ADN - Como Tudo Começou
18 Muito Estranho
Notas iniciais
' Alguns dias depois, minha perna já estava melhor, eu havia abandonado a faculdade e Maria me treinara desde então. Naquele momento estavamos na rimbanceira onde se encontrava o esconderijo do Francis, indo em direção à entrada, abrimos a passagem como na outra vez e entramos na fortaleza.
Como já havíamos combinado, procurariamos pelo escritório, e lá pegariamos as chaver para libertar as três integrantes dos Anjos da Noite que estavam presas. Andamos pelos corredores e encontramos com um homem, não nos viu, eu recuei enquanto Maria cuidava disso, ela fez sinal e continuamos andando. Todas as salas que passavamos davamos uma olhada para encontrarmos o escritório e, por fim, conseguimos encontrar.
Não parecia ter ninguém, mas as luzes estavam acesas, entramos e fechei a porta, logo começamos a procurar e Maria encontrou. Algo inesperado aconteceu, a porta fez um barulho e se trancou. Olhei para meu lado e minha parceira havia sumido, deixando apenas as chaves na mesa.
Peguei as chaves e voltei-me para a porta, olhei o molho de chaves em minha mão, me aproximei da fechadura e tentei abri-la com uma das chaves. Não deu certo, por isso tentei com outra e outra, mas nenhuma encaixava, experimentei a última na esperança de dar certo. Esta funcionou, mas tive uma desagradável surpresa do lado de fora. Aqueles três homens que apareceram quando Fátima me acorrentou estavam parados na frente da porta.
Tentando ganhar espaço, dei alguns para trás e eles entraram, então o do meio disse:
– Não se preocupe, não vai acontecer nada de mau. — aquela voz ecoou em minha mente.
Continuei me afastando até esbarrar em alguém que se encontrava atrás de mim, me virei e dei de cara com o mesmo rapaz, olhei na outra direção e só haviam dois garotos. Voltei a encarar o que estava na minha frente e os dois de trás seguraram meus braços, tentei me desvenciliar, entretanto era impossível. Os dois garotos eram muito mais fortes que eu e ainda havia o terceiro, que me encarava da mesma maneira que me olhara antes.
No instante seguinte, o garoto que estava à minha frente tirou um pano igual o daquele dia do bolso e disse:
– Não se preocupe, não vai te acontecer nada de mau. '
Acordei assustada, com o coração acelerado e ofegante. Tudo aconteceu uilo que acabara de viver havia sido apenas um sonho, não qualquer tipo de sonho, eu tinha acabado de ter um pesadelo. Talvez tudo que pensara antes de dormir tenha causado este pesadelo que, por hora, tirou completamente meu sono.
Depois de conseguir me acalmar, saí do quarto em direção à cozinha no andar de baixo. Segui pelo corredor até a escada e ouvi o som, bem fraco, da televisão ligada. Desci a escada devagar para não fazer barulho, olhei na direção do sofá e vi que Teo estava acordado e assistindo um programa que não identifiquei. Andei da mesma maneira até a cozinha, abri a porta, entrei e acendi a luz. Após pegar um copo de água e bebe-lo, fuia até a sala.
– Estou acordado, não precisa ficar tão quieta. — disse Teodoro, me dando um leve sobressalto.
– Eu vi que você estava acordado, só não queria incomodar. — expliquei.
– Você não está incomodando, se quiser pode assistir aqui comigo. — ofereceu.
– Não estou muito afim, acabei de ter um pesadelo. — contei.
– Outro motivo para você ficar aqui. — disse, se virando na minha direção e apoiando o cotovelo nas costas do sofá.
– Verdade, não é? — respondi após pensar um pouco.
Caminhei o sofá e esbarrei nele exatamente na mesma perna e no mesmo lugar que estava machucado. Segurei o grito, até o momento sequer me lembrava do que havia acontecido. Continuei andando, desta vez mancando, me virei e sentei no sofá. Teo olhou para mim e perguntou:
– Está tudo bem? Você está com uma cara...
– Está sim... — as palavras quase não saíram, então tentei falar o mais normal possível — Só bati a porna. Quer dizer, a perna. — elas saíram totalmente forçadas.
– E uma batidinha doeu tanto assim? — perguntou incrédulo.
– Foi de mau geito. — continuou sem acreditar — Eu já tinha batido antes. — soou um pouco melhor.
– Bateu duas vezes a mesma perna, parabéns pela sorte que tem. — bateu palmas e riu.
– Nunca fui muito sortuda, mas que programa é esse? — tentei mudar de assunto, pois caminho que essa história podia levar era algo que queria esquecer.
– Não importa! — cortou — Por que você disse que não é sortuda? — perguntou curioso.
– Vários motivos. — respondi relutante.
– Pode dizer, não se preocupe. — viu que não tinha me convencido e completou — Sou seu irmão, pode confiar em mim.
– Meus pais morreram quando eu ainda era um bebê, fui separada dos meus irmãos, — Teo sorriu e eu respirei fundo, não queria falar sobre aquilo, porém ele era uma das pessoas mais próximas que poderia ter na família, era meu irmão — e meus tios, só faltava eles me assassinarem. Preciso dizer mais?
– Assassinato é um pouco de exagero, não acha? — questionou brincando.
– Não é brincadeira e nem exagero, qualquer coisa que acontecia eles, ou melhor, ele me trancava um quartinho e nunca faziam absolutamente nada por mim, acho até que agradeceram quando eu sumi. — contei pausadamente, recordando de tudo que havia passado.
– Sumiu? — perguntou cada vez mais impressionado — Minha irmãzinha é uma delinquente?
– Delinquente não! — corrigi — Eu fugi no dia do meu aniversário de dezoito anos, e já tinha até onde ficar. Só para você saber.
– Como eu disse, uma delinquente. — fiz cara de brava e ele completou — É brincadeira, mas qual era o motivo da fuga? Eles são tão maus assim? — perguntou tentando entender.
– Não quero falar sobre isso. O que eles faziam comigo é algo que quero esquecer. — esclareci.
– Então eu que não vou querer conhecê-los. brincou para tentar aliviar o clima que se instalara no ar.
– Se só você fosse ir ver eles, não ia acontecer nada. Agora, se eu aparecesse, aí sim você conheceria eles de verdade. — contei e continuei esclarecendo tudo — Mas eu não teria coragem de voltar lá, só voltaria se eles implorarem de joelhos e me prometerem um monte de coisas. E como isso nunca vai acontecer, não vou voltar jamais. — a última parte me alegrou.
Olhei para ele e vi que dormia sentado. Deitei meu irmão no próprio sofá, desliguei a TV, subi a escada em silêncio e voltei para meu quarto, deitei na cama e tentei dormir. Desta vez não tive pesadelos, mas não saiam da minha mente as lembranças da época que vivia com meus tios. Más lembranças, afinal eles me odiavam. Tudo o que o filho deles fazia era culpa minha, e ele ainda era uns três anos mais velho que eu.
Mais tarde, naquele mesmo dia, tornei a acordar. O relógio marcava dez horas da manhã, e eu havia dormido mais que o normal, obviamente pelo tempo que passei na sala. Estava com preguiça de levantar, mas minha barriga roncou, me chamando para ir tomar café da manhã.
– Que sono! Não fosse a fome continuava aqui. — resmuguei baixinho.
Sentei na cama e me lembrei da madrugada, lembrei da conversa com Teo, de ter batido a perna. Então resolvi ver como ela estava, levantei a barra da calsa até um pouco acima do joelho, vi o curativo e tirei com cuidado para poder trocar. Quando terminei de tirar, surpreendentemente, já estava cicatrizado. Toquei no ferimento e ainda doía, mas era menos que esperava.
Me assustei um pouco aquilo mas não fiquei muito tempo no quarto, minha barriga roncou novamente e, depois de abaixar a barra da calsa, desci para a cozinha. Já na cozinha, peguei duas fatias de pão de forma, passei margarina, coloquei uma fatia de queijo no meio e dei a primeira mordida.
– Que delícia! — disse em voz alta e com os olhos fechados, pois no momento não havia ninguém.
– Como vai a perna? — perguntou Maria, me fazendo engasgar com o susto.
– Você quer me matar? — gritei, tossindo e tentando respirar.
– Calma, só queria falar sobre o que você já sabe, — após uma breve pausa continuou — o treinamento. — esperou eu desengadar e completou — Preciso te contar como vai ser antes que comecemos, principalmente por causa dessa perna aí, por isso perguntei.
– Ela está melhor, bem melhor, para falar a verdade. — contei, enfatizando a quarta palavra.
– A primeira coisa que quero te contar é que só há uma sala de treinamento, aquela que você entrou, os obstáculos e objetivos podem mudar de acordo com quem está controlando, ela também tem sistema de segurança e uma espécie de "piloto automático" todas elas.
– Nossa! — exclamei com a boca cheia, bebi um gole do suco de maracujá que estava sobre a mesa e completei — Mas aquela que eu entrei era do que?
– Aquela que você estava servia para melhorar os reflexos e... — parou de dizer, parecia envergonhada.
– E... — repeti, na esperança que ela terminasse a frase.
– E eu estava no controle dela. — disse ela por fim e se explicou — Mas aquilo que aconteceu foi sem querer, não queria que você se machucasse, estava até pegando leve.
– Está bem. — fingi que não me importava.
– Você estava indo bem antes de eu decidir aumentar o nível. — contou com um pouco de medo da reação que eu teria, era visível em seu olhar.
– E quando foi isso? — perguntei, ainda fingindo não estar nervosa.
– Depois que você abaixou por causa do dardo, antes de se desesperar e sair correndo. — explicou — Eu achei que você aguentaria, na verdade você teria aguentado se não estivesse tão desesperada.
– Entendi, então me diz uma coisa. — ela assentiu — Você pretendia alguma coisa com essa tentativa de homicídio?
– Você vai rir se eu disser. — viu a expressão de raiva que se intalou em meu rosto e continuou — Foi idéia da Fáti.
– Eu devia ter imaginado, ela disse que queria fazer coisa pior comigo quando me prendeu naquele lugar, que mais parecia um calabouço. — estava com muita raiva, se a visse em minha frente iria tentar enforca-la — Só queria saber uma coisa, por quê a Fátima me odeia? — desabafei — Primeiro ela me trancou naquele quarto, depois me impediu de sair da "fortaleza" de vocês e me prendeu lá, agora você me fala que tudo aquilo foi ela quem planejou?
– Ela não te odeia, você só é muito parecida com sua mãe, não só fisicamente, mas no jeito de agir. Imagine se, depois de anos, você encontrasse alguem desse geito? — disse receosa.
– Então a Fátima devia me tratar melhor, não acha? — indaguei triste.
– A Sandra era a única que não tinha medo dela e a própria Fátima não tentava botar medo nela. — contou com um aperto no coração ao lembrer de minha mãe — Mas depois do que aconteceu, ela decidiu descontar toda a raiva no Francis.
– E qual o problema nisso? — questionei, bem mais calma.
– Infelizmente a única que não tinha medo dela era a sua mãe, então... — respondeu, como se quisesse contar mas não pudesse.
– E o que isso tem... — entendi o que ela quis dizer com aquilo e prossegui com calma — Se ela descobrir que você contou, o que vai te acontecer?
– Não sei, mas desconfio. — parecia ter ficado com um pouco de medo — Ela teve coragem de te trancar em um dos calabouços no porão mesmo sabendo que aquilo era demais para você. Imagine o que ela não faria comigo, com a Elena ou com a Carol. Seria muito pior, você teve a sorte de ficar presa naquele quarto, se fosse uma de nós ela iria aproveitar para estrear a porta no final do corredor.
– O que tem lá dentro? — perguntei curiosa.
– Só ela sabe, já tentamos várias vezes entrar lá, mas a Fátima não desgruda da chave até hoje. — contou.
– Entendi, então quando elas voltarem eu vou ajudar, mesmo que para isso ela precise me prender denovo. Se isso acontecer alguém vai ter que me tirar de lá bem rápido. — depois de uma breve pausa, lembrando de algo, continuei — Ah, é! Você não disse que ia me falar sobre o treinamento?
– Não exatamente, eu só ia dizer que a ala pode mudar de função e que você começa com a de reflexos, mesmo. Sem ela será difícil passar pela próxima. — explicou.
– Mas você não vai contar como vai ser o treinamento? — perguntei preocupada.
– Não! Quando estiver melhor me avisa, tchau! — disse, me deixando super curiosa e saindo normalmente.
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