ADN - Como Tudo Começou
21 Agora sim, um resgate de verdade
Notas iniciais
Eu estava sentada no chão, desesperada depois de desamarrar as cordas, quando a porta se abriu, meus olhos se encheram de lágrimas quando vi quem era. Depois de um momento em silêncio, sem conseguir falar ou esboçar qualquer reação, a pessoa entrou e finalmente lágrimas rolaram pelo meu rosto. Encostou a porta, chegou perto de mim e me abraçou, no mesmo instante correspondi ao abraço.
Sem conseguir dizer mais nada, falei :
– Obrigada. Já deve ser a vigésima vez que digo isso, mas obrigada.
– Carry, você é minha melhor amiga, nunca vou te abandonar. E eu falo isso desde a quinta série, quando te tirei pela primeira vez daquele quartinho.
No mesmo intante imagens vieram em minha mente, lembranças que lutei tanto para esquecer, momentos da minha vida em que a presença de Isabel foi essencial. Sem ela eu teria ficado louca, talvez ainda estivesse lá. O fato é que este momento me fazia lembrar de cada vez que ela me tirou de um quartinho em que meus tios me colocavam.
' Lembrei de como era minha vida quando morava com eles, eu era ignorada, as únicas coisas que me davam eram comida e uma casa para morar. Quando era bem pequena, tinha uns cinco anos, lembro de ter ouvido minha tia dizendo que eu era muito pequena e que meu tio não precisava fazer alguma coisa comigo.
Alguns anos se passaram, estava na quarta série e, sem querer, tinha quebrado um vaso quando a filha deles me empurrou. Obviamente ela disse que a culpa era minha e eles não quiseram me ouvir, meu tio simplesmente me chamou para " conversar ", me levou até o tal quartinho e pediu para espera — lo.
Quando saiu trancou a porta, primeiro eu me assustei, em seguida tentei abrir, depois o tempo foi passando e minha imaginação, que era bem fértil, começou a funcionar. Qualquer coisinha que acontecia meu medo aumentava num piscar de olhos, parecia uma eternidade o tempo que passava lá dentro.
Depois desse primeiro dia, tentei não fazer nada para desagradar eles, mas quando levei Isabel para casa para fazermos um trabalho, ele ficou com raiva de novo e me prendeu lá quando ela saiu. Para minha sorte, ela esquecera uma canetinha preta de ponta fina e veio buscar. Quando chegou, viu meu tio me jogando lá dentro e trancando a porta, me tirou de lá e viramos melhores amigas. '
– Isa. — chamei, ela olhou para mim e prossegui — Como entrou aqui? Por quê fez isso?
– Você não veio mais para a faculdade, estava agindo estranho a bastante tempo, quase não nos encontramos depois que você conheceu seus irmãos. Fiquei preocupada, é isso que as amigas fazem, não é? — respondeu, e quando fui perguntar pela segunda vez como ela havia entrado ali continuou — Então eu te segui e vi quando te trancaram aqui, decorei o código que eles colocaram e abri a porta.
Fiquei impressionada, então reparei que ela disse que me seguiu, pensei : " Sabia que tinha alguém nos seguindo. Quando eu contar à Maria... É mesmo! Preciso salvar ela, mesmo depois dela ter mentido para mim. "
– Você precisa ir embora. — avisei.
– Mas eu acabei de chegar. — brincou.
– Não é brincadeira, você está correndo perigo aqui dentro, eu mesma só estou aqui para ajudar umas pessoas. — era melhor eu não contar muita coisa, para não envolve-la — Por favor, não quero que se machuque.
– É tão estranho ouvir isso de você, normalmente era eu quem te ajudava. — lembrou.
– Vai, por favor. — insisti.
– Não! E eu tenho um bom motivo. — olhei para ela, como sempre entendeu o que eu queria dizer e disse — Não vou embora porque quero ajudar e — deu ênfase no " e " — sei a senha da porta e não vou te contar.
Me levantei, seguida por Isabel, cheguei perto da porta, abri um pouquinho ela e olhei para o lado de fora, não havia ninguém. Mordi o lábio e finalmente disse :
– Tudo bem, você pode vir comigo, mas tem um problema.
– Qual? — perguntou.
– Elas escondem um monte de coisas até de mim, acho melhor você ir embora quando entrarmos onde elas estão. Depois eu explico tudo para elas. — expliquei.
– Não, eu não te digo a senha mesmo assim, só falo quando todas estivermos do lado de fora e sãs e salvas. — insistiu, e ela era boa nisso.
– Já sei, para todos os efeitos, o cara que tentou me pegar na primeira vez te levou para não desconfiarem. — não entendeu, parte da história ela não sabia, por isso tive que explicar — Quando eu ainda morava na sua casa, vi um desses homens pela janela do quarto e depois ele fugiu. Elas disseram que ele estava tentando me trazer para cá.
– Entendi.
– Mas agora precisamos ir. — apressei, ela assentiu e saímos.
Andamos pelos corredores e bem quietinhas, aquele lugar era maior do que parecia, dava a impressão de não ter fim. Vários corredores se passaram até virmos alguém, era um rapaz, carregando muitos papéis, nem reparou em nós, mas disse uma coisa que me deixou interessada :
– Que raiva, o chefe tinha que mandar eu ir pegar as chaves das gaiolas dos " anjinhos ", a sala dele é a mais longe e eu vou ter que ir até lá. Ele podia gastar um pouco mais e comprar trancas como a da menina que está com elas. — bufou e continuou andando.
– Vamos atrás dele. — sussurrei.
Esse rapaz estava tão distraído que durante todo o percurso se quer desconfiou que o estavamos seguindo. Quando chegou e entrou no escritório, ficamos esperando escondidas do lado de fora, ele saiu sem carregar papel nenhum, apenas as chaves. O caminho de volta foi igual ao de ida, não notou nossa presença.
Já bem perto do local onde ficavam as celas, reconheci o lugar, dali para frente não precisaria segui-lo para encontrar onde elas estavam, então tentei fazer como Maria havia falado. Peguei um paninho que ela disse que fora molhado com um líquido que fazia desmaiar, não lembrava o nome, mas era o mesmo que usaram contra mim.
Meu coração acelerou, tinha medo de errar, mas era absolutamente necessário tentar. Cheguei bem perto dele sem que percebesse, o que foi fácil, e pressionei o pano contra seu rosto até que desmaiasse. Tive que juntar toda minha força de vontade para não soltar, ele lutou, mas consegui segurar até que desmaiasse.
– Me ajuda a levar ele para algum lugar. — peguei o molho de chaves em sua mão e guardei no bolso.
Arrastamos ele até uma das portas, não tinha ninguém lá dentro, deixamos ele lá e saímos. Me senti horrível, quando fizeram aquilo comigo passei a odiar e temer quem fazia aquilo. Agora lá estava eu, com peso na consciência por ter feito aquilo. Por fim tentei tirar isso da cabeça e saí andando junto com Isabel.
Como ja conhecia brevemente a área, não foi muito difícil encontrar o lugar. A todo momento apalpava o bolso para ter certeza de que as chaves estavam ali, e sempre estavam, o que não me acalmava muiti. Se elas desaparecessem poderia ser um sonho, e com certeza um sonho bem realista, mas sendo apenas um sonho ao menos saberia que Maria, Isabel e eu estavamos em segurança.
Infelizmente não era isso que estava acontecendo, era tudo real e eu tinha que salvar elas. Por isso tomei coragem e, num corredor repleto de celas vazias comecei a procura-las. O lugar todo parecia diminuir diante de meus olhos, se minha amiga não estivesse lá comigo, provavelmente teria começado a correr.
Quando enfim encontramos o lugar, vi Elena dormindo encolhida em um canto e no outro estava Fátima com Maria do lado. Estranhei não ver Caroline com elas, mas ainda teria tempo para perguntar. As duas olhavam para o chão, tristes, parecendo não ter esperança. Mas ao perceberem que eu estava ali, seus olhos brilharam e Maria abriu um sorriso, Fátima parecia triste demais para sorrir, mas eu sabia que ela estava feliz por me ver.
Maria se levantou e andou até a grade na minha frente, disse:
– Como conseguiu escapar? — Isabel apareceu atrás de mim e ela entendeu — É aquela menina amiga sua, não é? Vi vocês conversando a algum tempo atrás.
Fiquei sem palavras, tudo que haviamos combinado falar caso perguntassem não faria mais sentido. Aquela mentira só funcionaria se Maria não tivesse me visto ao lado dela enquanto voltavamos da faculdade, onde havia sido a última vez que a vira antes deste dia.
– Oi. — disse minha amiga — Antes que pergunte o que estou fazendo aqui, eu segui vocês até aqui e quando prenderam ela eu a soltei. — era incrível como ela podia contar coisas desse gênero tão naturalmente, provavelmente eu me sentiria envergonhada e ia gaguejar um pouco, mas Isa conseguia sem o menor esforço.
Nossas vozes acordaram Elena, que também parecia bem triste, mas ao me ver conseguiu dar um leve sorriso. Fiquei curiosa com o fato de todas estarem deprimidas. Só então percebi que os olhos de Elena estavam um pouco vermelhos e inchados, sinal de que tinha chorado antes de ir dormir, mas tinha parado rapido.
Lembrei das chaves no meu bolso e as peguei enquanto perguntava :
– O que houve? Por quê estão assim? A Caroline não está aqui, é por causa dela? — me sentia realmente preocupada.
As três se entre-olharam, Maria respirou fundo e respondeu :
– Tem a ver com ela, elas foram interrogadas pelo Francis, disseram que foi horrível, mas voltaram no mesmo dia para cá. Já a Carol, não voltou até agora ,e elas acham que algo pode ter acontecido com ela. — Maria disse isso com certo esforço.
Um arrepio percorreu meu corpo e apenas um pensamento invadiu minha mente. " Ele disse que eu não a veria de novo, e mesmo que visse ela não poderia me ver. Será que ela estava... Morta? Tudo leva a crer que sim, mas... Não pode ser, ela não pode ter ido tão facilmente. " Balancei a cabeça e abri a porta, tentei afastar esses pensamentos, mas era impossível. Quando olhava para uma delas me lembrava da Caroline, e o lugar me fazia pensar em como ela teria partido.
Minha cabeça estava girando, e de algum modo consegui abrir a porta da cela, tranca-la depois que sairam e, para demorar o máximo possível para abrirem, joguei o molho de chaves lá dentro. Todas ficamos em silêncio,Fátima parecia querer dizer algo, mas não sabia como. Pareceu encontrar as palavras certas e disse :
– Ela ainda pode estar viva! Eu quero ir atrás dela.
Eu não tinha certeza, o que a Fátima dissera poderia ser verdade, mas eu sentia que não, não conseguia acreditar que ela estivesse viva depois do que ele disse. Pensei em contar a ela, porém não consegui, eu gostaria de acreditar que ela estivesse viva e que, no máximo, estivesse cega, no entanto era difícil demais para mim.
– Vale a pena tentar. — disse Elena, parecia sentir o mesmo que eu.
– Então por onde começamos? — tentei não mostrar como me sentia.
– Todas nos separamos e vamos cada uma para um lado, daqui a dez minutos nos encontramos do lado de fora, se alguém encontra-la e só levar para o lado de fora e esperar. — olhou para Isabel e para mim e prosseguiu — E acho melhor vocês duas ficarem juntas.
Seguimos suas orientações e cada uma foi para um lado, alguns minutos se passaram e já estava quase na hora de ir para fora, eu estava quase desistindo. Decidi que aquela seria a última porta a olhar e depois iria encontrar as outras.
Abrimos a porta e estava completamente escuro, mas bastou dar um passo para dentro para as luzes se acenderem formando um corredor iluminado. No final havia uma cadeira e alguém estava desmaiado sobre ela, cheguei mais perto com o coração na mão, realmente era Caroline.
Corri em sua direção e verifiquei os batimentos, a pele estava fria e o coração não batia. Ela estava amarrada e repleta de ferimentos, me virei para encontrar Isabel, mas me vi sozinha. Onde ela teria ido?
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