A Única Exceção do Rei

18 Gritos da Alma // Vagalumes


Notas iniciais
Eu simplesmente amei fazer estes capítulos. Juntei os dois porque um deles é bem pequeno Gritos da Alma e Vagalumes são narrados por Thranduil, apenas. Vagalumes é um capítulo fofo, quentinho e mostra um rei completamente diferente do que nós conhecemos ♥ * Boa Leitura!

Gritos da Alma

Thranduil:

Melrise está sentada no meio das flores observando a relva alta que balança com o vento. As borboletas que rodeiam não parecem temê-la, obviamente porque está imóvel há tanto tempo. Seu corpo está estático, seu olhar vago e triste.

Na noite anterior ela acordara mais uma vez aos berros. Quando isso acontece, quase consigo ouvir os gritos de Etta também, e eu preciso de pelo menos cinco segundos para conseguir localizar o meu espaço-tempo e socorrê-la. É uma tortura não só para ela, mas para mim também. Contudo, Melrise não precisa saber disso.

Tomo-a em meus braços e digo que está tudo bem enquanto ouço as batidas do seu coração. As vezes estão tão rápidas que mal consigo percebê-las. Temo por ela, temo por nós. Não posso deixar que ela se vá. Não antes de conseguir que ela cumpra com a sua parte no pacto. Ao mesmo tempo, não posso cobrá-la de cumpri-lo, não quando está intimamente machucada. Ris não precisa enfrentar outro problema por agora: ela precisa de paz, assim como eu.

Todas as vezes que me lembro da estupidez daquele acordo sinto meu corpo contorcer, punindo a mim mesmo. Como é que eu não percebi isso antes? A partir do momento em que essa garota entrara em minha vida o meu mundo estava virando de ponta cabeça. Em poucos meses sinto que vivi mais do que os milênios da minha vida inteira.

Assim como as borboletas que a rodeiam, meu estômago parece cheio delas. Nervoso com os últimos acontecimentos, sonho noite após noite com aquela cena bizarra acerca da humana que resgatei. Mais um pouco e ela estaria morta, e só de pensar nisso minha cabeça dói. Não me perdoaria se isso acontecesse, mesmo sabendo que não tive culpa alguma.

Ando em sua direção. Ela está com um vestido rosa, cheio de flores desenhadas. Seus belos cabelos descendo em cascatas escuras, brilhando num negro profundo ao sol. Sua pele corada, seus lábios rosados, seus dedos delicados e finos parecem ainda mais magros por causa de sua falta de apetite. Às vezes ela come até mais do que o normal, às vezes passa o dia sem tocar em nada.

Não posso deixar que aquela mocinha cheia de vida morra aos poucos por causa de um monstro. Eu conhecia bem aquela raça, mais do que gostaria. Meu reino já fora ameaçado por ela. E tudo por causa de Etta.

Tento deixar as lembranças de minha mulher morta de lado antes que chegue perto da humana. Todas as vezes que sua face vem à minha mente, meu rosto se contorce em dor. Não é o meu desejo lembrá-la, nem quero ter que inventar mil histórias sobre como éramos um casal de contos de fadas para mascarar a minha verdadeira infelicidade. Assim como tenho feito com Légolas a todo esse tempo.

As borboletas se esvaem quando sento-me ao seu lado. O dia está quente e úmido ao mesmo tempo.

Seus olhos se encontram com os meus marejados. Não gosto de vê-la chorar, nem de não ouvir a sua voz irritada com a minha presença. A menina cheia de vontade do mundo parecia definhar já, e eu esperava que não fosse por causa do pacto. Precisava fazer algo por ela, porque a culpa era minha.

A culpa sempre foi minha.

Toco no seu rosto e limpo a lágrima que desce solitária e cheia de remorso. Minha pele a absorve e eu sinto a sua dor. Os hematomas em seu corpo estão sarando, mas o desespero em sua alma permanece.

Abraço-a por um instante, sentindo o seu corpo recuar por um momento. Contudo, ela relaxa em meus braços e então percebo que aquela menina tão inocente deveria ficar ali por algum tempo.

Sinto a necessidade de protegê-la a todo o custo.

Eu sei que aquilo vai passar em algum momento, porque por mais que continue a doer intimamente, tendemos a ocupar nossos dias com coisas que distraiam. Escondemos a nossa dor, maquiamos o nosso verdadeiro eu.

E por mais que ninguém nunca tenha me visto da mesma maneira que ela, sei exatamente o que está passando. O sentimento de impotência e o medo de não ser suficientemente forte é grande. Entretanto, Melrise é uma garota forte. Eu sei disso, porque me afeiçoei a ela e eu só me afeiçoo a pessoas fortes. Caso contrário, não há a mínima chance de aguentar a minha presença por muito tempo.

Vagalumes

Thranduil:

Os dias tem sido mais quentes do que eu me lembrava. Estar fora do castelo me deixa confortável, surpreendentemente, e longe dos deveres de rei impiedoso ainda mais. Há anos não sei o que é ser livre para fazer minhas próprias escolhas, pensar em mim e em minhas necessidades. Quando isso acontecia, no entanto, eu sempre pendia a fazer alguma coisa estúpida, pois não era bom com decisões sobre mim mesmo.

E é por isso que nunca mais eu consegui respirar o ar como um elfo comum sem ter pelo menos cinquenta novas reclamações ao pé do meu ouvido por minuto. Resolver pendências e tomar atitudes de um monarca era cômodo e mecânico após anos de experiência, difícil era conseguir ouvir as batidas do meu próprio coração enquanto minha mente estava a mil, trabalhando feito escravo do meu próprio reino, e era exatamente isso que fazia as pessoas acreditarem que eu tinha uma pedra em seu lugar.

Melrise está com o rosto descansado e um leve sorriso em seus lábios. Ando mantendo as velas acesas durante a noite caso ela acorde de um pesadelo. Também faço companhia a ela até que durma, garantindo que ao menos consiga um início de sono agradável. Após duas semanas de treino pesado, aproximadamente, ela tem ficado cada vez mais exausta e, com o tempo, dormido mais horas por dia. Seus pesadelos tem diminuído, seu apetite aumentou e suas feições, que antes eram de terror e medo, tem se transformado em dócil e vistoso. Ela está se recuperando aos poucos, e eu estou orgulhoso pela humana.

Lá fora a luz da lua está fraca, mas ainda assim Melrise consegue enxergar os cavalos pastando calmamente. Em busca de um pouco de ar, saímos da cabana após o jantar e sentamos em duas cadeiras ao lado do moinho d’água que uso para moer alguns grãos. O som da água caindo é relaxante e tem me ajudado a pensar com mais calma.

— Está ouvindo isso? – Ouço sua voz macia que costuma me dar cócegas internas. Todas as vezes que ela fala naquela entonação, sinto uma necessidade inexplicável de tê-la. Ignoro a carícia que sinto percorrer minha espinha e me atento para o que ela me chamou a atenção.

— Música. – Sorrio ao notar a melodia alegre que toma conta do ambiente repentinamente.

— De onde vem? – A humana questiona, franzindo o cenho.

— Da Cidade do Lago, imagino. – Explico enquanto assisto Melrise se espantar com aquela informação.

— Estamos... – ela se engasga e tosse. – Perto de alguma cidade?

— Não exatamente. Esgaroth está para lá. – Aponto para o leste, sendo acompanhado pelo seu olhar. – Há algumas milhas de distância. O vento vem de lá, sinta.

Ela assente, percebendo os seus cabelos voarem para trás.

I maranwéva súri hwestar.Os ventos do destino sopram. Talvez seja por isto que estás ouvindo. – Esclareci, notando a sua curiosidade acima de minha fala. – Traz com ele a melodia festiva que toca na Cidade.

Melrise era atenta a tudo o que eu a ensinava. Mas não era o único a compartilhar as coisas que sabia. Mesmo sendo tão nova ela parecia ter vivido intensamente algumas coisas que me chamavam a atenção. Era ótima cozinheira, tinha aptidão com música, era amante da literatura, conhecia histórias reais e fictícias que nunca ouvira antes. Assisti-la contar crônicas de amor era um prazer à parte, pois via o rubor de sua face de menina enquanto sonhava com o trajeto de amantes desafortunados.

Humanos eram criativos quando se tratavam de contar histórias românticas. Duvidava que algum deles vivia tão intensamente algo assim, mesmo sabendo que suas palavras saíam de dentro de si, gritadas numa expectativa de um amor tão puro e genuíno. Nada me parecia tão sufocante, tão intenso, tão febril quanto aquele sentimento retirado de um livro, ao ouvir da boca daquela moça frases de um que ela me contava.

Duvida da luz dos astros,
De que o sol tenha calor,
Duvida até da verdade,
Mas confia em meu amor.

Sua voz rouca ficou guardada em meu coração quando a assisti falar, e por noites a fio tal frase ecoou em minha mente, mesmo sem sentido. Tolices humanas, romantismos, palavras de um bobo apaixonado que possivelmente desistira da sua amada quando conseguiu o que queria. Mesmo sabendo que elfos se entregam apenas para uma pessoa o seu coração, viver tão intensamente este romance não é de nosso feitio. Somos reservados e até mesmo lentos e frios com relação a declarações de amor. Afetos são demonstrados em momentos apropriados e quase nunca frente a outras pessoas. As canções que falam de amor são sublimes, mas não costumam ser tão explícitas.

Deve ser por isso que ela me tenta – Melrise era intensa demais em todos os aspectos.

Sua atenção ainda estava para a música enquanto me perdia em meus pensamentos. Ela parecia melancólica. Suas mãos, agarradas na saia do seu vestido leve e amarelado, estavam ansiosas e agitadas. A música estava calma, mas ainda assim soava como se estivesse perto de nós.

— Você quer dançar? – Chamei a sua atenção com o meu convite. Imaginava que começara a ficar nervosa por causa do som repentino e precisava deixar claro que, comigo ali, ela estava a salvo. Não precisava temer a cidade humana em festa.

Ris encarou nosso redor e me fitou desconfiada. Levantei-me num pulo, estendendo a minha mão para ela numa reverência.

— Aqui? – Questionou antes de aceitar.

— No meio das flores.

Senti sua palma encontrar com a minha e um sorriso leve aparecer em seu rosto intrigado. Andamos no escuro para o meio do campo vasto. Alguns vagalumes brilhavam ao nosso redor como estrelas no céu negro. Eu conseguia vê-la perfeitamente, seu semblante com um pouco mais de expectativa, que crescia à medida que nossos corpos se encontravam.

Desci uma de minhas mãos em sua cintura e senti seu corpo estremecer. Ela ainda estava dando sinais de aflição, mas deixou que eu a tocasse quando sentiu meus cabelos longos tocar-lhe o dorso de sua pele. A outra em sua mão, enquanto a dela estava em meu ombro.

— Eu mal vejo. – Comunicou, tentando firmar seus olhos num ponto que conseguisse enxergar.

— Não se preocupe, eu serei o seu guia. – Afirmei, puxando-a para mais perto.

Rodamos tímidos no começo, até conseguirmos pegar o ritmo. Seu corpo frágil era leve, mas ela dançava graciosa e firme ao mesmo tempo. A música estava perfeita para continuarmos com nossos corpos colados um no outro, e senti-la tão entregue a esse momento me deixou satisfeito. Confiava em mim a sua vida, mesmo sabendo que fora desumano com ela por tantas vezes.

Melrise era uma menina doce e ao mesmo tempo uma mulher forte. Lutava bravamente por seus princípios com unhas e dentes, fazia questão de demonstrar que sua raça não era fraca, não tinha vergonha de si e do seu corpo – que, para mim, era mais belo do que assistir o crepúsculo dourado no fim da tarde.

Afundei meu rosto em seus cabelos e senti o perfume de essência de rosas e gardênias que ela colhia e preparava. Banhava-se nesse perfume e exalava a cheiro de primavera, minha estação do ano favorita.

Ali, no escuro, dançando com ela em meus braços o mundo parecia ser um pouco mais acolhedor do que nunca. As batidas do meu coração se aceleraram agitadas, não incômodas, mas esquentando meu peito com uma sensação que há anos não sentia.

Melrise sorria em meio aos passos desconexos que estávamos dando por causa da mudança repentina do som. Peguei-a no colo e rodopiei por uns segundos, a menina tão frágil assustou-se por um momento, mas recuperou as risadas posteriormente, entregando-se ao átimo agarrada em meus ombros e tentando fitar-me nos olhos. Ouvia a sua respiração entrecortada, a subida e descida do seu peito, senti a sua pele macia das coxas desnudas em minhas mãos.

Como a queria naquele momento. Retirar a sua roupa e fazer amor ali mesmo.

Paramos quando o vento mudou de direção, levando consigo a melodia. Meu corpo estava suado, sua pele também brilhava com as gotículas descendo entre os seus seios.

A noite estava quente, agora parecia ainda mais do que antes. Mas nada era tão ardente quanto sentir o gosto dos seus lábios nos meus.

Notas finais
Poema recitado por Melrise retirado de Romeu e Julieta, de Shakespeare. Quero lembrar que os comentários podem estar confusos. Este capítulo está completamente diferente do que era. Falando sobre Etta: Uma dia desses estava jogando Covet Fashion e vi alguns desafios de moda onde a protagonista se chamava Etta (que significa lar) logo, pensei: é um belo nome para a mãe de Légolas. Agora estou pensando em escrever uma breve história sobre ela, porém, apesar do nome doce, de mel, Etta não tem nada (em minha louca imaginação) O que acham disso? Até o próximo! Beijos da Queen Ames :*