AMALDIÇOADOS!

8 Entre dois mundos...


Notas iniciais
**♥** Olá, galera amada do bem!!! Mais um fim de semana acabando e mais um capítulo. Espero que se divirtam ( aqueles que leem, é claro! *risos) ♥ Bjs e que a semana que se inicia seja muito abençoada para todos!! XD

A gárgula fitou Imnotep com uma expressão de dor, porém isso logo mudou. Com uma agilidade impressionante para uma criatura grotesca e avantajada, ela uniu as mãos e murmurou:

Posse multa vestra suscipiant me non potes! Let hoc corpus agit maleficus!

Uma luz avermelhada surgiu entre os dois e Imnotep foi obrigado a recuar. Os olhos, agora negros, do sacerdote demonstraram surpresa. Aquela criatura não era da mesma estirpe com quem batalhara no passado. Ele o encarou nos olhos, percebendo uma faísca estranha, quase humana...

Tu não és, totalmente, bestial! Falou Imnotep.

A gárgula olhou em volta, como se estivesse avaliando o perímetro onde estavam. Suas asas se abriram imponentes e negras e ele impulsionou para o alto. No mesmo instante, Camus chegou ao local. O corpo vigoroso parecendo maior e mais encorpado, os olhos de um fulgor sobrenatural que mesclava poder e loucura. Ele olhou para Imnotep e sorriu. Era Loki demonstrando estar no comando. Na mesma hora ele elevou a mão direita e um raio azulado cortou os céus e também o braço da gárgula que sumiu em meio ao negror noturno.

Assim que a criatura saiu do campo de visão, Imnotep franziu o cenho ao olhar para Loki. O deus se aproximou tão rápido dele, que quando se deu por conta, estava em seus braços.

Estás enfraquecido... Precisas do fogo de um deus. Disse Loki com malícia no tom de voz.

Ao contrário da entrega costumeira, Loki percebeu que Imnotep não correspondia aos seus avanços. Havia uma resistência e aquele olhar...

Não és Imnotep!

– Não, não sou! E não permitirei que use o meu corpo. – disse Milo.

O deus franziu o cenho e gargalhou. O som pareceu penetrar na pele e nos ossos do vidente.

Quem pensas que és? Um sinal meu e Imnotep retornará e nada poderás fazer, mortal insolente!

Milo encarou o deus sem nenhum temor, seus olhos exibiam uma autoridade que Loki nunca vira em um mortal, além do seu amante.

– Eu sou Milo Stephanopoulos e tenho livre-arbítrio! Nenhum deus ou demônio pode tirá-lo de mim! Eu permito que Imnotep use meu corpo para a vidência, mas não vou ser a prostituta de um deus louco!

Os olhos de Camus ficaram incandescentes e seu corpo permeado por uma luz fria e intensa.

Pois vou mostrar que ser minha prostituta é uma honra muito maior que possas suportar!

Ao término da frase, Milo sentiu uma pressão em seu corpo. Era intensa e desagradável, como se os seus órgãos internos estivessem sendo esmagados por uma mão invisível.

– P-Pode... me matar! M-Mas ainda...a-assim... serei livre! – falou o vidente com um ofego de dor

Loki gargalhou, mas logo seus olhos se arregalaram em surpresa e foram perdendo o ardor...

C-Como? Ele está lutando contra mim! Como ousa?

Aos poucos, a luz no corpo de Camus foi esmaecendo, os músculos estremeciam com o esforço hercúleo de retomar o controle sobre si mesmo. Seu nariz começou a sangrar e seus dentes rangeram quando ele os cerrou... De repente, ele olhou para Milo com seus olhos rubros cheios de preocupação. Seus lábios murmuraram o nome do grego e então ele caiu.

–M-Milo...

– Camus!

O vidente tomou o ruivo nos braços, vendo-o travar uma batalha para não permitir que Loki o manipulasse. O esforço era terrível, mas ainda assim ele estava vencendo.

– Você... está bem? – questionou Camus.

O grego aproximou o rosto do dele. Mesmo com a dor excruciante de todo aquele esforço, todas as células de Camus queriam beijar aqueles lábios ofegantes. Entretanto, ele sabia que seria sua ruína se o cedesse. Loki usaria seus sentimentos como passagem para possuí-lo e isso ela não permitiria. Não mais!

– O que está fazendo aqui? – perguntou, entre os dentes cerrados.

– Eu apenas cheguei até aqui, porque não queria voltar para casa. – respondeu Milo afagando o rosto suado do ruivo.

–... Saiu correndo da minha casa... E tem razão. Temos que ficar longe um do outro. – disse Camus tentando desvencilhar-se dos braços que o acolhiam.

Milo respirou fundo com um misto de irritação e preocupação.

– Não diga mais nada, Camus. Descanse. Não vou seduzi-lo, apenas descanse.

O ruivo cerrou as pálpebras, mas em seguida, abriu os olhos detendo-se no azul profundo que o fitava com intensidade.

– Eu preciso descobrir... Não existe coincidência. Loki e Imnotep... Os dois... Existe algo obscuro em tudo isso... – disse Camus.

– Eu sei. Mas, agora, não pense nisso.

Camus ainda resistiu, mas o cansaço o tomou. Ele encontrou calor e conforto naquele abraço e, por alguns minutos, se permitiu descansar...

A rua adquiriu um aspecto lúgubre e brumoso, mas nada disso assustou o vidente ou o ruivo. Ficaram ali como duas esculturas vivas em meio à noite, tendo como fundo a imponente abadia.

Enquanto isso, no pórtico dos fundos da igreja, a imagem da Virgem se erguia com uma expressão amorosa e acolhedora, apesar da escuridão. Alheia ao que se passava dentro e fora, ela parecia, apenas, derramar sobre os homens a sua entrega e humildade.

Os olhos da criatura se detiveram na imagem feminina como se fosse um filho retornando aos braços da mãe. Atrás da imagem, uma porta imensa indicava a capela reservada e, aos poucos, a transformação da gárgula iniciou. As asas negras foram encolhendo, a pele dura e acinzentada cedendo à textura da pele humana... Quando tudo se completou, ele empurrou a porta e entrou, ficando frente a frente com um Cristo gigantesco pregado na cruz.

Perdão! Não fui capaz de executar a tarefa! Murmurou o bispo Tatsumi, agora em sua forma humana.

Seu braço estava ferido, porém sem gravidade. Poderia muito bem esconder a marca sob a batina. O pior de tudo era a sensação de fracasso. Desde que recebera a missão de lutar contra o mal e aceitara tornar-se um instrumento para tal, sonhava exercer sua função com zelo e eficácia.

“Você será meu anjo vingador” Disseram as vozes profundas em uníssono quando o escolheram para tal função, o enchendo de alegria e orgulho, um pecado capital que lhe era difícil expurgar.

Lembrava-se de cada detalhe e cada palavra...

Era uma noite sem luar, a escuridão profunda e aveludada. O claustro mantinha uma atmosfera quente e abafada. Tudo que havia vivenciado, até então, fora deixado para trás. A abadia de Westminster se tornara o seu lar, com toda a sua imponência e responsabilidade.

Cada pedra daquele lugar parecia exalar a eternidade silenciosa que ele tanto apreciava. Os anos de abandono, dor e desmerecimento haviam ficado para trás. Ele emergira do orfanato como um aspirante à vida religiosa e mesmo o porte avantajado que parecia não combinar com tal escolha, o fizera ser acolhido.

O sacrifício feito com o cilício, as oferendas elevadas no altar, a doutrina para a salvação das almas... Não imaginava que pudesse amar tudo isso com um fervor quase obsessivo.

Tornara-se um representante do sagrado, descobrindo outras vertentes dentro daquela crença que adotara para uma vida inteira. Em sua formação encontrara religiosos ortodoxos, mas também, outros de mente aberta e grande poder.

Inicialmente, seu aprendizado fora restrito, até ser notado pelos padres Defteros e Aspros, figuras quase lendárias na Cúria Romana. Os gêmeos despertavam reações antagônicas dentro da igreja por pertencerem a uma secreta casta religiosa, a dos exorcistas caçadores.

Estudiosos da herança dos Templários, estes padres acreditavam combater o demônio usando de poderes muito além da compreensão. O conhecimento adquirido no Egito se revelara de grande valia e o domínio deste mundo obscuro dos rituais de magia pagã, uma necessidade.

“Você será nosso anjo vingador! O demônio está entre nós, fazendo alianças, tentando quebrar a barreira erguida contra o mal maior. Aviso que não será fácil, mas estaremos com você. Ore, medite e nos dê a sua decisão!”- disseram eles.

O fascínio pela ação concreta e a admiração por aqueles homens o fez aceitar a proposta e o treinamento difícil e exaustivo. “Dar passagem aos avatares era perigoso e, muitas vezes, mortal. Era preciso ser forte para não sucumbir à transformação completa. Era preciso ser puro para tornar-se um vingador!”

– Senhor padre?

A voz do jovem samurai retirou Tatsumi do passado e o trouxe rápido demais ao presente, fazendo-o oscilar.

– O senhor está bem? – adiantou-se Ikki para ampará-lo.

– Sim, eu estou. É apenas cansaço.

Ikki franziu o cenho ao observar que o bispo segurava o braço esquerdo. O religioso era avantajado em estatura, mas àquela hora parecia alquebrado. Queria perguntar sobre a tal mulher que pedira a sua ajuda, mas recuou em sua intenção.

– Deixe-me ajudá-lo, padre.

– É muita bondade sua, mas não é necessário. Vá descansar que já é bastante tarde. Precisa de alguma coisa?

– Não, eu... Bem, vou me recolher. Perdi o sono e resolvi andar por aí, mas como o senhor disse, está tarde.

– Faça isso, meu jovem. As horas noturnas foram feitas para o descanso ou, como no meu caso, a vigília. O mal pertence à noite.

O japonês curvou-se e voltou para o pequeno quarto. Shun dormia, tranquilamente e alheio a tudo o que havia acontecido naquela noite. Aproximou-se dele e, de imediato, pensou em Hyoga. Os dois despertavam em si a necessidade de protegê-los, porém havia muitas coisas a serem esclarecidas e, no momento, ele se sentia muito cansado.

Amanhã irei até a casa do senhor Hyoga e talvez encontre as respostas que desejo. Pensou o moreno fechando os olhos e caindo em uma íntima e agradável escuridão.

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Seiya piscou e viu-se diante de uma porta fechada. Eu não havia batido? Perguntou a si mesmo, enquanto se sentia um tanto aéreo. Bateu a aldrava, novamente, mas ninguém atendeu. O jovem suspirou e desistiu. O senhor Camus deve ter saído e o mordomo deve estar de folga.

Foi então que olhou o relógio notando o adiantado da hora. Como não percebi que é tarde da noite?Já passa da meia-noite!

Confuso, Seiya tomou o rumo da pensão onde morava. Precisava retornar aos estudos para sagrar-se advogado. Trabalhar com o senhor Camus lhe assegurava o sustento e verba para frequentar a universidade, algo que desejava com todas as fibras do seu ser.

Uma jovem cambaleante se aproximou, tirando-o dos devaneios.

– E aí, bonitão quer aquecer-se nos braços de uma mulher? – questionou ela exalando um forte cheiro de conhaque.

– Não obrigado. – respondeu ele, mas ela segurou-lhe o braço encarando-o com os olhos mortiços.

– Eu cobro barato. Venha! – implorou ela começando a tossir.

O jovem apiedou-se da jovem prostituta. Estava visível que ela estava doente e, pela magreza do corpo, devia sofrer muitas privações. Vasculhou em seu bolso e retirou uma libra.

– Tome, é tudo o que tenho comigo. – disse ele estendendo a moeda para a jovem.

– Oh! Obrigada, meu senhor. Deus abençoe a sua generosidade! Rezarei para que encontre uma dama para desposar e que sejam muito felizes!

Seiya seguiu o seu caminho, enquanto a prostituta desaparecia em um dos becos escuros. Sem querer, o jovem pensou na noviça que encontrara, relembrando os olhos vivos que exalavam uma doçura e pureza tão profunda.

Londres era mesmo um lugar de contrastes... Pensou, enquanto o fog londrino envolvia a arquitetura urbana.

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Hilda acordou sobressaltada, mas não se levantou. Ficou olhando para o teto do quarto simples, até que as sombras cedessem à luminosidade do amanhecer quando então ouviria os sinos chamando para as orações da manhã. Fazia muito tempo que não sonhava e, naquela noite, uma criança povoara os seus sonhos com uma insistência que a deixou exausta.

Uma batida na porta a fez levantar da cama com o mesmo humor amargo de sempre e abri-la com seu olhar severo.

– Reverenda Madre, perdoe incomodá-la, mas o administrador pediu para vê-la com urgência! – disse uma freira jovem e rechonchuda.

– E ele não podia esperar que eu fizesse meu desjejum?

– B-Bem, ele está um tanto nervoso.

– Pois bem, diga que vou vê-lo daqui a quinze minutos e diga para Saori trazer os apontamentos que fez.

– Sim, senhora.

Exatos quinze minutos depois, Hilda foi até a sala onde se recebiam visitas. O ambiente estava frio, pois a lareira ainda não havia sido acesa. Tudo ali era austero, vazio e muito silencioso. Ela não se importou e apenas franziu o cenho quando viu o administrador caminhar com certa dificuldade, tendo em mãos dois livros grossos que pareciam pesados.

– Reverenda Madre, desculpe o cedo da hora, mas é que o assunto é grave. Eu me chamo William De Burgh. – disse o homem se curvando em um cumprimento.

A abadessa o encarou com visível má vontade.

– Pois bem, senhor De Burgh. Que assunto urgente o faz atrasar o meu desjejum e as orações da manhã?

O administrador estendeu-lhe um livro de capa corroída e páginas amareladas, enquanto permanecia com outro embaixo do braço.

– Encontrei este livro, depois que a abadessa Calvera faleceu. Nele estão doações e também uma promessa de perdão de dívida de um orfanato.

– E o que isto significa?

– Significa que o convento está com dívidas por conta da assistência aos pobres.

– Isso não é verdade! – interveio Saori chegando ao exato momento em que De Burgh revelava o real motivo da sua presença ali.

Os olhos do administrador se arregalaram e sua face ficou vermelha.

– Eu sei do que estou falando!

– Não, não sabe.

– Mas, afinal, quem cuida das finanças deste lugar?

– Eu, senhora! –respondeu ele, apertando o livro que carregava embaixo do braço, o suor escorrendo pela testa cheia de vincos.

Parecendo triste, Saori se dirigiu à abadessa:

– A abadessa Calvera sempre nos aconselhou a fazer prestações de contas diárias neste segundo livro. Ela cuidava muito bem de tudo e, muitas vezes, pedia pequenas doações que registrava aqui. A dívida a que se refere, senhor De Burgh, são dos alimentos doados ao orfanato no rigor do inverno.

Hilda suspirou.

– Afinal, qual a situação real?

– A abadessa me encarregou de procurar pelos nobres inscritos neste livro que o senhor De Burgh encontrou. Eles prometeram a ela repor o que foi gasto. Eu fiz algumas anotações pessoais em meu diário que gostaria de mostrar à senhora.

Ouvindo as palavras de Saori, o administrador a encarou com um olhar de desafio.

– A abadessa morreu e daquela forma horrenda. Não creio que consiga algo de real valor, senhora. Perdoe se não demonstro muito entusiasmo, pois afinal sou eu quem vai responder ao bispo. O que vale mesmo são as minhas apontações e nelas, estamos em uma situação muito precária. Podemos ficar sem poder fazer melhorias necessárias durante muito tempo.

Com um olhar frio e severo, Hilda dirigiu-se aos dois.

– Pois bem, pelo que vejo temos uma divergência aqui. Não me interessa quem está com a razão, o fato é que não aceitarei arcar com prejuízos dos quais não tive nenhuma participação. Vocês dois tratem de reverter essa situação e logo! – disse ela deixando a sala.

Tanto o administrador quanto Saori fitaram o rosto belo e impassível e, assim que Hilda se retirou De Burgh sentiu os joelhos fraquejarem ante a ordem, enquanto Saori encarou mais aquela provação como um desafio. Não deixaria que os esforços de Calvera tivessem sido em vão. Ela batalharia pelas doações e conseguiria reverter a má situação em que o convento se encontrava.

A jovem noviça havia anotado um nome, em especial e sublinhado em vermelho. A abadessa Calvera tinha lhe confidenciado que estava prestes a encontrar com o homem misterioso.

O homem conhecido pela alcunha de capitão é um filantropo misterioso. Não o conheci, mas soube que ele já ajudou o orfanato algumas vezes. Preciso encontrá-lo e saber se posso contar com a sua generosidade, novamente. Dissera Calvera, antes do seu trágico assassinato.

Pois bem! Vou atrás deste misterioso doador! Sussurrou Saori para si mesma, sem saber que o misterioso filantropo nada mais era que Poseidon, o grande amor da abadessa Hilda...

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A porta da mansão de Saga se fechou e, com um suspiro, o duque se deixou cair no sofá de brocado carmesim. Não lembrava de já ter se sentido tão cansado, nem mesmo ao atravessar as areias escaldantes do deserto egípcio. Pegando o cálice com xerez, tomou um gole e encostou a cabeça no espaldar alto, fitando o teto ornamentado da saleta. Fechou os olhos e pensou no que fazer...

Assim que desembarcara, pedira informações sobre as cargas que Kanon enviara do Egito e fora informado que todas se encontravam no depósito do porto. Com o coração acelerado, ele mesmo fizera questão de inspecionar tudo e descobrir se o tal manto estava em uma das caixas. Nada!

O fiscal que acabara de deixar a mansão jurara que nada de anormal havia acontecido. Mas, Kanon havia afirmado enviar o manto para Londres e sabia que seu irmão não se enganaria com algo deste porte.

Kanon dormia e ele precisava tomar alguma providência, mas, àquela altura, praticamente não tinha opções. Se a carga fora roubada, o ladrão era profissional e mesmo toda a sua influência não seria suficiente para resultados em tão pouco tempo. Temia pela saúde do irmão, tanto física, quanto mental.

Sua Graça precisa de mim? – perguntou o mordomo idoso, mas com uma postura muito ereta e impecável.

Saga reabriu os olhos em um sobressalto. Havia cochilado?A lareira estava apagada e Julian se preparava para reacendê-la.

– Julian, conhece alguém que tenha contatos no... submundo?

O mordomo elevou uma sobrancelha, embora tenha mantido uma expressão serena.

– Como disse, Sua Graça?

Submundo! Não sabia que tinha problemas de audição. – disse Saga com um tom irritado.

– E porque eu teria relações nesse... lugar?

– Não perguntei se tem relações e sim se conhece alguém que tenha.

– Felizmente, não, Sua Graça. Não fui criado para envolver-me com esse tipo de gente. – respondeu com um tom mesclado de severidade e descontentamento.

– Perdoe-me, Julian. Sei que é um homem honrado e batalhador. Mas, estou desesperado. Meu irmão... Ele enlouquecerá se não encontrarmos aquela carga!

– Perdoe-me a pergunta, mas... a que carga o senhor se refere?

– Uma carga amaldiçoada! Relíquias egípcias que Kanon resolveu trazer para Londres! Eu devia ter interferido e o dissuadido de continuar com esse passatempo perigoso que ele insiste em continuar fazendo.

Julian fitou o rosto de Saga e um brilho insinuou-se nas íris azuis acinzentadas. A opção de continuar trabalhando como mordomo fora uma opção sua. Não se imaginava sem nada para fazer, quando podia divertir-se escutando conversas e, assim, sinalizar para o filho, possíveis compradores para os leilões no submundo. Era assim que Poseidon sabia para quais nobres ricos enviar convites particulares e, com isso, aumentar a sua bela fortuna e era assim, que ele, Julian Solo, o mordomo que sempre servira com lealdade, se vingava daqueles nobres fúteis e egoístas. No entanto, seu maior objetivo ainda estava para ser concretizado: vingar-se do homem que, no passado, ferira o seu filho e o humilhara.

– Eu sinto muito, Sua Graça, rezarei pelo senhor e por seu amado irmão.

Com o rosto entre as mãos, Saga não percebeu o discreto sorriso e brilho nos olhos de Julian que se curvou e retirou-se com a discrição costumeira.

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O pequeno relógio de mogno fez soar sete badaladas. Isaak foi até o quarto de Hyoga encontrando-o em pé.

– Acha que já pode se esforçar assim? – perguntou o preceptor indo ao encontro do jovem.

– Não sou um bibelô. Essa cama me deixa mais dolorido do que a agressão em si.

Isaak sorriu. Hyoga era um jovem forte e orgulhoso que detestava mostrar vulnerabilidade.

– Mandei que enchessem a banheira, caso desejasse tomar um banho.

O jovem retirou o camisolão e se encaminhou para o biombo que escondia a banheira com água fria.

– Vou mandar que o desjejum seja trazido aqui, após o seu banho.

– Providenciou o que eu pedi? – perguntou Hyoga se afundando na água fria e sentindo-se revigorar com isso.

– Se está se referindo ao samurai e seu irmão, eu...

Antes que Isaak terminasse a fala, Ikki surgiu à porta. O semblante carregado, os olhos fixos na cena que se descortinava frente aos seus olhos. Havia sido orientado a esperar que fosse anunciado, porém, contrariando totalmente a disciplina que possuía, subira as escadas e invadira o quarto do jovem Hyoga.

Assim que o fizera, sentiu-se entontecido, como se tivesse sido possuído por uma estranha força e agora ela o tinha abandonado.

– Perdoe-me. – disse ele se curvando. – Não sei o que deu em mim, mas precisava vê-lo com urgência! – completou.

Hyoga olhou-o com seriedade e surpresa. Não esperava que Ikki tivesse coragem de invadir seu quarto deste modo. Porém, mesmo que sentisse o corpo estremecer, fitou-o como se não estivesse abalado com sua presença.

– Mas que coincidência adorável! Eu havia pedido à Isaak para contatá-lo, mas o senhor parece ter adivinhado e aqui está. – disse Hyoga agitando a água.

O peito de Hyoga estava no nível da água fria e perfumada com lavanda que a tornava leitosa e quase tão branca quanto à pele do jovem. Ikki observava a silhueta do corpo de Hyoga abaixo da superfície com certa perturbação sem compreender direito a atração que sentia por ele. Não havia em si o preconceito por sentir-se atraído por um homem, conhecera muitos samurais que tinham amantes e isto nunca os denegrira ou prejudicara como guerreiros.

No entanto, nunca havia sentido atração por outro homem e amara Esmeralda, a bela cortesã estrangeira que o ensinara os caminhos do prazer. Era um sentimento diferente do que vivenciara, até então. Havia uma força de atração e repulsão agindo, ao mesmo tempo, e nenhuma delas era fácil de dominar.

– Eu preciso de algumas explicações e também devolver parte do dinheiro que me pagou.

Isaak olhou feio para Ikki e depois para Hyoga vendo que os dois se encaravam como se estivessem se estudando para um duelo.

– Eu creio que o senhor poderia ter esperado na sala, como manda a etiqueta. É muita ousadia e falta de educação agir desta forma!- falou Isaak.

– Por favor, Isaak. Alcance-me a toalha de banho e pode sair. – disse Hyoga.

Com uma expressão contrariada, o preceptor foi pegar a peça e Hyoga se levantou com um movimento lento, exibindo a plenitude da sua nudez.

Sem querer, Ikki fixou toda a sua atenção no corpo alvo e nu que se levantava sem nenhum pudor e, pelo qual, a água escorria como se fosse um afago lento e sensual...

A água fria deixara a pele de Hyoga em um tom ainda mais pálido, seus cabelos parcialmente molhados parecendo fios dourados umedecidos pelo orvalho e o perfume que exalava dele, inebriava os sentidos com uma forte pungência erótica...

Ikki estava hipnotizado, os olhos viajando pelas formas perfeitas que nem mesmo as marcas arroxeadas haviam conseguido macular. O quadril estreito, o torso bem proporcionado, as coxas torneadas, o sexo...

Hyoga sustentou o olhar carregado de desejo, sentindo dentro de si emoções contraditórias. De certa forma estava feliz que Ikki o tivesse procurado. Entretanto, temia as próprias emoções.

Instintivamente, Ikki arrancou a toalha das mãos de Isaak e envolveu Hyoga nele. O preceptor abriu a boca para protestar, porém o jovem deixou claro que a sua presença era dispensável.

– Obrigado, Isaak. Agora nos deixe às sós, por favor.

Assim que o preceptor saiu, Hyoga fitou o japonês bem dentro dos olhos.

– Voltou apenas para exigir explicações e devolver o dinheiro?

– Em parte sim, mas também me preocupo com a sua segurança. O senhor está exposto a perigos e envolto em muitos mistérios.

– Não sou seu senhor. Me chame, apenas, de Hyoga. Devo-lhe a minha vida.

– Isso não muda nada.

Sentindo o forte calor do corpo de Ikki junto ao seu, Hyoga fitou-o no fundo dos olhos. Os dois estavam muito próximos e, de repente, uma força invisível os conectou impelindo o loiro a tomar uma atitude inédita...

– E isso? Muda? — disse Hyoga segurando o rosto de Ikki entre as mãos, e roçando os lábios na boca entreaberta e úmida.

Uma fome surgiu com força entre eles e suas bocas se uniram ferozes, as línguas tomadas por um frenesi de desejo que ecoou em todo o corpo. Ikki cedeu aos instintos e mordiscava os lábios do jovem sentindo-o suspirar dentro de sua boca. Suas mãos fortes se moviam para cima e para baixo nas costas delgadas até chegarem às nádegas roliças e as apertarem com força junto à extensão de sua rigidez...

Beijaram-se com sofreguidão e a toalha de banho acabou caindo entre eles. Ikki correu as mãos pelo corpo gelado e com um suave aroma de lavanda de Hyoga. O jovem se entregava e colava o corpo ao de Ikki, suas mãos buscavam o rosto viril que lhe tomava a boca com tanto ardor. O fogo acendeu dentro dele com uma fúria jamais sentida e ele se deixou incendiar...

Ikki saqueou a boca quente, invadindo o calor úmido que já não era o bastante. Sentiu a respiração em sua face e quis mais... Ouviu os gemidos baixos e sentiu o sangue inflamar-se de um desejo sem precedentes. O perfume na pele de Hyoga lhe tomou o íntimo e temperou-lhe o beijo até ele pensar que nunca mais respiraria sem sentir-lhe o gosto.

Queria estar dentro dele, penetrá-lo fundo, fazê-lo somente seu como havia feito no passado com Esmeralda...

O pensamento intruso foi o bastante para fazê-lo recuperar o controle ou o que restava dele. Com relutância afastou sua boca de Hyoga e diminuiu a força com que o abraçava. O jovem olhou-o nos olhos percebendo a confusão que se instaurara neles.

– O que foi? – murmurou Hyoga.

– Não posso fazer isso. É melhor eu ir embora. – disse Ikki dando as costas ao jovem.

– Nunca imaginei ver um samurai agindo como um covarde. — provocou Hyoga pegando a toalha caída e a enrolando na cintura para ocultar sua excitação.

Ikki virou-se com fúria nos olhos azuis. Também estava excitado.

– Não sou covarde!

Hyoga forçou-se a rir.

– Você tem medo! É um mestre na arte da guerra, mas fraqueja diante de um beijo! Parece ser... inexperiente! – provocou o loiro olhando de propósito para a ereção ainda visível sob a roupa do japonês.

O samurai encarou Hyoga com escárnio.

– Não, eu não sou inexperiente e graças a uma mulher com o dobro da sua capacidade de seduzir, senhor Hyoga. O que me trouxe aqui não foi o desejo e sim a necessidade de respostas! O senhor é quem não tem controle sobre suas emoções e foi o senhor quem me beijou.

– E o senhor correspondeu, ou... vai negar? – continuou Hyoga sem mostrar abalo pelo comentário.

– Não negarei, mas não foi para isso que vim. Olhe para si mesmo! Ainda tem as marcas daquela criatura em sua pele e age como se nada houvesse acontecido. Quem é o senhor, afinal?

De repente, Hyoga ficou consciente da agressão sofrida. Sua expressão displicente transformou-se em uma máscara de frieza. O que estava fazendo?

– Tem razão, senhor Ikki. Não temos mais nada a conversar. Por favor, saia!

– Quem é o covarde, agora?

O jovem fitou-o de forma inexpressiva, quase ausente.

– Fique com o dinheiro que veio devolver. Salvou minha vida e não gosto de dever nada a ninguém. Quanto às respostas, creio ser desnecessárias, já que não precisarei dos seus serviços. Existem mais mistérios sob o céu e a terra, do que supõe a nossa vã filosofia. Como bem disse Shakespeare, um dia, meu caro samurai.

O moreno pegou-o pelos ombros.

– O senhor finge bem. Mas, apesar de vir de uma cultura muito diferente, eu compreendo muito mais que possa imaginar. Quando um sábio aponta o céu, o ignorante olha o dedo. Como bem escreveu Kuniichi há mil anos, senhor Hyoga. Não me deve nada! Eu, apenas, atendi ao pedido de uma mulher que creio ter se enganado ou ser louca. Ela pediu-me para salvar seu filho e nós dois sabemos que a sua mãe está morta e jaz em um destes quartos, não é mesmo?

– O-O que está dizendo? Quem é esta mulher? – perguntou o jovem, agora com uma expressão visivelmente surpresa.

– Eu não sei, ela surgiu envolta em um manto e não vi o seu rosto. Quando voltei ela havia sumido! Eu esperava que ela me explicasse o que fazia na igreja e também me dissesse quem era o seu filho. No entanto, aquela criatura monstruosa capaz de falar me deixou desnorteado e eu sei que o senhor sabe muito mais que demonstra!

– Vá embora, samurai...

– Quem é o covarde agora?! – gritou Ikki sem soltá-lo.

Lágrimas quentes afluíram aos olhos cristalinos do jovem e ele as sentiu rolar sem que as pudesse conter. O japonês diminuiu a pressão sobre o corpo de Hyoga. Pela segunda vez o enxergava vulnerável e isso disparou uma emoção inoportuna em seu peito.

– Você viu o espírito da minha mãe... Ela está presa entre dois mundos e o que eu mais desejo, é trazê-la de volta.

– Ninguém tem o poder de ressuscitar os mortos! Isso é loucura!

– Eu vou fazer de tudo para trazer minha mãe de volta. Victor Frankenstein possui este poder.

Ikki apiedou-se ao ver o desespero no rosto belo, o que fez o jovem virar o rosto e se afastar. Orgulhoso, Hyoga não suportava aquele olhar.

– Vá embora, samurai, e esqueça esse assunto. Viva a sua vida, aproveite o dinheiro. Não preciso dos seus conselhos e nem da sua piedade!

O japonês se aproximou, novamente. Estava sério e nada falou. Sentia em si a dor de Hyoga e queria livrá-lo dela. Tomou-o nos braços, mesmo sentindo-lhe a resistência. Ofereceria conforto, pois já enfrentara a dor de perder um ente querido.

Abraçou-o, ignorando as palavras duras que ele lhe dirigia. Imobilizou-o, até sentir que ele se cansava. Com as faces coradas pelo esforço, Hyoga se rendeu e, desta vez, foi Ikki quem procurou os lábios rosados e entreabertos. Aquilo era errado. Hyoga seria sua queda!

Antes que ele reagisse, Ikki encostou-o na parede e invadiu os lábios entreabertos com sua boca, num beijo violento. Hyoga queria resistir, mas seu corpo o traiu e correspondeu com igual ferocidade.

O beijo profundo ressuscitou o ardor entre eles, mas nenhum dos dois parecia se importar. Ambos queriam mais do que um simples beijo, seus corpos ditavam regras diferentes das que a mente exigia...

Sôfrego, o jovem sentia a pressão daquelas mãos fortes e ásperas sobre a pele e se esfregava no corpo forte de Ikki, enquanto ele descia a boca até os mamilos que se arrepiavam ao toque de suas mãos.

Os lábios do samurai entreabriram-se para tomar um mamilo ardente com a boca, contra a língua e os dentes. Ele sugou a carne sensível e Hyoga gemia alto à medida que ele o lambia, mordiscava e acariciava o vale da virilha e o membro pulsante que se projetava contra o seu corpo.

A cama estava próxima, e Hyoga estava tomado de sensações tão prazerosas que beiravam ao insuportável. Ninguém jamais o tocara. Ninguém nunca instigara nele, aqueles vários níveis de desejo, fazendo sentir seu corpo tão familiar, quanto estranho. Ele nunca poderia imaginar que o prazer físico pudesse ser tão avassalador e, ao mesmo tempo despertasse em si a necessidade de ir além...

– Ikki...

– Eu não vou parar...

– Não quero que pare...

O samurai despiu as roupas, revelando um corpo forte, musculoso e com algumas cicatrizes. Hyoga tocou-lhe a pele ardente e sorriu. Beijos curtos, rápidos, ansiosos somaram-se ao sôfrego passear das mãos pelo corpo um do outro. Os lábios de Hyoga colados ao de Ikki moviam-se sedentos, as mãos dele se espalharam pela nuca, por baixo do cabelo negro e sedoso, mantendo a boca presa à dele, ansiando pelo contato da pele, entregando-se àquela tempestade de emoções que eclodiam dentro de si.

O odor quente, quase ferino da excitação do japonês misturava-se ao de Hyoga alimentando um sentimento tão agudo que doía, latejava e implorava para ser satisfeito.

Ikki sussurrava algo que Hyoga não compreendia, mas que o arrepiava, fazendo-o gemer e arquear as costas, ardente de desejo, o corpo sequioso correspondendo ritmicamente aos toques do samurai. As carícias das mãos dele em seus mamilos faziam-no ansiar pelo roçar da língua, o progressivo e sensual sugar em sua carne trêmula.

E como se estivesse lendo seus pensamentos, Ikki voltou a rodear, primeiro um mamilo, e depois o outro com a ponta da língua. Em seguida, mordiscou-os e sugou deixando a pele alva avermelhada e fazendo-o arfar e gemer.

O latejar profundo dentro de Hyoga se transformou numa ânsia crescente, permeada de gemidos intensos que se expandiam cúmplices e desejosos que Ikki o penetrasse.

De repente, estavam na cama e seus pés estavam nos ombros de Ikki e sua respiração ficando cada vez mais entrecortada, enquanto as mãos do samurai deslizavam em seu corpo, mexendo-se na pele, levando-o às alturas tão rápido que ele mal conseguia respirar.

Ikki movia-se com precisão, numa perfeita sintonia entre as mãos e a boca, até posicionar o corpo musculoso entre as coxas de Hyoga e penetrá-lo rijo e profundamente.

O loiro agarrou-se aos ombros fortes e arquejou ao sentir-se possuído, preenchido de um prazer insano e dolorido que convulsionou os músculos de sua garganta e fizeram-no gemer e gritar alto. Um grito que reverberou pelas paredes e pelos corpos num intenso ardor.

O japonês investia profundamente e era recebido com a mesma ânsia, com a mesma necessidade de fusão carnal. O vai e vem dos quadris se chocando, a fricção do falo rompendo a resistência interna, os corpos unidos no ritmo alucinado. Os dois se olharam ofegantes, as mãos de Hyoga se fecharam na carne rija dos ombros do samurai...

– I-Ikki... – gemeu ele, seu corpo começando a estremecer violentamente. Sentia uma sucessão de ondas expandirem-se dentro de seu corpo levando-o ao tão temido descontrole.

– Goze comigo... — sussurrou Ikki tomado por um prazer que parecia despedaçá-lo e, ao mesmo tempo, completá-lo, novamente.

Os dois chegaram ao orgasmo, ao mesmo tempo. Seus corpos convulsionaram com tanta paixão que o ar pareceu desaparecer dos pulmões. As bocas se encontraram, acolhendo os grunhidos vindos da garganta de ambos...

Com o coração acelerado, Hyoga pressionou a face contra o peito de Ikki sentindo as batidas fortes do coração do samurai pulsando e o sêmen dele derramar-se dentro de si, enquanto o seu, jorrava quente no tórax arfante.

Quando os corpos pararam de tremer, Hyoga fechou os olhos e desfaleceu com um sorriso satisfeito nos lábios rosados...

Notas finais
**♥**Um super agradecimento para todos que leem, favoritam, recomendam e, em especial para quem vence a preguiça e comenta. Eu sei que é mais fácil ser um leitor fantasma, principalmente na correria do dia-a-dia, mas de vez em quando, comentar não dói, não é? **♥**Bjs e até a próxima!!