A víbora
7 Capítulo 07
No momento exato em que desliguei a minha televisão. O telefone tocou, meu coração deu uma breve acelerada, em partes pelo susto do toque, e em outra por achar que tinham descoberto que eu matei alguém ontem.
– Alô.
– Gostaria de falar com Kiara.
–Pois não.
– É do hospital de sínomo,a biopsia do seu filho, foi feita. Pode retirar o corpo.
A moça parecia tão desanimada quanto eu. Meus olhos se encheram de lágrimas, e tudo o que eu queria era esquecer, que perdi meu filho. Não consigo nem ao menos dizer que estava indo. Apenas desliguei o telefone, e subi as escadas, e subi devagar, eu realmente não estava pronta para lidar com a situação. Não sozinha.
Na hora me senti frágil, fraca e indefesa. Senti uma saudade imensa de Jason, dos abraços , do carinho no cabelo. Meu filho espera por mim, morto, provavelmente em uma maca fria, sozinho, e não posso fazer nada para evitar. De certa forma, me senti culpada. Se eu não tivesse saído aquela manhã, e descoberto, eu seria uma traída, mas uma traída com filho.
Vesti apenas um vestido escuro,e sai com um táxi. Não tive forças para ir andando.
Quando cheguei lá, ele estava já dentro de um recipiente lacrado. Não pude ver o rosto do meu bebê, e eu nem deveria, não conseguiria esquecê-lo, jamais. Eu optei por cremá-lo e guardá-lo dentro de uma latinha com o nome que deveria ter London.
Resolvi que para o meu bem, e o de Jason, eu despejaria as cinzas no mais belo jardim de Sínomo. Onde tinha lagos, cisnes, flores e muitos esquilos. Quando seu último grão encontrou a água do lago, vi no reflexo da água, Jason.
Minhas mãos tremerem na hora, meu corpo esquentou e senti que perderia o controle, ele foi o culpado, ele traiu a mim e ao nosso filho, e quem mais pagou por isso foi ele. A vida não poderia ser mais injusta, e se fosse, eu faria a vingança por ele. Mas de novo Jason quebrou a minha mente em milhares de caquinhos, me desmontou com um só abraço, caloroso e longo. Eu deveria, mas não consegui resisti, eu precisava daquilo, precisava desabafar mesmo sem dizer nada, e Jason sabia disso. Quando meu bebê se foi, meu coração deveria ir junto, e eu deixei ir.
Não ficamos abraçados por muito tempo, só o suficiente para eu me recompor. E sem dizer nada, nem mesmo um obrigado seco e frio, eu sai correndo, entrei em um taxi e fui para casa. E antes de eu chegar, meu celular tocou, e atendi imediatamente, esperava ser Jason, pedindo para voltar, ou perdão.
– Alô.
– Nossa que voz é essa ?
Era Roger, que estava animado até saber que fui buscar meu anjinho enlatado.
– Sinto muito Ki.
– O que você quer ? — Eu não queria conversar, nem ver ninguém, eu queria só um lugar escuro e quente pra deitar e ficar lá remoendo a culpa e a raiva. — Sua recisão já está na sua conta bancaria.
– Obrigada.
E desliguei. Roger sempre foi meu fiel escudeiro, mas só um amor hoje, poderia me salvar. E justo eu, que tinha muito amor, e ninguém para recebê-lo. Cheguei em casa aos frangalhos, com os olhos inchados, coluna arqueada. Entrei e nem fechei a porta, tirei meus sapatos sem usar as mãos, joguei a bolsa no chão e caí de joelhos ali mesmo, na entrada, e chorei.
Mas diferente da crise que tive ao saber da traição, eu chorei baixinho, encolhendo em mim mesma, como se quisesse entrar no meu próprio abraço. Chorei em silêncio mas com força, e em meio a lágrimas e contorcidas, jurei jamais decepcionar ninguém, nem a mim mesma. Eu viveria da melhor forma, para mim e por mim. Porque no final, quando chegar a minha morte, eu morreria só, fria em uma mesa gelada ou em um recipiente lacrado.
Ja era noite quando parei de chorar e bebi meia garrafa do Whisk que comprei para Jason no nosso casamento e que nem bebemos. Apesar dos goles, eu estava bem, consciente e alerta.
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