AMALDIÇOADOS!

7 A Abadessa de gelo, a Dama branca e o manto das maldições...


Notas iniciais
**♥** Olá, galera amada do bem!!! Mais um capítulo, espero que se divirtam!!! Bjs, XD **♥**Um super agradecimento para ANGELIQUE pela recomendação!! Foi uma recomendação muito carinhosa e eu agradeço a honra de te ter como leitora e como amiga!! Obrigada de coração!!!

As palavras ecoavam em uníssono na pequena capela do convento. O som do cravo tocado com fervor e as vozes delicadas se intercalavam em uma celebração da fé, enquanto a luz enfraquecida e as velas tremulantes compunham a cena que Hilda fingia tolerar. Porém, em seu íntimo, ela desprezava aquele “mundo” e apenas seguia o roteiro conduzindo a sua vida como se participasse de uma grande peça de teatro sendo uma das atrizes principais.

Quando o terço chegou aos Mistérios Dolorosos, a abadessa fechou os olhos e sua mente voltou ao passado. Tempo em que fora uma jovem feliz e esperançosa, tempo em que não possuía aquele ódio abrasivo, nem o cinismo fortemente arraigado dentro de si, tempo em que amou e foi amada...

Verão de 1882.

A mansão estava sendo preparada para a grande festa. Aos 16 anos, ela seria apresentada à sociedade como mais uma debutante cheia de sonhos e expectativas quanto ao seu futuro. Oriunda de uma das famílias nobres mais importantes que se estabelecera em Londres, havia em torno de si perspectivas de um ótimo casamento. Pelo menos, era o que seus pais buscavam com afinco, enquanto ela só desejava amar e ser feliz.

Na noite em desceu as escadas com seu vestido azul perolado ajustado ao seu corpo com perfeição e usando as joias da família, safiras lindíssimas que acentuavam a cor dos seus olhos, ela não sabia que o destino podia ser um maestro excêntrico e egoísta a reger a vida conforme seus caprichos.

Entre tantos cavalheiros ricos e de boa família, seus olhos caíram sobre um jovem com a idade aproximada à sua. Ele era belo, tinha um corpo esguio e já mostrava um porte viril. No entanto, sua permanência fora breve, pois era filho do mordomo da casa e ajudava o pai servindo os convidados. Poseidon, era o seu nome e o sorriso ousado que ele lhe deu, marcou-a profundamente...

A diferença entre suas classes sociais deveria tê-los impedido de ir adiante, primeiramente, na amizade, depois na paixão. Poseidon era inteligente e a fazia rir. Com ele podia ser ela mesma e não fingir ser a donzela submissa que todo pretendente mais velho esperava que fosse. O fato era que, cada vez mais, sentia-se viva e ousada, até o momento em que as risadas e conversas se transformaram em beijos e carícias. O prazer despertado por Poseidon superou toda a cautela. Não havia paz naqueles olhos oceânicos... Ele era todo tormenta e sedução. E ela se deixou naufragar e seduzir...

A paixão teve consequências, mas mesmo assim, com a ingenuidade própria dos jovens, ela ousou crer que poderia enfrentar tudo e ser feliz.

Ledo engano...

A expressão do rosto de seu pai, quando descobriu sobre os dois, ainda permanecia gravada em sua memória. Os olhos arregalados, a face corada pela ira, os gritos acompanhados das agressões que machucaram não só o seu corpo, mas dilaceraram sua alma. Mas, o pior de tudo, foi perder seu bebê, adoecer gravemente e acabar sepultada viva naquele maldito convento.

Poseidon e seu pai foram mandados embora, após o castigo cruel e desumano que marcou seu jovem amante para sempre.

Nunca mais soube deles, nunca mais voltou à vida leiga. Viveu entre as paredes grossas e escuras sustentada pelo ódio que a fazia desejar que seu pai ardesse no Inferno. Isso, se houvesse um, porque ela não acreditava em nada daquilo. Deus, Diabo, Céu, Inferno... Baboseiras inventadas pelo egoísmo e loucura humana. Ela aprendera a viver naquele mundo injusto e se tornara tão dura e fria quanto o gelo...

– Rogai por nós! – disseram as freiras e Hilda retornou ao momento presente.

0000****0000****0000

Shun dormia, profundamente, na pequena cama ao lado da sua e Ikki o observava ressonar baixinho e fazer pequenas caretas durante o sono. Por um breve instante, ele cerrou as pálpebras e respirou fundo. Precisava pensar no que fazer, mas também precisava descansar.

Um verdadeiro guerreiro sabia preservar a serenidade em qualquer momento. Recordou-se de quando ia ao templo silencioso e vazio com seu pai. A fumaça fina e transparente dos incensos próximos ao Buda se elevava de forma espiralada preenchendo o ambiente com um perfume de sândalo. Seu pai sentava em posição de lótus e ele fazia o mesmo... Meditar e orar, atributos indispensáveis de um samurai.

Agora, longe do seu país e da sua cultura, mil emoções e pensamentos conflitavam, pesando dentro de seu coração. Olhou para o pacote que recebera como pagamento. Na pressa em deixar a mansão, não se detivera na quantia, nem ao menos sabia se seria o suficiente. Abriu o envelope e seus olhos se arregalaram. Era muito mais do que fora tratado, quando Hyoga o contratara.

Isto não está certo! Amanhã vou devolver o que não me é devido. Pensou ele, sendo atingido em seu orgulho como guerreiro a serviço do que era justo.

O jovem samurai colocou as mãos atrás da nuca e ficou olhando para o teto do quarto. Aos poucos seus olhos foram se fechando e ele mergulhou em um torpor, o corpo relaxando...

Ikki... Ikki...

A voz feminina e baixa o fez despertar em um salto.

Quem está me chamando? Perguntou a si mesmo, olhando para o lado e vendo Shun continuar a dormir. Levantou-se da cama e foi até a porta. Abriu-a e espiou o corredor escuro. Um vulto com vestes brancas e portando um candelabro veio e sua direção. Ele estreitou os olhos, não identificando quem seria.

– Senhor Ikki Amamiya?

– Sim, senhora. Precisa de alguma coisa?

– Preciso da sua ajuda. Pode chamar meu filho? Ele se encontra na quarta mansão desta rua há poucos metros daqui. Pode trazê-lo até mim?

– Seu filho? Mas...

– Por favor, não tenho muito tempo...

Ikki estranhou aquela situação. A mulher vestia um manto que ocultava o seu rosto e era tão branco que parecia reluzir em meio às sombras do lugar. Sua voz era baixa e melodiosa, mas havia algo no tom que parecia penetrar em sua pele e ossos, causando um estranho arrepio. Ele espiou para dentro do quarto e olhou para o irmão caçula mais uma vez.

– Está bem, eu irei. – disse em seguida. – Levarei minha katana por precaução. – completou ele, tomando a espada na mão.

A mulher continuou de cabeça baixa, fazendo Ikki imaginar-lhe o rosto. Em sua imaginação, o rosto da mulher era belo e delicado, porém triste.

– Obrigada... – falou ela.

O ato lhe pareceu ainda mais estranho, mas acostumado a agir, Ikki interrompeu seus questionamentos e deixou a casa paroquial.

A rua estava quase deserta. Era possível ver, apenas, alguns poucos cavalheiros entrando em clubes para jogar, enquanto outros buscavam suas carruagens para voltar para casa. Ikki ainda não se acostumara com a rotina daquele lugar, mas já compreendia como algumas coisas funcionavam. A necessidade de espairecer era a mesma em qualquer lugar do mundo.

A quarta mansão é aquela. Repetiu para si mesmo, enquanto se aproximava da porta de entrada. Seus instintos dispararam quando percebeu que ela estava aberta. Tocou o cabo da espada, ao mesmo tempo em que a empurrou. Pela segunda vez seus olhos se arregalaram.

– Pela deusa Amaterasu! O que é isso? Hyoga?! – exclamou desembainhando a katana e saltando no ar.

O samurai atacou com uma rapidez espantosa e uma faísca azulada escapou do contato violento da sua espada com o corpo daquela criatura que estrangulava Hyoga.

Os olhos do ser sobrenatural eram pequenos e avermelhados, a pele possuía uma cor acinzentada e uma textura semelhante à pedra usada para construir as catedrais. Em sua cabeça havia dois chifres negros e caroços cobriam parte da pele dos ombros e costas. As mãos gigantescas quase faziam o rosto de Hyoga sumir e foi com horror que Ikki percebeu que os abscessos do monstro se liquefaziam e escorriam como se fosse um óleo negro até tocar a pele do jovem.

– Solte-o! – ordenou Ikki, percebendo que sua lâmina fizera um mínimo dano na pele grossa, porém a criatura soltara Hyoga.

O monstro pareceu hesitar. A enorme cabeça com chifres baixou, assustadoramente, e encarou o japonês. Ikki empunhou a espada em um movimento de ataque, mas a criatura o ignorou.

A inocência é seu escudo. – falou sereno. A voz parecendo um eco enrouquecido.

Ikki se aproximou de Hyoga, vendo-o desacordado. A criatura abriu um par de asas negras que preencheram o ambiente amplo derrubando alguns objetos que estavam no caminho. Em seguida, ela olhou para o alto e só então Ikki notou que o teto, naquele salão, era envidraçado. A criatura tomou impulso e rompeu o vidro, fazendo cair cacos grossos e finos pelo chão. O japonês protegeu Hyoga com seu corpo, preocupado com a palidez e a frieza da pele do jovem. Ele não respirava o que fez Ikki aproximar os lábios dos dele injetando-lhe ar para fazer os pulmões voltar a funcionar.

– Vamos, respire! – disse Ikki com Hyoga nos braços, sacudindo-o.

O jovem estava com as marcas dos dedos grossos da criatura no pescoço alvo e seus lábios, antes rosados, agora estavam roxos. Ikki tinha seus lábios colados aos dele, o desespero fazendo-o insistir em restaurar a vida àquele que o acolhera.

– Respire! Respire! – ordenou novamente.

Lentamente, Hyoga abriu os olhos. Ele tentou falar, mas a voz não saiu. Ikki sentiu um alívio, porém o jovem voltou a ficar inconsciente. Sem saber o que fazer, ele tomou Hyoga nos braços e o tirou dali. Assim que deixou a mansão, uma carruagem negra se aproximou dos dois. Uma silhueta escura, em seu interior, abriu a porta e uma voz masculina se fez ouvir:

– Coloque-o aqui dentro. Rápido!

Desconfiado, Ikki estancou, mas logo reconheceu o dono da voz. Era Isaak, o preceptor de Hyoga. O japonês obedeceu e só então se deu conta que fora até a mansão para atender ao pedido da mulher misteriosa e ela lhe pedira para trazer seu filho.

– Na igreja... Uma mulher me chamou e pediu que eu trouxesse o seu filho de volta. E aqui, uma criatura horrenda estava atacando Hyoga!

Assim que terminou a sua fala, Ikki recordou que já tinha visto algo semelhante àquela criatura. Sua mente estava fervilhando, mas ele recordou a primeira visão que teve ao chegar à mansão de Hyoga. Havia uma estátua gigantesca ao pé da escada e era tão perfeita que parecia viva.

– Agradeço que tenha salvado a vida do jovem mestre. – disse Isaak verificando se Hyoga respirava.

– A criatura que eu vi era igual àquela estátua que tem na mansão. – Falou Ikki franzindo o cenho.

– O senhor deve esquecer o que viu. Agora, tenho que levar Hyoga para a mansão e cuidar dele.

– Como posso esquecer? Que loucura está acontecendo?

– Não há tempo para conversas, o jovem mestre precisa de cuidados e de um médico. Por favor, nos deixe ir.

Ikki se afastou da carruagem, Isaak tinha razão. Hyoga poderia esclarecer tudo depois. Apesar do inusitado, decidiu ficar em silêncio e voltar para a casa paroquial. Afinal, Shun estava lá e depois da experiência bizarra, todo cuidado era pouco. Talvez a mulher pudesse contar-lhe alguma coisa quando reportasse à ela o que havia acontecido...

0000****0000****0000

O homem belo e alto caminhava pelo estúdio repleto de estantes abarrotadas de livros antigos, as paredes de carvalho tão polidas que refletiam a imagem quase como se fossem um espelho e espessos tapetes orientais que amorteciam os seus passos. Fazia uma semana que voltara à Londres, após muitos anos perambulando pelo mundo.

Ele olhava para uma mesa próxima à lareira onde havia uma garrafa de conhaque e dois copos. Pensou em servir-se de uma dose generosa para acalmar a ansiedade que o impedia de ficar sentado. Já tinha bebido duas doses, horas atrás. Não seria sensato beber mais. Precisava estar com a mente serena para avaliar a mercadoria.

Seu rosto bronzeado tinha uma aparência jovem, porém algumas rugas de expressão revelavam que suas atividades eram feitas ao ar livre, o que lhe castigara a pele e lhe dera um ar rústico e atraente, apesar dos traços clássicos.

Poseidon se tornara um caçador de relíquias que, apesar de ser um pesquisador, agia como um fora-da-lei, conseguindo peças valiosas de forma ilegal e defendendo o ditado que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. Após descobri-las e consegui-las, as vendia em leilões fechados e estritamente direcionados a compradores nobres e muito ricos dispostos a pagar a fortuna que lhes exigia.

Havia estudado, apesar de ser filho de um mordomo desempregado e ter as mãos defeituosas devido ao castigo sofrido por se apaixonar por uma jovem nobre e engravidá-la. O pai da jovem, em questão, mandara seus homens amarrá-lo e colocar as suas mãos sobre as brasas ardentes, queimando-as quase até os ossos...

O resultado da ação cruel foi que jamais despia as luvas de couro que escondiam as mãos deformadas e ficara com limitações em seus movimentos.

No entanto, sua mente astuta lhe valera usar da sua inteligência para sobreviver e não só isso, tornar-se um homem rico e poderoso, mesmo que nas sombras. Suas peças rendiam fortunas e ele se comprazia em tirar dos ricos para investir em obras destinadas a ajudar os necessitados, como ele e seu pai tinham sido um dia. Gostava de imaginar-se como uma segunda versão de Robin Hood ainda mais justiceiro e implacável. Por suas constantes viagens de navio, seus homens o chamavam de Capitão e formavam um grupo que se autodenominava marinas.

As três batidas ritmadas na porta anunciavam que a sua espera havia acabado. Dois homens baixos e com expressão quase animalesca entraram sorrindo com uma caixa de madeira.

– Coloquem em cima da mesa.

Obedientes, os homens a colocaram e abriram espaço para o seu líder.

Poseidon abriu a caixa com certa dificuldade, as mãos enluvadas pareciam endurecidas, mas enfim, o conteúdo foi revelado. Os olhos azuis brilharam e ele sorriu.

– Muito bem, vocês conseguiram! – disse ele.

– Foi moleza! Assim que o navio aportou, nós nos oferecemos para descarregar. Havia muitas caixas vindas do Egito e nós fizemos como o senhor mandou. Levamos um caixote falso com algumas relíquias e substituímos pela caixa original.

– Ninguém desconfiou ou viu a ação?

– Não, capitão! – respondeu esfuziante o homem mais baixo que tinha uma expressão curiosa e simpática semelhante a um cão Terrier.

– E o que vamos fazer com a mercadoria, chefe? – perguntou o outro que possuía dentes acavalados e projetados para frente, o que lhe dera o apelido de coelho feio.

– Vamos vender pelo maior lance... Este manto será a peça mais valiosa do leilão. Vamos ver o que ela pode nos render! — falou Poseidon ao retirar o manto egípcio que pertencera à rainha Tiy com todo cuidado e reverência.

Por alguns instantes relembrou o passado, mais especificamente a época em que se apaixonara por Hilda, a bela filha do conde de Polaris...

O verão havia terminado... A amizade que os unira, transformou-se em paixão e os encontros se tornaram frequentes. Uma noite, Hilda tocara a sua mão e o olhar que ela lhe deu aqueceu seu sangue na mesma hora. Ela estava sob a luz da vela e as roupas brancas revelavam a sombra de suas pernas, a curva de seus quadris e a entrada da cintura fina. O desejo surgiu forte em seu corpo, mas não era apenas seu...

“Tem certeza?” Ele perguntara ao sentir que ela também o queria.

“Tenho”. Ela respondera sem hesitar.

Os dois se olharam com intensidade e tudo o mais deixou de existir. Ele a tomara nos braços e ambos descobriram juntos, o que era fazer amor.

Quando os corpos ainda quentes e suados experimentaram o torpor após o prazer, Hilda se envolvera em um xale deixando, apenas, os belos e pequenos seios descobertos. Ele os beijara e os circundara com a língua ávida e tudo recomeçou...

Aquela noite ficara gravada em sua mente, em seu corpo e em seu coração. O que teria acontecido à Hilda? Será que havia se casado? Pensou Poseidon, enquanto tocava o manto e imaginava sentir a textura da pele da única mulher que amou.

Ao mesmo tempo em que Poseidon comemorava sua aquisição, Saga olhava o horizonte em pé, perto da escada do convés e também comemorava a saída do Egito.

Ele e Kanon embarcaram no navio de volta à Londres e agora, mesmo com o vento frio e forte fustigando seu rosto, o grego sentia a esperança retornar ao seu coração. Escutando vozes no deque acima, deu-se conta dos marinheiros cuidando dos seus afazeres, o som do mar mesclando-se com as risadas e piadas dos homens.

O Egito com suas cores vivas e douradas ficara para trás e também, os mistérios que ele não ousava recordar. Deu uma olhada na direção da cabine onde Kanon dormia e suspirou. Decidiu ir vê-lo antes de se recolher.

Toda a trajetória pelo deserto havia sido difícil, mas ao chegar ali, tudo parecera entrar nos eixos. Tinha a esperança que a mudança de ares seria o suficiente para curar o irmão e que toda aquela loucura seria deixada para trás. Assim que chegasse a Londres, iria procurar o tal artefato que Kanon tanto falara e tudo voltaria ao normal...

0000****0000****0000

Camus vestiu suas roupas em silêncio, assim como Milo que se perguntava como devia agir após o que havia acontecido entre eles. O som longínquo das badaladas de um relógio reverberou no espaço e os olhares se encontraram, novamente.

– Como vai ser daqui para frente? – perguntou o vidente.

– Sinceramente? Eu não sei. – respondeu Camus com um olhar sério.

Milo franziu o cenho, mas nada disse. Então tomou a atitude de deixar aquele espaço, mas foi segurado pelo ruivo.

– Milo, isso é muito complicado e você sabe.

– Sim, eu sei. E é exatamente por isso que estou indo embora. Adeus, senhor Camus. – falou o vidente irritado e se desvencilhando do ruivo.

– Milo... – murmurou ele. Porém, o grego não parou e rapidamente desceu as escadas, deixando a casa.

Quando Camus decidiu ir atrás dele já era tarde demais. Sentiu-se um covarde por agir assim, deixando que o vidente enfrentasse a situação sozinho. Entretanto, sabia ser melhor deixá-lo ir. A revelação que era o receptáculo de um deus era difícil de digerir. Uma coisa era entender os processos de obsessão e possessão como recursos paranormais existentes na natureza. Outra coisa era acreditar que as lendas sobre deuses antigos havia se transformado em uma realidade pessoal.

Voltou à sala e atirou-se à poltrona sentindo um repentino cansaço. O calor do corpo de Milo, a forma com que se envolveram e as sensações que permaneciam dentro de si continuavam a fustigá-lo como se fosse um chicote. A atração que sentia pelo grego não era somente o resultado da paixão exaltada entre duas entidades sobrenaturais. Era algo mais, mas que exigia de si uma intensidade que não estava pronto a oferecer.

Droga, Milo... Eu não posso e não devo amá-lo! Disse para si mesmo, enquanto o ambiente da sala voltava a esfriar.

Na rua, o vidente andava rápido, sentindo o sangue ferver. Suas emoções estavam em conflito e seu corpo começava a pesar. Não queria ir para casa, mas também não sabia para onde ir. Quando se deu por conta, estava há alguns metros da Abadia de Westminster. A igreja se destacava contra o céu escuro, silenciosa e imponente. Não havia nenhuma luminosidade, nenhum sinal indicando que alguém estava acordado.

É óbvio que a igreja está fechada, Milo! Murmurou para si mesmo. Foi então que ao retomar o rumo para casa, encontrou um jovem com vestes estranhas e, junto dele, uma mulher vestida de branco. Ela o fitou nos olhos e se dissolveu no ar, porém nada disso abalou o vidente. Sabia da existência de espíritos que vagavam e ele mesmo era possuído por um.

– Boa noite! – disse ele para o jovem samurai.

Ikki curvou-se devolvendo o cumprimento para, em seguida, entrar pelos fundos da casa paroquial.

Milo ficou parado, olhando a porta se fechar. Então, voltou seu olhar para a rua que começava a ser envolvida por uma bruma fina e úmida. Aos poucos, a imagem da mulher de branco retornou.

Por favor, não deixe que ele faça isso! Impeça-o! Disse ela com um tom de voz envolto em tristeza e dor.

– Quem é você? – perguntou Milo.

A mulher levou a mão direita à frente, como se fosse tocar no rosto do vidente. Então, ela se afastou como se tivesse visto algo terrível muito tempo antes dele.

Você precisa impedi-lo! Ela repetiu, enquanto parecia andar para trás até sumir em meio ao fog londrino.

Milo não se mexeu, porém seu corpo estremeceu e algo semelhante a uma forte corrente elétrica percorreu sua pele. Ele olhou para o alto e uma sombra gigantesca se abateu sobre ele. A criatura olhou-o com atenção e o vidente entreabriu os lábios ao encarar aquele ser que parecia ter saído de um livro de terror.

De repente, tudo escureceu, fazendo-o cair de joelhos nas pedras úmidas. Quando seu rosto se elevou, um sorriso malévolo brincou em seus lábios e seus olhos brilharam com um ardor incomum.

Palavras ditas em um dialeto antigo começaram em tom baixo, até se elevar como se fossem recitadas por um sacerdote. A criatura recuou com um grunhido de dor. O grego se levantou, desprezando a lama que lhe sujara os joelhos. Lentamente, ele encarou a gárgula que tentava, inutilmente, bater as asas para voar.

Então, criatura das horas noturnas... Voltamos a nos encontrar! Disse Imnotep.

0000****0000****0000

Hyoga permanecia inconsciente, apesar de todos os esforços de Isaak para acordá-lo. Cortinas de veludo azul escuro envolviam parcialmente a cama de dossel, acentuando-lhe a palidez do rosto juvenil. Victor o examinara, constatando que o corpo não sofrera maiores danos que as marcas arroxeadas na pele. O jovem estava em choque e devia, apenas, descansar.

– Deixe-o dormir e logo ele estará recuperado. – disse o médico. – O que aconteceu com ele? – perguntou encarando Isaak.

O preceptor engoliu em seco, sem saber o que dizer.

– Prefiro falar sobre o assunto quando o jovem mestre acordar.

O médico não insistiu, apenas observou Isaak acender mais uma vela na mesa de cabeceira para poder enxergar Hyoga melhor. Admirava a dedicação daquele homem, mas também temia ter adentrado um universo perigoso, cujo segredo jazia naquele relacionamento.

– Se desejar, eu posso ficar com ele. – disse por fim.

Isaak suspirou.

– Obrigado pela oferta, mas de Hyoga cuido eu. É preciso começar os preparativos.

– Eu já comecei. Estou, apenas, à espera de alguns materiais que Hyoga ficou de conseguir.

Sem olhar para ele, Isaak fez um gesto claro de dispensa e Victor compreendeu.

– Bem, vou deixá-los. Se precisar de mim, estou no meu quarto. – disse o médico abrindo a porta e deixando o quarto no mais absoluto silêncio.

Assim que Victor saiu, Isaak tocou a mão de Hyoga. Seu coração estava pesaroso. Eu devia tê-lo protegido! Perdoe-me, Hyoga, perdoe-me!

Envolto pelo manto da inconsciência, Hyoga permanecia inerte, alheio às preocupações de Isaak. No entanto, o jovem não estava em completa escuridão, ele sonhava e era um sonho permeado de simbolismo e significado...

Ele vagava por uma mansão escura e com infinitas portas. Seu corpo quase flutuava em meio aos objetos empoeirados e cada emoção sua ia compondo aquele cenário... Podia sentir aquela parte obscura e impertinente que gostava do perigo acender-se dentro de si e desenhar um rosto...

Ikki... Ouviu-se sussurrar e, de imediato, o rosto viril e decidido formou-se fitando-o com desejo. Ele se aproximou dos seus lábios e o beijou, sua leve respiração soprando dentro da sua boca...

Ikki... Sussurrou, novamente, quando então sentiu-lhe o corpo musculoso. O hálito quente continuava a puxá-lo de volta à vida, fazendo-o gemer de forma silenciosa...

Ikki... O nome ficou preso na garganta. O rosto do moreno metamorfoseou-se em uma cabeça enorme com dois chifres grossos, agora posicionados entre as suas pernas, um simbolismo fálico e aterrorizante fazendo-o despertar de forma abrupta...

– Ikki! – gritou Hyoga com a voz rouca e seus olhos azuis se abriram, cheios de terror.

– Está tudo bem! – falou Isaak.

Hyoga olhou para o preceptor e tornou a descansar a cabeça sobre o travesseiro. Seu corpo estava trêmulo e ele parecia febril.

– Era... uma armadilha. A criatura... A gárgula...

– Não fale agora. Descanse.

– Isaak... Quem me... trouxe? Pensei... ter visto... Ikki.

– Sim, ele o salvou. – respondeu Isaak.

O jovem fechou os olhos, abraçando o próprio corpo e relembrando a sensação do sonho, do corpo forte junto ao seu, da boca levando ar à sua...

– Traga-o até mim, Isaak. Preciso... agradecer.

– Não creio ser uma boa ideia, jovem mestre.

– Você está comigo... desde sempre, Isaak. E eu... valorizo a sua fidelidade e os seus conselhos. Mas, tem assuntos que... eu já decidi. Traga o Ikki e seu irmão de volta. Faça isso... por mim.

Por um instante, Isaak considerou a hipótese de discutir com Hyoga e contar-lhe sobre as indagações do jovem samurai. Entretanto, afastou a ideia e tratou de concordar, mesmo que em sua mente, outros planos em relação à segurança de seu pupilo estivessem sendo traçados...

0000****0000****0000

Cansado, emocionalmente, Camus adormeceu na poltrona e sonhou. As cortinas fechadas deixavam o ambiente em total silêncio e isolamento, o que contribuía para que o ruivo fosse abraçado pelo sono.

Dentro daquele mundo onírico, não havia dúvida ou temor.

Milo lhe sorria, tocando-o nos lábios. Logo em seguida, ele substituía os dedos pela língua, lambendo-o, provando-o com paixão...

Seu corpo reagia ao prazer, o desejo ardente culminando em um clímax tão intenso, quanto aterrorizante. Seus corpos se liquefazendo em ouro e fogo, para depois explodir em gelo e luz...

Então, uma luz negra emergiu engolfando-os com carícias obscenas... os dois gritaram juntos e milhares de asas esvoaçaram ao redor, as penas negras rodopiaram no ar como lâminas cruéis.

Milo foi o primeiro a sucumbir.

Milo! Milo! Chamou em desespero.

O ruivo despertou ao gritar o nome do vidente. O chão e os móveis estavam cobertos de grossos flocos de neve e, no entanto, ele se sentia quente e estava com as roupas empapadas de suor.

Levou a mão aos cabelos, se sentindo inquieto e desconfortável. Não costumava agir sob impulso, nem validar percepções que não passavam pela razão. No entanto, algo teimava em instigá-lo com veemência e tinha a ver com Milo.

Desprezou a situação em que se encontrava e foi até o cabide. Pegou seu casaco, vestindo-o sobre o corpo ardente. Assim que o tecido cobriu o seu corpo, uma energia poderosa o envolveu por inteiro. Seu corpo estremeceu, violentamente e ele soube o que iria acontecer... Parte de sua consciência queria impedir, mas a outra parte sabia que o perigo exigia medidas extremas.

Eu permito. Disse a si mesmo, enquanto sentia a possessão acontecer. Seus olhos se transformaram em duas chamas azuis e frias e um redemoinho gelado terminou de cobrir os móveis e as paredes...

Imnotep... – murmurou Loki e quando abriu a porta para ir ao encontro do seu amante mortal deu de cara com um jovem entusiasmado que o parou.

– Boa noite, senhor Camus! Desculpe o adiantado da hora, mas fiquei preocupado com o senhor. – disse Seiya.

Loki encarou o jovem com um sorriso sarcástico, deliciando-se com a ignorância do mesmo, que continuava a enxergar seu orientador.

Que bondade, meu rapaz!

Seiya notou algo estranho, mas se manteve quieto, pigarreou franzindo o cenho e disse:

– Estou sempre a sua disposição.

É mesmo?

Loki estalou os dedos, fazendo Seiya fechar os olhos por alguns segundos que pareceram horas. Quando o jovem os abriu, novamente, Camus já havia sumido...

Notas finais
**♥** Agradecimentos a todos que leem, favoritam, recomendam, silenciam! Toda e qualquer energia é bem-vinda e recebida com muito carinho!!! Arigatô!