Três anos não foram apenas uma medida de tempo em Ithilien; foram uma revolução silenciosa.

Onde antes reinava a beleza estática e fria da imortalidade, agora havia o caos doce da vida pulsante. Doze crianças élficas nasceram sob a vigília do humano. Doze partos agonizantes transformados em doze milagres de choro e fôlego. Nenhuma mãe perdida para o véu negro da morte, nenhum pai obrigado a cantar lamentos fúnebres.

O nome de Himmel, antes cuspido com desdém nos corredores de mármore do palácio, agora era pronunciado com uma reverência quase religiosa, até mesmo pelos mais antigos anciãos. Ele não era mais o "rato" ou o "estranho". Ele era o Tecelão da Vida, o guardião profano da esperança sagrada dos Sindar.

Seus aposentos haviam sido transferidos das celas úmidas para a Ala Leste, a mais nobre do palácio, reservada para dignitários e heróis de guerra. O quarto era vasto, com tapeçarias que contavam a história das estrelas e móveis esculpidos em madeira branca de mallorn. Mas, apesar da seda e do ouro, Himmel sabia a verdade: aquilo ainda era uma gaiola. Apenas as grades eram mais bonitas.

Ele estava na varanda, observando o pôr do sol tingir as Montanhas da Sombra de sangue e ouro. A brisa da tarde trazia o cheiro de jasmins, mas para Himmel, cheirava a estagnação. Ele girava uma taça de cristal lapidado nas mãos, o vinho élfico — doce demais, perfeito demais — balançando perigosamente perto da borda.

— Você vai manchar o tapete se continuar brincando assim — disse uma voz suave, vinda da porta.

Himmel não se virou imediatamente. Ele fechou os olhos por um segundo, permitindo-se saborear o arrepio que a voz dela sempre causava em sua espinha.

— Se eu manchar, tenho certeza de que o Rei ficará feliz em mandar cortar minha mão por destruir propriedade real — respondeu ele, finalmente girando nos calcanhares.

Frieren estava parada no arco da porta. Ela dispensara os guardas e as aias, como fazia com frequência alarmante ultimamente. Usava um vestido de seda branca tão leve que parecia feito de neblina, agarrando-se ao corpo e delineando curvas que Himmel conhecia apenas em suas noites insones.

Ela entrou no quarto, fechando a porta atrás de si com um clique suave que soou como um trovão no silêncio tenso entre eles.

— Você não tocou na comida — observou ela, ignorando o comentário sobre Legolas e caminhando até a mesa farta de frutas exóticas e carnes finas. — As cozinheiras prepararam o faisão como você gosta.

Ela mesma ajeitou as almofadas da espreguiçadeira dele, uma dedicação doméstica chocante para uma Rainha.

— Perdi o apetite, minha Rainha — respondeu Himmel, encostando-se no parapeito de pedra, cruzando os braços para esconder o tremor nas mãos. — Estava ocupado demais imaginando coisas que não deveria.

Frieren parou, segurando um cacho de uvas escuras suspenso no ar. Ela se virou para ele, e a luz dourada do poente iluminou a confusão em seus olhos verdes.

— E o que ocupava sua mente, Parteiro Real? — perguntou ela. A inocência em sua voz era uma arma, duelando com uma curiosidade perigosa que ela não conseguia suprimir.

Himmel deu um passo em direção a ela. Depois outro. Ele invadiu o espaço pessoal dela com uma familiaridade construída ao longo de mil conversas sobre medicina, estrelas e solidão.

— Estava pensando em como seria a vida fora destas paredes — ele sussurrou, a voz rouca caindo uma oitava. — Estava pensando em como seria se, em vez de passar meus dias trazendo os bebês de outros homens ao mundo... eu estivesse ocupado tentando fazer um.

O ar no quarto ficou subitamente rarefeito. Frieren corou violentamente, um tom rosado subindo pelo pescoço pálido até as orelhas pontudas. Ela deveria repreendê-lo. Deveria chamar os guardas, lembrar-lhe de sua posição inferior, de sua mortalidade suja. Mas, em vez disso, ela apenas baixou os olhos, fascinada pela audácia crua dele, pelo calor humano que emanava de seu corpo próximo ao dela.

— Você é incorrigível, Himmel — murmurou ela, mas não recuou. Seus pés pareciam enraizados no chão.

— E você é infeliz, Frieren — disparou ele, abandonando a ironia. — Eu vejo nos seus olhos quando Legolas a exibe no salão. Você é uma estátua perfeita em um museu perfeito. Mas aqui... quando você vem me ver... você respira.

Himmel lutou contra o impulso insano de tocar o rosto dela, de traçar a linha do maxilar dela com o polegar. O medo era um freio potente — ele sabia que Legolas tinha espiões em cada sombra —, mas o desejo era um cavalo selvagem.

— Sou apenas um homem — continuou ele, a voz falhando. — E homens têm necessidades que a vista das montanhas ou o vinho doce não satisfazem. Eu olho para você e vejo a única coisa viva neste mausoléu de cristal.

Frieren levantou o olhar, e havia lágrimas não derramadas brilhando ali. Ela via a solidão dele espelhada na sua própria. Ela cuidava dele não apenas porque ele era valioso para o reino, mas porque ele era a única coisa real, quente e imprevisível em sua existência eterna.

— Não diga essas coisas — pediu ela, num sussurro que soou como uma súplica. — As paredes têm ouvidos, e o Rei tem ciúmes até do vento que toca meu cabelo.

— Deixe que ouçam — desafiou Himmel, aproximando-se ainda mais, até que o hálito dele roçasse a testa dela. — Talvez assim ele perceba o que está prestes a perder.

Frieren estremeceu, dividida entre o dever e a tentação avassaladora de fechar aquela distância mínima. Mas o som de trombetas ao longe, anunciando o retorno da caçada real, quebrou o feitiço. Ela se afastou bruscamente, a máscara de Rainha caindo de volta no lugar, embora suas mãos tremessem.

— Coma, Himmel. Preciso de você forte para o parto da Senhora Arwen na próxima lua.

Ela saiu quase correndo, deixando-o sozinho com o vinho intocado e o gosto amargo de palavras não ditas.

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Horas mais tarde, a lua cheia banhava o quarto real com sua luz fria e impiedosa.

O ar ainda estava pesado, carregado com o cheiro de sexo e almíscar. Legolas e Frieren jaziam entre os lençóis de seda desarrumados, seus corpos entrelaçados após uma união que fora mais uma batalha do que um ato de amor. Legolas a tomara com uma possessividade desesperada, quase violenta, como se tentasse marcar cada centímetro da pele dela, como se tentasse, através do prazer físico, apagar qualquer traço de pensamentos humanos que pudessem residir na mente da esposa.

Frieren estava deitada no peito do marido, ouvindo o coração imortal bater num ritmo lento e constante, um metrônomo que marcaria a eternidade. Ela estava exausta, o corpo dolorido e saciado, mas sua mente traía o corpo, vagando teimosamente para a varanda de Himmel, para a tristeza e o fogo nos olhos do humano.

— Você o ama?

A pergunta de Legolas cortou o silêncio pós coito como uma lâmina de vidro. Não houve raiva na voz dele, nem o tom acusatório de antes. Havia apenas uma curiosidade clínica, fria e terrível.

Frieren congelou. Ela sentiu o braço de Legolas, que a envolvia protetoramente, ficar rígido como pedra.

— Ele é... essencial para nós, Legolas — começou ela, escolhendo as palavras com o cuidado de quem caminha sobre brasas. — Ele salvou doze famílias. Ele trouxe a esperança de volta a um povo que estava se conformando com a extinção.

— Não perguntei sobre a utilidade dele — interrompeu Legolas. Ele se afastou dela, apoiando-se no cotovelo para olhar nos olhos da esposa. A luz da lua refletia em suas íris azuis, tornando-as poços de gelo. — Perguntei sobre o seu coração, Frieren. Eu não sou cego. Eu vejo como você o olha quando acha que ninguém está prestando atenção. Eu vejo como você sorri para as insolências dele, sorrisos que você não me dá há séculos. Eu vejo como você se veste para ir vê-lo, como se fosse para um baile, e não para uma enfermaria.

Frieren abriu a boca para negar, para dizer que era absurdo, mas as palavras morreram em sua garganta. Ela o amava? Não da maneira segura e constante que amava Legolas. Mas havia algo... uma chama, uma atração gravitacional pela fragilidade e pela intensidade de Himmel que a consumia. Era a atração da mariposa pela lâmpada.

O silêncio dela se esticou, tornando-se uma resposta mais alta do que qualquer grito.

Legolas fechou os olhos por um momento, absorvendo o golpe. Uma ruga de dor marcou sua testa perfeita, mas quando ele abriu os olhos novamente, a mágoa havia sido trancada atrás de uma parede impenetrável de pragmatismo real.

— O silêncio é a resposta mais ruidosa dos elfos — disse ele, sentando-se na cama e virando as costas para ela, expondo as costas marcadas por cicatrizes antigas. — Mas isso não importa agora. Somos governantes antes de sermos amantes, e sua confusão sentimental não pode colocar nosso futuro em risco.

Ele se levantou, nu e majestoso, caminhando até a janela para olhar seu reino.

— A Bênção de Yavanna não pode morrer com ele — declarou Legolas, a voz firme, decretando uma sentença. — Himmel é mortal. Ele é poeira ao vento. Ele envelhecerá, adoecerá e morrerá num piscar de olhos para nós. E quando ele se for, a bênção irá com ele para o túmulo, a menos que ele a passe adiante.

Frieren sentiu um frio no estômago, uma náusea súbita. Ela sabia onde aquilo ia dar, e o horror da inevitabilidade a paralisou.

— O que você está propondo? — perguntou ela, sentando-se na cama, puxando o lençol até o pescoço para cobrir o corpo subitamente frio.

— Ele precisa de herdeiros. Filhas, especificamente. A magia corre no sangue das fêmeas daquela linhagem. — Legolas virou-se para encarar a esposa, o rosto inexpressivo. — Já tomei a liberdade de enviar emissários aos reinos humanos vizinhos. Os Lordes de Rohan têm filhas nobres, saudáveis e dispostas a uma aliança com os Elfos. Himmel deve se casar. O mais rápido possível.

O coração de Frieren falhou uma batida. A ideia de Himmel com outra mulher... tocando outra pele, sussurrando aquelas insolências no ouvido de outra, compartilhando aquele calor humano com uma estranha... causou-lhe uma dor física, aguda, como se uma lança atravessasse seu peito.

— Legolas... ele não vai aceitar — tentou ela, a voz fraca e trêmula. — Ele é orgulhoso. Ele não é um garanhão de reprodução que você pode acasalar à força.

— Ele é um servo da Coroa, querendo ou não — retrucou Legolas, implacável, caminhando até a cama e segurando o queixo de Frieren, forçando-a a olhá-lo. — E é a única forma de garantir que nosso povo não desapareça. Se você realmente se importa com o bem de Ithilien... se você realmente é a Rainha que jurou ser, e não apenas uma mulher apaixonada por um fantasma temporário... você concordará comigo. Ele deve engravidar uma humana para que a linhagem dele continue. É o ultimato.

Frieren olhou para as mãos do marido, tão diferentes das mãos calejadas de Himmel. Ela sabia que a lógica de Legolas era inegável. Era perfeita. Mas a crueldade daquela lógica, a punição velada por trás da decisão política, era clara. Ele estava tirando Himmel dela da única maneira definitiva que podia sem matá-lo: dando-o a outra.

— Sim — sussurrou ela, sentindo o gosto de cinzas e derrota na boca. — Pelo bem do reino. Ele deve se casar.

Legolas assentiu, satisfeito com a vitória amarga. Ele beijou a testa dela, um beijo frio de propriedade, e voltou para a cama, virando-se para dormir.

Mas Frieren permaneceu acordada.

Ela olhou para o teto abobadado, ouvindo a respiração tranquila do marido, enquanto lágrimas silenciosas e quentes escorriam pelo seu rosto, molhando o travesseiro de seda. Ela acabara de concordar em vender o homem que secretamente amava, condenando-o a uma vida sem a única coisa que ele desejava — ela —, e condenando a si mesma a assistir, de sua torre de marfim, a felicidade forçada dele com outra mulher.