A Última Garrafa de Dorwinion - Frimmel
3 O Cálice Vazio de Ithilien
Ithilien florescia sob o toque de seus novos senhores. Onde antes havia apenas a sombra de Mordor e o fedor de orcs, agora cresciam jardins suspensos de hera prateada e jasmins noturnos, cujos perfumes embriagavam os ventos do leste. Mas a verdadeira joia daquelas terras não eram as flores, nem a arquitetura de mármore branco recuperada das ruínas; era ela.
No aposento real, banhado pela luz azulada da lua que entrava pelas grandes sacadas sem vidro, Legolas observava Frieren.
Ela estava deitada entre lençóis de seda que pareciam ásperos em comparação à suavidade de sua pele. Dez anos haviam se passado, mas o tempo não ousava tocar nela. Pelo contrário, parecia que sua beleza se refinava, tornando-se mais afiada, mais perigosa.
Legolas deslizou a mão pelas costas nuas da esposa, traçando a curva da coluna como se manuseasse o arco mais precioso de Lothlórien.
— Nem mesmo a Senhora Dourada, em toda sua glória em Lórien, possuía tal encanto — murmurou ele, a voz rouca, embriagada pelo desejo que nunca saciava.
Era uma blasfêmia entre os elfos comparar qualquer um à lendária Galadriel, mas Legolas não se importava. Galadriel era luz estelar, distante e fria. Frieren era a terra viva, pulsante, uma força da natureza capaz de criar e destruir. Ela possuía uma sensualidade que não pertencia aos elfos, algo visceral que o deixava louco, desarmado, despido de sua postura real.
Frieren virou-se para ele. Seus olhos, lagos profundos de sabedoria e malícia contida, capturaram os dele. Ela não precisou dizer uma palavra. Com um movimento fluido, inverteu as posições, colocando-se sobre ele. Seus longos cabelos caíram como uma cortina de prata, isolando os dois do resto do mundo.
O momento que se seguiu foi uma dança de imortais. Não havia pressa, apenas a intensidade de séculos de devoção. O toque dela queimava, seus lábios eram um decreto real ao qual ele obedecia cegamente. Legolas, o príncipe guerreiro, rendia-se completamente àquela fêmea poderosa, perdendo-se na curva de seu pescoço, no cheiro de chuva e flores silvestres que emanava de seus poros.
Quando a tempestade de paixão finalmente cessou, restando apenas o som de suas respirações entrelaçadas e o farfalhar das folhas lá fora, o silêncio mudou de textura. O calor dos corpos começou a esfriar, dando lugar a uma melancolia gelada que pairava sobre o leito real há uma década.
Frieren afastou-se ligeiramente, o olhar perdido no teto abobadado, onde afrescos de estrelas pintadas tentavam imitar o céu.
— O jardim está estéril, Legolas — disse ela, a voz subitamente frágil, contrastando com a deusa da luxúria de momentos atrás.
Ele sabia que ela não falava das flores de Ithilien. Legolas tentou puxá-la para perto, oferecer o conforto vazio que repetira mil vezes.
— Nós temos tempo, meleth nín. A eternidade é nossa aliada.
— A eternidade é uma maldição se o nosso povo desaparecer — ela o cortou, sentando-se na cama. A nudez agora não evocava desejo, mas uma tristeza crua. — Dez anos. Nenhum choro de bebê em nossas fronteiras. Nenhum nascimento em Rivendell, nem na Floresta das Trevas. Os úteros élficos fecharam-se como flores no inverno.
Legolas sentiu o peso daquelas palavras. Era verdade. Desde o natimorto que enterraram naquela cabana maldita, parecia que a própria natureza havia desistido dos elfos.
— Aquela família humana... — Frieren sussurrou, e o ar no quarto pareceu congelar. — Eles não eram simples camponeses, Legolas. Eu investiguei os textos antigos, as genealogias esquecidas pelos homens.
Legolas franziu a testa, lembrando-se com desgosto do garoto insolente e da cabana suja.
— Eram apenas humanos. Ratos de vida curta.
— Não — corrigiu ela, os olhos brilhando com uma certeza terrível. — Eles carregavam a bênção de Yavanna, o toque da Deusa da Fertilidade da Terra Média. Era uma linhagem antiga, guardiões de um segredo perdido. Por milênios as mulheres daquela família possuíram a magia necessária para trazer uma criança élfica ao mundo com segurança. Suas mãos não eram apenas carne; eram condutoras de vida.
Frieren levantou-se e caminhou até a sacada, a brisa noturna agitando seus cabelos.
— E nós os deixamos lá. Soube que, um pouco depois de partirmos, um incêndio misterioso consumiu tudo. A mãe... as quatro filhas... todas mortas. Nosso filho escolheu nascer naquela cabana, mas algo aconteceu…
Legolas sentiu um gosto amargo na boca. A lembrança do garoto humano veio à tona, mas ele a descartou rapidamente.
— O dom exigia o feminino sagrado — continuou Frieren, como se lesse os pensamentos dele. — Apenas as filhas herdavam a chama. Com a morte delas, a corrente se quebrou.
Ela virou-se para encarar o marido, e Legolas viu, pela primeira vez em séculos, o verdadeiro medo nos olhos de sua rainha.
— Somos poderosos, meu amor. Governamos terras, comandamos exércitos, e nossa beleza é cantada em baladas. Mas sem a benção de Yavanna... somos uma raça caminhando para a extinção. Nossa paixão é fogo, mas não gera nada além de cinzas.
Legolas caminhou até ela e a envolveu em seus braços, tentando protegê-la da verdade inevitável. Mas enquanto olhava para a floresta escura de Ithilien, não pôde deixar de sentir que a sombra daquela cabana distante ainda se estendia sobre eles, longa e vingativa.
O que ele não sabia, o que nem sua visão élfica podia prever, era que uma faísca daquela cabana ainda queimava, caminhando lentamente em direção a eles, trazendo consigo não a cura, mas uma dívida de sangue e desejo.
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