Tudo parecia tão calmo. Na calada da noite, a poucas horas de amanhecer o dia, Porto Real dormia em tranquilidade, assim como a maior parte da Fortaleza Vermelha. Apenas os guardas e alguns servos não eram ignorantes às reviravoltas que aconteciam no castelo e que definiriam o rumo de Westeros.

Depois de uma abordagem sem derramamento de sangue, os soldados dorneses, sob as ordens da princesa Lyanna, haviam rendido a guarda real e os guardas Lannister na fortaleza. A patrulha da cidade, com os homens da Campina ao lado dos Targaryen, mantinha a cidade sob controle, e a Companhia Dourada fazia o mesmo ao redor dos muros da cidade e na Baía da Água Negra.

–Esta inquieta, minha princesa?

A sombra produzida pelo dono da voz parecia maior pelas chamas da lareira, mas Tyrion Lannister não era um homem grande, ainda que sua sombre fosse. Lyanna ainda usava as roupas de montaria, saias abertas na frente por cima de calções justos de couro, roupas superiores de couro fervido, adornadas com fios de ouro, veludo e seda, dando à roupa de 'batalha' um ar mais elegante e nobre. A jovem virou-se para o anão e lhe ofereceu a ameaça de um sorriso no canto dos lábios rosados.

–Poderia não estar? — Perguntou, seu ar era um pouco distante, e até mesmo cansado. Lyanna caminhou pelo aposento, as janelas abriam em uma sacada que dava para os jardins, uma vista bastante agradável à luz do dia, mas pela noite, tudo que podia ver eram as tochas dos soldados que faziam suas rondas. — Como esta o seu sobrinho?

–Confuso, estava assustado, mas sua querida esposa o acalmou. — O duende respondeu enquanto se encaminhava até a mesa que se encontrava bem no meio, entre ele e Lyanna. Tommen ainda não compreendera todas as implicações que fizeram dele não ser rei, e Marghaery, apesar do que Cersei pode ter achado no passado, não parecia ter deixado o garoto de lado mesmo com a certeza de que não seria mais rainha.

–Lorde Tyrell não vai aceitar que a filha seja esposa de um bastardo. Precisamos fazer algo a respeito para não perder sua boa vontade. — O ouviu dizer, mas não demonstrou qualquer sinal de preocupação. O meio irmão tinha o controle do exercito dornês através dela, da Companhia Dourada e outros mercenários, e embora a tia possuísse três dragões e seu próprio Khalasar, fazer alianças para que não fosse mais necessário derramar sangue parecia a melhor opção. Lyanna estava cansada de guerras, dragões poderiam vencer exércitos e conquistar o reino novamente, mas a que preço? Aprendera a valorizar as vidas, especialmente tendo perdido tanto quanto perdera. Tinha pouco mais de 15 anos, mas havia sabedoria nela que faltava em muitos lordes mais maduros, uma sabedoria que Tyrion podia observar em seus olhos lilases.

–Suponho que não seja difícil anular um casamento não consumado. — O anão pensou alto sem encará-la diretamente. Tyrion suspirou com pouco entusiasmo, Lyanna não saberia dizer porque, talvez se compadecesse pelo sobrinho. Doran lhe contara tudo sobre Tyrion Lannister, quando ele fora a Dorne junto com emissários de Daenerys, em busca do apoio dos Martell. Se estivessem falando de Joffrey, a princesa desconfiava que nada lhe daria mais prazer que esfregar a marca da bastardia no nariz empinado do sobrinho arrogante e cruel, mas Tommen parecia ter a genuína afeição do tio, assim como Myrcella.

–Não precisamos chegar a isso. — Lyanna enfim virou-se para ele, sentando-se na mesa e fazendo sinal para que ele a acompanhasse. Algumas mechas negras caíram de lado em seu rosto, ao que ela imediatamente prendeu atrás da orelha com um movimento delicado e elegante dos dedos. -Meu irmão me autorizou a assinar este documento, garantindo a legitimidade dos seus sobrinhos como Lannisters. — Explicou paciente, puxando o documento para si e molhando a pena no tinteiro para então assinar em uma caligrafia fina e elegante. -Vão ficar sob sua responsabilidade. Precisamos reatar os vínculos entre os sete reinos, fazer deles um reino só. — Explicou estendendo o documento para que ele lesse.

–Então Tommen e Lady Marghaery... — Tyrion parecia confuso enquanto os olhos verdes desalinhados passavam pelas linhas do papel que lhe fora entregue.

–Vão continuar casados, garantindo a ligação entre Casterly Rock e Jardim de Cima, assim como Myrcella e o príncipe Trystane. Ligando Casterly Rock a Sunspear, e Sunspear ligado ao Trono de Ferro pelo casamento do meu irmão com a princesa Arianne, vamos costurando os Sete Reinos em um só. — Explicou pacientemente. Lyanna olhou os pergaminhos e penas sobre a mesa e suspirou pensativa. -Precisamos fazer o mesmo com o Norte. De acordo com Lorde Manderly, Lorde Davos Seaworth está a procura de Rickon Stark em Skargos, quando o garoto for achado, lhe será devolvida a senhoria de Winterfell e o controle sobre o Norte, ficará sob a custódia de Lorde Manderly até ter idade para governar. — Continuou falando, lembrando-se das sugestões e observações de Lorde Varys. Lyanna nunca vira uma conversa tão rápida, e ainda assim tão decisiva, como a de Varys e Doran, foram poucos palavras, mas os olhares pareciam se compreender bem melhor no silêncio. Aquela 'costura' que ela fazia com casamentos visivelmente surpreendeu o Lannister de uma forma bastante positiva. — Os lordes do Vale montaram um cerco no Ninho para obrigar Petyr Baelish a devolver Sansa Stark e Robert Arryn. Lorde Robert ficará sob a custódia de Yohn Royce, e lady Sansa, depois que vosso casamento for anulado, será dada em noivado para Willas Tyrell, herdeiro de Jardim de Cima, e assim ligamos a Campina ao Norte. — Explicou mantendo os olhos atentos em Tyrion. Ele mesmo pedira pela anulação de seu casamento com Sansa Stark assim que tomassem a capital, então julgou que não precisava hesitar em contar aquela parte dos planos.

–E quanto a Lorde Stannis? — Tyrion perguntou enrugando a testa, não parecendo desejar se demorar na questão anterior.

A princesa levantou-se e foi até uma outra mesa, mais próxima da janela e abriu um pequeno baú que trouxera junto com suas coisas pessoais. Do meio de vários pergaminhos, ela pegou um menor e levou até ele, estendendo-o para o anão com outra ameaça de sorriso, mas uma ameaça de sorriso vitorioso.

–Stannis se rendeu, com a garantia de não sofrer retaliações, e a devolução do assento ancestral de sua família, Ponta Tempestade. — Respondeu voltando a se sentar, e enfim servindo vinho para si e para o homem. Foram negociações bem difíceis, principalmente pelo homem se encontrar tão longe no Norte, mas a notícia dos dragões e dos estragos que estavam sendo feitos nas Cidades Livres, que poderiam ser infligidos a ele, enfim o convenceram. — Perdeu algumas terras para Lorde Mance, e a região da Marca de Dorne, onde fica Summerhall, para o Trono de Ferro, além de ter de pagar uma multa a Dorne, pelos crimes cometidos sob as ordens de Robert, mas ele não poderia conseguir nada melhor, minha tia em breve estaria aqui e o queimaria se já não estivesse rendido, como ela pretende fazer com os Homens de Ferro. — Lyanna tomou um gole pequeno do vinho, era um dourado da Árvore, mas ela apenas fez uma leve careta e o deixou de lado. Fora criada em Dorne e lá o vinho era bem mais forte e encorpado.

–Parece que, sozinha, conseguiu reestabelecer a paz, milady. — O anão ofereceu um sorriso para ela, erguendo sua taça em brinde e bebendo um gole pequeno, mas parecendo perceber a falta de animo por parte da moça. — Deveria estar orgulhosa, o reino estará totalmente em ordem quando sua tia e irmão chegarem.

–Eu estou, Lorde Tyrion, mas o mérito não me pertence. Ainda sou muito jovem nesse jogo para ter feito tudo sozinha, não acha? — Comentou olhando-o de lado. Sabia que ele estava tentando elogiá-la, mas elogios desmerecidos não lhe interessavam. Mesmo sem saber, por muito tempo, fora preparada para aquilo, e sob as orientações de Doran e Varys, concordava que estava executando tudo da melhor forma, mas era preciso ter cautela. Assim como cyvasse, o jogo dos tronos era muito perigoso para aqueles que achavam já ter ganho.

–Ainda assim milady, não devia desmerecer vosso trabalho. Minha irmã tem mais do que o dobro de vossa idade, e mesmo com bastante ajuda, foi capaz de afundar o reino de forma épica. — Ela observou que ele se divertia com o fracasso de Cersei Lannister, mas não podia culpá-lo, pelo que já ouvira falar dela e os poucos minutos que estivera em sua presença, pode perceber que era uma mulher odiosa. — E não houve uma alma sã para pará-la.

–A beleza cega os homens, e sua irmã já a possuiu em abundância. — Comentou sem parecer muito empolgada com o assunto. — Particularmente, prefiro a sagacidade.

–Certamente não serei o primeiro a dizer que vossa graça possuí ambas. Há de ter muitos pretendentes para escolher. — Seu tom não fora de bajulação, o que agradou a moça.

–Obrigada, Lorde Tyrion. E espero que encontre uma boa esposa para ser senhora de Casterly Rock. — Devolveu os votos, deixando o anão com a testa franzida e a expressão ligeiramente surpresa e confusa. — Perdão, achei que soubesse... — E dessa vez, mais que a ameaça, veio o sorriso de fato. — Meu irmão vai lhe devolver vossos títulos de direito, meu senhor. Com vosso irmão mandado para a Patrulha da Noite, e vosso pai morto, sois o legítimo herdeiro de Casterly Rock. — Falou sem qualquer exaltação.

–Vossa graça... Eu estou sem palavras. — Tyrion sorria e estufava o peito com certo orgulho, como um leão vitorioso. Lyanna sabia que, dentro dos planos iniciais de Doran para ganhar a simpatia dos demais Lannister e o apoio de Devan e do Oeste, pretendia sugerir que o Trono de Ferro desse Casterly Rock a um dos primos de Tyrion, Devan era o mais indicado, mas a ajuda de Tyrion fora de grande importância, especialmente no aconselhamento de Aegon, e agora o jovem rei desejava retribuir.

–Quando liderou os Segundos Filhos contra Casterly Rock e derrubou suas defesas, pudemos negociar com sor Devan, que ainda estava nas Terras Fluviais. Tommen ficará com a senhoria de Castamere depois que os Spicer forem julgados, e assim também apaziguamos lorde Tyrell, que ficaria desgostoso se a filha não se casasse com um lorde. — Explicou parecendo divertir-se com a surpresa do homem a sua frente. Tyrion também fora de grande ajuda em estratégias e informações, as passagens secretas permitiram que os homens Targaryen tomassem a Fortaleza Vermelha e rendessem Cersei e os demais guardas, aquele agradecimento era mais do que justo.

–Creio que meus novos vassalos não serão tão mansos como meu primo. — O anão comentou parecendo ainda deliciar-se com o documento em suas mãos, a garantia de seus direitos.

–A rigidez de lorde Tywin não era apreciada por todos, muitos vassalos ainda se ressentem com a barbárie com a qual os Reyne foram extintos e também com o ataque a Porto Real, que resultou na morte da minha irmã e madrasta. — Lyanna explicou com calma. — Vai encontrar aliados, especialmente entre as casas que se ligaram a Dorne ao longo dos anos, e aos mais devotos aos Sete que condenam tão veementemente o assassinato de crianças, mais do que o de parentes.

–Parece ter pensado em tudo... — Tyrion tomou um pouco de vinho, mas sem tirar os olhos dela.

–Príncipe Doran assim me ensinou, manter a mente sempre afiada, assim como príncipe Oberyn me mostrou como fazer com minha lança. — E sorriu pequeno. — Desejava apenas que isso pudesse ter sido resolvido sem a morte dele. — E suspirou pensando na víbora vermelha. — Eu era a imagem da desonra à sua irmã, e mesmo assim eles cuidaram de mim. — Ela não era boba, não a haviam acolhido apenas por bondade, seu sangue lhes interessava. Ainda assim, depois de tudo, fora impossível não criar uma ligação, com Oberyn e as Serpentes de Areia, principalmente.

–Ele teve uma morte heroica, princesa... Levou com ele a vida do pior dos homens, condenando-o à morte que merecia.

–Obrigada por suas palavras, Lorde Tyrion. Não quero segurá-lo, deve estar cansado pela noite de hoje. A essa altura, os criados já devem ter-lhe preparado os aposentos. — A princesa disse passando os dedos finos pelos documentos a sua frente. — Quando a manhã chegar, toda Westeros já saberá do que aconteceu, e aí começará o trabalho de verdade.

–Então é melhor que ambos nos recolhemos, a senhorita também precisa descansar. — O anão insistiu.

–Eu o farei...