Notas iniciais
Espero que gostem das coisas estranhas que saem da minha cabeça.

Legolas era uma tempestade contida dentro daquela pequena cabana. Seus passos mediam o cômodo de um lado para o outro, desviando dos móveis rústicos e das frestas irregulares do assoalho com uma agilidade que beirava o sobrenatural. Havia dado tantas voltas nas últimas horas que a geografia daquele lugar miserável já estava gravada em sua mente: a madeira gasta, o cheiro de fuligem e gordura, a mesa de jantar ridicularmente pequena para a ninhada que ali habitava.

Eram cinco filhos — quatro meninas e um garoto — e a mãe. Todos humanos. Todos efêmeros.

A angústia corroía o elfo por dentro. Frieren precisava de um boticário élfico, de magia antiga e cura, mas estavam a dias de viagem de Ithilien. Aquela cabana isolada fora o único refúgio encontrado em quilômetros de estrada deserta. O bebê, contrariando a natureza lenta de sua espécie, decidira vir ao mundo antes da hora.

A gestação de um elfo é um ciclo longo, arrastando-se por cerca de cinco anos. É um milagre raro, frágil e perigosamente exaustivo para a mãe. Legolas e Frieren estavam unidos há duas décadas, e somente agora o destino lhes sorrira. Ele jamais esqueceria o brilho nos olhos dela quando, durante a viagem, ela revelou que seus ciclos lunares haviam cessado.

Ele torcia, com um fervor quase religioso, para que seu primogênito sobrevivesse. Finalmente, teria a quem legar seus princípios, sua história, sua longa vida. Seria pai. O pai da criança gerada pela elfa mais bela que já caminhara sobre a terra. Frieren não era apenas sua esposa; era sua amiga de infância, o alicerce de sua existência imortal.

Um grito abafado atravessou o corredor, rasgando o silêncio e o coração de Legolas. O som de dor de Frieren o paralisou.

— Você vai abrir um buraco no chão de tanto andar em círculos — disse uma voz jovem e masculina, vinda do canto da sala.

Era o garoto, o único filho homem da casa. Humanos se reproduzem como ratos, pensou Legolas, sentindo o asco subir pela garganta.

— Minha mãe é a melhor parteira da região — continuou o jovem, com uma confiança que não lhe pertencia. — Não precisa se preocupar.

Legolas parou. Seus olhos, afiados como lâminas, fixaram-se no garoto. A preocupação do elfo era de uma natureza que aquele humano jamais compreenderia; o parto de um elfo não era um evento mundano, era uma batalha entre a vida e a morte mágica.

— Será que eu mato você? — A voz de Legolas saiu baixa, fria, destituída de qualquer empatia. — Para mim, não faria diferença alguma apagar sua existência. Afinal, em menos de um piscar de olhos, outros iguais a você nascerão para ocupar o espaço.

— Você está ameaçando as únicas pessoas que concordaram em te ajudar?

O garoto, Himmel, não recuou. Era jovem demais para compreender a complexidade do ser à sua frente ou o peso real da morte. Sua bravura era, na verdade, a ignorância da juventude. Ele sustentou o olhar do guerreiro imortal.

— Me pergunto se você é corajoso ou apenas um tolo — disse Legolas, com um sorriso de escárnio. — De qualquer forma, não pretendo derramar sangue hoje.

Era um costume sagrado, uma superstição enraizada: a violência maculava o nascimento. Segundo as crenças antigas, tirar uma vida enquanto outra tentava chegar ao mundo era uma sentença de morte para o recém-nascido. O sangue não deve chamar sangue, dizia o ditado.

Novos gritos ecoaram, mais agudos. Três meninas idênticas passaram correndo por eles, como vultos assustados, indo em direção à cozinha.

— Himmel! — A voz de sua mãe soou do quarto, urgente. — Traga água quente, agora!

O jovem humano correu para a cozinha, passando por Legolas com uma cautela desconfiada. As irmãs retornaram ao quarto carregando pilhas de panos limpos. Himmel as seguiu logo depois, equilibrando um balde de água fumegante que fora aquecido no fogão a lenha.

Ao entrar no quarto, o cheiro metálico de sangue o atingiu primeiro. Mas foi a visão que o paralisou.

Ele deixou o balde ao lado da mãe, mas seus olhos foram traídos por sua própria curiosidade. Apesar da cena sangrenta e do caos, a beleza de Frieren era estonteante, quase dolorosa. A elfa estava coberta por uma túnica de linho fino, agora empapada de suor e sangue, que se tornara translúcida. O tecido aderia à pele alva, deixando expostos os contornos de seus seios redondos e túrgidos pela gravidez.

Himmel engoliu em seco. O sofrimento no rosto dela não diminuía sua aura etérea; pelo contrário, dava-lhe uma vulnerabilidade profana. Ele sentiu o rosto queimar e, involuntariamente, suas partes íntimas reagiram, latejando contra o tecido grosseiro de suas calças. Nunca vira uma mulher naquele estado. A mistura de terror, sangue e nudez despertou algo primitivo e confuso em seu corpo adolescente.

Ele girou os calcanhares para sair, envergonhado, mas uma sombra alta bloqueou a porta.

Legolas o olhou de cima a baixo. Nada escapava aos sentidos aguçados de um elfo. Ele notou a respiração descompassada do garoto, o rubor nas faces e o volume denunciador entre as pernas.

— Você ficou excitado com a minha esposa? — A pergunta de Legolas foi um sussurro venenoso, carregado de uma fúria ancestral. — Eu poderia castrá-lo agora mesmo e torná-lo um eunuco antes que você pudesse piscar.

— Eu... não tive a intenção... — gaguejou Himmel, o terror finalmente superando a bravura. — Nunca vi uma mulher nua... Eu não tenho como controlar...

Num movimento rápido demais para os olhos humanos acompanharem, Legolas agarrou o garoto pela virilha, apertando com força suficiente para causar uma dor aguda, paralisante. Himmel abafou um grunhido, os olhos marejados.

— Vou te dar um conselho, rato — sibilou Legolas, aproximando o rosto do ouvido do garoto. — Sempre que estiver prestes a tomar uma decisão na vida, nunca decida com a cabeça de baixo. Decida com a de cima. Se essa fraqueza governar você, sua vida será ainda mais curta do que já está destinada a ser.

A mão do elfo se afrouxou, e toda a confiança arrogante de Himmel se esvaiu, restando apenas a vergonha humilhante de um menino. Legolas deu um passo para o lado, oferecendo espaço para a fuga. Himmel correu, tropeçando nos próprios pés.

Naquela noite, o silêncio caiu pesado sobre a casa. O choro do bebê nunca veio. O filho de Legolas e Frieren nasceu natimorto, uma pequena vida apagada antes de começar.

Enquanto o luto devastava o casal de elfos no quarto dos fundos, no sótão, Himmel estava acordado. A tragédia da morte não foi suficiente para apagar a imagem que queimava em sua retina. Envolto na escuridão, com a culpa e o desejo travando uma guerra em sua mente, o garoto se masturbou pela primeira vez. Ele fechava os olhos e via Frieren: a dor, a túnica transparente, o sangue rosado e a beleza proibida.

Ele não sabia, naquele momento de prazer culposo e profano, que aquela cena ficaria gravada em sua alma como uma cicatriz. E muito menos poderia imaginar que, dez anos depois daquele dia fatídico, o destino cruzaria seus caminhos novamente.


Notas finais
Eu amo o Legolas mas quis que ele fosse um pouco mais tirano e intolerante na história.