ACBAH - Academia de Belas Artes Hudson 2
26 Quase...
Notas iniciais
Emily batia o pé levemente no chão da sala de espera. Seus cabelos antes molhados agora estavam secos, mas ainda presos. Ela olhou para o corredor aliviada ao ver seu pai vindo andando devagar em sua direção acompanhado do médico.
– E então? – ela perguntou aflita.
– Tudo dentro dos conformes – o médico sorriu.
– Que bom – ela sorriu abraçando seu pai que sorriu.
– Mas claro, não é porque tudo está bem que você vai relaxar nos cuidados, senhor Davis.
– Isso nunca passou pela cabeça dele, não é? – Emily olhou para o pai que assentiu.
– Claro que não.
– Podemos ir? – ela perguntou olhando para o médico.
– Podem sim – ele sorriu apertando a mão de Emily – até a próxima consulta, Edwin.
Emily comprou dois cafés passando um para seu pai enquanto abria a porta do carro pra ele.
– Eu vou dormir com você hoje, ok? – Emily disse.
– Por quê?
Ela o olhou e franziu o cenho.
– Não quer minha companhia?
– Claro que quero, mas quero saber o motivo também – ele colocou o cinto e Emily sorriu.
– É a folga da Lucy – ela disse – estou pensando em deixá-la com você só de dia e dormir com você.
– Não é necessário...
– Olha aqui, pode parar com isso – ela disse – eu só vou passar a noite com você, não é esforço nenhum.
Ele suspirou em silêncio.
– Acho que Lucy está ficando muito sobrecarregada.
– Pode ser – Edwin assentiu – e como foi a gravação?
– Normal.
Ele olhou para a filha e franziu o cenho.
– Geralmente sua resposta é "foi legal" ou "ah, foi divertido" – ele disse – oque aconteceu dessa vez?
Emily apenas negou com a cabeça fazendo a curva com o carro.
– Nanão, pode contar – ele disse.
– Não é nada Charlie.
Edwin arregalou os olhos a olhando.
– Quer dizer, pai.
– Opa, acho que temos problemas aqui – ele riu das bochechas coradas de Emily.
– Oque conversamos sobre isso?
– Nada de falar do passado – ele repetiu tentando fazer a voz dela.
– Ótimo – ela sorriu – oque acha de eu fazer panquecas?
– Acho uma boa, não, uma ótima ideia – ele disse e Emily sorriu, Edwin parecia uma criança, doidinho por panquecas.
* * *
As três meninas estavam como queixo no chão e Abby mordia os lábios esperando que a reação delas fosse... diferente.
– H-há quanto tempo vocês...? – Kate disse ainda meio chocada.
– Basicamente duas semanas depois que ele começou a dar aula – Abby a interrompeu.
– Mais tempo que eu e Nathan – ela disse.
– Olha, eu to bem chocada – Sarah se debruçou na mesa – mas admito que eu tinha uma leve desconfiança, mas não pensei que fosse algo sério.
– Era e não era... é difícil – Abby suspirou.
– Nossa, que bomba – Emily acabou rindo – mas estou ofendida por não ter confiado em nós para contar logo no começo.
Automaticamente Sarah e Kate olharam para Abby.
– É Zelley – Kate disse meio brava.
– Tentem entender, ninguém podia saber.
– Aposto que Sam sabia – Sarah semicerrou os olhos.
O silêncio dela apenas comprovou que aquilo era verdade.
– Não creio que contou para ele e para nós não! – Kate ficou ofendida.
– Eu não contei, ok? – Abby suspirou – ele convivia diariamente com nós dois, ele não é burro e notou alguns olhares e quando me interrogou, ficou meio óbvio.
– Então agora somos burras porque não notamos?
Abby suspirou enfiando a cabeça entre as mãos.
– Não! – ela olhou para as três – estou contando isso porque agora acabou e acho justo que já que não há mais motivos para ter medo, vocês ficarem cientes.
– Pelo menos isso né – Sarah disse.
– E vocês duas não podem falar muita coisa não – Abby disse olhando para Sarah e Kate – você Cupcake escondeu de todas nós que estava apaixonada por nathan por quase meio ano, e você Sarah... – Sarah ergueu as sobrancelhas – você foi para Londres.
– E dai? – Sarah sorriu.
– Eu não tinha nada pra falar, ok? – Abby disse e todas riram e ela olhou para Emily – e você ficou fazendo doce com o Charlie e depois ainda voltou para Nova York, então todas shiu!
– Eu não disse nada – Emily ergueu os braços em rendição.
– Certo, foi mal – Abby se desculpou e Emily acabou rindo.
– Mas... quanto a ida dele – Kate disse – você está bem?
– Sim – Abby assentiu – pensei que não ia ficar, mas Sam tem me distraído muito bem.
Kate e Sarah se olharam e Emily tentou pegar o sentido daquele olhar, mas infelizmente ainda estava por fora das piadas internas.
– O Sam é muito bonito e másculo para ser gay, não acham? – Sarah disse e Emily finalmente sorriu entendendo tudo.
– Uhum – Emily concordou – se todos os gays fossem assim, eu só pegava gays – elas riram e Abby sorriu.
– Ele é bonito mesmo – ela concordou – ele é aquele tipo de pessoa que você nunca pode magoar para ela estar sempre com você, sabem?
– Perfeitamente – Kate sorriu.
– Porque está calada, loira? – Sarah olhou para Emily que no momento mastigava seu almoço.
– To comendo – ela se defendeu.
– Mas ta quieta demais.
– Meu deus, acho que sou uma tagarela, fico em silencio um minuto e já estranham – ela disse.
– Imagina – Kate disse.
– Jamais ninguém disse isso – Sarah fez cara de vitima.
– E não é por ser óbvio – Abby olhou descontraidamente para o céu.
Emily semicerrou os olhos para elas e tomou seu suco ainda com olhos semicerrados.
– Vocês ainda me pagam.
Eles riram e Emily ignorou voltando a comer, as conversas sempre terminavam com alguém zoando com ela, impressionante.
* * *
Emily entrou na sala de ensaio do estúdio esperando encontrar apenas o piano preto e todos os outros instrumentos espalhados pela sala, mas é claro que aquele ser tinha que estar lá, afinal, sempre estava nos lugares mais indesejáveis, era quase um dom.
Odiava admitir, mas apesar de tudo, Charlie era dedicado e determinado com qualquer coisa que quisesse. E Emily admirava isso, muito.
Ele ergueu seus olhos verdes para a porta ao ouviu um ruído ali parando de tocar o violão preto brilhante, bem brilhante.
– Pois não?
Ela revirou os olhos cruzando os braços e jogando todo o peso de seu corpo para o lado direito.
– Não estou aqui por sua causa, se é oque acha.
Ele riu colocando o violão de lado.
– É, pela sua expressão de descontentamento pude notar isso – ele a olhou – bom, não que eu esteja vendo com frequência outra expressão sua a não ser essa.
– Você é seriamente perturbado.
– Meu psicólogo disse que ainda há uma esperança pra mim.
Ela novamente revirou os olhos.
– Se quiser usar a sala, eu já estava de saída.
– Agradeço.
Enquanto Charlie se arrumava para sair, Emily se sentou no branquinho do piano o abrindo. Colocou a partitura no suporte e começou a tocar devagar, queria aprender pelo menos suas próprias músicas.
Charlie a olhou e franziu o cenho.
– É a... Quinta faixa?
Emily ignorou.
– O tempo está errado.
– Eu sei, ok? – ela suspirou brava – estou tentando aprender então porque não experimenta ficar quieto? Só pra variar um pouco.
Ele deu de ombros para si mesmo já que ela não o olhava e voltou a organizar suas coisas sentindo agonia do quão sem ritmo ela apertava as teclas.
– Certo – ele disse indo até ela se sentando ao seu lado – com licença.
Ele olhou a partitura e começou a tocar devagar, mas no ritmo certo. Charlie não havia virado um especialista em instrumentos nem nada no gênero, mas estava se dedicando bastante com todos eles e agora pode-se dizer que ele tinha um domínio bom na maioria deles, principalmente violão, bateria e piano, que eram seus preferidos.
– Eu não preciso da sua ajuda.
– Deixa de ser orgulhosa.
Emily o olhou e se virou para ele.
– Há alguns meses, quando eu voltei você foi bem específico em me querer longe de você, em todos os aspectos, isso só porque eu queria me reaproximar de você, e então quando eu larguei do seu pé, você aceitou gravar uma faixa comigo e desde então me irrita profundamente de propósito sempre que me vê. Agora me diga, você é do contra, retardado ou apenas gosta de ser chato?
Charlie fez um bico pensativo e deu de ombros.
– Talvez, um pouco dos três.
– Você é demente – ela se levantou pegando sua bolsa indo até a porta.
– Ou talvez eu tenha percebido que fui um tanto quanto exagerado antes.
Emily se virou para ele obviamente confusa.
– Como disse?
– Quando você voltou eu fiquei com os hormônios da raiva meio alterados e posso ter exagerado... um pouco – ele suspirou – e também posso ter percebido isso recentemente e de uma forma indireta venho tentando mostrar que eu não te odeio, mas o fato de não te odiar me irrita bastante.
Emily soltou a bolsa.
– É sua forma de dizer isso é me irritando?
– Eu disse que isso talvez tivesse acontecido, e se esse fosse o caso a resposta seria provavelmente sim.
– Eu de fato não te entendo.
– Se entendesse seria meu psicólogo.
Ele voltou a olhar para o piano apertando as teclas descontraidamente.
– Talvez eu também não te odeie.
Ele riu.
– Até parece.
– Bom – ela voltou a se sentar ao lado dele – Quando você não está sendo chato, metido, prepotente e desprezível... Você é até descente.
Charlie riu novamente.
– "Até descente".
Ela riu da imitação que ele tentou fazer de sua voz e o olhou, fazia um bom tempo que não ficava tão perto dele assim.
– Ainda não vamos nos dar bem, não é? – ela perguntou sorrindo já sabendo a resposta.
– Não, não mesmo, você ainda me irrita.
– Eu já esperava, e é absolutamente recíproco.
Ele olhou para ela e aproximou seu rosto inconscientemente.
– Mas se fornos considerar... Nunca realmente nos demos bem.
Ela virou seu rosto para ele e os olhos do menino foram diretamente para seus lábios vermelhinhos.
E naquele momento, ele não soube explicar oque aconteceu, mas sentiu vontade de beijá-la, só beijá-la, apenas isso.
Se aproximou consideravelmente dela que logicamente percebeu oque estava acontecendo e se afastou.
Emily o olhou se levantando assustada com a proximidade e voltou a pegar sua bolsa.
– Foi bom conversar com você, criatura – ela disse indo até a porta – muito obrigada pela falta de ajuda – e assim ela saiu apressada.
Charlie suspirou bravo afundando suas mãos nas teclas do piano. Ela era extremamente fiel aquele babaca enquanto ele a traia frequentemente bem em baixo do nariz dela. Mordeu o lábio inferior sentindo aquele calor anormal se espalhar pelo corpo.
Merda, merda, merda. De novo não.
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