A cela não era o calabouço úmido que Himmel esperava.

Em Ithilien, até mesmo a prisão possuía uma beleza cruel. As paredes eram de pedra branca, polidas até parecerem ossos lisos, e a única fonte de luz vinha de uma fenda alta no teto, por onde o luar escorria como leite derramado. Não havia grades de ferro enferrujado, apenas uma porta de madeira maciça reforçada com amarras de mithril.

Himmel estava sentado no chão frio, as costas apoiadas na parede. Ele olhava para as próprias mãos. O sangue do parto já havia secado, incrustando-se nas cutículas e nas linhas da palma, uma prova marrom avermelhada do milagre que ele operara.

O silêncio era absoluto, exceto pelo som de sua própria respiração e pelo tumulto em sua mente. O que ele esperava que acontecesse agora? Ele não tinha um plano de fuga. Na verdade, ele nunca teve um plano para depois. Sua vida inteira, desde o incêndio, fora uma flecha disparada em uma única direção: Frieren. Agora que atingira o alvo, sentia-se estranhamente vazio, como um vaso quebrado.

O som de trincos sendo destravados o tirou de seu torpor. A porta se abriu sem ranger, e ela entrou.

Frieren dispensou os guardas com um gesto sutil de mão. Quando a porta se fechou atrás dela, o ar na cela mudou. Ficou mais frio, mais rarefeito, carregado com o cheiro de ozônio e flores noturnas que ela exalava.

Ela não disse nada a princípio. Apenas o observou. Seus olhos milenares varreram Himmel de cima a baixo, analisando-o não como um homem, mas como um enigma, uma falha na lógica do mundo.

— Você cheira a sangue seco e audácia — disse ela, finalmente. A voz era calma, mas havia uma vibração nela que fez os pelos da nuca de Himmel se arrepiarem.

Himmel soltou uma risada curta e seca, sem levantar-se. Ele permaneceu sentado, uma afronta calculada à etiqueta real.

— E você cheira a lavanda e... desespero — retrucou ele, erguendo o rosto para encará-la. — Uma combinação inebriante, Majestade.

Frieren não recuou diante da insolência. Ela deu um passo à frente, o farfalhar de seu vestido de seda soando alto no silêncio de pedra.

— Eu sabia que você estava lá — revelou ela, ignorando o comentário dele. — Senti sua presença na floresta há três dias. Você é furtivo para um humano, mas sua alma faz barulho. É inquieta.

Himmel arqueou uma sobrancelha, surpreso, mas mascarou o choque com um sorriso torto.

— E mesmo assim, permitiu que um "rato" seguisse a Rainha? Isso é negligência ou curiosidade mórbida?

— Não senti hostilidade — respondeu Frieren, inclinando a cabeça levemente, como um pássaro estudando um inseto. — Senti... fome. Uma fome estranha, que não era por comida ou ouro. Eu estava curiosa para ver até onde você ousaria ir.

— Bom, eu invadi a casa daquele homem e coloquei minhas mãos dentro de uma de suas súditas — disse Himmel, estendendo as mãos sujas na direção dela, num gesto teatral. — Acho que isso responde à sua pergunta sobre a minha ousadia.

Frieren olhou para as mãos dele. Por um breve segundo, a máscara de frieza dela trincou. Ela viu aquelas mãos operando o impossível, trazendo vida onde só havia morte. Uma onda de calor, estranha e indesejada, subiu pelo pescoço dela. Não era apenas gratidão; era uma atração biológica, primitiva, por aquele macho que possuía a chave da sobrevivência de sua espécie. Ela odiou sentir aquilo.

— Quem ensinou você? — perguntou ela, mudando de assunto para recuperar o controle. — A bênção de Yavanna nos abandonou há anos. Como um homem... um mercenário sujo... detém esse conhecimento?

Himmel encostou a cabeça na pedra fria, fechando os olhos por um momento. A imagem de sua mãe veio à tona, mas ele a empurrou para o fundo da mente.

— Olhos atentos aprendem o que os livros não ensinam, Frieren — ele usou o nome dela novamente, saboreando a intimidade proibida. — Eu assisti. Eu memorizei. E ao contrário do seu povo, que vive eternamente e esquece a urgência da vida, eu sei que cada segundo conta.

Ele abriu os olhos. Ela estava mais perto agora. Tão perto que ele podia ver os minúsculos pontos dourados na íris verde dela.

— Você salvou aquele bebê — admitiu ela, a voz baixando para um sussurro. — Legolas queria sua execução imediata. Ele diz que você usou feitiçaria negra. Que corrompeu a mãe e a criança.

— E o que você diz? — desafiou Himmel.

— Eu digo que vi um milagre — ela confessou, e a honestidade daquelas palavras pairou pesada entre eles. — Mas milagres têm preços. O que você quer, humano?

A pergunta pairou no ar. O que ele queria?

Himmel abriu a boca para responder com sarcasmo, para pedir ouro, terras, ou um título nobre, qualquer coisa que um mercenário pediria. Mas as palavras morreram em sua garganta.

Ele olhou para Frieren. Realmente olhou para ela. Viu a solidão nos olhos imortais, a beleza que havia assombrado sua adolescência e destruído sua capacidade de amar qualquer outra mulher. Ele percebeu, com uma clareza dolorosa, que não havia recompensa. Não havia "final feliz". Ele era um humano, um grão de areia na ampulheta dela.

A ironia desapareceu de seu rosto, substituída por uma vulnerabilidade crua que ele raramente mostrava.

— Eu não vim por ouro — disse ele, a voz rouca.

— Então por quê? — insistiu Frieren, dando mais um passo, invadindo o espaço pessoal dele. A curiosidade dela era quase palpável, misturada a um magnetismo que a puxava para ele contra a sua vontade. — Por que arriscar a morte para seguir uma elfa que nem sabia que você existia?

Himmel hesitou. Como explicar que a visão dela, nua e coberta de sangue dez anos atrás, havia se tornado sua religião e sua maldição? Como dizer que ele procurou a morte em cada batalha, mas a única coisa que o manteve vivo foi a esperança delirante de vê-la mais uma vez?

Ele levantou o olhar, encarando-a com uma intensidade que a fez prender a respiração.

— Porque olhar para você... — ele começou, tateando as palavras. — Apenas olhar para você, Frieren, valeu cada quilômetro de poeira, cada noite de frio e cada ano de solidão que passei vagando por essa terra maldita.

Frieren ficou estática. Ela esperava ganância, luxúria vulgar ou arrogância. Não esperava aquela devoção silenciosa e devastadora. O coração dela, que batia num ritmo lento e imortal, falhou uma batida. Ela sentiu uma vertigem, uma confusão emocional que não experimentava há séculos. Aquele humano, aquele "rato", a estava despindo com palavras, não de roupas, mas de suas defesas.

— Você é um tolo — sussurrou ela, mas não havia veneno na voz. Apenas um espanto genuíno.

— Sou — concordou Himmel, um sorriso triste e cansado curvando os lábios. — Sou o maior tolo da Terra Média. Mas hoje, eu segurei a vida nas minhas mãos e a entreguei a você. Isso é mais do que qualquer Rei Élfico fez em uma década.

Frieren recuou, atordoada pela verdade daquela afirmação e pelo perigo que aquele homem representava para o seu equilíbrio. Ela precisava sair dali. O ar na cela estava ficando escasso, quente demais, humano demais.

Ela girou nos calcanhares, a seda chicoteando o ar.

— Descanse — ordenou ela, sem olhar para trás, a mão tremendo levemente ao alcançar a maçaneta. — Seu destino será decidido amanhã.

Quando a porta bateu e a tranca girou, Himmel soltou o ar que prendia. Ele encostou a testa nos joelhos e riu, um som baixo e sem alegria. Ele não sabia se viveria para ver o sol nascer, mas naquela noite, na escuridão daquela cela, ele sabia que havia plantado uma semente de caos no coração intocável da Rainha. E, por enquanto, isso bastava.