Notas iniciais
Boa Leitura ♥

Senti as pernas vacilarem quando tive que forçá-las para longe dos orcs. Corri até sentir meus pulmões reclamarem pela falta de ar e minha garganta arder em chamas na tentativa falha de recuperar o fôlego. O vestido que usava era grosso e caia pesado em minhas pernas, que tremiam incessantemente. Não ousei olhar para trás para ver o que os elfos fariam com os orcs, e temi estar sendo seguida por eles sem perceber. Ouvia gritos em algum lugar ao longe e não soube identificar de quem seria, apenas corria por minha vida. A certa distância, quando não aguentava dar um passo a mais sequer, joguei meu corpo a um tronco de uma grande e velha árvore. Olhei ao meu redor e percebi que não sabia onde estava. Poderia estar na Floresta das Trevas ou não, poderia estar indo em direção à cidade do lago ou em qualquer outro lugar que não conhecia. Eu não saberia voltar para a cabana, não reconhecia a estrada e os caminhos que os orcs se enfiaram e me carregaram. Eu não conseguiria voltar, provavelmente.

Tentei não entrar em desespero, mas lágrimas de dor desciam torrencialmente por meu rosto suado e desesperado. A dor em meu ventre se intensificava aos poucos, me fazendo render aos gemidos e gritos quase involuntários. Não poderia estar acontecendo aquilo comigo, não quando estava carregando dentro de mim um ser indefeso e delicado. Eu o perderia se não agisse rápido, tinha de pensar em algo para voltar.

Controlei a respiração e tentei acalmar meu corpo. As pontadas no ventre iam e voltavam, me fazendo contorcer completamente o corpo entre meio as raízes daquela árvore. Não conseguia pensar com clareza naquele momento, nenhum plano de fuga ou de como encontraria a cabana conseguia se formar; eu perderia o filho que carregava de Thranduil no meio de uma floresta, sozinha e desamparada.

Continuava a ouvir um barulho distante, certa de que estava protegida contra os orcs. Os elfos, provavelmente, estavam atrás deles por algum motivo e tratariam de acabar com eles o mais rápido possível. Me sentia segura ao menos naquele momento, mas não poderia estar mais equivocada. O som, percebi, chegava mais e mais perto e eu não tinha forças de sair do lugar. Tentei me levantar, mas as fisgadas se intensificavam em meu ventre de modo a me fazer recuar para a árvore mais uma vez. Meus pés formigavam, quentes e travados, e o enjoo voltava a cada investida que meu útero dava. Droga! Sentia o feto se esvair, sabia que eu o perderia.

Meu filho. Meu elfo estava correndo perigo, tudo porque era fraca demais e orgulhosa. Thranduil me perdoaria se soubesse que escondi dele minhas suspeitas? Se eu perder o bebê, ele ficará bravo comigo?

Meus pensamentos foram interrompidos por passos que chegavam perto. Levantei-me rapidamente e sem pensar muito, precisaria correr mais um pouco e me afastar daquela briga entre elfos e orcs. Ouvi alguns elfos gritarem, dizendo que haviam mais. Céus, eu estava perdida. Para onde correria? Onde os orcs e elfos iriam? Precisaria me esconder até aquilo terminar, e segurar ao máximo para não gritar de dor.

Avistei uma árvore que era parcialmente fácil de escalar. Era a melhor opção para mim naquele momento, e eu deveria escolher entre correr ao desconhecido ou subir. Me forcei a investir em cada galho, subindo cada vez mais alto.

E de lá avistei orcs e elfos entrarem numa sangrenta batalha.

Meu corpo vacilou entre os galhos e me sentei, agarrada ao tronco da árvore sabendo que a minha vida e a de meu filho dependia disso. Me segurei para não desabar em choro e em gemidos de dor, meus olhos embaçaram com as lágrimas, mas se recusaram a desfocar da batalha que estava sendo travada sob meus pés. Meu estômago contraía em ânsia, e pude sentir a bile ir e voltar de minha garganta como se dançasse em meu sistema digestivo. Desmaiaria se não me concentrasse tanto em não fazê-lo, em permanecer firme em meu posto para minha segurança. Mas a dor estava intensa, me fazendo morder o lábio inferior para não gritá-la aos quatro ventos.

O massacre dos orcs fora prazeroso de se ver, confesso. Estava atenta ao redor, e percebi que acabaria rápido aquela cena se os elfos continuassem a investir contra os orcs com tanta maestria e rapidez quanto estavam, tantos outros orcs apareceram como formigas em busca de um doce, que me peguei pensando em como eles se reproduzem para ter tantos assim. Meu corpo inteiro doía, mas não ousava me mexer. Sabia que o menor sinal de vida em cima daquela árvore e toda a atenção seria voltada para mim. Eu, provavelmente, seria o almoço daqueles seres nojentos que lutavam insistentemente contra os elfos, e meu estômago continuava se contraindo e doendo, enquanto meu ventre pulsava de dor.

Passaram-se mais ou menos meia hora. Os gritos de dor e o barulho das espadas que destroçavam a carne podre daqueles seres repugnantes eram os únicos sons que eu ouvia. Focava no rosto de um elfo em específico, tão habilidoso e bonito que me chamara atenção. Ao percebê-lo logo abaixo, senti um frio passar por minha espinha, sua semelhança com Thranduil era extraordinária! Ele lutava bravamente entre espada e arco e flecha, habilidoso e gracioso em seus movimentos, com uma expressão calma e pacífica de dar inveja. Pensei em gritar, em pedir socorro. Se fosse Légolas, ele poderia me ajudar, afinal estava esperando seu futuro irmão. Ele poderia me levar até Thranduil, poderia me ajudar a salvar meu filho..., mas esperaria até aquela batalha acabar, não queria tirá-lo de sua atenção assim.

Eu poderia jurar que estava tudo bem quando resolvi descer. Os elfos acalmaram-se após se certificarem de que todos os orcs estavam mortos, e dispersaram em busca de mais aos arredores. Gritaria por ajuda, suplicaria a Légolas para me levar até seu pai. Afinal, eu não seria a próxima rainha de Mirkwood? Contudo, senti outro puxão em meu braço assim que meus pés encontraram o chão, e meu corpo foi de encontro ao enorme orc branco de olhos cinza, tão forte e duro como pedra que fizeram meus ossos estremecerem. A sorte naquele dia resolvera me abandonar por completo

— Mas que diabos vocês querem comigo?! Me deixem em paz, filhos do inferno. – Cuspi tais palavras na cara feia daquele orc de cheiro pútrido, já cansada daquela caçada e insistência daqueles bichos que nasciam do mal em pessoa.

O maldito esbanjou um sorriso com ar vitorioso bem na minha cara e depois rosnou palavras toscas que eu não entendi um acento sequer.

— Eu não entendo essa linguagem horrenda, se é que este som de animal pode ser chamado de linguagem.

Fui muito tola ao dizer aquilo. O orc de pele branca e rosto deformado agarrou-me pelo pescoço e me levantou, atirando-me na árvore atrás de mim logo após. Senti minha espinha tremer e cada costela como se tornarem em mil pedacinhos que se misturou com a dor em meu ventre.

Com a visão já embaçada, praticamente vendo estrelas e sentindo o bafo fétido da boca do orc que ria próximo a minha face e prestes a servir de almoço, vi um do grupo de orcs se aproximar e depois de trocar algumas palavras com o desgraçado que me comprimia no tronco da árvore com uma das mãos presa sobre minha boca, ele me soltou. Talvez ele não quisesse me devorar, ou eu não valesse a pena a sua morte já que havia elfos ao redor. Mas ali deitada sobre o chão lutando para recuperar o ar que me faltara entre os gemidos de dor, para minha surpresa uma bendita flecha atingiu o outro orc robusto de olhos esbugalhados. O orc branco segurou-me a frente do seu corpo bruto, tentando fazer-me de escudo. Mas, enquanto ele segurava meus quadris com força, pude juntar todo o resquício de força que me sobrava para gritar alto e em bom som:

— Légolas! — foi a única coisa que saiu antes do monstro tapar minha boca mais uma vez.

— Solte-a! — O elfo aparecera após alguns segundos, apontando sua flecha em seu arco para o orc, que me segurava firme pela boca e quadris. — Não ordenarei outra vez!

— Ela lhe pertence? Por que a humana lhe faz... — O orc não teve tempo de terminar sua fala, Légolas disparara sua flecha bem no meio de sua boca enquanto esta se abria para disparar o argumento.

Senti as pernas vacilarem ao chão quando o orc caiu também. Meu corpo doía como se todos os meus ossos fossem massacrados e moídos lentamente. Meus olhos lacrimejaram quando consegui abri-los e focá-los no elfo em minha frente...

— Quem é você? – Legolas tentou me levantar, mas parou assim que gritei. – O que está fazendo sozinha na floresta? Por Eru, você não está nada bem! — ele disse ao perceber meu corpo vacilar em seus braços.

— Legolas... – parei e fiz uma careta de dor, segurando-me nele sabendo que minha vida e a de meu filho dependia disso. – Thranduil está na cabana... na cabana. Me leve para ele, por favor.

— Meu pai? Como... o que ele está fazendo lá? Quem é você, e porquê...

Cai em um choro amargurado antes de poder respondê-lo, envergonhada e entregue ao cansaço que a dor me provocava, e depois nada mais vi ou ouvi.

Acordei aos gritos involuntários da minha própria voz. Agora rasgava o ventre como se quisesse sair de lá. Sentia o suor escorrer pelo meu rosto molhando os lençóis da cama que eu já conhecia muito bem.

Com o fogo da dor que contorcia a minha carne, ouvi palavras de uma conversa no outro cômodo e depois passos apressados adentrando o pequeno quarto da cabana.

— Melrise, minha senhora, por favor acalme-se. Sou Elrond, rei de Rivendell. – Uma voz suave de um senhor de cabelos castanhos falou comigo enquanto segurava a minha mão trêmula — Sei como ajudá-la com seus ferimentos, mas preciso que fique acordada enquanto faço o procedimento.

— Thranduil... preciso falar com ele, apenas com ele. – Implorei com voz falha e rouca.

— Ris, estou bem aqui. — Senti um alivio nas dores assim que ele segurou a minha mão.

Thranduil fez um sinal com a cabeça e o elfo de longos trajes azuis juntamente com Legolas que se encontrava em um canto observando-me com preocupação, saíram do quarto, e então disparei palavras implorando perdão em meio a lágrimas de desespero.

— Thranduil me perdoa, por favor me perdoa.

Shh! Não chore doce Mel. Por sorte Elrond Também estava caçando aquelas criaturas nojentas e amaldiçoadas, que o trouxe até aqui. Elrond sempre carrega consigo porções e ervas de cura, já que o mesmo não tem lá muita aptidão com feitiços. Mas não há com que se preocupar, está em boas mãos. Ficará bem quando menos esperar, apenas confie em mim.

— Não! Não! Você não entende, ou melhor não sabe. Eu fui burra, não contei quando deveria contar! — falava em meio a agonia e a dor que meu corpo emitia.

Os movimentos que fiz com o corpo sobre a cama em meu desespero ao falar-lhe me fez sentir um dor insuportável, de tal modo que senti algo quente e úmido molhar as minhas partes intimas.

— Ai! – Gritei em desespero. Ele estava indo embora, eu não conseguia evitar deixá-lo ir.

— Mas o que você deve me contar Melrise? — Thranduil se desesperara ao me perceber contorcer o ventre.

Foi a primeira vez que vira os olhos do rei perdidos daquele jeito, não só pela preocupação, mas sim uma mistura dela com desespero e raiva. Mas é claro que ele já tinha uma noção do que eu deveria lhe contar, depois dos enjoos, rejeição a comida, e agora eu ali com as mãos agarrada ao ventre chorando gemendo de dor, era óbvio que um elfo tão experiente como ele saberia de cara o que estava acontecendo, mesmo assim ele esperou eu revelar com um ar desesperado.

— Eu estou grávida, Thranduil. – Disse aos prantos, agarrando a gola da camisa branca do rei. – E estou perdendo o nosso filho. Salve-o, por favor, Thrandy. Salve meu filho!

— Elrond! – Thranduil levantou-se da cadeira ao meu lado e arrancou o lençol de cima de mim, vendo o que realmente acontecia.

Elrond adentrou o quarto com Légolas ao seu encalço. Antes de qualquer coisa, elevou seu olhar para minhas expressões agonizadas e, logo após, para o meio de minhas pernas. Era tarde demais, sentia o liquido descer torrencialmente e o cheiro forte de sangue tomar conta do ambiente.

— Eu o perdi, não foi? – perguntei com a voz falha, sentindo as lágrimas caírem torrencialmente. Thranduil olhou-me atônito, e num ato brusco retirara Légolas do quarto e trancara a porta, como se ele fosse criança e não pudesse ver aquilo.

Eu não ousei olhar, só deixei-me sentir o meu vestido e os lençóis molhados. E cai em um choro angustiado, ouvindo meu coração se partir em mil pedaços. Tão pouco tempo pude senti-lo dentro de mim, tão pouco podia saber o que era ser mãe. Thranduil, afim de me consolar e consolar-se a si mesmo, sentou-se sobre a cama, me levantou e me abraçou. Eu não vi, mas pude sentir que ele também derramava lágrimas densas em meu ombro.

Elrond, que permanecia petrificado até aquele momento, me fez cheirar uma erva que tirou de uma bolsinha amarrada em seu cinto dourado e tudo se escureceu.

Quando acordei novamente, ouvi sons vagos de uma conversa que eu tive certeza de que não era para eu ouvir.

Notas finais
Até o próximo ♥