AFTER YOU - 4 temporada
1 FELIZES PARA SEMPRE
Notas iniciais
CAPÍTULO 1 — FELIZES PARA SEMPRE
POV EDWARD
O silêncio de Londres sempre me pareceu aristocrático, quase clínico. Diferente do barulho sufocante e ensolarado de Los Angeles ou da hipocrisia suburbana que deixamos enterrada sob as cinzas da mansão em Madre Linda. Aqui, nesta cobertura luxuosa em Mayfair, o mundo parece render-se à ordem que eu tanto lutei para estabelecer.
Eu não sou mais Anthony Masen. Não preciso mais de máscaras, identidades falsas ou armários trancados às pressas. O passado foi limpo. Renée e Félix ficaram para trás, cuidando dos vestígios que restaram na Califórnia. Aqui, eu sou Edward Cullen novamente. Um homem de posses, um marido devoto, um pai.
Ajeito os óculos de leitura e observo a sala de estar através do vidro da varanda.
Bree está sentada no tapete persa, com os fones de ouvido caídos no pescoço, rindo de alguma coisa que Anthony — nosso pequeno Tony, que já caminha com passos firmes — desenha em uma folha de papel. A dinâmica entre eles é quase magnética. Bree se tornou o único ponto de pureza intocada em nossas vidas. Nós a protegemos do mundo, nós a financiamos, nós a trouxemos para o centro do nosso lar após o caos. Ela é a filha mais velha que o destino nos deu, a única pessoa que eu e Bella amamos sem qualquer segunda intenção ou cálculo milimétrico.
E então, meus olhos encontram Bella.
Ela está organizando alguns relatórios corporativos na mesa de centro, com aquela postura impecável que herdou dos Higginbotham. Ela venceu. Nós vencemos. Temos o casamento, o filho, a segurança, o dinheiro. Ninguém está nos perseguindo.
Mas, enquanto observo o reflexo dela no vidro, sinto aquela velha e familiar coceira na base do meu crânio.
O apartamento é perfeito demais. A rotina é segura demais. Sinto falta da vertigem. Sinto falta do peso da jaula de vidro. Sinto falta do olhar elétrico de quem está prestes a ser descoberto. Meus olhos se desviam da minha esposa e focam, por puro reflexo compulsivo, na rua lá embaixo. Nas pessoas que caminham sob a névoa londrina. Eu começo a catalogá-las. Uma mulher de casaco vermelho cruzando a esquina; o ritmo dos passos dela; a forma como ela olha para trás...
“Você está fazendo isso de novo, Edward.” — a voz da minha própria mente me adverte.
Eu pisco, forçando-me a voltar para a realidade do meu lar perfeito. Eu tenho tudo o que queria. Eu preciso parar de caçar fantasmas onde só existe paz.
POV BELLA
Eu conheço cada respiração do meu marido. Conheço o som exato que os sapatos dele fazem quando ele está inquieto, conheço a linha milimétrica que se forma entre suas sobrancelhas quando a mente dele se afasta deste apartamento e volta para os porões escuros do passado.
Edward acha que está disfarçando, mas eu fui criada sob a égide do controle absoluto. Eu sinto o tédio dele como se fosse uma queda de pressão no ambiente.
— Tony, meu amor, hora de guardar os giz de cera. A tia Alice e o tio Jasper já devem estar subindo — digo, minha voz saindo perfeitamente mansa, o tom exato de uma mãe de família da alta sociedade.
Tony resmunga, mas obedece, correndo para os braços de Bree, que o suspende no ar com um sorriso genuíno. Olhar para Bree me traz uma paz flutuante. Ela foi a nossa redenção pós-Madrelinda. Quando ela escolheu ficar conosco, mesmo sabendo de parte do sangue que mancha nossas mãos, ela validou a nossa existência. Nós não somos monstros; somos apenas uma família que faz o necessário para sobreviver junta.
A campainha toca. Edward se move com sua elegância habitual para abrir a porta.
Alice entra como um furacão de lenços de seda e perfumes caros de Paris, seguida por Jasper, cuja presença silenciosa e analítica sempre me mantém em alerta. Eles se mudaram para a Europa logo após o nosso casamento na mansão, e esse reencontro em Londres deveria ser a consagração da nossa normalidade.
— Olhe para vocês! — Alice exclama, beijando minhas bochechas e abraçando Tony. — Londres fez muito bem à família Cullen-Higginbotham. Vocês parecem... radiantes.
— Nós estamos felizes, Alice. Finalmente — Edward responde, aproximando-se por trás de mim e pousando as mãos nos meus ombros. O toque dele é quente, mas eu sinto a rigidez nos seus dedos. Ele está performando. Nós dois estamos.
Durante o jantar, as risadas de Bree e as piadas de Jasper preenchem o espaço vazio do apartamento. Edward conversa sobre os preparativos para começar a lecionar Literatura na universidade no próximo mês. Ele fala com paixão sobre Dostoiévski, sobre análise de personagens, sobre o comportamento humano. Eu o observo fixamente. Ele quer uma plateia. Ele precisa de mentes para decifrar.
Quando os convidados vão embora e Bree leva Tony para o quarto, o silêncio retorna.
Edward está de pé junto à janela grande da sala, observando a noite de Londres. Eu me aproximo lentamente, descalça, até parar exatamente atrás dele. Passo meus braços ao redor da sua cintura, colando minhas costas ao seu peito.
— O que você tanto procura lá fora, Edward? — pergunto, a voz quase num sussurro, testando o limite do nosso jogo silencioso.
Ele se vira no meu abraço, segurando meu rosto com as duas mãos. O olhar dele é profundo, obsessivo, o mesmo olhar que me deu na livraria em Los Angeles quando ainda se chamava Anthony Masen.
— Nada, Bella. Tudo o que eu preciso está exatamente aqui dentro. Eu prometo.
Eu sorrio, mas meu coração dá um salto diferente. Não de medo, não de dúvida. Mas de uma certeza biológica que vem me acompanhando nas últimas três semanas.
Pego a mão direita de Edward, aquela que já tirou tantas vidas para me manter ao seu lado, e a guio lentamente para baixo, afastando-a do meu rosto e pousando-a firmemente contra o tecido leve do meu vestido, exatamente em cima do meu ventre ainda plano.
Edward paralisa. Seus olhos se arregalam ligeiramente.
— Bella...? — o sussurro dele sai falhado, quase sem ar.
— Nosso segundo milagre, Edward — eu digo, sentindo uma lágrima genuína de triunfo e esperança escapar pelos meus olhos. — Dessa vez vai ser planejado. Dessa vez vai ser perfeito. Nós vamos ter uma chance real.
Edward cai de joelhos na minha frente, encostando a testa contra a minha barriga. Suas mãos tremem ao redor dos meus quadris. E então, no silêncio sepulcral daquela cobertura em Mayfair, ele cola o ouvido contra a minha pele, fechando os olhos com uma força quase dolorosa, tentando escutar o som invisível do coração que começa a bater ali dentro.
Eu acaricio os cabelos dele, olhando para o teto.
Pela primeira vez em toda a minha vida, eu acredito que venci o caos. Eu tenho o meu marido, o meu filho, a minha família protegida, e um novo bebê a caminho.
Edward não tem mais motivos para olhar para o lado de fora da janela. Eu preenchi todo o espaço do mundo dele. Ele é meu. Para sempre.
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