A Última Garrafa de Dorwinion - Frimmel
8 O Peso da Coroa e o Gosto do Pecado
Notas iniciais

A tempestade que se formava sobre as Montanhas da Sombra parecia um espelho do que ocorria dentro dos aposentos de Himmel. O céu, tingido de um roxo hematoma, despejava relâmpagos silenciosos que iluminavam o quarto em flashes intermitentes, revelando a tensão estática no ar.
Himmel estava parado diante da lareira apagada, de costas para a porta, mas cada músculo de seu corpo estava retesado, denunciando que ele sabia exatamente quem acabara de entrar. O perfume dela — aquele cheiro inconfundível de ozônio, flores noturnas e algo antigo, como poeira estelar — invadiu o espaço antes mesmo que o som suave da seda roçando o chão o alcançasse.
Frieren fechou a porta com uma lentidão deliberada. O clique da tranca soou definitivo, isolando-os do resto do palácio, do resto do mundo e, principalmente, dos ouvidos atentos de Legolas.
— Você demorou — disse Himmel, sem se virar. Sua voz era grave, arranhada por horas de silêncio e vinho ruim. — Comecei a pensar que o Rei havia finalmente decidido me dar aos wargs.
— Não diga tolices — a voz de Frieren era firme, mas carregava um tremor quase imperceptível. — Legolas valoriza demais a sua... utilidade.
Himmel virou-se devagar. A luz bruxuleante das velas projetava sombras longas em seu rosto, acentuando as linhas que os últimos três anos de clausura de luxo haviam cavado ao redor de seus olhos. Ele não era mais o jovem impulsivo da floresta; era um homem cansado, devorado por dentro por uma fome que nenhuma comida podia saciar.
— Utilidade — repetiu ele, testando a palavra como se fosse veneno. — É uma palavra interessante para "prisioneiro". Mas diga, minha Rainha, a que devo a honra desta visita noturna?
Frieren estremeceu. Ela caminhou até o centro do quarto, mantendo uma distância segura, as mãos entrelaçadas na frente do corpo, os dedos apertando-se até os nós ficarem brancos. Ela parecia uma estátua de mármore prestes a rachar.
— Legolas tomou uma decisão — começou ela, desviando o olhar para as chamas inexistentes da lareira. — Sobre o futuro da Bênção. Sobre o seu futuro.
Himmel soltou uma risada seca e sem humor. Ele caminhou até a mesa de bebidas e serviu-se de mais vinho, seus movimentos lentos e predatórios.
— Deixe-me adivinhar. Ele vai me mandar embora? Me exilar para as terras devastadas?
— Não — Frieren ergueu os olhos, e a tristeza neles atingiu Himmel como um soco físico. — Ele negociou com o Lorde de Rohan. Há uma caravana a caminho. Eles trazem a filha mais nova do Lorde, Lady Eowyn.
Himmel parou com a taça a meio caminho da boca. O silêncio esticou-se até se tornar insuportável.
— E o que uma nobre de Rohan tem a ver comigo?
— Você vai se casar com ela, Himmel — disse Frieren, a voz falhando na última sílaba. — O casamento será realizado na próxima lua cheia. É um decreto real. Você deve gerar filhas. Herdeiras para a linhagem de Yavanna.
O som do cristal se estilhaçando contra a parede de pedra foi ensurdecedor. O vinho tinto escorreu pelo papel de parede de seda como sangue arterial. Himmel não percebeu que havia atirado a taça até ver Frieren recuar um passo, assustada pela explosão súbita de violência.
— Casar? — rugiu ele, avançando sobre ela. A máscara de ironia caiu, revelando a fúria crua e desesperada de um homem encurralado. — Ele quer que eu me deite com uma estranha? Que eu jure amor a uma mulher que nunca vi?
— É pelo bem do reino! — gritou Frieren, perdendo a compostura real pela primeira vez em décadas. — É a única maneira de garantir que a Bênção não morra com você! Você é mortal, Himmel! Você vai morrer, e nós ficaremos aqui, sós, vendo nossa raça desaparecer novamente!
— Que se dane a raça! Que se dane o reino! — Himmel estava gritando agora, tão perto dela que podia ver o medo e o desejo duelando nas pupilas verdes. — Você acha que eu me importo com a política de Ithilien? Você acha que eu fiquei aqui, trancado nesta gaiola dourada por três anos, suportando o desprezo do seu marido e os olhares de pena da sua corte, por causa do "bem maior"?
— Então por quê? — desafiou Frieren, o peito subindo e descendo rapidamente. — Por que você ficou? Você poderia ter fugido na primeira semana. Por que suportar tudo isso?
Himmel parou. A respiração dele era irregular, pesada. A verdade, aquela verdade perigosa e purulenta que ele guardara por treze anos, borbulhou para fora, incontrolável.
— Porque eu vi você — sussurrou ele, e a mudança abrupta de tom foi mais aterrorizante do que os gritos. — Treze anos atrás. Naquela cabana suja. Você estava coberta de sangue, gritando de dor, a criatura mais vulnerável e aterrorizante que já pisou na terra. E você estava nua.
Frieren abriu a boca, chocada, mas nenhum som saiu.
— Eu era um menino — continuou Himmel, dando um passo à frente, forçando-a a recuar até bater as costas na parede fria. — Eu deveria ter desviado o olhar. Mas eu não consegui. Eu vi sua pele, vi seus seios, vi a vida e a morte lutando dentro de você. E naquele momento, Frieren, algo quebrou dentro de mim. Ou talvez tenha nascido. Eu passei cada maldito dia da minha vida, cada batalha, cada estrada solitária, procurando o caminho de volta para aquela imagem.
Ele apoiou as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, prendendo-a.
— Eu não fiquei pela Bênção. Eu não fiquei pelas crianças elfas. Eu fiquei porque a ideia de respirar o mesmo ar que você, mesmo que seja o ar viciado de uma prisão, é a única coisa que me mantém vivo. E agora... agora você vem me dizer que devo me entregar a outra? Que devo gastar minha vida e minha semente com uma mulher que não tem o seu cheiro, que não tem a sua voz, que não é você?
Frieren estava tremendo. As palavras dele eram uma profanação e uma oração ao mesmo tempo. Ela se sentia despida, exposta de uma maneira que nem mesmo Legolas, com séculos de intimidade, conseguira fazê-la sentir. Ela estava encurralada pela verdade brutal da devoção dele.
— Isso é loucura... — ela sussurrou, incapaz de encarar os olhos febris dele. — Eu sou a Rainha. Eu sou casada. Eu sou... intocável.
— Você não é intocável — rebateu Himmel, a voz rouca caindo para um sussurro perigoso perto do ouvido dela. — Você é uma mulher. Uma mulher que está tão sozinha quanto eu. Eu vejo, Frieren. Eu vejo como você olha para o horizonte quando pensa que ninguém está vendo. Eu vejo como você treme quando Legolas a toca com aquela frieza possessiva.
— Pare... — pediu ela, fechando os olhos, uma lágrima solitária escapando.
— Fuja comigo — implorou Himmel, a testa encostada na dela. — Vamos embora esta noite. Eu conheço as trilhas que os guardas não vigiam. Podemos ir para o Sul, para as terras livres. Longe da política, longe da imortalidade, longe dele.
Frieren soltou uma risada quebrada, um som triste que partiu o coração de Himmel.
— Fugir? — Ela abriu os olhos, e a dor neles era milenar. — Para onde, Himmel? Para uma cabana de barro onde eu assistirei você envelhecer e morrer em um piscar de olhos? E depois? Eu passarei a eternidade lembrando dos seus ossos. Não há fuga para nós. Eu sou Ithilien. O meu sangue está ligado a estas árvores.
— Então é isso? — Himmel se afastou, derrotado, passando as mãos pelos cabelos despenteados. — Eu caso com a humana, crio uma ninhada de parteiras para o seu Rei, e assisto você de longe até morrer de velhice?
— É a única maneira de mantermos você aqui — admitiu Frieren, a voz fraca. — Se você recusar, Legolas vai matá-lo. Ou pior, vai expulsá-lo. E eu... eu não posso suportar que você vá embora. O casamento é a única corrente que Legolas aceita para mantê-lo no bosque.
— Uma desculpa — cuspiu Himmel, virando-se de costas. — É apenas uma desculpa para me tirar do jogo. Para me neutralizar. Ele sabe. Ele sabe o que eu sinto, e sabe o que você sente, mesmo que você minta para si mesma.
— Talvez — concordou Frieren, dando um passo em direção a ele, a mão estendida para tocar o ombro dele, um gesto de conforto que ela sabia ser perigoso. — Mas é a única opção que temos. Por favor, Himmel. Aceite. Por mim.
Himmel girou bruscamente, a fúria reacendendo. Ele ia gritar, ia negar, ia dizer que preferia a morte. Mas ao se virar, seu braço roçou o corpo dela. Sua mão, num movimento desajeitado de quem busca apoio ou ataque, bateu contra o ventre de Frieren.
Ele parou.
A túnica de seda disfarçava bem, mas ao toque, a verdade era inegável. Havia uma rigidez ali. Um volume arredondado, firme, quente, que não existia semanas atrás.
O tempo congelou no quarto. O som da chuva lá fora desapareceu.
Himmel olhou para a barriga dela, depois para os olhos dela. O choque no rosto de Frieren confirmou o que as mãos dele sentiram.
— Você... — A voz de Himmel falhou, sumindo na garganta. — Você está grávida.
Frieren recuou, cruzando os braços sobre o ventre num gesto protetor instintivo. O rosto dela drenou de cor.
— Himmel, eu...
— De Legolas — completou ele, e a constatação teve o gosto de cinzas e bile. — Enquanto eu me consumia de desejo por você, enquanto eu contava os segundos para ver seu rosto... ele estava lá. Ele estava dentro de você.
Era uma tolice sentir-se traído. Ela era casada. Ela era a Rainha. Era o dever dela, a vida dela. Mas a lógica não tinha lugar na tempestade de ciúmes que varreu a alma de Himmel. Ele sentiu uma dor física no peito, como se seu coração estivesse sendo espremido por uma mão de ferro.
— É meu dever — sussurrou Frieren, as lágrimas correndo livremente agora. — Nós tentamos por séculos. A magia... a sua presença no reino... a renovação da vida... tudo isso despertou meu ventre. É um milagre, Himmel.
— Um milagre — repetiu ele, com amargura. — Um milagre que tem o sangue dele.
Ele olhou para ela, e a mistura de amor, ódio, desejo e desespero foi demais para conter. Ele não podia suportar. Ele não podia ser nobre. Não hoje.
Num movimento súbito, Himmel avançou. Ele agarrou Frieren pelos ombros, puxando-a para si com uma força que a fez arfar.
— Ele pode ter a criança — rosnou Himmel, os olhos fixos na boca dela. — Ele pode ter o reino. Ele pode ter a eternidade. Mas agora... agora você é minha.
Antes que Frieren pudesse protestar, antes que pudesse lembrar-se de quem era, Himmel a beijou.
Não foi um beijo gentil. Foi um beijo de fome acumulada por treze anos. Foi rude, desesperado, com gosto de vinho e lágrimas. Ele invadiu a boca dela, tomando-a, exigindo uma resposta.
E a resposta veio.
Frieren deveria tê-lo empurrado. Deveria ter usado sua magia para lançá-lo contra a parede. Mas ao sentir o calor humano dele, a urgência mortal que queimava na pele dele, algo primitivo nela se quebrou. O medo da morte, o tédio da imortalidade, tudo isso desapareceu. Ela gemeu contra a boca dele, e suas mãos, em vez de empurrar, subiram para a nuca dele, enterrando-se nos cabelos emaranhados, puxando-o para mais perto.
Himmel a ergueu do chão, e ela entrelaçou as pernas na cintura dele instintivamente. Ele a levou até a grande mesa de carvalho, afastando pergaminhos e mapas com um braço, depositando-a ali sem quebrar o beijo.
— Himmel... — ela ofegou quando a boca dele desceu para o pescoço dela, mordiscando a pele sensível logo abaixo da orelha pontuda. — Se ele nos encontrar... ele nos mata.
— Que mate — sussurrou Himmel contra a pele dela, as mãos descendo pelas costas dela, tateando, buscando, adorando. — Eu prefiro morrer com o gosto de você na minha boca do que viver mais um dia sem saber como é tocar você.
Ele desfez os laços do vestido dela com dedos trêmulos mas ágeis. A seda branca deslizou pelos ombros, revelando a pele alva que brilhava na penumbra. Himmel parou por um segundo, admirando-a como se ela fosse uma divindade profanada. Ele tocou o ventre dela, aquele monte suave que abrigava o filho de outro, e em vez de ódio, sentiu uma reverência triste. Ele beijou a pele sobre o ventre, um gesto de aceitação e desafio.
Frieren soluçou, a cabeça jogada para trás, os olhos fitando o teto de pedra.
— Eu estou com medo — confessou ela, a voz quebrada. — Estou com tanto medo, Himmel.
— Eu também — respondeu ele, levantando-se para beijá-la novamente, desta vez com uma ternura dolorosa. — Mas olhe para mim, Frieren. Olhe para mim. Eu estou aqui. Eu sou real. Isso é real.
Quando ele a tocou intimamente, não houve magia, não houve luz estelar. Houve calor. Houve atrito. Houve a umidade e a pressa de duas criaturas que sabem que o tempo está acabando. Frieren sentiu-se ancorada pela primeira vez em séculos. O toque de Himmel era imperfeito, era áspero, era humano. E era viciante.
Eles se amaram ali, na penumbra da tempestade, cercados pelo perigo iminente. Cada toque era uma despedida, cada suspiro uma confissão. Himmel a amava com a fúria de quem sabe que vai perder, e Frieren o recebia com a avidez de quem sabe que jamais encontrará aquilo novamente.
Quando o clímax veio, Frieren mordeu o ombro de Himmel para não gritar, abafando o som que poderia condená-los. Himmel enterrou o rosto no pescoço dela, tremendo, derramando-se nela, entregando a ela a única coisa que ele tinha: sua própria vida.
Ficaram assim por um longo tempo, o silêncio retornando ao quarto, quebrado apenas pela respiração descompassada dos dois e pelo som da chuva que agora caía torrencialmente lá fora. Himmel não a soltou, e Frieren não pediu para ser solta. Ela sabia que, ao amanhecer, a coroa voltaria para sua cabeça, e o peso do mundo esmagaria esse momento.
Mas, naquela noite, naquele breve intervalo roubado da eternidade, ela não era a Rainha dos Elfos, e ele não era o Parteiro. Eram apenas um homem e uma mulher, tentando desesperadamente não se afogar na solidão um do outro.
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