Notas iniciais
Então, voltamos para a história desde o início, antes de Melrise ser trancafiada pelo rei em seu reino na Floresta das Trevas. Boa Leitura.

Cidade do Lago, dois anos antes da Batalha dos Cinco Exércitos.

*

Sinto meus olhos arderem quando os abro no primeiro raio de sol. O dia está clareando lá fora e o frio provocado pelo vento que bate forte na frágil janela de madeira faz meus cobertores voarem, despertando-me das poucas horas de sono que meus pensamentos permitiram que eu tivesse.

A imagem que criei de Kirkel ao meu lado no altar não sai da minha cabeça. Chorei a noite inteira ao receber a notícia de que estaremos casados daqui a poucos meses, forçada pelos meus pais que juram sofrer por ver-me passar a fome e miséria que tem feito parte de nossos dias, assim como mais da metade da população da Cidade do Lago.

Pego os pregos extras que guardo na pequena cômoda, junto com minhas poucas roupas. Ao lado, um martelo enferrujado, que se ousar atingir algum de meus dedos contamina meu corpo, me conferindo uma grave doença. Preciso ter cuidado.

Prego a madeira das janelas mais uma vez para o vento de inverno não invadir meu quarto, ousando acordar-me nos poucos momentos de prazer que tenho em minha vida. Suspiro em tristeza de ver que o sol fraco já levantara para mais um dia árduo de trabalho.

Desço até a cozinha após esfregar meus olhos e espantar o sono em meu rosto. As panelas de água quente já esperando para serem pegas por mim e minhas irmãs, enquanto mamãe prepara o fraco chá de café para despertarmos. Subo com dificuldade com alguns litros de água fervente, depositando-o na banheira de madeira que escondo em um dos quartos cheios de quinquilharias. A casa é grande, há quartos para todos. Em outras épocas, aquelas paredes viram dias de glória e fartura, ao contrário do que se está acostumado hoje em dia.

Hora do café. Todos em silêncio na mesa. Meus pais, já de idade avançada, lutam para conseguir trabalhar num lugar sem muitas opções depois de anos sem nunca fizerem nada. Metade da cidade está caindo de fome, enquanto a outra luta para que seus negócios não afundem junto. Nosso Senhor, este que quase ninguém vê, jura que estamos melhorando e que com a boa ajuda dos elfos da Floresta das Trevas ficaremos bem.

Mas, apesar do barqueiro Bard afirmar que os elfos são generosos na compra de nossos produtos, mal vemos a cor desse dinheiro e dos itens de troca. Há quem diga que eles não pagam tanto quanto deveria, mas Bard jura que o dinheiro está entrando, porém que o Senhor não investe na cidade e nem cuida de seu povo como deveria.

Acredito nele. Aquele velho ruivo e gordo parece estar sugando não só o dinheiro dos elfos, mas também a alma das pessoas da cidade.

Ouço um barco ancorar Kirkel me chamar. Suspiro em desaprovação, porém sei que é hora de encarar mais um dia de trabalho e me forço a ir em frente. E, mesmo que não pareça, agradeço por ter um emprego e não ser um total fardo nas costas de meus pais, assim como minhas irmãs. Ambas se sentiram invejosas ao saber que mesmo elas sendo totalmente mais atraentes, delicadas e melhores pretendentes do que eu, Kirkel me escolhera para desposar.

Afasto-me da mesa sem dizer uma palavra, enquanto as irmãs menores invadem as frestas da janela a fim de ver e paquerar o belo moço de cabelos castanhos claros que me espera.

— Bom dia, Kirkel. – Digo ao avistar os olhos brilhantes daquele que sempre me espera com um sorriso no rosto.

— Bom dia, Melrise. Como está bonita.

Kirkel sempre me elogiava. E mesmo que o conhecesse há muitos anos, ele não deixava de ver em mim a garota ideal para ele. Sentia meu rosto corar sempre que ele me elogiava, porém, meu coração não se alegrava ou se derretia apaixonado. Era como se meu irmão mais velho me fizesse tais elogios todos os dias.

— Deveria elogiar Mirph e Matilda também. Elas não se cansam de te olhar. – Respondi, observando-o perceber que minhas irmãs olhavam para ele da janela.

— Sabe que só tenho olhos para uma delas. – Ele respondeu, ajudando-me a subir no pequeno barco que nos levaria à biblioteca da pequena cidade.

Todos os dias, Kirkel me deixava lá enquanto marchava até Bard para preparar os pedidos que os elfos faziam. Eles trabalhavam juntos e eram grandes amigos, conspirando de vez em quando contra o Senhor da cidade. Sentiam vergonha e um extremo descontentamento se tratando daquele senhor, e eu não discordava deles. A Cidade do Lago afundava cada dia mais, literalmente.

Antes de descer, Kirkel beijou minhas mãos e me desejou um bom dia de trabalho. Senti meu corpo rejeitar aquilo com extrema força, mas fingi um sorriso. Não queria que aquele que jurou me proteger de tudo e de todos soubesse que por dentro eu o via e o sentia como um irmão.

Abri a pequena biblioteca localizada quase ao centro da cidade e pus-me a trabalhar nela como de costume, consertando os poucos livros que tínhamos e os conservando bem da extrema umidade da cidade e das mãos porcas de alguns dos cidadãos que ali viviam, lucrando apenas daqueles que alugavam por meses algum livro de extrema importância e valor, o que dava baixíssimo rendimento para mim e a biblioteca. Mas como o Senhor faz questão de dizer que, por causa daquela espelunca que ele considera como incentivo à cultura da sua cidade, eu tenho um emprego de que gosto.

— Se algum dia tiver filhos não os obrigarei a casar. – resmungava enquanto tirava alguma poeira de cima dos clássicos escritos à mão. – Não quero me casar com uma pessoa que imagino como irmão! Seria nojento. Seria como me entregar a um parente. Isso é repulsivo.

Enquanto falava comigo mesma, observava através da janela o tempo passar. Nenhuma alma viva entrava naquele lugar, a menos por uma ou outra criança que gostava de ler. Mas até mesmo estas já não compareciam com tanta frequência. Os livros eram poucos e a maioria delas já haviam lido e relido todos eles várias vezes, inclusive eu, que ficava ali todos os dias sem nada de útil para fazer.

No fim do dia de hoje nem mesmo as moscar se atreveram a cruzar meu caminho. Sentia que os dias daquele lugar estavam contados.

E eu tinha razão. No fim do dia, aquele homenzinho feio e malcheiroso que se diz assessor, chegara à porta da biblioteca, encarando-a como se fosse algo repulsivo – talvez tão repulsivo quanto ele – e entregara-me uma ordem de fechamento assinada pelo Senhor.

— Isso é sério, Alfrid? – perguntei incrédula por aquilo estar acontecendo mais cedo do que imaginara.

— Precisamos cortar gastos. Se me entende, senhorita. – ele respondeu, jogando seu bafo podre ao encarar-me de perto.

— Certo. – Concordei procurando fugir da presença daquele homem.

— Tem o direito de ficar com alguns dos livros, senhorita. Meu Senhor entende seu esforço para manter a biblioteca de pé. Escolha alguns e os carregue consigo a partir de amanhã.

— Eu entendo. Obrigada. – Agradeci, e pus-me a rodar através dos poucos corredores e escolher alguns dos livros para mim. Estava oficialmente desempregada, e quando meus pais souberem, estarei ainda mais noiva de Kirkel.

Quando percebi Alfrid sair, senti minhas lágrimas descerem. Era lastimável passar por aquilo tudo e perceber que os dias dali pra frente seriam ainda piores. Eu seria oficialmente uma dona de casa casada com Kirkel, tão casada a ponto de ter que sustentar meus pais e irmãs futuramente com o dinheiro dele. Eu não teria escolha. Esse era o meu destino, afinal.

Kirkel percebera o quanto estava calada na volta. Tentava de todas as formas puxar diversos assuntos diferentes, e ouvira sempre a mais curta das respostas. Eu não queria falar sobre o fechamento da biblioteca, contudo, sabia que nossas vidas permaneceriam cruzadas e iguais pelo resto de nossos dias a partir daquele dia, eu deveria apenas aceitar nosso casamento de bom grado, e não adiantava tentar esconder dele que estava oficialmente sem emprego até o dia seguinte, então resolvi contar.

Paramos à porta de minha casa, e, sentados no barco, ele me ouviu enquanto mais algumas lágrimas de insatisfação e tristeza desciam. Suas mãos foram de encontro com as minhas, fazendo-me derreter um pouco em seu abraço logo após.

— Sabe que eu estarei sempre ao seu lado mesmo que não haja mais um peixe sequer para alimentar nossas bocas. – Ele disse-me, acariciando meus cabelos.

— Eu sei. – Limitei a responder.

— Então acho que deveria aproveitar e aceitar minha proposta, Mel. É uma boa hora para fazer com que seus pais não se preocupem. Eles já estão velhos, e sentirão uma profunda tristeza ao perceberem que não poderão sustentar a casa sozinhos. Eu posso cuidar de você. Eu posso ajudá-los.

Me afastei de Kirkel e pus-me a encará-lo, buscando novas soluções que não fosse aquela para a minha atual situação.

Balancei a cabeça em afirmação. Era a minha única saída.

— Poderemos nos casar quando achar que está pronta. – Ele continuou, beijando minhas mãos mais uma vez naquele dia.

— Claro. – Voltava a dar respostas curtas. — Tudo bem.

— Podemos, inclusive, dar uma pequena festa em comemoração.

Balancei a cabeça mais uma vez, voltando a atenção para a janela da cozinha de minha casa.

Kirkel entregou-me um peixe grande. Seria o nosso jantar, e apesar de ele sempre ser generoso comigo, às vezes tudo o que nos restava para as refeições eram algumas das maçãs que papai cultivava ao lado da cidade e algumas nozes. Haviam dias que comer algo era um luxo, então tomávamos sopa rala de poucos legumes que mamãe plantava junto aos pés de maçãs e que cresciam com alguma sorte.

Mas Kirkel era um homem bom. Ele era gentil e educado, e apesar da minha atual situação de extrema pobreza, ele não se afastou de mim. Bard era um exemplo para ele de humildade, e como seu melhor amigo, mesmo muitos anos mais velho do que ele, Kirkel aprendera que a generosidade era o que mantinha os cidadãos daquela cidade esperançosos e de pé.

Beijei seu rosto em agradecimento, e me despedi dele.

Entrando em casa, entreguei o peixe a uma de minhas irmãs, que passavam todo o dia sentadas e fazendo tricô, sem ao menos ajudar mamãe com as tarefas de casa.

Mirph, a mais velha delas, olhou feio.

— Não ouso tocar nesse animal fedorento. – ela disse desdenhosa.

— Se não o fizer, não deixarei que coma parte dele esta noite, e morrerá de fome. O mesmo vale para você, Matilda. – ameacei, dando marcha para o meu quarto logo em seguida.

No jantar, todos permaneciam muito quietos enquanto saboreavam o peixe. Sabíamos que era raro termos algo para mastigar durante a noite, e nos contentávamos em apenas comer durante as refeições, deixando as fofocas e novidades de lado.

— Agradeça à Kirkel por todos, minha filha. – Papai disse, juntando todos os espinhos que sobrara em seu prato.

— Já o agradeci. – Respondi, observando sua expressão severa.

— Agradeça mais uma vez. E se possível, agradeça todos os dias pela paciência que ele tem com você. – Ele respondeu-me fazendo cara feia.

Meu pai não costumava demonstrar amor por nós. Casou-se com mamãe sem conhecê-la, e achava que eu alimentava ideias românticas demais por causa dos livros que eu lia. A maioria de contos de fadas, relatavam histórias de amor da realeza, e papai desaprovava esse tipo de “alimento intelectual”. Para ele, eu deveria me ocupar apenas com deveres domésticos e como agradar meu futuro marido.

— Claro. – Disse, levantando-me da mesa.

— E onde pensa que vai? – Ele censurou. – Quero ter uma conversa com a senhorita, antes mesmo que faça alguma loucura rejeitando Kirkel como marido. Você seria bem capaz de dizer não para ele.

— Eu não pretendo rejeitá-lo! – respondi sem pensar. – Está bom para o senhor?

Meu pai fechou os pulsos em meio aos meus gritos. Senti meu corpo esquentar-se de fúria, e depois temer o que ele faria.

— Acho bom estar casada daqui a poucos meses, ou lhe expulso desta casa, ouviu?

Com esta resposta, retornei para meu quarto. Juntei todos os lençóis que tinha e os joguei na cama, retirando toda a minha roupa, e enfiando-me ali embaixo. Gostava de sentir meu corpo livre, porém gostava da sensação de me sentir presa por aqueles lençóis que me protegiam do frio.

Gostava de despir meu corpo daquilo que o cobria no dia-a-dia, e depois cobri-lo com algo novo.

E era assim que eu me sentia em relação à Kirkel. Ele era a minha costumeira roupa, e eu gostaria de despir meu corpo para encobri-lo com lençóis, estes que ainda eram desconhecidos por mim.

Notas finais
Teorias? Me contem todas Beijos ♥