A Última Filha - Predador
3 Capítulo Três
– Certo. Alguém sabe onde está meu caderno? – Perguntei aos meninos enquanto entrava pela porta do escritório do papai.
Nero, Gareth e Jean me olharam surpresos. Todos eles estavam sentados numa cadeira de esqueletos conversando sobre algo que não sei. E ainda por cima cada um deles usava alguma coisa do papai. Gareth usava o elmo, Nero o peitoral e Jean a capa. Eu me lembro de Jean, quando criança, ficar correndo de um lado para o outro do castelo fingindo que podia voar. Eu pisquei algumas vezes para fugir desse pensamento vergonhoso.
– Não deveria estar na escola? – Gareth perguntou.
– É, mas estou procurando meu caderno, alguém viu?
Eu olhei para Gareth.
– Eu não vi.
Olhei para Nero.
– Eu também não.
E Jean.
– Não me olha, eu não sei de nada.
Eu suspirei frustrada e disse:
– Papai vai adorar saber que vocês estão aqui brincando.
– Está bem. Você venceu. – Nero disse bravo. Eu lhe dei um sorriso vitorioso.
– Por que não procura na sala de treinamento? – Ele sugeriu.
– Eu vou ver. – Eu lhe disse. – E obrigada pela compreensão.
Eles me olharam sérios e saí com um sorriso maior ainda.
Quando cheguei à sala de treinamento ouvi alguns barulhos. Coloquei a orelha na porta e escutei alguém treinando lá, e quando abri vi que era Ross. Ele estava atacando a madeira de treinamento. Por algum motivo sempre que as despedaçamos ela sempre volta ao seu estado original.
Ele parou por um segundo e me olhou, mas quando viu que era eu, me ignorou e voltou a atacá-la com a espada.
Eu caminhei até está perto suficiente para que ele pudesse me ouvir bem, então eu disse:
– Oi.
Ele me espiou pelo canto dos olhos por um momento e disse:
– Oi.
Eu fiz uma careta e perguntei:
– Só isso?
Ele parou e me olhou confuso.
– O que?
– Duas palavras, quatro letras, e uma sílaba cada. É não estamos progredindo. – Eu disse triste.
Ele colocou a espada no chão e se apoio nela.
– Progredindo com o que?
– Agora sim. – Eu disse com um sorriso, mas ele continuou a me olhar sério então meu sorriso desapareceu.
– Ross, não precisamos continuar com isso.
Ele me ignorou e perguntou:
– O que faz aqui?
– Eu ia te fazer a mesma pergunta, por que não está no acampamento?
– Dia de visitar a família. – Ele disse rudemente.
– E por que ainda não foi? – Usei o mesmo tom de voz.
– Estou aqui, não estou?
– Eu quis dizer sua outra família.
Ele me olhou irritado e perguntou:
– Por que não vai embora?
– Eu bem que queria, mas estou sem meu caderno, você o viu?
Ele suspirou, então foi até a mesa e tirou sua jaqueta de couro e ali estava meu caderno. Ele o pegou, veio até mim e me ofereceu.
– Agora já pode ir. – Ele disse friamente.
Eu olhei seus olhos gelados, hesitante, então abaixei o olhar e o peguei. E ele voltou a treinar.
Ainda de olhar baixo eu perguntei:
– Ross, eu sei que você está bravo comigo, mas não podemos esquecer isso?
Ele me ignorou enquanto atingia a madeira. Eu me irritei e então fui até a mesa e peguei uma adaga, e então a joguei no tronco, acertando o meio de um x feito com a espada que Ross usava. A adaga havia passado rapidamente pelo seu ombro sem ele perceber, mas quando ele a viu cravada no tronco se virou e me olhou confuso.
– É assim que suas palavras me atingem, acertam o alvo. – Eu disse rudemente, então me virei e caminhei para a saída.
...
– Ainda saem matérias suas no jornal. – Noah me disse mostrando um jornal que datava a data de hoje.
Eu estava no armário quando ele veio falar comigo. Eu o jornal peguei e o olhei. “Garota das mãos de fogo.”, esse era o nome da matéria.
Eu lhe devolvi o jornal e disse:
– Nome original.
Ele me ignorou e disse:
– Pensei que seu irmão tivesse persuadido o prefeito.
– Bom, ele não persuadiu o suficiente para as matérias de jornais, mas para pagar todo o prejuízo da cidade sim.
– Mas isso é ruim, não é? – Noah perguntou preocupado.
Eu fechei o armário, me virei para ele e disse:
– Noah, matérias de jornais nem sempre são verdadeiras, todos acham que tudo foi um truque com fogo, as câmeras não gravaram direito.
– Tem certeza disso?
Eu sorri, lhe dei um selinho e disse:
– Deixa que eu me preocupo com isso, está bem?
Ele não gostou muito, mas concordou.
Eu olhei para o lado e vi algumas meninas olhando fixamente para algo atrás de nós, e quando voltei a olhar Noah, ele olhava por cima do meu ombro, mas sua expressão era de confusão. Então olhei para trás e foi quando eu vi um garoto do tamanho de Noah de cabelo castanho e liso, de pele um pouco bronzeada e olhos castanhos, profundos e penetrantes. Eu sei que é feio encarar desse jeito, mas ele era diferente... Ele me olhou nos olhos enquanto passava, e por algum motivo ele passava em câmera lenta, tipo em filmes quando um cara lindo passa e a garota o vê, e instantaneamente se apaixona, mas não que eu estivesse apaixonada e nada do tipo, e então senti um beliscão no meu braço que me tirou da minha linha de pensamentos.
– Ai. – Eu disse auto.
Eu olhei para Noah e ele fazia uma cara feia. Eu franzi as sobrancelhas e perguntei:
– Qual é o seu problema?
Ele mandou um olhar para o garoto que passava, quando eu o olhei de volta ele olhava para o chão. Eu continuei o fuzilar com os olhos quando ele estava de costas passando e então perguntei:
– Quem é a figura?
– Bom, hoje eu descubro.
Eu o olhei e o sinal tocou. Eu ajeitei a mochila em minhas costas e disse:
– Preciso ir. Te vejo depois.
– Certo. – Ele disse me puxando e me beijando.
Quando cheguei a minha sala o garoto novo estava lá, eu arregalei os olhos e hesitei em entrar, as pessoas passavam por mim me olhando do mesmo jeito que me olhavam quando me viram com Noah pela primeira vez. Eu respirei fundo e então entrei. Era aula de química e ele estava sentado ao meu lado, e de agora em diante ele seria meu parceiro pelo jeito.
Eu me sentei completamente nervosa. Por que eu estou nervosa? Por algum motivo ele tinha uma vibração que me atingia em cheio.
Mantenha distância. Foi isso que a vozinha da minha cabeça disse.
Eu fixei os olhos no quadro negro e esperei a aula começar.
– Oi. – O garoto disse ao meu lado depois de alguns segundos. O olhei surpresa. – Eu sou novo aqui.
Eu balancei a cabeça lentamente e disse:
– Eu sei.
– Meu nome é Alan. – Ele estendeu a mão para mim. Eu estiquei a minha para ele e a apertei.
– E o seu? – Ele perguntou depois de um tempo, que eu só o continuei o encarar.
– Ah, é Haide. – Eu disse soltando sua mão e voltando a olhar para frente.
Ficamos em silêncio até a aula terminar, mas de vez em quando eu sentia seus olhos em mim.
Quando o sinal tocou fiquei agradecida.
Tentei saí rapidamente, mas ele me chamou:
– Haide.
Eu parei com uma careta e então me virei lentamente.
– Ah, sim?
Ele veio até mim e disse:
– Poderia me mostrar à próxima aula?
Eu o olhei surpresa e perguntei:
– Ah, claro. Qual é a próxima?
– Espanhol.
– Certo. Siga-me.
Saímos da sala e andamos pelo corredor.
– Sempre morou aqui? – Ele perguntou.
Eu o olhei e disse:
– Sim. E você? É de onde?
– Phoenix.
– Lugar quente. Deve ser bem diferente morar aqui, não é? – Perguntei.
– Não muito. Já estive em vários lugares. – Ele disse com algo mais na voz.
Eu o olhei confusa, mas não disse nada.
Viramos o corredor a esquerda e apontei o dedo para o nosso lado direto.
– Bom, essa é sua sala.
Ele me deu um sorriso e disse:
– Obrigado.
Eu lhe mandei um sorriso nervoso e ele se virou. Quando ele havia desaparecido dentro da sala, suspirei aliviada e me virei.
Enquanto caminhava pelo corredor algo me puxou, para dentro da sala do zelador. Quando a luz se acendeu ali dentro pude ver que era Gareth.
Eu o olhei irritada e disse:
– Seu idiota. – Eu disse estupidamente.
– Pensei que tivesse parado com isso? – Ele perguntou cruzando os braços.
Eu o ignorei e disse:
– Eu podia ter te matado.
– Até parece. – Ele disse com um tom zombeteiro.
– O que faz aqui?
– Só queria saber se você estava bem.
Eu levantei as sobrancelhas e perguntei:
– Desde quando se importa comigo?
Ele me olhou irritado e disse:
– Você é minha irmã.
– E daí?
Ele revirou os olhos e disse:
– Aconteceu um acidente.
Eu o olhei Gareth entorpecida e perguntei:
– Eles estão bem?
– Não é com nossos irmãos. — Ele me garantiu. Eu suspirei aliviada e ele continuou. — Houve um assassinato.
– Quem foi que morreu?
– Dóris.
– Não é a filha de...?
– Poseidon? É.
– Como ela morreu?
– Morta com a própria espada.
Eu balancei a cabeça lentamente e perguntei:
– Quem a matou?
– Ninguém sabe, mas nossos tios chamaram papai para uma conversa.
Eu juntei as sobrancelhas e perguntei:
– Espera aí. Eles não estão pensando que fomos nós, estão?
– Por isso papai foi lá, pra deixar isso bem claro.
– Eles só estão dizendo que fomos nós porque somos filhos de Hades. – Eu lhe disse.
– Não. Porque Ross tem um histórico bem longo de assassinatos.
– Mas ele só matou humanos.
– Mas sempre tem uma primeira vez pra tudo.
– Gareth, esquece. Não tem como eles dizerem que fomos nós.
Gareth respirou fundo e disse:
– Certo. Mas tome cuidado.
– Sabe que eu sempre tomo.
Ele me olhou por alguns segundos e então disse:
– Ótimo. Preciso ir. Aparece em casa mais tarde, papai vai querer falar com nós todos depois.
– Eu vou.
Ele me olhou com os olhos preocupados, mas então entrou na sombra.
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