AMALDIÇOADOS!
6 Perversa paixão...
Notas iniciais

Em meio às areias escaldantes, o corpo de uma cobra do deserto jazia em um espeto sobre o fogo. Um aroma semelhante ao de frango assado enchia o ar sob o olhar entusiasmado e faminto dos homens de Jamil que conversavam baixo.
Saga olhou a cena e pegou a tigela com frutas secas, pão e carne defumada. No entanto, não conseguia comer. Seus nervos estavam à flor da pele com todos aqueles acontecimentos ligados ao seu irmão. Encostou-se e fechou os olhos, o sol do meio-dia era escaldante e o calor os abraçava de forma implacável. Kanon permanecia febril e deitado na tenda armada para que pudessem descansar antes de embarcar no navio. Sentiu vontade de andar um pouco, mas o simples ato revelava-se impossível para ele àquela hora.
Na tenda, Kanon abriu os olhos, mas não foi o ambiente pequeno e quente que seus olhos vislumbraram...
Estava em uma antecâmara repleta de nobres e curiosos. A luz e o calor do sol entravam pelas portas abertas, iluminando as paredes ornadas com pinturas dos deuses e os rostos que olhavam a bela mulher exposta de forma humilhante. As expressões variavam da raiva à indiferença.
O altar sagrado de Osíris se elevava sobre o aposento, exibindo a imponente estátua do deus, o soberano dos mortos. Ele segurava a balança de ouro, sentado majestosamente à frente do mundo subterrâneo, no Salão das Duas Verdades. Parecia uma entidade aprisionada em ouro, mas ainda assim, exalava um magnetismo poderoso capaz de fazer qualquer um reverenciá-lo como se fosse feito de carne e osso.
A mulher olhou para o deus e, em seguida, para aqueles que a julgavam.
–“Só peço que permitam que eu morra com o presente que meu amado me deu.”
– “Você é culpada de traição!”- afirmou o vizir. – “Não possui direitos!”
A túnica branca contrastava com sua pele dourada e Tiy silenciou. Porém, um sacerdote surgiu rapidamente e cochichou algo junto ao ouvido do vizir. Rameses franziu o cenho. Mesmo contrariado, tinha de obedecer à ordem dada pelo faraó Akhenaton.
–“Nosso deus permite que permaneça com o manto. Tragam-no!”
Assim que a ordem foi cumprida, Tiy sorriu e abraçou o próprio corpo. Não temia a morte, assim poderia encontrar seu amado e com ele trilhar a eternidade. Temia, apenas, perder-se nos labirintos da imortalidade se não tivesse algo que a guiasse, que a fizesse ser reconhecida pelo único homem a quem amou.
Então, de repente, a cena se transformou e o sorriso da rainha transformou-se em um esgar horripilante e seu belo rosto, em uma caveira cheia de vermes.
– Dê-me o que é meu! Devolva-me ou trilharás as águas subterrâneas nas horas noturnas, assim como eu!
A voz rouca e arranhada soava numa mistura de ira e tristeza. E, enquanto ela se aproximava de uma forma distorcida, Kanon ouviu seu nome...
– Kanon!
O gêmeo mais novo acordou assustado e suando. Sentou-se e respirou fundo sob o olhar preocupado de Saga. Seus olhos verdes estavam bem abertos, entretanto...
– Saga? – a voz saiu quase inaudível.
– Você estava tão agitado que eu... Kanon? O que foi irmão?
– Eu... Eu não estou enxergando. Meus olhos! Saga, eu estou cego!
– Não pode ser... – disse Saga, aflito.
Neste momento, Jamil abriu a porta da pequena tenda.
– É bom comerem um pouco, a viagem será longa. A cobra assada está uma delícia! – disse ele estalando os lábios.
Saga abriu a boca para falar, mas sentiu que Kanon apertava sua mão em um pedido mudo para que não o fizesse.
– Obrigado, Jamil. – disse, apenas.
O homem olhou para os dois, percebendo certo clima ali. Porém, não era pago para se intrometer nos assuntos daqueles dois.
– Bem, se quiserem comer aqui dentro, eu trago para vocês.
– Seria muito bom. – falou Kanon.
Assim que Jamil os deixou, Kanon agarrou a mão de Saga e procurou sua face para tocá-la.
– Eu sei o que ela deseja... Precisamos reavê-lo! Só assim recuperarei a visão.
– Do que está falando, Kanon? Você está doente! Essa cegueira... ela pode ser por causa de algum fungo destas escavações! Temos que voltar para Londres e consultar um especialista!
– Eu não estou doente, eu estou... amaldiçoado!
– Isso são crendices!
– Não, não são. Eu pensava como você, irmão. Mas, a verdade, é que... acabei mexendo com coisas que não consigo explicar.
– Vamos comer e embarcar naquele navio. Em Londres, resolveremos tudo.
– Sim... Em Londres está o que ela deseja. Eu nunca pensei... Eu preciso devolver o que tirei dela. – disse Kanon fechando os olhos e embarcando em mais um sono embalado pela febre.
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O porão da Abadia era úmido e escuro. O cheiro de mofo inundava o ambiente, mas isso pouco importava. A criatura estava com medo, ali sentada, enquanto balançava o corpo disforme. Mais uma vez, havia desobedecido a uma ordem e agora estava pagando por isso. Seu mestre ficaria triste e talvez... bastante aborrecido. Sua punição incluía jejuar ou usar o cilício.
Ouviu os passos pesados e soube que ele já estava ali.
– M-Mestre...
O bispo encarou-o, não do modo gentil de antes, mas com uma ira flamejante.
– Eu não disse para ficar em seu esconderijo? Por que me desobedeceu?
– M-Mestre... eu a vi! E-Ela é linda... Linda como um anjo!
– Ela é uma abominação! Não caia na armadilha do demônio. Ele seduz com a beleza e com promessas perversas.
A criatura se encolheu, mas logo tornou a encarar o bispo.
– V-vai me castigar?
– Bem que eu deveria! Mas, você mesmo irá se penitenciar com o cilício.
– E-Eu j-já fui castigado. O menino me machucou... – disse a criatura mostrando a orelha cortada que jazia pendurada por um fio de carne.
Tatsumi se aproximou e arrancou a orelha que ficara pendurada. A criatura não gemeu, nem esboçou reação. Apenas abaixou a cabeça, enquanto o bispo pegava a estola e tocava o ferimento.
– Segure isto junto ao rosto. Vai estancar o sangue.
– M-Mas... é a sua... estola.
– É apenas tecido. Agora fique aqui e cumpra a sua penitência, logo trarei algo para você comer.
A criatura voltou a se encolher, enquanto Tatsumi subia as escadas de volta à Abadia.
Quando retornou ao pavimento central, o bispo viu duas figuras sentadas. Notou-lhes as vestimentas e que também carregavam artefatos semelhantes a espadas. Aproximou-se devagar, notando que o homem mais velho percebera a sua movimentação.
– Boa noite, meus jovens. Entendem a minha língua? – perguntou ele.
– Sim, padre.
Tatsumi sorriu. Padre... as vezes, quisera voltar ser, apenas um...
– O que os trouxe à casa de Deus a esta hora?
– Não tínhamos para onde ir. Deixamos a mansão do senhor Hyoga e não encontramos pousada para pernoitar. Meu irmão e eu não conhecemos ninguém aqui.
Tatsumi estreitou os olhos em uma atitude benevolente, mas também astuta. Sabia tudo sobre o jovem Hyoga e também sobre o segredo que ele trouxera consigo para Londres. Realmente, Deus escrevia certo em linhas tortas...
– Venham comigo, vou acomodá-los na casa paroquial.
– É muita bondade sua! Eu faço questão de pagar a estadia. Eu tenho dinheiro. – disse Ikki.
– Não se preocupe com isso. Depois estudaremos uma pequena doação.
Shun olhou para o bispo e sorriu, saudando-o à moda oriental. Os olhos do menino o deixaram extasiado. Havia inocência e força neles, algo raro para um garoto daquela idade. Enfim, tudo se encaminhava como deveria ser...
Enquanto andavam pelo imenso corredor, Shun observava tudo com curiosidade, a nave central com suas pinturas que tornavam a cúpula tão profunda quanto o céu, os anjos, os santos, tudo era tão novo e desafiador. Acostumado a meditar desde pequeno, Shun estava intrigado com aquele lugar. As imagens, as velas... Havia uma beleza, mas também uma severidade em tudo aquilo.
– Shun?
– Hã... Sim, irmão! O que foi?
– Nada, apenas te achei tão distraído. Não precisa se preocupar, está tudo bem.
– Eu sei, mas... confesso que preferia ter ficado na mansão do senhor Hyoga.
– Lá não era um lugar seguro para você.
– Eu sou um guerreiro, Ikki.
O moreno olhou para o irmão caçula com um meio sorriso. Era verdade, Shun já sabia se defender muito bem. A Kusarigama era uma arma difícil, mas desde pequeno Shun aprendera a manejá-la com a precisão de um mestre. Porém, havia mistérios que não se reduziam à realidade concreta. Hyoga estava mexendo com forças além da sua compreensão, algo impossível, mas que mesmo assim traria consequências...
– Eu sei, mas é meu dever como irmão mais velho, protegê-lo. Agora vamos!- disse Ikki estendendo a mão.
O menino agarrou a mão de imediato e sorriu, fazendo com que o coração de Ikki experimentasse uma emoção forte, mas que o fez relaxar após horas de tensão.
Tatsumi andava um pouco à frente dos dois mostrando sua face serena e solidária. No entanto, havia outra parte sua que exultava com aquela nova situação. A parte sombria que fora despertada para que ele deixasse de ser, apenas um servidor e se tornasse um vingador.
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– Por favor, entre.
A voz em tom frio contrastava com o olhar ardente. Camus cedeu lugar para que Milo entrasse. A casa era simples e com uma decoração austera, fazendo com que o vidente se sentisse à vontade, mesmo que estivesse constrangido pelo reencontro com o ruivo.
Milo não olhou em volta. Por alguns segundos, ele fechou os olhos e sentiu o ambiente. Havia silêncio e segredos no ar. Os aposentos da casa se mantinham adormecidos... Mas havia um lugar, um sótão, onde a energia era tão grande que poderia iluminar toda a casa num piscar de olhos!
– Senhor Milo?
O vidente abriu os olhos, o rosto belo e determinado parecia acordar de um pequeno cochilo.
– Perdão, eu... estou um pouco cansado, mas precisava falar-lhe, ainda hoje.
– Por favor, sente-se. Vou pedir que nos sirvam um café ou, se preferir, um chá. – disse Camus mostrando a poltrona frente a sua.
– Café, obrigado.
O ruivo observou o modo contido do vidente. Parecia outro homem fora do teatro e também do seu ambiente familiar. Sentia que ele estava receoso e a atitude o incomodou, fazendo-o sentir uma emoção estranha e desagradável.
Assim que o mordomo trouxe a bandeja com a bebida quente e fumegante os dois beberam e só então voltaram a conversar.
– Senhor..! – disseram os dois, ao mesmo tempo.
Camus sentiu o rubor se espalhar pelo seu rosto.
– Por favor, fale primeiro.
– Aconteceu algo entre nós... Não sei se o senhor se lembra, mas eu sim e preciso esclarecer isso. – disse Milo.
Com o rosto ainda mais quente, Camus franziu o cenho e levou a mão à gravata de laço. Sentiu uma repentina fraqueza e um incômodo na boca do estômago.
– Eu me lembro. – disse, por fim.
Milo sorriu e aquele ato acentuou as sensações do ruivo. Devastador era a palavra certa para descrever aquele sorriso. Os dentes brancos, os lábios cheios e convidativos... Somando-se a isso havia o olhar intenso daqueles olhos azuis que brilhavam como joias valiosas e também a integridade do corpo esguio que parecia gravado em sua memória.
– Ainda bem. – disse o vidente. – Fico mais tranquilo ao saber que se recorda do que aconteceu. Assim facilita o que eu tenho a dizer.
– E o que tem a dizer?
– Creio que o senhor também hospeda uma entidade, porém muito diferente do meu. De alguma forma, isso nos conectou e... Bem, aconteceu aquilo.
Camus pigarreou e apertou o braço da poltrona. Nada vivenciado, até então, o afetara daquele jeito. Nem mesmo a descoberta das suas estranhas habilidades. Então porque se sentia devassado frente àquele homem?
– Vamos ser diretos, o que aconteceu entre nós dois foi determinado pela ansiedade e...
– Ansiedade? Por quem me toma, senhor Camus? Por um tolo ignorante? Nós tivemos intimidade e fizemos sexo! Acredita mesmo que isso foi feito pela ansiedade? – falou Milo abrindo a camisa e expondo os hematomas roxos em seu pescoço.
O rosto do ruivo ficou quase da cor dos seus olhos e cabelos. Uma onda de calor apoderou-se de si, ao mesmo tempo em que a temperatura do ambiente pareceu baixar, drasticamente.
– Senhor Milo... Eu...
O vidente continuou encarando-o, enquanto via sua respiração evaporar em espirais, como se estivesse ao ar livre. Sentiu o ambiente da sala esfriar, mas ainda assim não demonstrou nenhum receio. Vagarosamente, se aproximou de Camus, levando a mão ao rosto em brasa. Cristais de gelo dançaram no ar, enquanto os dois fitavam-se nos olhos. Foi então que o vidente tomou uma atitude inédita: aproximou os lábios da boca do ruivo e o beijou...
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Saori emudeceu, incapaz de acreditar nas palavras da nova abadessa. Hilda de Polaris adentrara o convento como se fosse uma rainha e não uma religiosa. O porte altivo aliado a uma beleza incomum fazia acreditar que a escolha da vocação religiosa fora por outras razões que nada tinham a ver com livre arbítrio. Comentava-se que ela recusara casar-se com um nobre influente e seu pai a colocara em um convento pela ousadia da desobediência.
– A partir de hoje, eu sou a abadessa e todas as decisões a respeito deste convento serão encaminhadas por mim. Para começar, os serviços de caridade serão restritos ao atendimento da população vizinha. A Ordem tem de preparar-se para a visita da rainha e isso significa tornar este lugar mais habitável.
– Mas, senhora! O orfanato... Nós nos comprometemos com aquelas crianças. Não podemos abandoná-las. A abadessa Calvera lutou muito para conseguir mantê-lo. – falou Saori.
Hilda ergueu a sobrancelha num gesto que evidenciava que a fala da noviça não a agradara. Seus olhos violáceos pareciam duas ametistas frias e implacáveis e já haviam constrangido as outras freiras, mesmo as mais velhas.
– Calvera era uma mulher piedosa, mas tinha o defeito de ignorar as hierarquias. Soube que ela tinha você como sua protegida. Pois, digo que a situação mudou! Você e todas aqui obedecerão às minhas ordens e não admitirei nenhum questionamento. Fui clara?
Saori baixou a cabeça num gesto de submissão, mas internamente, pensava no que iria fazer. Teria que falar com o bispo Tatsumi, pois não podia deixar que a nova abadessa colocasse por terra tudo que haviam feito pelos mais necessitados.
– Sim, senhora. – disse a jovem. – Agora, se me permite, eu gostaria de ir à capela e orar.
A abadessa fitou-a com descaso.
– Pode orar depois! Agora quero que traga todos os registros sobre as finanças do convento, sei que temos arrendatários e um pequeno vinhedo. Preciso saber também em que pé está a compra dos mantimentos para o inverno e se temos fundos para reorganizar esse lugar. Está certo que fizemos voto de pobreza, mas isso não significa que tenhamos que viver como indigentes.
As freiras mais velhas se olharam, enquanto as noviças focaram em Saori. A jovem noviça elevou os olhos de forma a encarar a abadessa. Nesse meio tempo, os sinos badalaram, anunciando o horário das orações.
– Creio que as questões terrenas terão que ser colocadas em segundo plano, senhora. Nos dará a honra de conduzir o terço? – questionou Saori.
Hilda inspirou e elevou o queixo. Em seguida, liderou a fila de religiosas que se encaminhava para a capela. No caminho, Saori percebeu-lhe os movimentos graciosos, o leve oscilar dos quadris... Aquela mulher não agia como uma religiosa, aliás, até o olhar dela mostrava uma personalidade voltada para as questões mundanas! Que Deus a perdoasse, porque ela não deixaria que a abadessa pusesse a perder tudo que Calvera havia conquistado.
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Assim que Milo cobriu a boca do ruivo com a sua, o desejo se acendeu poderoso e voraz. Camus correspondeu com fúria, esmagando os lábios carnudos e sentindo todo o seu corpo retesar e a ereção despontar e roçar entre as coxas roliças do vidente.
Milo sentiu a rigidez do ruivo e aprofundou ainda mais o beijo. Ambos se perderam no frenesi das línguas e da saliva que se misturava com uma paixão obscura, quase proibida...
– Não..., não aqui... – murmurou Camus mais para si mesmo do que para o vidente.
Sem mais palavras, o ruivo puxou Milo pela mão, levando-o até o sótão. Uma voz em sua mente dizia para não fazer, enquanto outra o atiçava, como se dentro dele houvesse dois Camus, um extremamente racional e outro desejoso de paixão.
A energia do aposento era densa e quase palpável, era ali que se concentrava algo forte e inexplicável naquela casa. No entanto, Milo estava envolvido pela tensão sexual e disposto a ir até o fim. Agora não era Imnotep, era ele próprio, desejando, ansiando por algo que refreara por muito tempo.
Camus ofegava, os olhos rubros estavam dilatados pelo desejo. Ele nada falava, apenas agia. E foi com dificuldade que fitou Milo, uma guerra travando-se dentro de si.
– Eu preciso saber... – disse ele rente aos lábios do grego.
– Em também... – respondeu Milo sabendo, exatamente, sobre o quê o ruivo falava.
O beijo que se seguiu foi lento, sensual, embriagador... Camus escorregou os lábios pelo pescoço do grego, acariciando-o demoradamente. Enfiou as mãos por baixo da camisa do grego e tocou os mamilos rijos, até despi-lo e substituir os dedos pela língua ávida.
Milo arqueou-se contra ele, ainda em pé. Seu corpo estremeceu, porém Camus o segurava com força, os dedos longos implacáveis acariciando, apertando, marcando com as unhas curtas...
Não havia cama, ali, nem mesmo um tapete. Apenas um pentagrama desenhado no assoalho de madeira bem no centro onde ambos estavam.
Então, o vidente compreendeu... Por alguns instantes, ele desvencilhou-se dos braços de Camus e, lentamente, despiu o restante das suas roupas. As marcas roxas de mordidas e unhas podiam ser vistas em várias partes do corpo nu, belo e voluptuoso. O ruivo o observava como se estivesse hipnotizado. Mesmo constrangido pela intensidade daquelas marcas, seu sangue latejava nas têmporas e na ereção potente que exigia ser libertada das roupas. Ele também se despiu com a respiração ofegante e os olhos rubros ainda mais intensos... Abraçou Milo e, em seguida, ambos se deitaram no chão, no centro do pentagrama.
Nada mais foi dito. Uma energia poderosa e invisível os envolveu... O vidente deslizava com sofreguidão as mãos ardentes pelas costas do ruivo, sentindo a elasticidade dos músculos, a solidez dos ossos... A expansão do tórax forte de Camus, o ritmo das batidas do coração e a respiração ofegante dele o fez atraí-lo mais para si, ambos gemendo baixo, fechando os olhos num ato de total entrega...
Camus o tocava possessivo, as mãos fortes apertando e acariciando, arrancando ofegos de Milo, os lábios arfantes do loiro abrindo-se para recebê-lo... As bocas se uniram num prazer profundo, escaldante, as línguas se buscavam, tocavam e voltavam a resvalar os lábios um do outro, provocando, degustando, provando o gosto agridoce da pele suada, da saliva, do êxtase...
O grego mordiscava os lábios de Camus e tornava a oferecer os seus, o desejo crescendo, o corpo pulsando e se contorcendo em busca de mais. Fechou os olhos e entregou-se ao prazer de sentir-se livre, voluptuoso... Nada mais importava, nem mesmo o chão e sua dureza.
Os dois se roçavam com um ardor próximo da loucura, o nariz do ruivo se esfregava no pescoço moreno, a boca mordiscando a depressão entre o pescoço e o ombro, as mãos de Milo enterrando-se nos cabelos avermelhados e puxando-lhe a cabeça de encontro aos seus mamilos, sentindo a língua ávida traçar círculos vagarosos deixando-os túrgidos e incandescentes...
A dança dos corpos era orquestrada pelos gemidos e ofegos prazerosos, os toques urgentes e sem pudores antecipavam o momento crucial em que teriam um ao outro, dentro de si.
Milo gemia, ansiando por mais, os músculos contraindo-se à proporção em que a boca e as mãos de Camus desvendavam seu corpo, traçando um caminho efervescente pelo tórax, os beijos molhados distribuídos por seu ventre e coxas...
Vendo que a sua exploração fazia o loiro se contorcer, Camus desceu a mão para a junção entre as pernas dele. Provocou-o roçando, massageando, até introduzir os dedos na entrada de forma lenta e circular, enquanto seus lábios continuavam a aguçar-lhe os sentidos.
Milo ofegou quando todos os seus sentidos centralizaram na mão máscula mergulhando os dedos dentro de si. Inalou profundamente quando se sentiu tocado em um determinado ponto, seu corpo inteiro parecia em suspenso e então ele moveu os quadris, seu corpo instintivamente procurando, seguindo o movimento dos dedos de Camus, ansiando-o dentro de si. Um gemido escapou de sua garganta e uma onda de prazer o percorreu, enquanto o ruivo penetrava-o daquele modo, esfregando-se em seu falo, unindo as ereções túrgidas, pulsando junto, as coxas se juntando... Deus, como amava aquele homem! O pensamento rápido o surpreendeu. Como podia amar um desconhecido? Um homem que, dias atrás, não existia em sua vida? Que loucura era essa?
Arfante e alheio aos pensamentos do grego, Camus encaixou-se entre as suas pernas, o membro viril sondando a entrada. Olhando nos olhos ébrios de Milo, debruçou-se sobre ele, o corpo forte a prendê-lo no lugar, o ato silencioso de tomá-lo como seu. Agora sendo ele mesmo e não uma entidade a fim de saciar-se de modo cruel...
– Sou eu que o desejo... – sussurrou Camus. E, sem desviar o olhar, ergueu-se e penetrou-o bem fundo, preenchendo-o completamente.
Milo gritou em prazer e agonia, os lábios carnudos, se abrindo para sorver o ar e murmurar a mesma frase... Suas pernas se fechando em torno das nádegas rijas de Camus, colando-se a ele e acompanhando as investidas, indo de encontro aos movimentos frenéticos e apaixonados dos quadris que se chocavam aos seus.
Agonia, deleite, alma e corpo... Uma súbita compreensão do êxtase divino, da comunhão daquela estranha paixão, enquanto as peles fundiam-se quase insanas...
Camus gemia, tomado pelo gozo, o corpo inteiro ardendo e estremecendo a cada investida e recuo... Mal tinha consciência de onde estava e das palavras roucas que saíam de sua boca. Só havia Milo, seu olhar escurecido pela luxúria, luz e sombra, angústia e paz. E ele investia cada vez mais, sentindo seu falo adentrar o interior quente e úmido que o acolhia, apertando-o de forma ritmada e prazerosa, fazendo-o atingir as alturas e adentrar o abismo...
Enlouquecido, ele agarrou Milo pelos quadris, mergulhando tão fundo quanto o corpo do vidente poderia permitir. O ritmo foi se intensificando, as respirações transformando-se em arquejos curtos, os corpos latejando e acumulando tremores, a ferocidade do gozo irrompendo em cada poro...
Uma fração de segundo antes que Camus gritasse e liberasse o sêmen quente numa explosão de prazer, Milo estremeceu convulso e seu corpo pareceu estilhaçar-se junto com o eco de seu grunhido e o seu sêmen derramado, entre os corpos.
Os dois estremeceram e se contorceram juntos, num orgasmo violento, e Milo continuou prendendo Camus entre as pernas, sentindo-o desabar sobre seu corpo. Ainda desfrutando da sensação de letargia, da emoção lânguida de paixão saciada, o grego tomou os lábios vermelhos do ruivo nos seus, devorando-o, enquanto os corações ainda retumbavam em todas as veias...
Caíram frouxos, suados e exaustos, braços e pernas entrelaçadas. Camus sentiu-se envolvido por uma completa escuridão e apagou por alguns segundos. Quando abriu os olhos, viu que Milo permanecia com os seus fechados, porém seus lábios sorriam. O ruivo tocou a face corada do vidente e seus olhos refletiam um misto de emoção e angústia.
– Eu não queria machucá-lo. Quando fizemos antes, não era eu, mas, ao mesmo tempo, era. – disse o ruivo.
Milo retribuiu a carícia, tocando o rosto alvo e ainda afogueado pela paixão.
– Eu sei. Por isso, eu quis muito te sentir assim, sem a loucura de ser possuído por outra pessoa. Imnotep é atraído por você. Eu precisava saber o porquê.
– E você sabe?
– Sim, eu sei. Não sei como isso é possível, mas... você é o receptáculo de um deus. Não é uma simples possessão, existe parte dele em você, Camus.
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– E então, doutor, quais são as suas impressões?
Questionou Hyoga, após observar que Victor permanecia no mais absoluto silêncio, enquanto fitava o corpo de Natássia e anotava algo num pequeno bloco de papel.
– Há quanto tempo você a mantém assim?
– Muito tempo. Isso importa?
– Estou surpreso, não houve nenhum tipo de degradação. A pele parece tão fresca como se ela estivesse... viva. Em meus experimentos, eu nunca consegui esse efeito. A pele de minhas criaturas foi sempre a primeira coisa a se degradar.
– Minha mãe não era uma mulher qualquer.
Victor fitou os olhos de Hyoga e pensou se tudo aquilo não seria uma grande loucura. Mas ao notar a firmeza do jovem, decidiu arriscar.
– Preciso fazer alguns testes e também preciso de certos materiais.
– Será providenciado. – disse Hyoga.
– Eu fiz algumas anotações importantes. Aqui está o eu preciso.
– Muito bem. Agora pode descer para o jantar. Isaak já providenciou tudo. Infelizmente, eu não poderei acompanhá-lo, recebi um convite de um grupo de investidores que souberam da minha chegada e desejam conhecer-me. Certamente será uma perda de tempo, mas preciso estabelecer relações por aqui.
O médico assentiu e logo viu Isaak abrir a porta do aposento e confirmar que o jantar seria servido.
A noite se mostrava brumosa e fria. Hyoga inspirou fundo enchendo os pulmões com o ar fresco e se preparando para deixar a mansão. Por alguns instantes, pareceu-lhe que Ikki se adiantaria, colocando-se aos seus serviços e o acompanharia.
Bobagem, Hyoga! Desde quando você precisa de proteção? Disse a si mesmo, odiando a necessidade que insistia em pedir passagem em suas emoções.
Vestiu o sobretudo negro de lã e embarcou na carruagem que já estava a sua espera. O trajeto foi rápido e feito em silêncio. Ao contemplar a Abadia de Westminster admirou a construção majestosa, porém se considerava um agnóstico. Alguns metros adiante, se encontrava o seu destino, a mansão que constava no convite. Não tinha a mínima vontade de fazê-lo, mas era um estranho naquele país e precisava estabelecer relações para desfrutar de certo prestígio mesmo possuindo uma grande fortuna.
– Chegamos, senhor. – disse o cocheiro.
Hyoga desceu e encaminhou-se para a ampla escadaria. As luzes estavam acesas, mas tudo parecia muito silencioso. Assim que tocou a aldrava, a imensa porta trabalhada se abriu, revelando um amplo salão com uma mesa posta e apenas, dois lugares. O jovem franziu o cenho, sentindo uma tensão na nuca. Aproximou-se da mesa, notando que não havia pratos ou qualquer objeto que sinalizasse um jantar.
No entanto, algo sobre a mesa chamou sua atenção. Era um livro de capa de couro marrom escuro cujo nome o fez franzir o cenho: A Bíblia Sagrada.
Hyoga tomou o livro nas mãos, abrindo-o onde havia um marcador. Um versículo sublinhado em vermelho se destacava, propositalmente:
"Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo." Isaías 14:12-14
O jovem elevou a cabeça tentando compreender a razão de tudo aquilo. Porém, de dentro do livro, uma folha de papel escorregou para o chão. Abaixou-se para apanhá-la e quando conseguiu, só teve tempo de ler a frase: Abominação! Tu que pensas ser como Deus, nada mais é que o representante do demônio!
Entre o ato de abaixar-se e ler, uma enorme sombra surgiu às costas de Hyoga e mãos enormes o suspenderam pelo pescoço. O jovem esperneou, agarrando-se àquelas mãos que o sufocavam. Foi tomado pelo terror e pela surpresa, mas nada podia fazer frente à força sobre-humana que tinha claras intenções de matá-lo.
Quando a pressão já se revelava mortal e Hyoga começava a ficar inconsciente, uma lâmina cortou o ar misturando-se ao vazio escuro que nublava os olhos azuis do jovem...
– I-Ikki... – ele murmurou antes de tudo escurecer.
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