A Última Garrafa de Dorwinion - Frimmel
4 O Milagre nas Mãos de um Estranho
Himmel era uma mancha invisível na tapeçaria perfeita de Ithilien.
Havia três dias que ele rondava os jardins suspensos, camuflando seu cheiro humano com lama e ervas amargas, movendo-se apenas quando o vento agitava as folhas. Ele observava Frieren com a devoção de um fanático e a cautela de uma presa.
Ele a vira caminhar pelos bosques de hera prateada, sozinha, com o peso de uma coroa invisível curvando seus ombros delicados. Himmel queria se aproximar. Em sua mente, ele ensaiara mil vezes aquele encontro: ele sairia das sombras, agora um homem forte, e ela o reconheceria. Talvez sorrisse. Talvez a arrogância daquele marido maldito, Legolas, fosse quebrada ao ver que o "rato" havia sobrevivido.
Mas a coragem sempre falhava quando ele olhava para as sentinelas élficas, com suas armaduras reluzentes e olhos que pareciam ver através da pedra. Quem era ele? Um mercenário sujo. Um órfão das cinzas. A aproximação parecia um suicídio, e a dúvida o corroía como ferrugem. Ela nem se lembraria de mim, pensava ele, recuando para a escuridão, engolindo o orgulho e o desejo.
Naquela tarde, porém, a rotina de observação foi quebrada.
Frieren caminhava como um espectro de melancolia, absorvendo a adoração triste de seus súditos. O reino era belo, mas estéril. Himmel notava, de seu esconderijo na copa de um carvalho antigo, como os elfos a olhavam: com amor, sim, mas também com uma súplica silenciosa, como se pedissem a ela um futuro que ela não podia dar.
A quietude foi rasgada quando um elfo jovem rompeu a barreira dos guardas, jogando-se aos pés da Rainha.
— Minha Senhora! — O grito dele ecoou pelo vale. — Eu imploro... piedade. Minha esposa...
Himmel sentiu um arrepio na espinha. Ele conhecia aquele tom de voz. Era o som do desespero absoluto.
Ele viu Frieren ordenar que a levassem até lá. Viu a resignação nos ombros dela, como se estivesse marchando para um funeral, não para um salvamento. Sem pensar, movido por um instinto que gritava mais alto que sua autopreservação, Himmel desceu da árvore e seguiu a comitiva, mantendo-se nas sombras densas, um fantasma perseguindo a própria morte.
A casa ficava isolada, entre as raízes gigantescas de árvores ancestrais. Himmel se esgueirou até a parte de trás, pressionando as costas contra a madeira fria da parede externa.
Então, o primeiro grito veio.
Foi um som animal, cru, que atravessou a parede e perfurou o peito de Himmel. Ele fechou os olhos com força, e a memória o assaltou. Não era a elfa desconhecida gritando; era sua mãe. Eram suas irmãs queimando. Era Frieren, dez anos atrás, na cabana de sua infância.
Ele se arrastou até a janela entreaberta e espiou.
O quarto cheirava a sangue velho e medo fresco. A elfa na cama era uma visão de tormento, os lençóis ensopados, o rosto pálido como cera. O marido chorava num canto, inútil. E no centro de tudo, Frieren.
A Rainha dos Elfos segurava a mão da moribunda, mas seus olhos estavam vazios. Ela murmurava feitiços de cura, luzes douradas emanavam de seus dedos, mas dissipavam-se ao tocar o ventre inchado. Magia não podia consertar o que a natureza havia torcido.
— Shh... vai acabar logo — sussurrou Frieren.
Himmel sentiu uma raiva súbita ferver em seu estômago. Ela estava desistindo. A poderosa, a imortal, a divina Frieren estava ali, apenas esperando a morte chegar, impotente.
Eles vão morrer, pensou Himmel, o coração batendo contra as costelas como um martelo. Se eu não fizer nada, eles morrem.
Ele olhou para suas próprias mãos. Eram mãos de assassino agora, calejadas pela espada e marcadas por cicatrizes. Mas, sob a sujeira, ainda eram as mãos do filho da mulher que trouxe inúmeras vidas à Terra Média. Ele se lembrou das noites observando sua mãe trabalhar, dos movimentos precisos, da força bruta necessária para virar uma vida ao avesso e trazê-la à luz.
Outro grito da elfa, gorgolejante, sufocado. O som da vida se apagando.
Himmel olhou para Frieren novamente. Viu uma lágrima solitária escorrer pelo rosto dela. Aquela lágrima foi o gatilho. Ele não podia suportar vê-la falhar. Ele não podia suportar ser apenas um espectador novamente, enquanto o fogo consumia tudo.
Ele respirou fundo, puxou o capuz para cobrir parte do rosto e saltou para dentro do quarto.
O som de suas botas no assoalho de madeira foi como um trovão.
— Eu posso salvá-la.
A voz saiu rouca, arranhada pelo desuso. O marido da elfa levantou-se num salto, sacando uma adaga com mãos trêmulas. Frieren virou-se lentamente, os olhos arregalados, passando do luto para o choque defensivo.
— Quem é você!? — O elfo rosnou, o rosto contorcido de ódio. — Saia daqui antes que eu corte sua garganta, carniceiro! Como ousa invadir...
— Ela vai morrer — cortou Himmel, ignorando a lâmina apontada para seu peito e fixando o olhar obsessivo apenas em Frieren. — E o bebê também. Você sabe disso, Rainha. Você está aqui para velar, não para salvar.
Frieren estreitou os olhos. A insolência daquele intruso era atordoante, mas havia algo... uma familiaridade perturbadora na linha dura de seu maxilar, na intensidade febril com que ele a devorava com os olhos.
— É impossível — disse Frieren, a voz fria como o inverno, tentando recuperar a autoridade. — A arte do parto élfico exige a Bênção de Yavanna. Nenhum homem, muito menos um humano sujo da estrada, jamais realizou tal feito. É uma blasfêmia tocar nela.
— A bênção está nas mãos que sabem o que fazer, não no que tenho entre as pernas ou na raça que carrego — retrucou Himmel, áspero. — Minha mãe era a melhor. Eu vi mil vezes. Eu sei como virar a criança. Eu sei onde pressionar.
A elfa na cama arquejou, o corpo convulsionando.
— Deixe-me tentar — insistiu Himmel, dando um passo à frente, erguendo as palmas das mãos para mostrar que, apesar da sujeira, estavam firmes. — Ou deixe-os morrer e mantenha seu orgulho intacto. Qual será sua escolha, Frieren?
O uso de seu nome, sem títulos, sem reverência, fez Frieren vacilar. O marido olhou para a esposa moribunda, depois para Frieren, implorando silenciosamente. A lógica ditava matar o invasor. O coração gritava por um milagre.
— Se ela morrer pela sua lâmina ou pela sua incompetência — sibilou Frieren, recuando um passo, abrindo caminho —, você não sairá deste quarto vivo. Eu mesma o desfarei.
— Água quente e panos limpos. Agora! — Himmel bradou, assumindo o controle do caos.
Ele empurrou o marido atônito para fora do caminho e ajoelhou-se ao pé da cama. Sem a menor cerimônia ou pudor, rasgou a túnica de baixo da elfa. Frieren observou, tensa, com magia crepitando na ponta dos dedos, pronta para pulverizá-lo ao menor sinal de malícia.
Mas Himmel entrou naquele campo de batalha com uma frieza assustadora.
Sua mente dividiu-se. Uma parte era técnica, lembrando onde colocar as mãos, como sentir a posição da criança através da carne. A outra parte era um turbilhão sensorial: o cheiro de Frieren tão perto dele, misturado ao odor ferroso do sangue, a adrenalina de estar tocando o proibido.
— Empurre! — comandou ele, a voz autoritária. — Olhe para mim! Não ouse fechar os olhos agora!
Ele inseriu as mãos, manobrando com uma brutalidade necessária que fez Frieren estremecer. Aquilo não era magia. Era físico, era visceral, era sujo. Himmel lutava contra a anatomia élfica, suando frio, murmurando maldições e comandos.
— Eu o tenho — grunhiu ele, os músculos dos braços tremendo pelo esforço. — Mais uma vez! Com tudo o que você tem! Pela sua vida!
Houve um som úmido, um rasgo, e então o silêncio pesado foi quebrado.
O choro.
Alto, estridente, furioso. O som de pulmões novos enchendo-se de ar.
Himmel puxou a criança, um menino coberto de verniz e sangue, e o ergueu contra a luz da janela. O cordão pulsava, vivo. A mãe desabou nos travesseiros, chorando de alívio.
O tempo parou no quarto. Frieren olhava para a cena, os lábios entreabertos em descrença total. O impossível, o inimaginável, acontecera diante de seus olhos. Um homem, um humano que cheirava a estradas e morte, havia realizado o milagre que a magia milenar dela não conseguira.
Himmel limpou o suor da testa com o antebraço, deixando um rastro de sangue no rosto, e entregou o bebê à mãe. Só então, com a respiração pesada, ele se virou para encarar Frieren.
Ele estava exausto, trêmulo, mas seus olhos brilhavam com um triunfo selvagem. Ele não era mais o garoto que fugira de Legolas. Ele acabara de provar que era necessário.
— Está feito — disse ele, a voz falhando.
Frieren saiu de seu estupor. A gratidão momentânea foi esmagada pela astúcia política e pelo choque. Aquele homem era perigoso. Ele possuía o segredo da sobrevivência de sua raça. Ele havia quebrado as leis da natureza.
— Guardas! — A voz de Frieren estalou como um chicote, quebrando o feitiço do momento.
A porta foi escancarada e quatro sentinelas armados entraram, lanças apontadas para o peito de Himmel.
— Lady Frieren… É um milagre…— balbuciou o pai da criança, confuso, abraçando a esposa.
— Levem-no — ordenou Frieren, apontando para Himmel. Sua expressão era impenetrável. — Levem-no para os aposentos de segurança do palácio. Acorrentem-no, se necessário, mas não o machuquem.
Himmel não resistiu quando as mãos fortes dos guardas o agarraram. Ele não lutou. Ele apenas manteve os olhos fixos nos de Frieren enquanto era arrastado para fora.
Um sorriso sutil, quase imperceptível e cheio de arrogância, curvou os cantos dos lábios dele. Ele tinha conseguido. Ele não era mais uma sombra.
— Como desejar... minha Rainha — murmurou Himmel, deixando-se levar, sabendo que, a partir daquele momento, a vida dela giraria em torno dele.
Fale com o autor