A Única Exceção do Rei
13 O Gosto da Liberdade
Notas iniciais

Quando o rei deixou o jardim respirei em alívio e satisfação. Afinal, foram muitos dias de luta e muita insistência naquilo que era meu propósito. O mundo agora me esperava, e eu sabia que poderia encará-lo sozinha. É exatamente isso o que eu quero e o que preciso. Thranduil e Kirkel fariam parte do meu passado assim que meus pés tocassem o chão fora da Floresta das Trevas.
Eu estava feliz.
Percorri mais uma vez aquele belíssimo quarto; as cortinas vermelho sangue lembravam-me dos lábios do rei toda vez que o pegava mordendo-os. Aqueles lábios, tentadores, que tinham gosto de luxúria. Tal como a cor daquelas cortinas, que desciam na parede branco-gelo e se sobrepunham na cabeceira da enorme cama talhada em madeira e ouro.
E o cheiro. De maçãs. Surpreendentemente o quarto cheirava a maçãs, mesmo sem nenhuma fruta por perto. Nunca, em todo o tempo em que vivi, já havia me deparado com algo do tipo, tão perfeito, tão tentador.
Percebi meus olhos vidrados na cama; seus lençóis tão limpos e macios, tão brancos quanto a pele do rei. Sentei-me nela, e passei a acariciar admirando cada centímetro daquele tecido alvo.
E se eu tivesse permitido? Talvez, nesse instante, nós dois estaríamos ali juntos, ofegantes, suados e preenchendo o ar com nossos gemidos de prazer. Sua boca percorrendo cada parte do meu corpo, beijando-o, sugando-o, tomando-o para si. A pele do rei nua sob a minha, numa tentativa cega de nos satisfazer daquela sede repentina que um se apoderou do outro. Thranduil ficara obcecado por mim, e eu aproveitei cada vacilo dado pelo rei. Foi fácil, admito. Esperava que ele brigasse mais, se defendesse mais, me torturasse mais. Contudo, ele se entregou à tentativa de sedução arriscada. Provavelmente foi a gota d’água e eu poderia apostar minha própria vida que ele está agora me espraguejando em todas as línguas conhecidas por ele.
Nunca foi minha intenção enfurecer ou provocar o rei. A única coisa que queria era ser livre, e não há nada nesse mundo que possa me fazer mudar de ideia, nem mesmo o mais perfeito dos elfos.
Deitei-me na cama mais uma vez, sentindo os lençóis em cada detalhe.
"Agora, tudo que me resta é esperar, apenas esperar pelo que está por vir."
E adormeci.
Já estava escuro quando acordei. Havia uma bandeja de prata, que parecia mais um espelho ao invés de uma bandeja de servir, com comida para mim, como de costume, porém já estava fria. Freeda não estava por perto, e tudo o que eu conseguia ouvir eram os sons que o jardim produzia. Havia horas que o rei me prometera liberdade, e senti certo desconforto ao imaginar que ele não cumpriria com a sua palavra.
Voltei ao prato de comida que Freeda me deixou e saboreei tudo o que estava ali, pois precisava me fortalecer para o que estava por vir. Admito que sentirei falta dos luxos que me foram proporcionados durante esse tempo. Tudo o que Thranduil me dera me agradava, de um modo que parecia que ele sabia como fazer aquilo.
Mas não havia nada que poderia comprar minha liberdade, por mais que fosse divertido as tardes de provocação com o rei.
***
Passaram-se dois dias. Freeda aparecia, como costume, e cuidava de mim. Porém, nenhuma notícia do rei. Será que era tão difícil assim eu sair do reino sem ser percebida? Eu entrei, poderia sair do mesmo jeito. Algo dentro de mim me dizia que Thranduil ainda estava num conflito interno, e não me deixaria escapar tão fácil.
Na tarde do segundo dia, já cogitava recomeçar a gritar todo o tipo de atrocidades sobre o rei, quando percebi a figura altiva de Tauriel adentrar o jardim.
— Melrise! – ela chamou por mim, que atendi de prontidão, ansiosa pelo comunicado.
— Por favor, diga que ele me deixa ir!
A elfa balançou a cabeça em afirmação, sentando-se ao meu lado na fonte e abrindo um sorriso.
— Já está quase tudo pronto. – ela disse. – Alimentos, roupas e um cavalo. Ele mandou lhe entregar isso. – Tauriel informou, entregando-me um saquinho de couro vermelho.
Abri-o, na esperança de conter algumas moedas de prata para me manter durante a viagem. Porém, ao cair seu conteúdo em minhas mãos, percebi um colar escorrer por entre elas. Um formoso pingente cônico, de mais ou menos três centímetros, brilhava como uma estrela.
Tauriel fitou-me boquiaberto. Não me senti digna de uma jóia que parecia tão valiosa e preciosa. Certamente usaria aquela preciosidade com os vestidos quetinham mais remendos que os tecidos gastos das velas das barcaças da cidade do lago.
— Não é nada do que imaginava. – Observei. – O que o rei pretende dando-me algo assim?
Tauriel deu de ombros, ainda com os olhos vidrados no presente. Coloquei-o de volta na bolsinha, na esperança de poder devolver ao rei, caso tenha a chance de vê-lo uma última vez.
— Fique pronta. Sairemos de madrugada, e eu a acompanharei até a borda da floresta. – Tauriel informou, tentando desfazer-se dos pensamentos que a tomara sobre o presente.
— Esperarei ansiosa.
***
Vesti o uniforme de caça que Freeda aprontou para mim naquela noite. Para cavalgar, aquela vestimenta era mais confortável. Deixei todas as coisas que me foram dadas prontas, embaladas e prestes a serem colocadas no cavalo assim que for a hora. Aproveitei o resto de tempo que tinha e deitei na cama, para me despedir daquele conforto que só era dado às pessoas da realeza.
Quando abri os olhos, a imagem de Thranduil mostrou-se à minha frente. Seus olhos azuis me observavam serenos, de um jeito que nunca vira. Seu rosto permanecia rígido, porém, com uma calma invejável.
Sorri ao perceber ele sentar-se ao meu lado na cama. Ele suspirou, e voltou a encarar-me com aqueles olhos profundamente brilhantes e frios. Sentei-me e passei a observá-lo, tendo em mente que aquela era a última vez que o via.
— Está livre. – Ele disse num tom de voz um tanto baixo.
— Obrigada. – Agradeci, sentindo meu corpo se libertar de uma tensão de semanas. – Me perdoe. – continuei.
— Lhe perdoar? – ele sorriu fraco. – Por defender seus princípios?
— Por perturbar sua paz. Por botar em risco tua reputação intocável de rei forte e impiedoso da floresta. – esclareci.
Thranduil fitou-me.
— Por que acha que chegaria a esse ponto? – ele voltara com seu olhar amargurado. – Nunca, jamais, deixaria alguém como você botar em risco tudo o que eu sou. Tudo o que construí.
— Não foi isso que pareceu há uns dias atrás, quando estava prestes a tirar a roupa para alguém como eu. – provoquei.
O rei riu. Levantou-se da cama e deu meia volta no quarto.
— Tentador, confesso. Mas não passa de uma aventura. Uma aventura que não aconteceu, e por céus, fico imensamente feliz por isso. – ele respondeu. – Não passa de uma qualquer.
— Não me trate como um pedaço de carne! Eu não sou tuas servas, Thranduil. Jamais me deitaria com você, jamais me entregaria à alguém que tenha uma pedra no lugar do coração.
Senti as pernas tremerem ao dizer tais palavras. Provocar a ira de Thranduil quando estava prestes a ser liberta não me parecia muito sábio de minha parte. Thranduil encarou-me severo, seus olhos soltando faíscas, suas narinas dilatando-se numa fúria que parecia querer explodir a qualquer instante. Porém, o rei riu novamente ainda mais irônico, e eu me senti como se realmente fosse algo tão baixo quanto o monstro que ele achou que eu era.
— Gosto de sua teimosia, Melrise. – ele continuou. – Mesmo sabendo que poderia matá-la a qualquer instante, preferiu continuar a ser tola e infantil.
— Eu preferia morrer a ter que me rebaixar às suas ideologias!
— Não impus minhas ideologias à você em nenhum momento! – O rei exaltou sua voz.
— Então, por que permaneci presa por tanto tempo? – perguntei. – Vossa majestade viu que eu não era uma ameaça! Viu que estava aqui por engano. O que queria comigo esse tempo todo, Senhor?
Thranduil desviou o olhar, impaciente. Seus gestos mostravam o quanto ele parecia rígido naquele momento.
— Responda-me! – exigi.
O rei encarou-me mais uma vez. Sua expressão estava calma, seus olhos fixos e frios. Ele fazia aquilo quando tentava esconder algo, aprendi isso observando-o.
A face de Thranduil nada mais era do que uma máscara. Uma máscara em que ele escondia seus sentimentos por baixo. Seus medos, suas tristezas e suas dores.
Seus verdadeiros sonhos.
Suas verdadeiras vontades.
Sua paixão.
Seu desejo por mim.
— Está livre. – Thranduil disse-me mais uma vez, e procurando a maçaneta da porta de seu quarto, saiu em passos leves.
Naquele momento senti algo desabar. Parecia que o mundo inteiro girava, e eu não conseguia me manter. As paredes brancas pareciam diminuir, sufocando-me, apertando-me. Algo em minha garganta entalava, fazendo meus pulmões clamar por pelo ar que perdi. Então, cai num choro que nunca havia feito antes. Meus pés pareciam perder o chão e ao mesmo tempo sentia-me sendo puxada para baixo.
Por que choraria por Thranduil? Não poderia deixar que algo tão bobo acabasse comigo desse jeito. Não existe amor entre nós! Não existe nenhum sentimento! Tudo o que existiu foi um desejo quase inconsequente, uma paixão súbita e aquela vontade deixá-lo me possuir.
Eu não poderia deixar Thranduil acabar com meu dia assim. Estava livre, finalmente. E é tudo o que eu mais queria.
O gosto da liberdade é bem mais doce do que a boca do rei.
Eu só precisava me acostumar com a falta que ela me faria.
Fale com o autor