Notas iniciais
Obrigada às meninas que estão acompanhando e às leitoras novas. Saibam que me esforçarei para vocês gostarem dessa fic como gostaram de Príncipe Légolas. E sim, haverá capítulos com Légolas e Belle, e vocês matarão um pouco a saudade, mas não é por agora. Boa Leitura.

O amanhecer parecia tortuoso. O vento batia pelas frestas da janela, como quase sempre, e junto o sol anunciava que mais um dia estava chegando. Já sem emprego, não sabia o que fazer para tentar contornar a minha péssima e atual situação.

Gostava de trabalhar. Na biblioteca, a paz reinava dentro de mim de forma estupenda e eu achava que estava no melhor lugar que ali poderia oferecer. Sentia que era algo útil para aquela mísera cidade. Tinha orgulho de bater no peito e dizer que eu colaborava e incentivava crianças e adolescentes a ter cultura e semear a sabedoria entre os outros. Mas, infelizmente, eu sabia que aquilo duraria pouco, e que nosso Senhor não manteria sua palavra.

Como não existem escolas, as crianças são ensinadas em casa pelos pais. Esses que, na maioria dos lares, não sabem quase nada ou não tem tempo para tal coisa. Sinto-me triste por elas e sei o quanto fui agraciada pelos talentos e grande paciência de minha mãe em nos proporcionar o melhor de si e de seu conhecimento.

Para mais um dia monótono, desci para o café após me banhar. Água é o que não falta por aqui, e por mais que dê trabalho, gosto de sentir o perfume de sabonete feito com essências de flores do campo que mamãe colhe em minha pele morena, e acabo por usar quase todo o estoque. Esse era um dos pequenos prazeres da minha vida.

— Bom dia. – Cumprimentei minhas irmãs que reviravam a xícara de chá de café e faziam cara feia para as nozes, insatisfeitas com o pouco que tínhamos.

— Bom só se for para você, que em breve estará casada com Kirkel, numa mesa contendo chá de limão e mel ao invés dessa água suja! – Mirph reclamou, deixando a xícara de lado.

— Case-se com ele então. Eu não me importo. – Respondi dando de ombros.

— Não entendo como pode rejeitá-lo dessa forma! Kirkel é um homem lindo, tem um bom emprego, influência e te daria tudo o que desejasse. – Matilda pronunciou-se.

Encarei minhas irmãs. Ambas dariam tudo de si para conquistarem Kirkel, contentando-se em saber que garantiriam uma vida melhor apenas por esse fato. Talvez nem importasse o fato dele ser bonito, apenas ter um pouco mais de dinheiro e poder proporcionar conforto já faz dele o melhor pretendente.

— Talvez eu esteja procurando algo além. Já pararam para pensar que, no mundo lá fora há tantas pessoas? Já imaginaram que alguma delas pode ser sua alma gêmea, independente de raça? Já pensaram que há alguém à sua espera? Alguém que a ame profundamente, que a faça sentir que o amor vai muito além do que vemos? Eu procuro algo... diferente. Um amor verdadeiro para ambos os lados, como nos contos de fada.

Minhas irmãs riram de minha expressão.

— Não ouse dizer isso em voz alta! Papai daria uma boa bofetada em você se ouvisse. – Mirph alertou, ainda rindo de mim. Céus, elas eram tão parecidas com ele.

— Claro. – Suspirei. – A vida real é ainda mais cruel quando aqueles que amamos repudiam seus sonhos.

Minhas irmãs entreolharam-se como se não entendessem. Coisa que para mim era normal, levando em consideração que ambas não eram tão sonhadoras como eu.

Ouvi Kirkel chamar. Esperava-me para meu último dia na biblioteca, e, com certeza pronto para me consolar.

Despedi-me de minhas irmãs e fui de encontro com ele. Aqueles olhos brilhantes sempre pareciam ofuscar a luz do sol sempre que me via. Concordava que Kirkel era muito bonito, porém nunca me senti tentada por ele. Seus braços fortes eram um convite, mas meu corpo pedia algo diferente, que eu não sabia dizer exatamente o que era. Seus lábios eram tentadores e isso eu pude comprovar naquela vez em que, por impulso, atirei-me neles, sugando-o e sucumbindo-me à tentação de saber como é ser beijada.

Erro meu. A partir daquele momento, sua obsessão por mim aumentara, e sua ideia de casamento não saiu de sua mente até convencer meus pais de que era o melhor.

— Bom dia. – Ele disse em meio a um sorriso.

— Espero que ele seja bom mesmo. – Respondi.

— Sei que será difícil para você, mas encare como uma oportunidade de mudança. Pode fazer algo novo, aprender novas coisas. – ele tentou me animar.

— É, eu gostaria mesmo de aprender a falar a língua dos elfos.

Kirkel deu meio sorriso, e ajudou-me a sentar em seu pequeno barco.

Olhei para todos aqueles livros espalhados em fileiras quando abri a biblioteca. Todos tão atraentes, bem cuidados graças a mim e cheios de conteúdo, eram como um convite a aventuras sem sair da poltrona.

Passei meus dedos em cada um deles, apreciando suas capas e caligrafia bem-feitas. Onde iriam parar depois de fechar a biblioteca? Provavelmente nas prateleiras de pessoas que só ostentam livros por querer se passar por intelectual. Pessoas como o Senhor da cidade, que eu duvido apreciar o bom conteúdo daquelas páginas.

Escolhi alguns livros. Como me foi prometido, eu poderia ficar com alguns. Porém, não pretendia deixar que todo o resto caísse em mãos desmerecidas. Aqueles livros precisavam ter um destino melhor do que lhes seriam oferecidos.

Esses preciosos livros deveriam pertencer à população, como foi dito ao inaugurar a biblioteca e prometido às pessoas.

Empilhando os livros de maior importância em uma pequena maleta, pus-me a levar para fora todo o resto, afim de distribuí-los.

Algumas crianças foram até mim. A maioria delas eu conhecia por causa dos empréstimos constantes. Entreguei a cada uma delas um exemplar de acordo com as suas preferências. Todas saíram contentes com o presente, mas eu sabia que essa atitude não seria bem vista.

— O que pensa que está fazendo? – Alfrid, aquele puxa-saco real veio no meio da tarde para censurar-me.

— Dando ao povo o que é do povo. – Respondi, procurando ter um ar de autoridade na voz.

— Esses livros não lhe pertencem! Pegue-os de volta desses pirralhos, caso contrário terá que pagar por cada um deles.

— E pagarei com o que? Não se tira algo de quem não tem nada!

Alfrid bufou.

— Denunciarei seu ato ao mestre!

— Pois vá em frente! – Confrontei-o. – É tudo o que sabe fazer, não é mesmo, capacho?

Aquele homenzinho de dentes podres era demasiado menor do que eu, e não se atrevia em encostar-se a uma dama. Apesar disso, sabia que ele voltaria com mais autoridades para me impedir de continuar.

E não demorou muito. Praticamente fui arrastada pra longe da biblioteca e levada àquele homem gordo e horrendo ao qual somos obrigados a chamar de Senhor.

— Essa moça, que trabalhava na biblioteca, deu a maioria dos livros para crianças imundas, mestre. – Alfrid esclareceu.

Postei-me em frente aquele homem carrancudo e ruivo. Seus olhos inchados revelavam que ele havia acabo de acordar, mesmo estando no meio da tarde. Em sua mão direita um copo de vinho pendia quase vazio.

— Com que direito? – ele exaltou sua voz, voltando-se para me encarar.

— Estava devolvendo ao povo o que lhe pertence. Se há uma biblioteca para as pessoas terem acesso à educação, e esta será fechada, nada mais justo do que entregar ao povo o que lhe foi prometido. – Confrontei o mestre de cabeça erguida pois eu não sentia medo de assumir minhas atitudes.

— Não se faça de esperta! – Alfrid falou.

— Quero meus livros de volta. Traga-os, ou os pagará.

— Pode tirar meu sustento, ou banir-me, se assim desejar. Eu não tenho dinheiro para pagar. Muitas pessoas na cidade passam pela mesma situação, e ainda mais agora, que o único meio de educação fornecida pela administração, está indo por água abaixo! – protestei. — Educação deveria ser uma das prioridades da cidade.

O mestre fechou seus pulsos, deixando seu copo com os últimos goles de vinho cair.

— Quem pensa que é questionando meus métodos administrativos! Não passa de uma plebeia com falsos moralismos! – ele bufou.

— Pois o meu falso moralismo grita: o seu governo é...

Infelizmente – ou felizmente – fui interrompida com a chegada de Kirkel, que segurara meus braços para que eu não pudesse continuar. Sentia meu rosto esquentar-se, e gostaria de poder expressar toda a minha indignação.

— Eu pagarei pelos livros, meu senhor. – Kirkel disse. – Foram alguns poucos que ela deu, sendo que guardou os de maior valor, e eu os trouxe.

Kirkel encarou-me com fogo nos olhos. Ele desaprovava meus métodos de protesto tão descarados, porém estava acostumado a acobertar esse tipo de coisa quando Bard também o fazia.

— Foram apenas quinze livros infantis. Nada importante para a biblioteca do mestre. Espero que seja generoso ao cobrar por poucas obras.

O Mestre observava Kirkel com desdém, porém ele o admirava por seu bom trabalho com os elfos e suas encomendas.

— Pois bem. Trinta pratas são suficientes.

Engoli em seco. Trinta pratas alimentariam toda a minha família por três meses, com ótimo peixe e frutas da estação, e até mesmo chás de variados sabores e pão todos os dias.

Kirkel, no entanto, parecia estar esperando pelo salgado preço. Retirou de suas moedas do bolso e entregou ao senhor, que sorriu em satisfação.

— Agora, tire essa garota daqui. – Ele ordenou, mas Kirkel já segurava meu braço em direção à saída.

Na volta para casa, não ousei olhar para ele. Sabia que, a qualquer momento, ele me cobraria pelo alto preço que pagou por minhas estripulias. Parecia que não importava quais atos eu cometia, eu sempre acabava devendo algo a Kirkel de alguma forma.

Porém, Kirkel começou a rir alucinadamente, e voltei minha atenção para ele.

— Você e Bard ainda me pagarão caro por tudo o que faço tentando protegê-los.

Senti meu rosto corar de vergonha.

— Me perdoe por isso. Eu não queria te envolver.

— Sei que não. Porém quero que entenda que estamos mais do que envolvidos, e que eu farei qualquer coisa para salvá-la do que quer que seja.

— Mas perdeu trinta pratas. Aqueles livros não valem nem trinta bronzes.

Kirkel negou com um gesto.

— Aquele dinheiro não é meu. Recebi-o dos elfos esta manhã por uma carga extra de maçãs, e ainda não o coloquei no orçamento. E se não o fizer, não saberão, pois somente eu vi o elfo. Este muito justo, por sinal. Acredito que seja filho do rei, pois uma pequena coroa de prata pendia em sua cabeça.

— Elfo da Floresta? – Fiquei intrigada. – Eles são bastante generosos, não são? Porque parece que às vezes não.

— Sim, eles são generosos. E muito ricos também. Compram muito de nós e fazem trocas, e são eles que nos ajudam a permanecer de pé.

Aquela informação era preciosa. Nunca havia visto um elfo de perto, mas sabia que sua beleza era incontestavelmente gloriosa.

— O rei Thranduil, por exemplo, faz questão de ter sempre o melhor trigo para preparar o pão, chamado lembas, para aqueles que viajam. Acho que seu filho é um dos que mais consomem, pois soube que é amante de uma boa aventura e costuma representar o reino nas demais cortes. – Kirkel continuou.

— Interessante. E como sabe de tudo isso?

— Histórias dos próprios elfos que vem fazer os pedidos e buscar a carga. Alguns deles são bem tímidos, mas basta puxar conversa e mostrar certa segurança em sua língua que logo se abrem.

Nunca ouvia muita coisa sobre os elfos. Apesar de morarem tão perto, as pessoas evitavam falar deles por serem muito temidos. Mas, o que eu ouvia era algo completamente diferente. Talvez os elfos fossem legais, e quase ninguém soubesse disso.

Kirkel desceu-me e se pôs e beijar minhas mãos. Era incrível a capacidade dele de me deixar bem sob qualquer circunstância.

Levou uma de suas mãos à bolsinha de moedas que ele escondia em seu casaco, e entregou-me duas de prata.

— Essas me pertencem de fato. – Ele disse botando uma de cada em minhas mãos. – Uma você compra algo para você e sua família comer essa semana, já que perdeu o emprego. A outra quero que guarde. Lhe darei uma a cada duas semanas para você comprar seu vestido. E no final, terá o bastante para escolher o mais bonito.

Senti meu coração apertar. Precisava de dinheiro para ajudar meus pais a nos alimentar, mas aceitá-lo de Kirkel para o casamento era demais. Estaria dando minha palavra definitiva sobre suas perspectivas e afirmando aos meus pais que ele nos alimentaria.

Fechei as mãos e segurei aquelas moedas. Apenas balancei a cabeça em concordância, aceitando-as de bom grado.

— Por que tem que ser tão bom para mim? – Perguntei, não esperando resposta.

Kirkel beijou-me a testa como resposta, e sorrindo voltou para o barco.

— Te vejo amanhã. – Ele despediu-se, deixando-me paralisada no local.

"Não, Kirkel." – Disse para mim mesma. "Nós não nos veremos amanhã."

Olhei para o norte. A Floresta das Trevas era uma imensidão, fria e perigosa, eu sabia. Não tentaria ficar por ali. Porém, eu teria de escolher: ou fico aqui e encaro as consequências e meu casamento indesejado, ou me arrisco e busco algo novo.

Eu me arriscaria.

Notas finais
Kirkel, pra quem não consegue imaginar ele: https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/736x/6d/53/28/6d53285a2986120769642e01adbd046f.jpg ♥Sam Clafin♥ Só um aviso: não se apaixonem por ele como eu já fiz usuhahusuhasauusuhaushauhsuhausha Beijos ♥