para sair! – repetiu Ikki, agora puxando o homem pela roupa.

O homem reagiu irritado e Ikki percebeu que ele era um oficial estrangeiro. Não sabia dizer a patente do homem e nem se importava com isso. O caso era que estava ali para levar Esmeralda embora e não permitiria que nenhum homem possuísse o seu corpo.

– Ikki! Por favor... não! – gritou Esmeralda.

– Seu insolente, eu vou ensiná-lo a se portar diante de um oficial francês! – gritou o homem.

– Por mim tanto faz o que você é! Deixe a minha mulher em paz!

– Sua mulher? Esta puta? Faz-me rir! – falou o homem.

Ikki cerrou os dentes e desembainhou a katana.

– Não! Ikki-sama, por favor, não! – gritou Esmeralda, novamente.

O jovem não ouviu, encostou a ponta da espada no pescoço do oficial que não se intimidou.

– Será condenado à morte por atacar um oficial, garoto insolente!

– P-Por F-Favor, Ikki-sama... – implorou Esmeralda.

Ikki baixou a katana, um erro que viria lamentar. O oficial aproveitou o momento e pegou a arma que deixara próxima ao futon. Os acontecimentos se sucederam de forma vertiginosa, uma mistura de corpos e gritos que resultaram na morte da bela Esmeralda e também do oficial francês.

– M-Meu amor... Por que? – murmurou Ikki tomando a oiran nos braços.

– Que...bom...meu s-senhor está...bem. Mil vidas eu tivesse... todas elas eu daria para... que o senhor vivesse...Fuja... meu amado.

– Não! Vou tirá-la daqui.

– Não há tempo... eu acolho...a morte com alegria. O senhor está vivo... e viverá muito...

– Esmeralda... Não...! — as lágrimas escorriam pelo rosto do jovem.

– Vá... não deixe que o prendam...adeus... meu amado.- disse ela, enquanto sua vida se esvaía e a mão delicada pendia ao lado do corpo.

Ikki não conseguia deixar a mulher que amava. Sabia que ela estava morrendo e que haveria consequências por ter matado um oficial francês. O Japão estava mudando, o príncipe Mutsuhito tornara-se o imperador e nada seria mais como antes. Os samurais foram considerados obsoletos, fruto de um passado e uma política que não tinha mais espaço na modernidade. O corpo daquele homem jazia estendido em meio ao sangue, um sangue que o condenaria a morte. Com um último suspiro, Esmeralda deixou a vida e a dor que Ikki sentiu marcou-lhe a alma indômita.

– Meu amor... Meu amor... – repetia, enquanto fechava os olhos vítreos e sem vida daquela que o iniciara no prazer e no amor.

Os passos pesados no corredor interromperam o momento trágico e somaram-se à voz grave que chegou ao aposento gritando:

– Abram! Abram imediatamente! O que está acontecendo aí?

Ikki olhou, mais uma vez para o rosto inerte da amante e deixou-a sobre o futon. Saiu pela mesma entrada secreta com o coração apertado e lágrimas quentes escorrendo pelo belo rosto. O trajeto de volta à casa paterna foi feito em agonia e aflição. Quando adentrou o lar, novamente, seu pai fitou-o com severidade, mas algo em seu íntimo compreendeu que algo grave havia acontecido.

– Pai... perdoe-me! – disse Ikki curvando-se ao patriarca da família.

Como se fosse um oráculo, Satsuma Amamiya fechou os olhos e tocou a barba grisalha.

– O destino é caprichoso... E, ele sempre nos faz perder aquilo que amamos... Seu lugar não é mais aqui.

– Pai, eu...

– Minha casa não se submeterá ao imperador, assim como você deixou essa casa para viver segundo os seus desejos. Somos samurais, o bushido é o único código que nos guia.

Ikki olhou para seu pai, a firmeza, o olhar, a postura do corpo.

– Pai, eu matei um oficial francês.

Inesperadamente, Satsuma Amamiya gargalhou.

– E eu desafiei a ordem expressa do imperador menino! Somos dois condenados, meu filho! Mas não permitirei que minha descendência seja extinta. Pegue o seu irmão e deixe o Japão.

– Mas, pai, eu...

– Por Buda! Obedeça-me, Ikki. Pegue o seu irmão e deixe este país ainda hoje. Recomece em algum lugar e... se os deuses permitirem, honre a nossa herança e permaneça com a cabeça erguida como um verdadeiro samurai.

O jovem abraçou o pai. Em seguida, foi até o seu irmão que, apesar da inocência, percebia que algo estava errado.

– Ikki, nós vamos embora?

– Sim, Shun.

– Mas... e o papai?

Com um olhar orgulhoso, Ikki encarou o irmão menor.

– Ele honrará a Casa Amamiya. Somos samurais, Shun, e essa herança, ninguém há de nos tirar. Pegue suas coisas, apenas o essencial, vamos deixar o Japão ainda esta noite.

Shun nada disse. Acostumado a ser obediente foi fazer o que o irmão ordenara. Enquanto isso, Ikki voltou aos aposentos do pai, encontrando-o preparado para o seppuku.

– Prepare sua espada, meu filho. Se eu fraquejar...

Ikki assentiu com um movimento de cabeça, mas falou:

– Sua mão é forte, meu pai. Assim como a sua honra. O senhor não fraquejará.

Satsuma sentou-se sobre os joelhos, preparando-se para realizar o ritual de seppuku. Fechou os olhos e trouxe à memória os últimos momentos em que viveu feliz ao lado dos filhos e da esposa já falecida que tanto amara. Sorriu ao lembrar, seu olhar doce, suas palavras sempre gentis, seu corpo quente e aconchegante, enquanto enfiava a lâmina no lado esquerdo, fazendo um corte transversal para depois puxá-la para cima, finalizando em cruz.

Sua mão foi firme, nenhum som saiu de sua boca e como um verdadeiro samurai ele suportou o ato com honra.

Ikki sabia que o seppuku era extremamente doloroso. Seu pai não fraquejou e a visão do olhar seguro o fez ter orgulho, mas também piedade. Com lágrimas nos olhos, sacou sua espada e decepou a cabeça do pai. Nos olhos abertos de Satsuma, a visão derradeira, o orgulho de ser aquele que nunca renegaria a herança de seus ancestrais...

A batida na porta o retirou de suas lembranças...

– Sim, o senhor Hyoga precisa de algo? – perguntou Ikki olhando para Isaak.

–Não, sou eu quem deseja falar com o senhor – disse Isaak.

– O que deseja?

– Apenas parabenizá-lo pela atitude que tomou. O senhor Hyoga não gosta de ninguém perambulando pela casa, ainda mais sendo um...

– Empregado. Eu sei senhor Isaak. Era só isso?

Um brilho desafiador surgiu em ambos os olhares.

– Sim. E também avisá-lo que o jantar será trazido no quarto.

– Obrigado. – disse Ikki, seco.

Isaak retirou-se e Shun aproximou-se do irmão.

– Vamos ficar muito tempo aqui? – perguntou o menino.

– O suficiente para eu ter condições de manter um lugar para começarmos a nossa vida.

Um sorriso iluminou o rosto delicado do menino.

– Podemos continuar o treinamento?

– Sim, mas o faremos num horário em que não nos vejam.

Em seguida uma bandeja foi trazida ao quarto com pães, carne assada e uma garrafa de vinho. Ikki pressentiu que toda aquela fartura não fora ideia de Isaak. O homem demonstrava, claramente, que não gostava da sua presença ali.

– Bem, fome não iremos passar! – disse o menino sorrindo.

Ikki sorriu. Somente Shun tinha a capacidade de fazê-lo relaxar, assim como Esmeralda...

A lembrança fez murchar a alegria, mas logo ele retomou a postura rija e controlada. Shun precisava dele, portanto quaisquer sentimentos ou emoções que pudesse ter devia ficar em segundo plano. Em primeiro, a sobrevivência de seu irmão.

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O beco sujo era o lar de ratos e insetos, mas também o destino do médico conhecido como Victor Frankenstein. Alheio ao ambiente, ele pisava nas poças d’água sem importar-se com a lama respingando na barra das calças bem cortadas. Ali era o seu refúgio, o lugar onde podia exercer a ciência sem o olhar constrangido e preconceituoso daqueles que não compreendiam a grandeza das suas intenções. Como Prometeu ele desafiara os deuses e descobrira o segredo de recriar a vida. Sua criatura estava aprendendo, decodificando aquele ambiente... Ah, ele seria a prova que o homem podia igualar-se ao Criador! Pensou enquanto batia na porta.

– Dr. Victor... – disse quase sussurrando, a jovem ao abrir a porta.

– Mary... Como estão as coisas?

– Está tudo em ordem, doutor. Ele... continua observando os livros que deu a ele.

– Ótimo. Pode ir.

A jovem hesitou por alguns instantes.

– O que foi? – perguntou Victor.

– Tem três homens o aguardando em seu gabinete.

– Eles viram o meu... paciente?

– Não senhor, eu mesma cuidei para que não o vissem. Eles poderiam não entender, não é mesmo?

O médico sorriu. Mary era uma jovem inteligente e muito grata a ele por salvar-lhe a vida. Ele a encontrara mendigando nas ruas e muito doente. Ao fitar aqueles olhos vivos, intuiu que ela lhe seria de grande ajuda e não se enganou. Curou-a e contratou-a para ser seus olhos e seus ouvidos em Londres. Além disso, ela cuidava da casa e mantinha tudo em ordem e, principalmente, ela conseguia deixar seu paciente calmo e não tinha medo dele.

– Muito bem, vou atender meus futuros clientes. Pode nos servir um chá ou café, antes de ir?

– Já deixei tudo preparado. – respondeu ela.

– Não sei o que seria de mim sem você, minha doce Mary... – disse o médico beijando-a no topo da cabeça.

A jovem corou e saiu. Victor encaminhou-se ao gabinete improvisado, encontrando três homens, um oriental e dois ocidentais.

– Senhores, é um prazer recebê-los! – disse o médico estendendo a mão.

Hyoga estava visivelmente excitado em conhecer o médico. Ele foi o primeiro a cumprimentá-lo. Isaak olhava em volta um tanto surpreso com a precariedade do lugar e foi segundo. Ikki o saudou a moda oriental e continuou observando como um guarda-costas devia fazer.

– Antes de tudo, peço desculpas pelo lugar. Sei que os senhores devem estar pensando... Que pocilga! Mas, eu sou um médico estrangeiro e Londres... como vou dizer...

– É preconceituosa com quem não é inglês. – completou Hyoga. – Eu sei a que se refere doutor Victor. Mas, não há nada que o dinheiro não possa transformar.

Um sorriso distendeu os lábios finos do médico.

– Fala por experiência própria, senhor Hyoga? Parece-me ser tão jovem.

– Apenas pareço. Minha casa tem muitos quartos, podemos transformar um deles em consultório e outro para abrigá-lo. Este lugar não faz jus ao que dizem do senhor. – falou Hyoga.

– Senhor Hyoga, eu agradeço a generosidade, mas... eu tenho uma rotina que pode parecer estranha e isso pode incomodá-lo.

– Vou ser bem franco, doutor Victor. Não trarei a paciente para este lugar. Eu pago o que pedir e ainda lhe dou condições de trabalho. Ouvi muito sobre o senhor e o procurei, porque meu caso é especial e requer a atenção de alguém especial. O que me diz? – falou Hyoga com a voz firme.

Victor fitou os olhos azuis do jovem. Havia neles uma frieza mesclada com uma violenta paixão. Ele estava disposto a tudo e isso o seduzia. Seria bom estabelecer-se em uma casa melhor, dormir em lençóis perfumados, comer decentemente...

– Muito bem, me dê alguns dias para preparar a mudança. Agora me diga, quem é a paciente que devo tratar?

– Minha mãe.

– E qual doença ela tem?

– Ela não está doente, ela está morta.

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Em seu gabinete, Camus leu e releu o bilhete deixado pelo vidente. O inspetor Dohko esperava respostas e ele as estava procurando há muitas horas. Desde que deixara a delegacia, se empenhara em desvendar parte daquele mistério macabro.

“O pecado de um é o pecado de todos! A morte receberá a sua rainha na noite da luxúria... Ninguém é inocente, ninguém será perdoado. Os sacrifícios continuarão até que o círculo se complete!”

Havia um fio condutor naquela mensagem, algo que podia levar ao assassino. Basicamente, as palavras evidenciavam um sentido religioso, fato confirmado pela última morte, a abadessa Calvera. Camus fechou os olhos e, em seguida os abriu destacando palavras do texto e buscando a chave que toda mensagem continha em si.

Pecado... Morte... Luxúria... Sacrifício... Círculo...

De repente as letras foram saltando em frente aos seus olhos, fazendo sentido, construindo a verdadeira mensagem. Ele fez suas anotações e olhou o relógio na parede. Precisava agir com rapidez, o assassino agiria, novamente e ele sabia quem seria o próximo alvo.

Pingos gelados de chuva caíam do céu escuro. Camus mal se dava conta das gotas batendo em seu rosto e escorrendo por seu queixo contraído quando desceu da carruagem. Não tinha muito tempo e a descoberta do próximo alvo o deixou em uma encruzilhada. Se fosse direto à delegacia, o assassino poderia agir antes mesmo que a polícia tomasse providências. Então, a despeito do fato de não simpatizar com aquele homem, não permitiria que ele sofresse algo brutal.

Caminhou até a casa que recebera informação de ser do senhor Milo ou o famoso vidente Imnotep. Candelabros acesos denunciavam alguma recepção acontecendo lá dentro naquele exato momento. O aroma de carne assada e os sons de uma alegre reunião escapavam pelas janelas abertas e chegavam à rua.

Certamente estava recebendo nobres e lhes dando um show particular e ele iria estragar a festa. Imaginou o ruivo, enquanto estendia a mão para puxar a sineta da porta e notava o emblema de cobre semelhante à cabeça de um cão.

– Anúbis...o deus chacal. Que apropriado... O senhor Milo , realmente, pensou em tudo. – resmungou.

Quando Shina abriu a porta, Camus estranhou. Sabia que ela era uma espécie de partner para o show do vidente, mas não imaginava que tivessem outro tipo de relação.

– Pois não, senhor Lecrerc?

– Eu gostaria de falar com o senhor Milo, por favor.

Com um meio sorriso, Shina deu passagem ao ruivo e se ofereceu para pegar o seu casaco. Camus dispensou a gentileza e seguiu o som das vozes que constatou ser um tanto infantis. Logo chegou a um salão iluminado por centenas de velas que eram refletidas pelos espelhos alinhados em uma das paredes. Parou à porta, observando o salão repleto de... crianças!

Mesmo sem expressar a perplexidade em seu rosto, Camus sentiu algo dentro de si. Continuou atravessando o salão, seu traje todo negro contrastando com o ambiente tomado por rostos miúdos e olhares curiosos.

Milo, à semelhança do ruivo, também não surpreendeu-se em vê-lo ali.

– Senhor Camus? A que devo a honra de sua visita? – perguntou o grego.

Cochichos e risinhos preencheram o ambiente, enquanto Milo se levantava e ia na direção do ruivo.

Camus levou a mão aos cabelos e tentou compreender o que estava se passando ali. Uma festa para crianças? Mas quem eram aquelas crianças?

– Preciso falar com o senhor em particular. – disse ele.

Milo olhou na direção de Shina e, em seguida, dirigiu a palavra às crianças.

– A senhorita Shina vai permanecer no salão e vai tocar uma música. Preciso tratar de um assunto em particular. Divirtam-se e obedeçam a senhorita na minha ausência. – disse Milo e as crianças bateram palmas.

Milo fechou a porta de seu escritório e foi direto ao armário de bebidas. Pegou uma garrafa de conhaque e serviu duas doses.

– Tome, deve estar congelando. – disse ele estendendo o cálice ao ruivo.

– Obrigado. — disse Camus aceitando a bebida.

Um longo e pesado silêncio tomou conta do aposento. Uma tora de lenha estalou na lareira e o brilho do fogo refletiu nos olhos rubros de Camus.

– Bem, senhor Milo, eu estou aqui porque consegui decifrar a carta que o senhor levou a delegacia.

– Sério? – disse o grego se sentando na poltrona de couro escuro.

– Sim, eu não brincaria com algo importante como isso. – falou o ruivo franzindo o cenho.

– Minha surpresa não é descrença, senhor Camus. Apenas acho estranho que tenha vindo a mim e não à delegacia.

– Vim direto ao senhor, porque o senhor é a próxima vítima e pelo intervalo em cada assassinato, nós não temos muito tempo.

O grego cruzou as pernas e se acomodou melhor na poltrona. Bebeu um gole de conhaque e, em seu rosto, nenhuma nota de surpresa.

– Assim que deixei a delegacia, eu o vi.

– O assassino? O senhor teve uma visão?

– Sim, eu vi o rosto dele... Não se parece com um ser humano, mas creio que seja. Ele deseja algo que não pode ter.

– Não entendo. Por favor, seja mais claro.

– Ele deseja uma alma pura.

Camus encarou-o com o cenho franzido.

– E o que isto tem a ver com o senhor?

– As crianças. Eu abrigo crianças abandonadas, senhor Camus. Hoje faz, exatamente, dois anos que eu iniciei esta tarefa. Tudo que arrecado em minhas apresentações são utilizadas na manutenção desta casa. Em minha visão, esta criatura deseja vir até mim em busca do seu passado, algo que deseja resgatar.

– Senhor Milo, esse homem ou essa criatura, como preferir, virá matá-lo!

O grego recostou-se na poltrona de couro e olhou para as chamas na lareira.

– Eu vou deixar as crianças em segurança e vou esperá-lo. O círculo se fecha em mim e eu desejo saber o porquê.

– E eu vou avisar a polícia. – disse Camus.

– Não faça isso. Ainda não.

– Senhor Milo, não me peça para compactuar com essa loucura. Se o senhor viu mesmo esse assassino tem de descrevê-lo à polícia e impedir mais mortes.

Milo largou o cálice e se levantou. Olhou para o ruivo e uma comoção estranha os conectou. O azul profundo atraiu o rubro, o fogo na lareira tremeluziu... Os dois, agora, estavam em pé e bem próximos um do outro.

O ambiente foi envolto em uma bruma sobrenatural e o único som que quebrava o silêncio era a respiração pesada de ambos e o crepitar das brasas, agora testemunhas de algo que acontecera em outra época e lugar...

Então o tempo congelou e um rosto belo com olhos contornados pelo kajal a típica pintura negra usada pelos egípcios, sobrepôs-se ao de Milo, enquanto o de Camus era substituído por uma expressão inumana que sorria de um jeito frio, acentuada pelos olhos que mais pareciam orbes de fogo azul...

O ser estendeu a mão e segurou o rosto do grego que, naquele exato momento era substituído pelo rosto de um sacerdote egípcio, e puxou-o para si. Com a mesma violência de eras atrás, se apossou dos lábios entreabertos, a boca cruel explorando, aprofundando a língua e sugando com uma fome secular que se mostrava como um intenso e selvagem desejo...

“Ah, Imnotep... senti sua falta.”

A voz inumana retumbou como se fosse um trovão, enquanto raios riscavam os céus e um violento vendaval se abatia sobre Londres.

Notas finais
**♥** Gratidão!!! Palavra chave no ano que passou e sentimento que permanece em 2015! Obrigada a todos pelo carinho, por acompanharem o meu trabalho e por serem estas pessoas amadas e maravilhosas que encantam a minha vida!!!