A víbora
6 Capítulo 06
A pequena era ruiva, com olhos castanhos e cabelos compridos até abaixo da cintura. Parecia mesmo uma criança.
Depois de quatro horas caminhando por entre corredores, ouvindo gritos e choros, e observando médico, enfermeiros e auxiliares caminharem rápido para alguns quartos, resolvi que já tinha colhido informações suficiente por um dia.
Fui para casa sozinha, andando com um pouco mais de pressa, do quando vim. As ruas estavam iluminadas mas desta vez não havia os sons normais da cidade. Andei mais apressada que o normal, evitando ruelas. Era sínomo, nada acontecia, mas uma das poucas coisas que acontecia, me infectou, e não posso correr riscos.
Ainda estava longe de casa, quando ouvi passos lentos atras de mim. Nos primeiros segundos não tive coragem de olhar para ver, mas conforme o som ia se aproximando,senti meu corpo tremer e então olhei para trás. Eu estava de cara com um infectado, e não havia ninguém para pedir ajuda. Ele não estava deformado, nem sangrando, e ele definitivamente não é como provavelmente você imagina, uma espécie de zumbi consciente. Ele era um humano normal, com roupas normais e voz normal, e andava normalmente também.
– Ora ora, uma dama como essa, sozinha anoite.
Devo confessar, ele era lindo. Lembrava muito Jason, exceto pelos óculos. Jason não usava óculos. Sab aquele calor que sentimos quando a pessoa que gostamos em segredo, repentinamente puxa papo com você, e enquanto ele fala, você se imagina com ele em um noite quente e sórdida de pura e unica satisfação do ego ? Eu estranhamente me senti assim.
Eu não sorri, nem dei muitos sinais, mas com certeza algo em mim chamou atenção dele. Ele me leu na hora. Engoli seco qualquer vontade que eu tinha com ele, e andei mais depressa, voltei a ser a indefesa Kiara, traída e abandonada. Meus braços se cruzaram, meu ombro caiu levemente e meu olhar voltou para o chão. Ele sabia que eu estava com medo e indefesa.
– Todos sabemos o que você precisa garota .
Ele me segurou pelo braços e me puxou até ele. Ficamos lá nos encarando enquanto eu tremia envolta em seus braços, anormalmente fortes. E tudo que eu queria dizer era, sim!
Isso exatamente,isso que você está pensando, Sim! Eu topo, me leve com você e vamos juntos ver até onde essa loucura pode ir. Mas isso tudo em um mundo perfeito e doentio na minha cabeça. Por fora eu estava apavorada, e então, dei uma joelhada entre as pernas deles. E ele saiu de joelhos perante mim. Seus olhos se fecharam e ele gritou de dor. Não um grito normal, como quando você dá tapinhas nos seus colegas ou quando ele levam um bolada durante um partida de futebol. Era um grito de fúria, como se ele tivesse chegado no seu limite, como quando perdemos a paciência com um criança teimosa.
Eu percebi na hora, que ele iria me matar, como as pessoas que morreram no dia em que fui infectada. Eu corri o máximo que pude, nunca estive tão feliz por não gostar de salto alto. Corri, e não consegui gritar, eu provavelmente estava tendo uma crise de pânico, tão forte que eu simplesmente não conseguia falar. Minhas forças e minha sapatilha, não foram o suficiente, ele me alcançou. E então eu vi seus olhos brilhantes de raiva e satisfação, seus lábios úmidos e avermelhados movido a adrenalina, sim, ele ia me morder. Quando na minha última tentativa de me manter viva, dei um soco bem no meio daquele lindo e atraente rosto assassino.
Naquela noite percebi, que essa doença aumentava as força física dos infectados. O soco explodiu a cabeça dele, em minúsculos pedaços, que no chão pareciam apenas um saco aberto de carne moída. Minha mão direita pingava sangue e alguns pedaços de carne e osso.
Então eu corri, corri deixando ele morto no meio da rua, e com uma das mãos sangrando. E de novo eu senti aquilo percorrendo dentro do meu corpo, aquela sensação de ser forte, de ser dona de mim mesma, de ser invencível. Eu sorri, devo admitir eu sorri, e quando os sorrisos não eram o suficiente, eu ri, eu ri muito, um riso de satisfação e alegria jamais tido antes. Logo eu estava em casa, as ruas estavam vazias e eu estava segura.
Minha respiração estava ofegante, e eu arrepiada. Sim, eu amei o que eu fiz, amei matar, amei me defender sozinha, e amei ser tocada por aquele monstro de lábios úmidos e quente. Lavei a minha mão, na pia da cozinha mesmo. E não me preocupei em secá-las, me joguei no sofá de corpo e alma e suspirei alto, aliviada e de certa forma agradecida. Liguei a televisão, e no exato momento em que liguei, estava passando uma reportagem sobre o corpo que eu deixei na rua e sobre o aumento dos casos nos últimos dois dias. Os poderosos de Sínomo temiam uma rebelião, os humanos estavam quase perdendo o controle novamente. O repórter mostrava imagens de infectados de vários locais diferentes da cidade, e de alguns que foram mortos por eles. Eu desliguei, a morte de inocentes não me atraia nem um pouco.
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