A Última Garrafa de Dorwinion - Frimmel
2 Cinzas e Sussurros de Ithilien
Dez anos não foram suficientes para limpar a fuligem da alma de Himmel.
O tempo, para os humanos, é um carrasco implacável. Enquanto para Legolas e Frieren uma década não passava de um suspiro, para o garoto — agora um homem feito, de ombros largos e olhar endurecido — foi uma eternidade de penitência.
Ainda jovem, Himmel aprendeu que o fogo não purifica; ele apenas devora. A imagem daquela noite fatídica o visitava sempre que fechava os olhos, competindo em horror com a memória proibida da elfa nua. Não houve aviso, nem tempestade. O incêndio em sua casa não começou em um ponto e se alastrou; ele eclodiu, voraz e antinatural, consumindo a madeira velha de todos os lados simultaneamente.
Ele se lembrava dos gritos. Não os de sua mãe, a parteira forte, nem os de suas irmãs. Elas não tiveram tempo de gritar. O som que o acordara fora o estalo das vigas cedendo e o rugido de chamas que pareciam vivas, dançando com uma inteligência perversa. Himmel escapara por uma janela estreita do sótão, caindo na terra batida enquanto o mundo que conhecia se convertia em uma pira funerária.
Ninguém sobreviveu. A melhor parteira da região e suas quatro filhas tornaram-se pó e memória. A causa do fogo permaneceu um mistério que as autoridades locais não se deram ao trabalho de investigar. Para o mundo, eram apenas camponeses azarados. Para Himmel, foi o fim de sua inocência e o início de sua errância.
Sem lar e sem raízes, ele se tornou uma sombra nas estradas da Terra Média.
Himmel vagou por vilarejos esquecidos e cidades fortificadas, oferecendo sua espada para quem pagasse, fazendo trabalhos que homens honrados recusariam. O conselho de Legolas, sussurrado com veneno em seu ouvido anos atrás, tornou-se seu mantra distorcido. "Decida com a cabeça de cima". Himmel levou aquilo ao pé da letra, matando suas emoções, tornando-se frio, calculista. Sobreviveu como um rato, exatamente como o elfo previra, mas um rato que aprendera a morder a jugular.
Seus pés calejados o levaram, eventualmente, para as fronteiras de Gondor. Ele estava cansado, sujo e faminto, sentado no canto escuro de uma estalagem decrépita perto das margens do Anduin. O ar cheirava a cerveja choca e suor azedo.
— Dizem que as terras ao leste do rio estão florescendo novamente — comentou um mercador gordo na mesa ao lado, a voz pastosa pela bebida. — Desde que o Senhor dos Elfos assumiu o controle de Ithilien.
Himmel, que limpava distraidamente a lâmina de sua adaga com um pedaço de pão velho, parou. A menção a "elfos" sempre fazia seus nervos retesarem.
— Ithilien? — zombou outro homem, um guarda com a armadura amassada. — Aquele lugar era um ninho de orcs e sombras. Quem seria louco de governar lá?
— Um príncipe da Floresta das Trevas — respondeu o mercador, baixando o tom como se contasse um segredo de estado. — Legolas Verdefolha. Dizem que ele trouxe a luz de volta àquelas matas.
O nome atingiu Himmel como um soco no estômago. O som daquelas sílabas, Le-go-las, destrancou um cofre em sua mente que ele mantinha selado a sete chaves. A respiração de Himmel falhou. O rosto arrogante do elfo, a mão esmagando sua virilha, a humilhação... tudo voltou com a clareza de um pesadelo recente.
— Mas não é pelo ouro ou pelas terras que os homens viajam até lá para espiar — continuou o mercador, soltando uma risada lasciva. — É pela esposa dele.
Himmel sentiu o sangue gelar e, ao mesmo tempo, ferver. O mundo ao redor desapareceu; o barulho da taverna tornou-se um zumbido distante.
— Dizem que ela é do povo Sindar — o mercador prosseguiu, descrevendo-a com as mãos no ar. — A criatura mais bela que os Valar já permitiram caminhar na Terra Média. Cabelos como a luz da lua, olhos que veem sua alma. O nome dela é Frieren.
Frieren.
A adaga na mão de Himmel cortou seu próprio dedo, mas ele não sentiu a dor. Uma gota de sangue caiu na mesa, vermelha e espessa.
A memória o assaltou violentamente. Ele viu novamente a cabana. Viu a túnica transparente grudada ao corpo suado, os seios expostos, a vulnerabilidade sagrada e profana daquela mulher em trabalho de parto. A imagem que o sustentara durante as noites solitárias de sua adolescência, que fora sua culpa e seu refúgio, agora tinha um endereço.
Dez anos. Ela não teria envelhecido um dia sequer. Continuaria sendo a visão imaculada que o atormentava. Já ele... ele era um homem agora. Não o garoto fraco que tremia diante de uma ameaça.
— Legolas e Frieren... — Himmel sussurrou para si mesmo, testando o gosto dos nomes em sua língua. Tinha gosto de cinzas e desejo.
Ele se levantou abruptamente, embainhando a adaga e jogando algumas moedas na mesa. Não tinha para onde ir, nenhum lar para voltar, nenhuma família para chorar. O fogo levara tudo, exceto aquela obsessão.
Himmel saiu da estalagem para a noite fria. O vento soprava do leste, trazendo o cheiro de florestas antigas e promessas perigosas. Ele sabia para onde iria. Iria para Ithilien. Não para pedir abrigo, não para se curvar. Ele iria para ver se o "Senhor dos Elfos" ainda o olharia com desdém. E, acima de tudo, iria para ver se Frieren ainda era real ou apenas um delírio de um menino que viu demais.
A jornada até Ithilien seria longa, mas pela primeira vez em dez anos, Himmel tinha um destino.
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