ACBAH - Academia de Belas Artes Hudson
45 Encerando com chave de ouro.
Notas iniciais
Pessoas para lá e para cá. Homens bem vestidos com pranchetas, mulheres com cara de ignorantes. Pessoas com câmeras e crachás "imprensa". Alunos afoitos correndo atrás de figurinos e tudo mais.
Charlie nunca havia presenciado a Academia tão lotada e bagunçada como naquele sábado.
A apresentação semestral sempre era a mais importante, principalmente a primeira onde muitos alunos já saiam por conseguirem um contrato, pra quem não queria de forma estudar na Academia mesmo, a usava como uma passagem para a fama graças as apresentações abertas onde muitos alunos se davam bem.
Charlie estava de jeans e camisa branca, não poderia desfilar com o figurino até a hora da apresentação, e por sinal os meninos da equipe um eram os segundos a se apresentarem, Charlie estava bem confiante com o Animals, o ensaio dos garotos havia ficado bem legal, e o fato de ser a capela tornava tudo mais legal e bonito de se ouvir.
O figurino deles não era algo tão extraordinário, mas sexy. Uma camisa branca de botões, gravata preta, um blazer vermelho escuro e calça jeans escura.
Se ele estava ligeiramente empolgado, ansioso e excitado com a apresentação? Sim, ele estava... muito mesmo.
Ele realmente se sentia bem em cima do palco, como se aquele fosse o seu lugar, e bem, ele e os garotos decidiram fazer uma apresentação mais informal e engraçada do que "profissional" por isso haveria piruetas, cambalhotas e como Charlie era meio elástico e atleta eles o pegariam no colo no final fazendo uma espécie da catapulta o jogando para alto e para frente e ele cairia com uma cambalhota fazendo pose de galã gostoso depois.
Assim, bem simples.
Estava empolgado com esse final, pelo menos nos ensaios havia sido divertido.
– Charlie, o que está fazendo aqui, vocês são os segundos! – Nicole trombou com ele no corredor e Charlie fez cara de culpado coçando a nuca daquele modo charmoso que meninos bonitos possuem.
– Eu... na verdade não sei o que estou fazendo – Charlie franziu o cenho tentando se lembrar o que estava fazendo, Nicole pareceu brava com aquela falta de foco – ah sim! – ele lembrou – vir buscar minha gravata que está no armário.
Nicole sorriu negando com a cabeça. Meninos.
– Ande logo! – ela deu um tapinha no ombro dele que sorriu assentindo e saiu apressado.
Assim que pegou a gravata voltou depressa para a sala de ensaios. Os meninos praticavam os mortais de costas.
– Ah, ele chegou – um deles disse olhando para Charlie.
– Esperando por mim? – ele perguntou com um sorriso.
– Sim, não seria bom repassar o arremesso?
– Ah, ok – ele deu de ombros.
Dois garotos juntaram as mãos e se ajoelharam, Charlie encaixou os pés ali e se equilibrou enquanto ambos se levantavam com ele suspenso.
– 1...
Contaram até três e deram um impulso pra cima e Charlie foi arremessado não muito alto e pra frente, ao chegar perto do chão Charlie colocou as mãos para frente como apoio e caiu em uma cambalhota perfeita, não fez a pose porque não era necessário.
– É, estamos prontos – um deles disse sorrindo.
. . .
Último ensaio minutos antes da apresentação.
As meninas estavam todas em uma das salas de ensaio vazias passando a música várias e várias vezes, se preparar nunca é demais.
Elas não tinham um figurino marcado e específico como os meninos entre outros, era uma calça jeans escura (votação unânime) camiseta branca, jaqueta de couro preta (a intenção era tirar a jaqueta no meio da música) e bota também preta de salto, ou seja, estavam todas divas.
Por ser a capela era mais complicado do que simplesmente ir lá e cantar, tinha que fazer os sons também e acreditem, elas ainda estavam fazendo modificações a essa altura do campeonato.
Emily olhava para as meninas rindo quando alguém se engasgava ou espirrava enquanto cantava e pensava o quanto aquilo doeria, em todos os sentidos.
Suspirou.
– Eu vou ao banheiro, já volto – ela disse aleatoriamente saindo sem esperar uma resposta de ninguém.
Se apoiou na pia olhando seu rosto, estava tão triste...
Mas não podia ficar pensando em seus problemas, não podia, ela iria apresentar e tinha que parecer feliz por estar ali, como se estivesse se divertindo com a situação, pena que não estava.
Jogaria uma água no rosto se já não estivesse maquiada, então apenas respirou fundo.
E voltou para o pequeno ensaio.
. . .
Agora não tinha mais jeito de ensaiar, estavam todos nos bastidores esperando sua hora de entrar.
Emily lembrou que os meninos eram os segundos e não podia negar que queria os ver cantando Animals.
As duas peças de teatro seriam em quinto e oitavo, o número das meninas seria o sétimo e o final que seria dos grupos seria em décimo.
Emily ainda sem a jaqueta de couro espiou pela cochia os meninos se organizando para entrar. Charlie estava lindo com aquele blazer e gravata, gostoso pra caramba... foco Emily, foco.
Ele ajeitou a gravata preta passando a mão no cabelo depois o arrumando um pouco, ele tinha um sorriso nervoso, porém confiante nos lábios.
Eles foram anunciados e entraram todos, Emily e mais algumas garotas... tipo todas ali por perto grudaram no canto da cochia para ver melhor.
Emily conteve o sorriso, eles estavam indo realmente muito bem.
Eles também adotaram a opção de fazer alguns duetos, Emily estava quase rindo, estava muito engraçado, mas profissional, e acho que era esse o objetivo mesmo.
Não era o tipo de graça de "erramos" era uma graça programada que ainda sim era engraçado.
Quando Charlie foi jogado para cima Emily arregalou os olhos vendo um tombo bem doloroso diante de seus olhos, quis ir correndo para ajudá-lo quando caísse, mas por ter uma pessoa em sua frente não conseguiu, porém quando Charlie caiu dando uma cambalhota fazendo uma pose sexy ela suspirou. Era programado, não era acidente, relaxa Emily.
Ela aplaudiu também junto com todos, havia sido uma bela performance, tinha que admitir.
Eles se curvaram recebendo os aplausos e alguns de brincadeira jogaram beijos para a plateia, Emily pôde ouvir alguns gritos femininos nessa hora.
Os meninos saíram sorrindo comemorando uns com os outros a bela apresentação e foi quando os olhos de Emily e Charlie se encontraram, o enorme sorriso antes em seu rosto começou a desaparecer devagar, era sempre hipnotizante olhar para ela.
Ele ignorou totalmente a comemoração dos meninos e foi até ela devagar.
– V-você foi muito bem – ela disse e ele sorriu sem humor.
– Obrigado – ele disse – boa sorte pra você – ele olhou ligeiramente para o palco.
– Obrigada.
Ele suspirou, queria tanto beijá-la.
– Eu vou trocar de roupa – ele disse e ela assentiu o vendo se afastar.
Fechou os olhos e respirou fundo repetindo para si mesma que ele não era mais nada, era só mais um menino, só mais um menino...
O difícil era acreditar nisso.
. . .
– Oi bebê.
Abby pulou de susto enquanto alisava sua roupa. Virou para trás e colocou a mão no coração assustada.
– Não faz isso Adam! – ela brigou com ele que sorriu.
– Calminha – ele foi até ela a abraçando de leve beijando seu pescoço.
Ela suspirou o abraçando de volta.
– Está nervosa?
– Até que não – ela disse – só estou quase fazendo xixi nas calças, mas não é nada não.
Ele riu apertando sua cintura.
– Ansiosa para dançar comigo?
– Uhhh claro – ela sorriu – só tenta não dar na cara que me ama, ok?
Ele sorriu de lado.
– Farei o possível – ele disse – queria te pedir um favor meio aleatório, tudo bem?
– Depende do favor – ela arqueou o cenho curiosa.
– Eu levei uma pancada nas costas e está doendo bastante... pode fazer massagem?
Abby sorriu.
– Sério mesmo?
– Serio mesmo, é que vai ser difícil dançar assim.
Ela assentiu.
– Então senta ali – ela apontou a cadeira.
Ele se sentou com o peito nas costas da cadeira a Abby ficou atrás dele.
– Onde é?
– Perto dos ombros – ele disse mexendo as costas.
– Ok – ela colocou suas mãos delicadas nos ombros dele descendo um pouco até chegar no lugar em que ele se remexeu, soube que era ali – sabe o que isso significa?
– Isso o que?
– A dor.
– Ah sim, prossiga.
– É a velhice – ela sussurrou no ouvido dele.
– Hey! – ele pareceu indignado – eu não sou velho!
– É sim, três anos e meio a mais que eu, então é velho.
– Se eu sou velho você gosta de homens mais velhos – ele girou a cadeira para olhar pra ela.
– Pensando bem, isso é nojento – ela disse enquanto ele sentava direito na cadeira – estou namorando um idoso, que nojo.
– Não sou idoso! – ele a puxou para seu colo fazendo bico – só três anos mais velho, só isso.
– Eu devia sentir repulsa de te beijar.
Ele abaixou os olhos triste.
– Está me magoando – ele disse ainda de cabeça baixa.
– Você pode ser idoso – ela disse segurando o rosto dele – mas é o idoso mais gato de todos.
Ele sorriu.
– E você a bebê mais linda.
– Bebê não – foi a vez dela fazer bico.
– Se eu sou idoso você é bebê – ele ergueu as sobrancelhas – é a lei da vida.
Ela revirou os olhos sorrindo o beijando rapidamente.
– Agora vaza porque eu tenho que terminar de me arrumar, vai – ela se levantou do colo dele segurando suas mãos para ele levantar.
Novamente ele fez bico e Abby sorriu.
– Vou pedir pra minha mãe fazer massagem – ele disse igual uma criança e saiu.
Abby sorriu negando com a cabeça. Amava mesmo aquela criatura?
. . .
Charlie sentou em uma cadeira livre quando viu que as meninas iriam apresentar.
No primeiro toque a capela da música Charlie reconheceu Girl On Fire. Se ajeitou melhor na poltrona apoiando o calcanhar direito no joelho esquerdo cruzando os braços em cima do peito de certa forma ansioso. Havia conversado com ela, tipo, algumas palavras, mas aquilo era bom e sempre restaria uma chance para eles, sempre restaria uma chance.
O amor que sentiam um pelo outro era maior do que brigas, discussões ou qualquer besteira feita de ambas as partes. Ele sabia, sentia que ainda era amado por ela e estava disposto a esperar com calma a saudade vencer as barreiras e ela voltar para ele, correndo a encontro de seus braços. Ela a apertaria com força sentindo o cheiro gostoso de seu cabelo, sorririam um para o outro e finalmente seus lábios se tocariam de novo.
Ok, ele sabia que não seria exatamente assim, e talvez ele apanhasse um pouco antes do beijo, mas isso era detalhe, um simples detalhe inútil. O que importava não era o que aconteceria para dar certo, mas sim que daria certo, ele sabia que daria, tinha absoluta certeza disso.
Seu sorriso aumentou quando Emily cantou o primeiro refrão, alto afinado e no tom certo. Levantou um pouco a mão como se isso ajudasse a alcançar a nota desejada, e sorriu de olhos fechados ainda recitando o refrão lindamente.
Ele sorriu apoiando a mão no queixo. Como ela era linda, nossa, era errado falar assim, mas ela era muito, mas muito linda.
Charlie olhou para o lado vendo alguns dos homens bem vestidos com pranchetas olhando para Emily e anotando algo com o semblante frio e calculista como sempre, sorriu com isso pensando "é a minha menina".
Ele havia perdido as esperanças naqueles três semanas, mas agora elas voltaram, ele estava determinado, viraria amigo dela novamente e esperaria a hora certa de se atrever a dar um passo a mais, ela não deixaria de amá-lo de uma hora para outra, era impossível, ninguém supera um amor tão fácil, e se ele insistisse, ficasse na cola dela o tempo todo a teria de volta.
Pensamento positivo sempre.
Ele acabou "voando" um pouco e quando se deu conta elas se inclinavam com sorrisos agradecendo, as jaquetas de couro estavam no chão e os cabelos loiros de Emily estavam passados todos para um lado. Não foi o primeiro, mas se levantou aplaudindo de pé sorrindo e dando alguns gritos.
Foi para o camarim dar parabéns para a loira já que ela merecia e a viu conversando com Kate. Se escondeu fingindo que não estava ali e ficou ouvindo tudo.
– ... depois que acabar eu vou.
– Mesmo? – Kate parecia triste.
– Mesmo.
– Que horas? Eu insisto em ir com você.
– As nove.
– Mas tipo, aqui termina às sete e meia!
– Eu sei, terei que correr – Emily estava séria.
Kate a abraçou com força e murmurou algo indecifrável para Emily que a abraçou de volta fechando os olhos com cara de choro.
– E o Charlie? – ela perguntou e os ouvidos do garoto ficaram mais atentos.
A loira acabou sorrindo sem humor.
– Ele parece feliz – ela suspirou dando de ombros – será melhor assim.
"NÃO, ELE NÃO ESTÁ FELIZ" ele quase gritou, mas permaneceu quieto.
– Você não vai nem se despedir?
– Melhor não – ela disse passando a franja para trás – seria pior para os dois, acho que já estou sofrendo demais para sofrer mais ainda.
– Q-quer que eu diga algo para ele?
– Se ele perguntar... – os olhos dela marejaram – diga que ele tem e sempre terá um lugar muito especial no meu coração, e que os meses que passei com ele foram os melhores.
Charlie espremeu os lábios querendo chorar.
Kate assentiu abraçando a amiga.
– Tenho que me trocar – Kate disse suspirando – por favor, não vá para o aeroporto sem nós.
– Prometo – Emily sorriu.
Elas se abraçaram mais uma vez e Kate partiu. Emily olhou para o teto limpando uma lágrima que escapou de seu olho, respirou fundo e saiu.
Charlie ficou parado, totalmente imóvel sem reação alguma.
Ele não teria tempo para se tornar amigo dela, não teria tempo para conquistá-la... não teria tempo pra nada.
Ela estava indo, não era uma suspeita, agora era certeza.
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