A ÚLTIMA VOTAÇÃO DO CAOS (1) – Venha pra Jogatina!

Kelda limpou o suor frio da frente da testa. Ainda não podia acreditar. Ergueu novamente as mãos, segurando o pequeno dado de seis lados do caos. Para onde quer que olhasse, para cada uma das seis faces, o resultado era o mesmo: um grande zero.

“Minha cara, uma hora você vai ter que simplesmente aceitar o fato: tivemos sorte”.

Ela tirou os olhos do dado e observou seu rival, o aprumadíssimo sprite capitão mercenário Lali Lend. Mesmo após o combate ferrenho que travaram, continuava ainda majestoso e exuberante em seus trinta centímetros de fada, asas cristalinas de inseto, maquiagem e cabelos esvoaçantes. Com tentáculos invisíveis de magia, alcançou uma maçã e a entregou, flutuando, para a colega.

“Vamos, coma. Vocês sklirynei já são magros; não quer desaparecer de finura, né?”.

A skliryne pegou a maçã e a mordeu, ainda sem soltar o pequeno dado que tinha em mãos.

“Como isso ocorreu?”, disse, quase deixando cair o pedaço de maçã da boca, “o dado rolou e caiu zero? Isso não faz sentido!”.

“Bem-vinda às fugacidades do caos de Nimb”, riu-se Lend, “tudo é possível, até o impossível. Meu palpite é que o dado travou, ficou empenado e, sem saber em qual número cair, optou por ser zero”.

“Isso é um absurdo! É um dado divino; ele literalmente é capaz de rolar através das coisas!”, Kelda demonstrou isso rolando novamente o dado – o pequeno poliedro literalmente começou a rolar no ar, orbitando o vazio e fazendo movimentações impossíveis.

“Não brinque com isso!”, Lend pegou o dado do ar, “ele pode ter perdido o poder de determinar o destino...mas com o deus do caos, nunca se sabe. Melhor não arriscar tanto. Afinal de contas, vencemos, nós dois. Devemos comemorar”, a pequena fada acenou para os golens serviçais de sua nave, que logo trouxeram uma garrafa de vinho e taças para si e para Kelda.

“Sim, nós vencemos”, a voz da skliryne era distante, “consigo sentir. Somos...reais, não é isso? Como os seus golens também estão. Somos...mais vivos do que antes. É quase como se a eleição do caos tivesse travado, e aceitado nós dois como opções razoáveis”.

Lend fez um brinde com as taças; sua taça era em tamanho humano, e ele a carregava com sua telecinese mágica. Contudo, e assustadoramente, o pequeno sprite de trinta centímetros bebeu a taça inteira e pediu outra ao golem.

“Sim, fomos aceitos na jogatinagem de Nimb, viva o caos e a loucura!”, com a nova taça de vinho, voltou a beber, “nossas raças estarão encaminhadas para um novo mundo!”.

“Nossas raças”, Kelda suspirou. Era tudo o que estava querendo, tudo o que procurava. Desde quando deixou suas pesquisas na Academia, desde quando saíra do mundo de Arton e se jogou no vácuo do espaço, era tudo o que Kelda desejava. Tornou-se uma aventureira interplanetária, viajou entre o mundo dos deuses, procurando por pistas que pudessem ajudar em sua missão. Arton estava em guerra, um conflito que colocava em xeque toda a existência, e também a sobrevivência de sua raça. Os sklirynei sempre estiveram a um passo do esquecimento...mas agora, tudo se acertava.

Kelda abriu um sorriso que não passou despercebido por Lend.

“Viu? Este é o espírito! Se alegre, minha odiosa rival. Sua raça está assegurada, e a minha também. Com essa nova força, acredito que as fadas terão alguma chance de sobreviver em meio a essas guerras estúpidas dos mortais e, também, a toda essa sandice da Tormenta. Ora! Talvez até possamos descer lá naquelas áreas dominadas pela névoa vermelha e meter o cacete em alguns demônios, hahaha!”.

“O vinho está subindo à sua cabeça, menino”.

“Me respeita, sou uns cem anos mais velho que você, e nem terminei a primeira garrafa”

“S-e-nh-or, j-á na se-gun-da-garr-a-fa”.

Kelda e Lend olharam espantados para trás. Um dos serviçais golem falou. Coisa impossível… ele não tinha nenhum aparelho, nem mecânico nem mágico, para permitir voz. E, mais, ele não tinha racionalidade; era só um golem autômato.

“Ora, ora, está vendo, Kelda? Eu falei, não falei? Esses golens eram patéticos há uma semana atrás. Agora, metade da minha tripulação parece estar ganhando consciência. Agora, imagina o que vai acontecer com nossas raças agora que também seremos mais importantes? Hahaha! Minha única tristeza é que talvez eu tenha agora que realmente pagar um salário para esses golens”.

As orelhas de Kelda se empertigaram, “sim, aconteceu com os golens o mesmo que aconteceu com os sklirynei e as fadas!”.

“Sim…eu sei, creio que foi mais ou menos o que eu disse. Por acaso não está me ouvindo?”, Lend olhou incomodado para a rival.

“Sim! EXATO!”, a skliryne se levantou, frenética, “o universo está mudando, e alguns povos e raças estão tendo a chance de encaminhar a mudança. Não percebe? Esse é o momento, a hora perfeita de subvertermos a situação”.

“Querida, acho que você está mais bêbada do que eu, e ainda nem acabou sua primeira taça”.

“Fica quieto, mocinho, e me ouça”, Lend fez bico, mas continuou escutando, “nós dois fomos jogados um contra o outro, para decidir quem seria a raça para despontar nesse novo universo. Contudo, o resultado foi favorável para nós dois!”.

“Sorte, pura, caótica e infantil sorte”, concluiu Lend.

“Será?”, Kelda abriu um sorriso, “jogadores experientes são capazes de prever estatísticas e, também, manipular rolagens. Talvez nossas vontades tenham se chocado com tamanha força que conseguimos travar o dado, travar o caos”.

Lend olhou de esguelha para a skliryne, “está propondo disputar contra o caos...disputar contra Nimb? Você é louca, e isso não é por causa de vinho”.

“Não proponho disputa. Vamos, fica quieto e vem comigo no pensamento”.

O sprite odiava quando Kelda falava coisas desse tipo – os sklirynei eram ridiculamente inteligente, e essa maldita podia ser considera genial para os padrões de sua raça.

“Tá bom, tá bom”, Lend bebeu mais um pouco, “me ilumine com suas ideias”.

“Repare: vemos apenas a rolagem do dado, mas não vemos os critérios que vão por trás dele. Então, se eu pego o caos e o movimento assim”, e num gesto rápido, Kelda tomou o dado das mãos de Lend e o rodou no ar, “parece que apenas estou fazendo um gesto. Contudo, não conseguimos ver o que acontece por trás! Quando um dado normal é lançado, os fatores físicos interferem: gravidade, atrito, resistência de material, vetores de força”…

O sprite bocejou. Kelda deu uma pausa: “Ok, em termos mais diretos: existem várias coisas que afetam a rolagem de um dado. O que chamamos de caos é, na verdade, uma soma de elementos que não podemos mensurar com precisão. E esse dado aqui”, Kelda pegou o dado do caos, que ainda estava no ar, girando, loucamente, “esse daqui é um dado especial: não sabemos como roda, por que roda, nem nada que o faça rodar! Ele segue nenhuma lei que conheçamos. O que não quer dizer que não possamos interferir na rolagem”.

“Em resumo, o que propõe? Você é muito divertida por alguns minutos...mas já enfadou o suficiente minha paciência e mal posso esperar para voltarmos a ser inimigos”.

“O que estou propondo, meu coleguinha impaciente, é fazermos a maior jogada – uma capaz de alterar o resultado do futuro de todo o mundo de Arton!”.

Lend parou um instante, deixando a taça de vinho sobre a mesa.

“Você tem minha atenção, skliryne maldita”.

Kelda sorriu, “isso é apenas uma suposição, mas eu sou muito boa nisso: se aconteceu com os golens antes de nós, então, talvez tenha acontecido com outras raças. E, portanto, pode acontecer novamente – uma votação caótica determinando o destino do universo numa rolagem de dados. Contudo, acredito que os dados não são totalmente caóticos, que suas jogadas podem ser alteradas. Tudo que precisamos é conseguir acesso aos dados do caos e, se minha dedução estiver correta, alterar as rolagens. E imagina o que podemos conseguir fazendo isso?”.

Lend agora ria largamente, “e o que me impede de fazer isso sozinho e deixar você abandonada num asteroide qualquer? Não tem mais nenhum dispositivo especial para poder me enfrentar, querida”.

Kelda ergueu os braços e recostou sobre a cabeça, em posição confiante, “ora, foi preciso nossas duas vontades para mudar o caos. Eu realmente acredito que você é esperto o suficiente para perceber que, seja o que for que aconteceu, necessitou de nós dois para realmente acontecer. Se você quer ter alguma chance de alterar a rolagem do caos, vai precisar de mim”.

“Muito bem, você não é só esperta, mas boa de convencimento. E agora, propõe que sigamos para os cassinos espalhados pelos mundos, procurando por mais dados do caos?”.

Kelda ficou em silêncio...e sorriu.

Lend arregalou os olhos.

“Espera...você está querendo?”.

“Oh, sim, meu caro”…

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Em algum lugar de Arton, num acampamento militar da Aliança Goblinoide, um enorme bugbear ia à frente de seu batalhão. Centenas de goblins e hobgoblins estavam em fila, olhando para ele. Seu corpo volumoso ostentava um manto cerimonial, feito ricamente com os ossos, cabelos e peles entrançados de seus inimigos derrotados. No centro de seu peito, uma medalha revelava seu status: era uma insígnia de bárdaro, um dos poucos e ilustres cantores de guerra dos goblinoides. O bugbear ergueu o braço direito, deixando à vista de todos um pergaminho que desenrolou ao vento. Era um convite – o maior dos convites. Ele apertou a mão direita e bateu com a esquerda no peito, berrando:

“TRACA?!”.

“TRU!”, berraram todos os outros, em resposta.

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Kelda finalmente levantou a taça de vinho para bebericar um gole.

“Não adianta tentarmos ir de cassino em cassino. Primeiro, porque seria demorado. Segundo, é possível que os cassinos normais não tenham aquilo de que precisamos. Não, Lend. Precisamos ir para o coração do absurdo, o palácio do deus do caos”…

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Debaixo dos oceanos de Arton, uma figura abria os olhos. Seu corpo, apenas parcialmente humanoide, revelava traços das espécies marinhas. Não trajava qualquer fardamento, exceto por um colar, representando seu posto como devoto do Grande Oceano, o deus dos mares.

Há uma semana, sentiu que o universo mudava – e que queria que os tritões tomassem o centro disso. Resolveu não interferir – afinal, o Grande Oceano era imparcial à mudança. O mundo seco era diferente do mundo das águas.

Contudo, os oceanos não eram mais templos intocáveis. O povo seco avançava – com seus navios, rasgando a superfície da pele das águas, e, logo mais, com artefatos monstruosos que os fariam descer até as profundezas. Os mares estavam sendo comprometidos, maculados por mãos e pés terrestres. E, além disso, aquela Tormenta – antes, um flagelo que apenas afetava o tolo povo da superfície. Agora, ela descia, rastejava, cada vez mais fundo, infectando as águas. Não, isso não podia acontecer.

Os tritões eram a verdadeira raça herdeira dos mares. Não mais podia ficar parado. Ele observou o pergaminho, o convite. Sim. Dessa vez, iria lutar.

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Lend olhou para Kelda, um tanto ultrajado, “eu compreendo, mas isso seria impossível, Kelda. Pensa: você quer ir para o mundo de Nimb!”

“Ora, capitão Lali Lend, pensei que fosse um adepto de Nimb”.

“Adepto sim; e é por isso mesmo que eu tenho medo e respeito daquele lugar! Já parou para pensar se nós não formos os únicos? Se houverem outros que perceberam a mudança e estão também querendo ir para lá?”.

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Na região de Tapista, coração do Império dos minotauros, uma mulher vivia com muito mais poder do que era normalmente permitido. Na sociedade patriarcal taurina, onde as fêmeas são vistas somente como material usável em haréns, ver uma mulher alçar ao nível de grande comerciante era mais do que impensável: era impossível. Ainda mais uma meio-elfa – raça de servos que foram feitos para serem escravizados!

Mas ela não era uma meio-elfa qualquer. Afinal, sua mãe era meio-elfa...e seu pai era o próprio rei dos dragões vermelhos, Schkarshantallas. Arrogante, presunçoso e, também, ganancioso. Sim, para muitos defeitos: para ela, qualidades.

“Então, você disse que um golem atacou sua vila após ganhar vida e agir sozinho?”, perguntou ela para um meio-elfo que vinha até ela, ferido e cansado.

“Sim”, respondeu o meio-elfo Ianopnm, único sobrevivente do massacre, “e se não fosse pela senhora, eu também estaria morto agora”.

“Teve sorte de que minha caravana passava por lá, não é?”, a senhora sorria, olhando o meio-elfo de cima a baixo, “horrível o que aconteceu contigo. Mas creio que terá sua chance de tentar mudar tudo”.

“C-como assim, minha senhora?”.

Ela desenrolou um pergaminho.

“Um convite para um jogo...o maior dos jogos. O que acha de tentar mudar a história de todos os meio-elfos, pequeno Iano?”.

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Kelda deu de ombros, “você acha que sou burra, Lend?”.

O sprite gargalhou, “se você é burra, eu sou um pedaço de bosta de percevejo”.

“Não é para tanto...talvez só a bosta de um urso?”, brincou Kelda, “Lend, eu tenho certeza de que existem outros que vão querer os dados. E tenho certeza de que encontraremos pessoas lá. Mas é esse o ponto. Se existirem mais povos que estão no olho do furacão dessa mudança, talvez seja possível juntarmos tudo e desafiarmos todas as probabilidades! Entende? É uma chance única!”.

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Na ilha perdida de Galrasia, onde a natureza é gigante e selvagem, as últimas partes do ritual estavam se completando. Ossos de dinossauros recém-caçados, sangue de antropossauros espalhado no chão no formato de runas ancestrais, e uma fogueira criada com os restos de plantas carnívoras titânicas. Numa vasilha de madeira, o veneno de aranhas gigantes.

No centro disso tudo, um centauro recitava encantamentos. Mas não era um centauro comum – seu tronco humanoide era distorcido, com quatro braços despontando de si. E sua parte inferior lembrava uma pantera, com seis patas, e uma longa cauda.

O mundo mudava. A deusa Allihanna enfraquecia – e com ela, a harmonia da natureza definhava. Os centauros normais, seus protegidos, estavam prestes a desaparecer. Era preciso que alguém lutasse pelos novos centauros que viriam, não mais na forma patética equina escolhida, adoradora de Allihanna. Era hora de abraçar Megallokk, a monstruosidade selvagem. E era ele quem iria lutar.

O centauro abriu o pergaminho com o convite e o engoliu, em seguida bebendo o veneno das aranhas.

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Lend deu de ombros, “muito bem, talvez você esteja certa. Eu estou contigo, minha rival maluca. Vamos então para Al-Gazara! Vamos para o mundo de Nimb, para o cassino central do próprio deus do caos, e tentar trapacear no jogo dele! Hahaha!”.

Kelda brindou com Lend. Sim, era um plano maluco – o mais maluco de todos os planos. Tentar jogatinar num cassino do próprio deus do caos. Contudo, Kelda tinha esperanças. Afinal, tinham conseguido mudar o destino uma vez. Então, quem sabe, ela poderia mudar novamente...e quem sabe, poderia mudar o destino de sua…

Num pequeno asteroide no meio do espaço, uma sulfure com asas de penugem escura olhava diretamente para seu colega, um aggelus com asas de penugem clara.

“Então, Denel, recebeu também o convite?”.

“Sim, Morkana”, ele mostrou o pergaminho, “parece que temos uma segunda chance”.

A sulfure abraçou a própria cintura, “essa tensão é tão cansativa”.

“Podemos ir embora. Vamos! Deixemos essas disputas idiotas, essas eleições. Vamos para além dos mundos dos deuses, em direção ao horizonte do espaço. Arton está se destruindo, e a Tormenta no final irá consumir tudo”.

“Já lhe disse. Se tudo vier a ser destruído, estarei lá para beber do sangue do fim. E além disso, se houver alguma chance de mudar esse destino”, ela olhou para o próprio convite e o apertou nas mãos, “então irei lutar com fúria infernal para conseguir isso!”.

Denel balançou a cabeça, “então, vai aceitar o convite?”.

Morkana sorriu com seus dentes afiados, “o que sobrou do amor dos elfos?”.

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Kelda ia para a ponta do convés do navio, acompanhada por Lend, que voava faceiro ao seu lado.

“Marujos, preparar as velas. A Mariposa Serrilhada vai agora zarpar em direção a Al-Gazara!”, ordenou o capitão sprite para os golens. Logo, a nave começou a se movimentar, rapidamente. “Só espero que sua dedução esteja correta, maldita skliryne”.

Kelda apertou o peito. Fechou os olhos e, abrindo um sorriso, apenas respondeu:

“Há sempre esperança no amor dos elfos”.

Lend não entendeu o comentário. Deu de ombros e apenas puxou mais uma garrafa de vinho (a terceira). Precisava estar devidamente balizado para conseguir a coragem necessária ir em direção ao mundo do caos.

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Na próxima parte – A disputa das raças pelo direito de mudar o futuro! Será que Kelda e Lend conseguirão interferir? Nimb, o deus do caos, está planejando algo, pois deixou como mestre de cerimônias Kakekuri, uma súcubo cujo único desejo é...jogar!