A Última Votação do Caos
2 A aposta da súcubo
Don Dracone estava com seu melhor terno, sentado em sua melhor cadeira, tomando seu melhor whisky, esperando a chegada do deus do caos, Nimb. Dracone era o único dragão bicéfalo dono de cassino – na verdade, do jeito que andava seus negócios, ia ser o ÚNICO dono de cassinos em todo o universo conhecido. Afinal, era o único que tinha o poder e prestígio para impor segurança aos clientes dentro de um negócio tão arriscado.
E, lógico: o fato de comprar, esmagar ou incinerar a concorrência também ajudava. Hoje seria um dia glorioso e especial. Ia firmar contrato com Nimb para sediar a maior jogatina que já ocorreu desde os tempos do surgimento dos deuses: a votação do caos, que determinaria o futuro de todo mundo de Arton.
Claro, Dracone sabia que contratos feitos com o deus do caos não eram algo que detinham grande fidelidade. O truque – e disso ele sabia bem – era você fazer várias vezes o contrato. Sim, hoje mesmo ele já tinha firmado 3 vezes o contrato, com três versões de Nimb; pois o deus do caos jamais gostava de repetir uma forma. A primeira foi uma garotinha com um olho de vidro. A segunda foi uma serpente que voava girando no ar. A terceira, um homem que carregava a cabeça com os pés. Agora, bebia calmamente seu whisky e esperava, paciente, pelo próximo avatar a surgir em sua presença.
“Mas que chato...chaa-too”.
Uma voz manhosa e trinante assediou seus ouvidos. Dracone virou uma de suas duas cabeças, irritado.
“Não preciso que limpe agora meu escritório, senhorita Kakeguri. Por favor, se retire”
No batente da porta se escorou um corpo que exigia que toda a atenção fosse roubada para si. Era desnecessariamente belo, quase um desperdício. Uma beleza tamanha que doía, e de diversas formas. Lembrava uma bomba, uma explosão destrutiva: assustadora e majestosa. Não, diferente disso. Era o contar, o tempo antes de uma bomba deflagrar suas chamas. Ela era o pavio queimando, ardendo, antes do ‘cabum’.
Em cima do corpo, havia uma cabeça, sim, mas principalmente os olhos. Aqueles olhos não pareciam fazer parte da mesma estrutura: corpo e visão eram coisas separadas. Um, era bomba. O outro, era lâmina. E os dois apenas estavam virados para Dracone, impacientes.
“Senhorita, não me faça repetir. Se retire”.
Kakeguri esticou mais os lábios num sorriso e entrou no escritório.
“Mas senhor Dracone, preciso ser útil, não? Afinal, do que adianta agora estar aqui e fazer nada?”.
“Você faz o que eu mandar; sua utilidade é pertinente somente no momento que assim o for e”…
Kakeguri ia colocando um joelho sobre a mesa de mogno, deslizando sobre o tampo e levando graciosamente as mãos até os dois rostos do dono do cassino.
“Mas senhor, tem certeza que há nada que eu possa fazer para te satisfazer?”.
O toque dela era convidativo...e assustador. Dracone devia deixar a sua forma humana e se transformar na sua forma dracônica normal para devorar aquela desgraçada. Mas aqueles olhos brilhavam com uma intensidade pavorosa.
“Então, meu senhor, é só dizer a palavra...só dizer que podemos...podemos”…
“Você já perdeu, súcubo”, Dracone bateu-lhe nas mãos, “você apostou tudo e perdeu a liberdade. Não há mais nada que eu queira de você”.
Sim, foi um jogo perigoso. Aquela maldita Kekguri – vinha aos seus cassinos com apostas cada vez mais altas, com jogos mais ousados, e com vitórias cada vez mais ousadas. A cada dia, um novo cassino seu era abordado por aquela monstra, então teve que arriscar. Jogou contra ela um circuito de jogatinas e, por muito pouco, não perdeu seu título de campeão das apostas. Mas, no final, o dragão invencível venceu novamente. Achou que, falida e escravizada, a súcubo iria estar derradeiramente destruída.
Mas Kakeguri era uma dessas raras súcubos que, ao invés de viciadas nos prazeres da carne, dedicavam-se a outros gostos. O gosto da maldita? Jogatina. Incessante, infinita, interminável. Mesmo escravizada, mesmo sem liberdade, ela continuou jogando, apostando: sua vida, sua alma, seus amigos. E, pior, ela foi ganhando. Vez e outra vez. Hoje, ela está presa apenas no papel; é possível que, no final das contas, ela seja mais livre do que ele próprio.
E Dracone sabe que ela sabe que ele sabe disso.
“Vamos, senhor Dracone, não seja moroso”, ela literalmente lambeu o próprio braço, olhando para ele, “sempre há algo que você deva querer. Que tal...meu corpo?”.
“Antropoides são criaturas, especialmente os mamíferos. Descarto a proposta”.
“Poxa”, Kakeguri abraçou os próprios seios, fingindo tristeza, “triste dia em que nasci com uma forma assim, pois não posso satisfazer o senhor Dracone. Então, que tal, meus olhos?”.
Dracone ergueu as quatro sobrancelhas, mas balançou a cabeça, “mesmo que eu tivesse seus olhos, você ainda me perseguiria”.
“Juro que não, meu querido e amado senhor”, ela suspirou manhosa, deitando na mesa de mogno, se exibindo, “meus olhos seriam para sempre fechados, e eu nunca mais poderia ver. Não seria...fantástico?”.
“Mesmo cega, tenho certeza que ainda seria um problema”.
“Tão comedido, senhor Dracone. Nem parece que é o dono da maior rede de cassinos do universo. Poxa, mas que chatice. Então, talvez eu possa oferecer algo mais”.
Ela fez uma pausa, virando-se; seu corpo escultural se jogava contra Dracone como uma arma de erotismo; um erotismo que exigia atenção e submissão.
“E se eu oferecer o contrato de Nimb?”.
Dracone quase derrubou o copo de whisky no chão.
“Como? Ha, engraçado, haha!”, as duas cabeças riam abertamente, “muito bem, súcubo nojenta, agora você vai sair de meu escritório ou então”…
“Então o que fará, meu caro?”, disse uma vozinha que simplesmente apareceu ao lado de Dracone.
Ao virar a cabeça, viu, flutuando próximo de seus ombros, um homenzinho. Não tinha mais de um metro, com barba pontuda e longa, lembrando um gnomo magricela. O fato mais chamativo era sua cartola: gigantesca, alta, subindo e subindo.
Aquele era o conhecido grande avatar de Nimb – um dos poucos avatares que mantinha uma forma mais ou menos constante, e que representava verdadeiramente as intenções do deus. Dracone paralisou.
“S-senhor Nimb, vossa divindade. Que bom que apareceu, podemos então discutir o”…
“Contrato que fiz com Kakeguri?”.
“C-como assim senhor?”.
Dracone virou-se para a súcubo que, ostensivamente, abraçava a própria cintura, rindo, se tocando. Seus olhos, frios, brilhavam com intento assassino.
“Ora, meu queridinho Dracone. O senhor Nimb apareceu no corredor faz muitas horas. Ficamos conversando longamente, bem baixinho, sabe? Em sussurros? Contei para ele grandes ideias e planos que tinha para a eleição das raças, sabe? E você acredita que o senhor Nimb gostou? Sim, amou minhas ideias! Fechamos contrato ali mesmo, e deixamos que os outros avatares menores viessem conversar contigo. Foi divertido ver você alegremente discutir com eles e firmar contratos vazios, vazios. Nada, zero, completamente inúteis. Sabe?”.
Dracone ardeu em fúria. Sua forma humanoide explodiu, sua carne se rompeu, e de dentro do pequenino corpo humano irrompeu sua forma de dragão, colossal, destruindo a sala, destruindo tudo, avançando contra a súcubo miserável.
Por pura sorte (ou azar?), a súcubo não foi ferida. A sala inteira ficou em pedaços, parte do prédio foi destruída; as mordidas furiosas de Dracone destroçaram paredes e tetos. Mas a súcubo permaneceu, inacreditavelmente, intocada, deitada ainda na mesa de mogno. Sorrindo. Arfando. E os olhos? Fitando cruelmente Dracone.
“Sim, isso. Se deixe levar pela emoção, querido Dracone. Vai. Vem para mim”.
“Eu vou incinerar sua alma, maldita!”.
“Poxa, mas aí como vai conseguir o contrato? Minha morte não interessa; continuarei sendo a detentora dos direitos, amado Dracone”.
O enorme dragão bicéfalo olhava cada vez mais desmoralizado. Aquela minúscula súcubo, com forma humanoide, nojenta; sem liberdade, sem fundos, sem recursos...estava prestes a derrubar um dos mais poderosos dragões de todo o universo.
“Então, queridinho? O que me diz? Vem comigo? Vem?”.
Dracone socou o chão com sua pata do tamanho de um tronco de carvalho.
“MUITO BEM, MALDITA! EU APOSTO CONTIGO O DIREITO AO JOGO!”.
Kakeguri alisou o próprio corpo.
“AH, SIM, SIM!”, seus olhos brilhavam, olhando para o pequeno duende voador, o grande avatar de Nimb, “senhor deus, pode fazer as honras? Role para nós o dado mais caótico que tiver! ROLE! ROLE EM MIM!”.
Dracone olhava aterrorizado pra súcubo; sua voz, seus gestos, seus gritos. Ela tinha nada a ganhar...nada. Apenas a perder. Estava oferecendo os direitos e pedindo nada em troca. Tudo que ela queria era jogar, jogatinar até sobrar nada.
Nimb sorriu, ouvindo as súplicas desesperadas da súcubo. Levou a mão direita ao casaquinho e, de lá, retirou um dado de dez faces. A súcubo fechou os olhos, se contorcendo na mesa de mogno, berrando:
“PAR! NÚMERO PAR! QUERO, ME DÁ UM PAR!”.
Um puro jogo de azar, sorte completa, nada de estratégia, nada de planejamento. A súcubo estava apostando o maior prêmio de todos numa rolagem de par ou ímpar. Dracone, mesmo agora estando na forma de um dragão colossal e titânico, se afastou, enojado com aquela demonstração. Não importava...se caísse ímpar no dado, ganharia. Tinha 50% de chance.
O deus balançou o dado na mão e, desleixadamente, o arremessou. O dado começou a cair, no ar, esbarrando no vento como se estivesse batendo em obstáculos invisíveis. Girando, girando, sorteando em qual número iria parar. 5, 7, 0, 2, 3…
Espera...mão direita? MÃO DIREITA?! Não, impossível, não pode ser. Dracone virou-se para a súcubo: ela estava quase em transe, as pernas tremendo, os olhos se revirando levemente. Mas o brilho, a intenção assassina, isso permanecia, perene, direcionada para Dracone. O dono do cassino sentiu o sangue gelar.
Nimb costumava usar a mão esquerda em seus avatares – lógico, isso não é uma certeza pois nada é certo com Nimb. Mas era o mais comum. Pois a mão direita é o símbolo de Khalmyr, deus da justiça, o símbolo da ordem, e oposto ao caos. Os números de Khalmyr são os números pares – pois são possíveis de se dividirem completos e igualmente. E a súcubo escolheu números pares…estaria ela confabulando algo?
Nesse momento, Dracone percebeu: ELA NÃO CONTOU QUAL CONTRATO FEZ COM NIMB! Espera, e se o contrato que ela fez foi completamente diferente? Ela pode ter feito um contrato vazio, inútil. Porém, Dracone fez apenas um contrato...O CONTRATO DOS JOGOS! Ao apostar o contrato dele, isso significa que ela ganharia realmente o direito sobre os jogos!
Era um jogo armado...e ele ia perder. A súcubo o desestabilizou, o irritou, e o fez apostar tudo. Não, não pode ser...NÃO!
“Nove”, falou Nimb.
Dracone ergueu as cabeças.
“Eu...ganhei!”.
Com fúria, virou-se para a súcubo. Ela estava suada, suas roupas desarrumadas sobre a mesa, respirando pesadamente. Desgraçada, ia agora mesmo devorar essa maldita e acabar de vez com os problemas e…
“Espera...eu vi errado, olha só. Não é um nove”, e Nimb levantou o dado com a mão esquerda, “é um seis”.
“AH”, gemeu a súcubo, num berro estridente e vorpal.
Dracone perdeu. O dragão bicéfalo deitou-se no chão, esmagado, derrotado. A súcubo, tremendo toda, bamba das pernas, foi se erguendo da mesa.
“Ai, nossa, que jogo delicioso”, ela flutuou até o solo, pois tudo em volta dela estava destruído por causa do dragão. Tocou de leve o dorso de Dracone, “você é um ótimo jogador, querido”.
“Você me enganou...desgraçada, você me enganou”.
A súcubo sorriu, “enganar? Não, apenas calculei as melhores chances de se conseguir vencer. Afinal, se eu tivesse certeza da vitória, que graça teria jogatinar?”.
Dracone olhava embasbacado para aquela monstra.
“E o que você vai fazer? Agora os jogos são seus, a eleição das raças é sua...o que pretende fazer com isso? Me diga, pra quê você queria isso??”.
A súcubo abriu os braços.
“O quê? Eu vou fazer um baile! Sim, um grande baile de jogatinas!”.
“Um baile? Isso é ridículo! O ponto é determinar quais raças vão poder mudar o futuro de Arton! E não um baile idiota onde”…
“Nesse baile, vou convidar todos os espíritos do além, para que eles possam também observar!”.
Dracone quase engasgou, “os espíritos? Você está dizendo abrir para que as criaturas dos outros planos possam vir? VOCÊ VAI ABRIR NOSSO UNIVERSO PARA UMA INVASÃO!”.
“SIM! SIM!”, berrou, mais alto que o próprio dragão, “e qual o problema? Sua ideia era tão chata, senhor Dracone. Apenas uma mesa de pôquer entre os participantes? Não, não! Precisamos de mais emoção, precisamos de mais loucura! Por isso, vou deixar as portas abertas para todos os espíritos de todos os universos virem participar da eleição! E todos vão poder competir, lutar, jogatinar! Cada espírito terá direito a voto, e as raças poderão se vender totalmente por esses votos, sim, sim! Apostar a vida, a liberdade, o futuro delas diante dos espíritos sem rosto! Não será maravilhoso, não será perfeito?”.
“Eu não permitirei que uma estupidez dessa seja feita nos meus cassinos!”.
“Não tem problema, não tem. Já tenho tudo acertado: o baile será feito em conjunto nos domínios de Nimb e de Tenebra”.
Dracone agora realmente engasgou: “Tenebra? TENEBRA? O que a deusa da noite tem a ver com tudo isso? O que ela poderia ganhar com uma estupidez dessas!?”.
A súcubo respondeu com apenas uma palavra:
“Esqueletos”.
Dracone travou. “Esqueletos? Como assim? Que tipo de resposta ridícula é essa?”.
“Firmei contrato com Tenebra de que, caso eu conseguisse direito ao jogo das raças, eu poderia fazer o jogo no palácio da noite. Em troca, esqueletos iriam surgir como nova raça, pronta para participar das eleições também”.
Dracone balançou a cabeça diante de tanta, mas tanta babaquice.
“Não pode ser...esqueletos? Mas isso não é uma raça...é como pedir que sangue ou olhos sejam uma nova raça. Isso é insano, é ridículo, é”…
“Fui eu quem dei a ideia dos esqueletos. Me pareceu...incomum”, disse o avatar de Nimb, gargalhando.
Dracone olhou para o deus, agora completamente sem palavras. Depois olhou para a súcubo, perdido e, finalmente, acabado.
“Nada disso faz sentido. Nada. O que você ganha com isso? Um baile cósmico? Tenebra? Esqueletos? QUAL O SENTIDO DESSA BESTEIRA TODA!??”.
A súcubo gargalhou, “Sentido? Para quê fazer sentido?! Só precisa ser algo divertido, que gere boas apostas e uma ótima jogatina, meu querido!”.
Dracone não tinha mais nada a falar. Nimb se contorcia de rir. A súcubo, erguendo os dois braços, terminou:
“E então, podemos começar os preparativos?”.
Na próxima parte, as convidados chegam. Começa a grande disputa. Qual raça sairá na frente? Serão os Bugbears, os Centauros, os Meio-elfos, os Celestiais aggeli e sulfures, os Tritões...ou será que os bizarros esqueletos já tem a vitória certa graças à loucura de Kakeguri?
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