A Única Exceção do Rei
14 Aos Mares de Lindon
Notas iniciais

Tauriel apareceu algum tempo depois que o rei se fora. Provavelmente estava aguardando a sua palavra final antes de tomar a situação com suas próprias mãos. Estava devidamente trajada para uma longa viagem, pronta para partirmos assim que eu assentisse. Mais do que depressa, levantei-me da cama e me coloquei a marchar ao seu lado até o jardim escuro.
— Vamos nesse instante enquanto o castelo está quieto. É essencial que ninguém veja a sua figura perambulando por aqui. Tome, vista essa capa. – Entregou-me a peça negra que cobria o meu corpo mais do que o necessário. – Está pronta?
Assenti com a cabeça em silêncio. Estava com uma agonia no peito que não me permitira sequer uma palavra sem desabar em lágrimas. Não entendia o porque daquilo estar acontecendo, afinal eu deveria estar mais feliz por partir do que magoada com as últimas palavras do rei.
— Ótimo. Siga-me em silêncio. Perto dos portões do reino está o seu cavalo. Suas coisas já estão lá, aguardando a sua partida.
Assenti mais uma vez, marchando ao seu lado de boca fechada e rosto escondido sobre a capa preta.
Andamos a passos largos pelo castelo apressadas para não sermos vistas. A cada curva meu coração parecia um pouco mais apertado, e a cada porta trancada me perguntava se o rei estaria repousando ali. Não compreendia o tamanho apresso que havia se apoderado em mim de repente pelo elfo, mas compreendia que estava desolada por partir em condições tão estressantes. Afinal, Thranduil fora a minha companhia de dias e o motivo pelo qual eu quase segui adiante em vender a minha pureza para ele. Pensei em todas os dias e noites a partir daquele o que teria acontecido se eu não tivesse surtado. Como ele faria amor comigo, como continuaria tocando em meu corpo, como eram as curvas do seu desnudo? Imaginei milhares de vezes os seus gemidos ao pé do meu ouvido, clamando o meu nome, urrando de prazer enquanto ele se deleitava em mim.
Mas aquilo era inaceitável e eu não estava preparada para me entregar a um homem que nunca mais veria em toda a minha vida.
Após mais de dez minutos contornando as esquinas do palácio, chegamos ao seu fim. De lá dava para ver as demais casas do seu povo, que não estavam cem por cento escuras, pois elfos não dormiam tanto quanto humanos. Precisávamos de cautela para continuar, mas Tauriel era tão esperta que demonstrava a cada segundo o motivo pelo qual era a chefe da guarda.
Quando o ultimo portão se abriu para mim, olhei para trás num ato de despedida. Queria dar uma última olhada naquele reino que, confesso, era encantador. Cada objeto, muro, ponte era encaixado e alinhado com perfeição. Tentei guardar boas lembranças dentro de mim dali, mas todas me deixavam desconfortavelmente amargurada.
A Floresta estava num breu denso e impossível de seguir o caminho. Não enxerguei sequer meu cavalo quando o portão se fechou. Senti-me como se mergulhasse num profundo vazio onde não existia nada além da minha consciência gritando comigo o quanto era tola.
— Não vejo nada. – Finalmente disse para a elfa que emitia o mínimo barulho possível.
— É porque não estamos na lua cheia. – Esclareceu tocando o meu ombro. – É melhor assim. Eu serei os teus olhos nesta jornada, não se preocupe.
Tauriel pegou minha mão e colocou no cavalo por um segundo. Acariciei o pelo do animal enquanto ela ajeitava alguma coisa ali.
— Se me permite, a montarei no cavalo. Prefiro não usar nenhum tipo de iluminação pois pode atrair algum animal. – Comunicou e me empurrou para cima do bicho sem muito esforço. Ela era forte.
Após isso, ouvi um outro animal à frente relinchar, Tauriel provavelmente montara nele. Segundos depois o meu começara a marchar lentamente.
— Para onde pretende ir? – Questionou, me fazendo relembrar que precisava de um destino. – Preciso saber para ter um senso de direção antes que você tome o seu rumo.
— Ah sim, claro. Pretendo ir para Lindon. – Sussurrei, tendo em mente algo que eu gostaria de conhecer. – Quero ver o mar.
— Sabes que é lá, em Porto Cinzento, onde nós elfos deixamos a Terra? Está perto da foz do rio Lhûn no extremo leste do golfo. Se conseguir ir tão longe, visite. É encantador, apesar de não saber exatamente como humanos são tratados naquelas bandas. – A voz da ruiva era a única coisa que me fazia acreditar que ainda estava viva. – É muito longe daqui, no entanto. Se ir direto para lá, mostrarei um caminho reto que chegará.
— Eu agradeço. – Assenti feliz pelo seu interesse.
— Não é nada. – A elfa silenciou suas palavras por alguns segundos. Pareceu-me que estava no fim do mundo onde existia apenas uma imensidão vazia. – A direi por onde é mais seguro também. Há algumas cidades por onde deve passar, repouse nelas. Não é nada bom uma moça viajar sozinha por aí na calada da noite, pois há criaturas muito piores do que aranhas gigantes vagando pela terra.
— Quanto tempo acha que demorará até atingir o meu objetivo? – Indaguei curiosa, ouvindo os relinchos dos cavalos e os seus trotes quase insonoros pelas folhas úmidas das árvores que caíam no chão.
— Três meses se parar para descansar. – Alertou e eu me senti um pouco desconfortável com essa informação. – A cavalo, claro. A pé demoraria de seis a sete.
— E poderei ficar com este animal? – Perguntei incrédula.
— Claro que sim. Thranduil o designou para si. Ele é rápido e muito forte. Consegue viajar a longas distâncias sem cansar, precisando se abastecer apenas de algumas maçãs. Coloquei as frutas num saquinho ao seu lado, e há lembas também. Estes alimentos a saciam por um dia inteiro em apenas uma mordida, o que dará tempo para viajar sem se preocupar.
Me senti intimamente agradecida pelas provisões do rei. Ele pensara em minhas necessidades muito mais do que eu sabia.
— E o que fizeram com o cavalo que estava comigo? – De repente me lembrei do animal do senhor da cidade, que há muito não aparecia em meus pensamentos.
— Soltamos na floresta. – Tauriel disse e eu fiquei assustada. – Não se preocupe, era dia e ele foi pela trilha. Creio que tomou rumo de alguma cidade por perto.
Suspirei aliviada por um momento, desejando que ele tivesse encontrado o seu caminho para casa.
O silêncio se acomodou entre nós por um minuto. A respiração do cavalo estava leve e o ruído da floresta estava me deixando sonolenta.
— Melrise, preciso que se mantenha acordada até chegarmos. – A chefe comunicou, atenta à minha pessoa. – Se dormir irá cair do cavalo.
Ela deu uma risadinha e eu não pude deixar de acompanhá-la.
— Me diga, o que houve entre você e o rei? – Questionou, me pegando de surpresa. – Quer dizer, o que levou ele a libertá-la?
— Eu não posso dizer, Turiel, sinto muito. – Esclareci pesarosa. Aquele segredo me consumiria por dentro, tinha certeza disso. Por momentos me sentia uma traidora oportunista por não cumprir com a minha parte do trato. – Nós fizemos uma jura.
— Uau. Então deve ter sido uma coisa bem... impactante. – Sugeriu, mas mesmo eu querendo revelar, não colocaria o pacto em risco.
— Sinto muito não poder dizer. – Tentei acabar com o assunto.
Tauriel e eu viajamos calmamente por aquelas bandas por quatro horas. Ela conhecia atalhos para irmos mais rápido e nada surreal acontecera. Quando chegamos na entrada da floresta na borda norte o sol já nascia. Fiquei grata por poder enxergar novamente e ver os detalhes que se acercavam ao meu redor.
— A partir daqui irá só. – Ela disse retirando um objeto curioso de seu peito. – É uma bússula. Siga direto para o noroeste e chegará em seu destino. Como disse, repouse durante a noite a dê comida e água para o cavalo. Três a quatro horas de descanso para ele é o suficiente. – Olhei para o animal, ele era um caramelo com a crina loura brilhante e macia, e fiquei maravilhada com a sua figura. – Boa sorte.
Abracei a elfa antes que ela partisse e agradeci por tudo o que fizera por mim, desejando boa sorte também ao lado daquele rei insuportável. Antes que rumasse para o noroeste, como ela sugeriu, dei uma das maçãs para o cavalo e forrei o meu estômago com o pão élfico. Não tinha um gosto muito bom, mas a quantidade que me fora dada perduraria por toda a viagem, felizmente.
E lá fui eu tomar novamente o rumo de minha vida em minhas próprias mãos. Sentir o vento em meus cabelos e o ar puro da manhã em meus pulmões fez o meu corpo se sentir leve e, depois de muito tempo, feliz.
Eu estava livre. E deixaria tudo para trás.
A partir daqui infelizmente não houveram coisas muito valiosas a se dizer. Eu viajava pelos vastos campos indo em direção a Lindon, mas não podia parar para contemplar nada antes que encontrasse uma cidade para repousar a noite. Como não conhecia aqueles arredores e estava sozinha, preferia seguir as ordens da elfa para não me meter em encrencas.
Havia algumas moedas de prata numa bolsinha, ao qual a descobri apenas três dias depois enquanto procurava pelo alimento, que me serviram para pagar algumas estalagens simples durante noites. Em algumas cidades, no entanto, conseguia um quarto após oferecer alguma ajuda com a limpeza, servir comida e lavar pratos. Os humanos eram gentis em sua maioria. Os elfos que encontrava perambulando por ali eram reservados e frios.
Mas eu não me importava, pois não queria fazer laços com ninguém.
Em exatamente três meses e oito dias cheguei em meu destino final.
Não existiam muitos humanos naquelas bandas. Algumas cidades antes de Forlindon eram habitadas por várias raças de elfos que trabalhavam nas mediações dos Portos Cinzentos, e humanos, que praticamente serviam de escravos para eles. Não fora do meu agrado ver tais coisas. Praticamente fui interrogada por um deles quando pus os pés no mar pela primeira vez, enquanto assistia as ondas calmas balançarem a imensidão azul maravilhada com a sua beleza. Por conta disso, eu não pude me estabelecer por ali, e tal qual foi a minha surpresa ao me deparar com inúmeros seres altivos e de orelhas pontudas afirmando que se insistisse, minhas coisas seriam queimadas e o meu cavalo tomado.
Já estava perto dos quatro meses desde que deixei a Floresta das Trevas quando consegui um quarto fixo para mim e um lugar nos arredores para meu cavalo. Numa república de trabalhadores braçais, contrataram-me como cozinheira e serviçal. Aprendi a fazer alguns pratos que os elfos gostavam e despachava para os portos, onde trabalhavam em navios. Felizmente todos eles eram muito calados e, apesar de saber que a grande maioria não gostava da presença de uma humana, não questionavam ou me maltratavam. Também não me olhavam com cobiça, e as poucas palavras que eram destinadas a mim sempre foram delicadas e de conteúdo profissional.
— Melrise, preciso que você venha comigo nesta tarde. – O senhor Mablung, um doce elfo meio sangue disse ao me contemplar enchendo os odres com água para os viajantes. Era o responsável pelos trabalhadores e tratavam a todos como igual. – Não se preocupe, há lugar para você dormir. Hoje acontecerá a grande celebração do fim da jornada de trabalho árduo que perdurou tantos anos. Os quatrocentos barcos que tínhamos como meta a sua construção nos últimos dez anos foram prontos, e estamos mais do que precisados de uma pausa e alguma distração. – Ele sorriu terno. – Haverá uma festa pelos arredores de Harlindon e preciso de empregados nesta noite. Não se preocupe, terá um lugar para descansar depois.
— Sim, senhor.
Eu adorava o mar, e poder ir para as bandas de lá sem ser repudiada seria perfeito. Também gostaria de ter um momento de sossego, contudo não reclamaria de trabalhar naquela noite. Nunca vira em toda a minha vida uma celebração élfica e estava curiosa sobre o que fariam. Sabia que suas músicas eram místicas e tinham a melodia voltada ao que estavam comemorando. Fiquei feliz por poder adquirir mais conhecimento voltado para aqueles seres curiosamente reservados.
O senhor Mablung parecia ser muito velho em idade. Sua feição era cansada e tinha uma ruga entre as suas grossas sobrancelhas que dava um ar rude a si. Entretanto, era o mais gentil elfo que já conheci em toda a minha jornada e me recebera de braços abertos. Possivelmente porque algum de seus pais era da raça humana. Confesso que não sei qual, não chegara a conversar com ele sobre isso e só ouvia uma fofoca aqui e ali dos demais enquanto me concentrava em fazer um bom prato.
Quando chegamos em nosso destino, na encosta do mar, senti o cheiro salgado do mesmo que ia longe, um pouco mais forte. De onde morava não conseguia vê-lo, mas sentir os ventos vindos de cá trazendo o seu cheiro era inevitável. O elfo, antes de seguir para a comemoração que já havia começado, rumou para uma barraca onde uma cozinha fora montada. Apresentou-me para os responsáveis e lá me deixou para trabalhar. Não tinha problema, estava acostumada com o trabalho árduo e o faria com louvor. Quem sabe depois, quando eles terminassem, eu não poderia novamente colocar os pés nas águas salgadas e quentes daquelas bandas?
Eu só não sabia que elfos comemoravam suas conquistas em dias de festa.
Na primeira noite cozinhei incansavelmente até as seis da manhã. Após isso, meu turno fora trocado e eu pude descansar num canto que o senhor Mablung havia arrumado para mim. Na segunda noite, me colocaram para servir bebidas aos elfos.
Vestida com um traje um pouco mais belo do que o costumeiro, pediram que eu fosse delicada e silenciosa enquanto caminhava entre os seres altivos que ali dançavam. O vestido azul era justo e ressaltava o busto, deixando seus contornos mais sexys do que costumava ser. Não me preocupava com aquilo, no entanto, pois sabia que elfos não tinham a mesma malícia que humanos e me forçariam a algo que eu não quisesse – como o próprio rei Thranduil me esclarecera.
Alguns olhares notavam a minha presença e, após alguns goles de bebida pareciam sorrir para a humana que carregava taças de um vinho muitíssimo forte. Seu cheiro era tão amargo que me causava ânsia. Eles estavam mais belos naquela noite, pareciam mais leves e contentes com a vida. Recebiam todos muito felizes, seus cabelos longos esvoaçando contra o vento do mar. A música era tocada por tambores, flautas e uma arpa. Uma fogueira no meio, que flamejava alta o fogo vivo, aquecendo os elfos que ali dançavam de braços dados radiantes.
— Um pouco de vinho, senhorita? – Uma voz grossa de repente apareceu no pé do meu ouvido, me fazendo arrepiar dos pés à cabeça numa sensação desagradável.
— Sim, senhor. – Despejei o líquido em sua taça, notando a figura curiosa que estava à minha frente. Ele era um elfo de cabelos vermelhos, uma cor bem intensa, e olhos amarelos. Quando o fitei, senti um pouco de receio. Não era agradável como os outros e tinha uma barba negra que descia pelo seu pescoço, destoando dos ruivos que pendiam em seus ombros. As orelhas ainda maiores do que de costume apontavam para o céu. Certamente era de alguma raça rara, pois nenhum outro ali se parecia com ele.
— Agradecido. – Tentei sorrir para ele quando, em seus lábios, apareceu um riso nem um pouco agradável. Seus dentes eram muito brancos e belos, mas a sua gentileza não me inspirava confiança.
Sai de sua presença um pouco mais rápido do que costumava, demonstrando o meu desconforto perante os seus olhos. Andei sem rumo até ser parada novamente por alguns elfos que conversavam absortos num canto. Após servir-lhes, ouvi a voz de Mablung me chamar. Aliviada por ver alguém conhecido no meio daqueles estranhos, fui até ele em passos largos, procurando servir-lhe de prontidão.
— Podes levar um vinho selecionado para uma das barracas? – Ele pediu após eu encher sua taça até a última gota que estava em meu jarro. – Temos algumas figuras importantes que apareceram repentinamente nesta noite. Um rei chegou de viagem há pouco e gostaria que você ficasse por perto para abastecer-lhe o copo.
— Sim, senhor.
Mablung rumou comigo para a cozinha e, de dentro de uma caixa, retirou uma garrafa pesada com um vinho ainda mais escuro. Seu líquido era grosso como sangue, a cor muito mais escura, mas o cheiro um pouco mais agradável.
— Este é o melhor vinho produzido pelos elfos de todas as eras. – Comunicou ele um pouco mais feliz. – Um primor! Não sabe como é difícil conseguir algumas garrafas, pois os seus produtores há tempos deixaram esta terra. Conseguimos alguns exemplares há algum tempo em troca de navios e, desde então, guardo para figuras importantes que venham nos visitar.
Peguei a garrafa como se minha vida dependesse da sua segurança e assenti, entendendo o quão era importante.
— Vá para aquela barraca, lá está o rei e alguns senhores que apareceram atraídos pelo som da noite anterior. – O senhor mostrou o caminho e saiu de perto.
Caminhei até a barraca que estava um pouco mais afastada da festa, que brilhava com luz intensa de tochas espalhadas entre suas mediações. Haviam muitas pessoas ali, incluindo humanos, o que me surpreendeu. Servi todos eles com o líquido vermelho, que emitiram sorrisos satisfeitos ao se depararem com a raridade daquela bebida. Agradeciam-me contentes e cheios de fulgor no olhar, me deixando um pouco mais feliz com a hospitalidade dos importantes senhores que ali estavam.
Mas qual deles era o rei? Procurava por alguém que usasse uma coroa, pois queria dar-lhe prioridade. Andei entre os elfos e homens, e no meio de um deles vi uma cabeleira loura muito clara que me fez estremecer. Chegando mais perto, pude perceber uma fina coroa de ouro que adornava a sua cabeça. Seus olhos curiosos encontraram-se com os meus e, antes que eu pudesse me esconder, sua feição vibrou-se de encontro com a minha figura. Era tarde demais, ele havia me visto e notado estava diante da humana que tanto lhe aborreceu a algum tempo atrás.
— Thranduil?! – Sussurrei surpresa.
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