Notas iniciais
Eu não possuo nenhum direito sobre os personagens, mas a história veio da minha cabeça. Olá! Eu sou a Carolin, não sou escritora mas espero que vocês apreciem essa minha tentativa! Boa leitura!

Algumas histórias começam com “era uma vez…” e geralmente terminam com “felizes para sempre”.

Isabella sentia as bochechas arderem e as pontas dos dedos congelarem sob o vento cortante da tarde. Ela e o pai subiam aquele morro havia uma eternidade.

Pelo menos era assim que parecia para uma menina de quatro anos.

Um pequeno floco branco pousou na ponta de seu nariz arrebitado.

— Papai! Olhe! Está nevando! — disse, incapaz de esconder o entusiasmo.

O pai sorriu, apesar do cansaço estampado no rosto.

— Sim, está mesmo.

Os olhos de Isabella brilharam.

— Śnieg! É neve, não é?

O sorriso dele se alargou.

— Ainda lembra… Você pronunciou direitinho. Bardzo dobrze. Muito bem.

Em poucos minutos, um fino tapete branco começou a cobrir a estrada. Encantada, Isabella soltou a mão do pai e correu alguns passos à frente, esticando as mãos para apanhar os flocos que dançavam no ar.

— Córka! Vá mais devagar!

Ela apenas girou sobre os próprios pés.

— Vamos, papai! Temos que chegar logo!

De repente, parou e levou um dedo aos lábios.

— Aonde estamos indo mesmo?

O homem a observou por um instante. Tentou manter a expressão séria, mas acabou rindo.

— Menina boba… Como quer andar na frente se nem sabe para onde está indo?

Ela deu de ombros.

— Eu esqueci.

— Eu percebi.

Ele finalmente a alcançou e a ergueu nos braços.

Isabella soltou uma gargalhada tão alta que fez alguns pássaros levantarem voo das árvores próximas.

O pai sorriu ao ver as covinhas surgirem em suas bochechas.

— Se continuarmos brincando na neve, vamos morrer congelados.

Ela arregalou os olhos.

— Mesmo?

Ele fez que sim com a cabeça.

Então sorriu.

— Depois que chegarmos, prometo que você pode brincar mais.

Aquilo pareceu convencê-la.

Ela passou os bracinhos em volta do pescoço do pai enquanto ele retomava a caminhada.

— Vamos brincar de adivinhação?

— Hum… E o que eu tenho que adivinhar?

— Eu estou vendo… uma coisa marrom!

Ele fingiu pensar por alguns segundos.

— Nossa… Essa começou difícil…

Olhou para os lados.

— Será que é… drzewo?

Isabella tentou repetir.

— Dje… — franziu o nariz. — Dze…

Olhou para o pai e começou a rir.

— Eu não consigo!

Ele riu junto.

— Um dia consegue. Mas sim, drzewo. Árvore.

Ela bateu palmas.

— Acertou!

— Agora é minha vez.

Ele olhou discretamente para o céu.

— Estou vendo uma coisa cinza.

Isabella virou o rostinho para todos os lados.

Tudo parecia branco.

As árvores já tinham sido escolhidas.

Então levantou a cabeça.

— Niebo! É o céu!

— Muito bem!

Ela sorriu, orgulhosa de si mesma.

A brincadeira continuou morro acima.

As respostas foram ficando cada vez mais demoradas.

As perguntas, cada vez mais baixas.

— Papai…

— Sim?

— Quando neva… parece que o céu está perdendo pedacinhos…

O homem lançou-lhe um olhar carinhoso.

Então Isabella deixou de responder.

A cabeça tombou sobre o ombro do pai.

Ela havia adormecido antes mesmo de o sol desaparecer atrás das montanhas.

Restaram apenas o som do vento e o ranger da neve sob as botas.

Ele sorriu de leve, ajeitou o pequeno casaco sobre o corpo da filha e esfregou delicadamente sua mão gelada entre as próprias, tentando aquecê-la. Depois beijou-lhe os cabelos escuros e retomou a caminhada.

Quando finalmente alcançou o alto do morro, uma imponente propriedade surgiu diante dele.

Altos portões de ferro protegiam a entrada. Do outro lado, um homem empurrava lentamente um carrinho carregado de lenha.

— Boa noite! — chamou, elevando um pouco a voz para vencer o vento. — Disseram-me que esta propriedade precisava de trabalhadores.

O homem interrompeu o serviço e ergueu os olhos.

— Um momento. Vou avisar a governanta.

Ele desapareceu pelo caminho de pedras.

O silêncio voltou a tomar conta do lugar.

O vento atravessava os galhos nus das árvores, espalhando pequenos redemoinhos de neve pelo chão.

O homem apertou Isabella um pouco mais contra o peito, cobrindo-a melhor com o próprio casaco. O nariz da menina estava avermelhado pelo frio.

Ainda dormindo, ela murmurou alguma coisa quase inaudível.

— Tatuś…

Ele fechou os olhos por um breve instante.

— Estou aqui, córeczka — respondeu baixinho, mais para si mesmo do que para ela.

A menina voltou a adormecer profundamente.

Pouco depois, a porta principal da casa se abriu.

Uma mulher de postura impecável atravessou o jardim em passos firmes. Mesmo à distância, havia algo em seus movimentos que transmitia elegância e absoluto controle.

Ela parou diante do portão e observou, em silêncio, o homem cansado que carregava uma menina adormecida nos braços.

— Podem entrar — disse, destrancando o portão.

O rangido do ferro despertou Isabella.

Ainda sonolenta, ela piscou algumas vezes.

No alto, as copas das árvores balançavam ao vento e pareciam se misturar ao céu escuro, como um rio negro correndo sobre sua cabeça.

Depois viu a mulher.

Aos olhos de uma criança, ela parecia deslizar pelo caminho de pedras, elegante como um cisne sobre a água.

Então seus olhos encontraram a casa.

Isabella nunca tinha visto uma casa tão grande.

Tinha cinco janelas.

Pelo menos cinco eram tudo o que ela conseguia contar.

Por um instante, teve a impressão de que alguém a observava atrás do vidro da última janela.

Quando piscou, não havia mais ninguém.

A governanta conduziu os dois até a entrada lateral da casa.

Assim que se aproximaram da varanda, a porta tornou a se abrir.

Um homem alto surgiu usando um robe escuro de lã. Trazia um cachimbo entre os dedos e a barba muito clara parecia dourada sob a luz tremulante das lamparinas.

Para Isabella, ele parecia um Papai Noel sem roupas vermelhas.

Só lhe faltava um saco cheio de presentes.

Ela continuou observando o estranho, fascinada.

— Félix contou que o senhor procura trabalho?

— Sim, senhor. Disseram-me na cidade que havia necessidade de trabalhadores.

O homem assentiu lentamente.

— Com quais ofícios trabalha?

— Carpintaria, serviços da lavoura, cuidados com os animais… Faço qualquer serviço de que o senhor precisar.

O proprietário observou-o durante alguns segundos.

— E de onde vêm?

— Do norte, senhor.

— Apenas você e a menina?

Isabella percebeu que o homem olhava para ela.

Rapidamente escondeu o rosto no pescoço do pai.

As vozes continuaram conversando acima de sua cabeça, graves e calmas. Ela não entendia direito o que diziam.

Sentia apenas a mão do pai sustentando suas costas.

— Sim, senhor — respondeu ele. — Prometo que ela não dará trabalho.

O proprietário soltou um suspiro discreto.

— Muito bem.

Voltou-se para o empregado.

— Félix mostrará um quarto para passarem esta noite. Amanhã conversaremos sobre suas funções.

O empregado apanhou uma lamparina e fez um gesto para que o seguissem. Antes de desaparecerem pelo corredor lateral, Isabella ergueu a cabeça uma última vez.

Enquanto atravessavam o pátio coberto por uma fina camada de neve, seus olhos passeavam por tudo o que conseguiam alcançar.

Ao lado do celeiro descansava uma carruagem muito estranha. Tinha rodas grandes e brilhantes, mas nenhum cavalo. Ela esperou encontrar as rédeas ou ouvir algum relincho.

Não havia nada. A carruagem permanecia imóvel, como se estivesse dormindo.

A menina franziu o nariz, intrigada, mas logo perdeu o interesse.

Quando entraram na casa, o calor fez suas bochechas arderem ainda mais.

Enquanto Félix fechava a porta, uma voz saía de uma caixa de madeira apoiada sobre um móvel do corredor. Isabella procurou a pessoa que estava falando, mas não encontrou ninguém.

Então o homem girou um pequeno botão na frente da caixa e a voz desapareceu.

Como num passe de mágica.

Os olhos da menina se arregalaram por um instante.

Que caixa estranha.

Continuaram andando.

Pendurados junto às paredes havia fios escuros que subiam até os lustres do teto, como se fossem pequenas trepadeiras procurando alcançar a luz.

Isabella acompanhou um deles com os olhos até perder o desenho entre as sombras.

Achou bonito.

E também um pouco engraçado.

Félix abriu uma porta simples ao fim do corredor.

— Aqui vocês poderão descansar esta noite.

O pai agradeceu com um discreto aceno de cabeça.

Antes de entrar, Isabella olhou uma última vez para o corredor.

A porta fechou-se atrás deles.

Lá fora, a neve continuava caindo.

Notas finais
Palavras da Polônia "A pronúncia abaixo é aproximada para falantes do português brasileiro." Prólogo •Śnieg Pronúncia: Shnieg Significado: Neve. Onde apareceu: — Śnieg! É neve, não é? Curiosidade Foi uma das primeiras palavras que o pai ensinou a Isabella. •Bardzo dobrze Pronúncia: Bárdzo dób-je Significado: Muito bem. Onde apareceu: — Bardzo dobrze. Curiosidade Uma expressão muito usada para incentivar crianças durante o aprendizado. O pai de Isabella a utiliza sempre que ela consegue pronunciar uma palavra corretamente. •Córka Pronúncia: Tsúr-ka Significado: Filha. Onde apareceu: — Córka! Vá mais devagar! Curiosidade Embora signifique apenas "filha", quando usada dessa forma transmite carinho e proteção, semelhante ao nosso "minha filha". •Drzewo Pronúncia: Djé-vo Significado: Árvore. Onde apareceu: — Será que é… drzewo? Curiosidade Isabella aprende essa palavra brincando de adivinhação. Para ela, aprender polonês nunca foi uma obrigação, mas um momento de afeto compartilhado com o pai. •Niebo Pronúncia: Niê-bo Significado: Céu. Onde apareceu: — Niebo! É o céu! Curiosidade A palavra aparece enquanto pai e filha observam a paisagem. •Tatuś Pronúncia: Tá-tush Significado: Papai. Onde apareceu: — Tatuś… Curiosidade É uma forma muito carinhosa de dizer "papai". •Córeczka Pronúncia: Tsu-rétch-ka Significado: Filhinha. Onde apareceu: — Estou aqui, córeczka. Curiosidade Um diminutivo afetuoso de córka. O pai a utiliza quando Isabella está adormecida. Até breve!