Há meses ele não dormia tão bem, talvez porque fossem raras as ocasiões, nos últimos meses, em que tivera uma cama de fato. Quando se levantou naquela manhã Tyrion percebeu que seu desjejum já havia sido cuidadosamente servido à mesa de seus aposentos. Foram-lhe dadas acomodações na Fortaleza de Maegor, provavelmente o antigo ocupante do lugar deveria estar nas masmorras, naquele momento.

O anão se colocou de pé com uma disposição que não se lembrava de um dia ter tido, se enfiando em um gibão e lavando o rosto na bacia com água repleta de pétalas de rosas, antes de ir comer. Seu desjejum estava bem farto para um reino que se preparava para o inverno, não que estivesse reclamando.

Tudo estava diferente e não apenas por possuir melhores acomodações, podia notar a cada dia que saía de seus aposentos. Ainda era cedo, mas um dos servos já fora a sua porta para avisá-lo que a princesa regente desejava vê-lo. As capas carmesim, que antes esvoaçavam por todos os corredores enquanto os guardas Lannister rondavam o castelo, haviam sido trocadas por faixas laranjas com o desenho do sol e da lança da casa Martell, cuidadosamente preso em volta das armaduras. No pátio principal, o chefe da guarda dornesa dava explicações a alguns cortesões, provavelmente sobre as mudanças em suas acomodações ou sobre a hospitalidade real da qual eles não iriam mais desfrutar. Alguns se mostravam chocados com as notícias, insultados, outros nem se deram ao trabalho de fingir confusão, tamanho era o entusiasmo em saber que Cersei não estava mais no comando de Westeros.

–Tio!! — Uma vozinha infantil chegou aos seus ouvidos, e Tyrion virou o rosto na direção do pequeno Tommen, que corria ate ele acompanhado de dois guardas dorneses.

Tommen parecia bem, nenhuma sombra do medo que havia em seus olhos dias atras, quando lhe contaram que a mãe seria presa. O, agora, pequeno Lannister, já se encontrava quase do tamanho do tio e guardião, e a perspectiva de que ele ficaria ainda bem maior, fez o anão soltar um suspiro conformado, passando os dedos nos cabelos loiros dele com um leve sorriso.

–Aqui está meu garoto. — Tyrion manteve o sorriso para ele, havia tanto que precisava explicar para Tommen, em breve a confirmação do pecado dos irmãos seria do conhecimento de todos, era melhor que o garoto ouvisse por ele e não pelas galinhas que seguiam a senhora sua esposa. — Tommen, eu gostaria de conversar com você, depois do seu treino de justas com sor Loras, está bem? Agora eu preciso resolver algumas coisas. — Disse segurando o ombro do garoto, mantendo o sorriso no rosto, ainda que soubesse que não devia ser uma visão muito agradável.

O garotinho confirmou com um gesto da cabeça, vibrando ao ser lembrado de que poderia treinar justas com sor Loras, o que Cersei havia proibido por tanto tempo. Tyrion deu um tapinha de leve no ombro do sobrinho e fez sinal para que ele e seus guardas continuassem seu caminho.

Tyrion tinha a intensão de voltar para Casterly Rock assim que fosse possível, ficar na corte não o ajudaria a ser popular entre os seus vassalos, inventariam histórias de como ele estava se entupindo de vinho e desmaiando no colo de prostitutas. Quase três anos de guerra, havia muito a ser feito, ainda mais com os ataques dos homens de ferro na costa oeste de Westeros. Mandaria Tommen como escudeiro para Cinzamarca, Lorde Damon o receberia de bom grado, ou para Crakehall, como Jaime fora quando era garoto.

Enquanto caminhava pelos corredores da Fortaleza Vermelha, Tyrion ponderava sobre o futuro dos sobrinhos. Qual seria a reação se ele fizesse de Tommen o seu herdeiro? Mesmo legitimado, algumas pessoas torceriam o nariz pela origem do garoto, os crimes dos irmãos seriam ainda mais imperdoáveis depois da péssima administração de Cersei. Por outro lado, se conseguiriam aceitar um suserano como ele…

–Lorde Tyrion! — Uma voz aveludada o veio às suas costas, uma voz que ele conhecia.

–Lorde Varys…

–Que prazer em revê-lo, milorde. — O eunuco usava roupas de sedas vermelhas e laranjas, com alguns adornos cor de sangue. Tyrion achou uma escolha bastante interessante. — Eu tinha certeza que, quando tudo acabasse, o senhor voltaria por cima. — O tom dele era assustadoramente satisfeito, fazendo Tyrion se perguntar se Varys tinha algo a ver com a sua nomeação como senhor de Casterly Rock, mais que isso, se teria uma dívida para pagar.

–Obrigado, Lorde Varys. Eu jamais duvidei que manteria sua posição… Reis vem e vão, mas as aranhas continuam a reinar neste castelo. — Falou não podendo conter aquele gracejo. Varys não pareceu se incomodar com a piada, dando alguns passos na mesma direção para a qual o anão caminhava, o ultrapassando.

–A princesa Lyanna intercedeu em meu favor. Uma garota tão gentil, não acha? — Perguntou o homem com um sorrisinho no rosto. Se Tyrion não soubesse, poderia até pensar besteiras com aquele comentário.

–Sim, de fato… — Ele concordou, os olhos no eunuco com uma expressão de suspeita. — Você sempre soube sobre ela, não é? — Perguntou enquanto cruzava os braços, voltando a caminhar, agora se adiantando um pouco para acompanhar os passos do homem. Varys soltou outro sorrisinho. — Não creio que haja segredos que possam ser escondidos de você.

–Milorde, o senhor me superestima…

–Pare com o teatro, Varys. Pela primeira vez, acredito que estamos do mesmo lado. Se não quer me contar a história da garota, tudo bem. Mas não vejo que perigo haveria nisso agora. — Falou com tranquilidade, voltando o olhar para o caminho que percorria.

–O príncipe Rhaegar havia morrido… O rei Aerys não quis me ouvir quando o aconselhei a não abrir os portões para vosso pai, eu tive que tomar medidas para assegurar o futuro do reino…

–O futoro do reino… — Tyrion suspirou contendo o sorriso de deboche. — Perdão, por favor, continue.

–A princesa Elia, de bom grado, concordou em trocar as crianças, para que Aegon pudesse ficar em segurança com Jon Connington, mas isso não era o bastante. — Ele prosseguiu, caminhava ao lado de Tyrion, fazendo pausas nos momentos estratégicos. — Eu mandei a carta ao príncipe Doran, informando o que haviam feito a sua irmã e sobrinhos, e de uma criança ainda não nascida, que poderia ajudá-los na vingança que desejavam…

–A filha de Rhaegar Targaryen e Lyanna Stark… — Tyrion concluiu quando enfim chegaram a uma anti-sala que havia ao lado da sala do trono. O eunuco abriu a porta, mas deixou que Tyrion fosse na frente.

–Pode imaginar a fúria do príncipe Oberyn, a amante do herdeiro do Trono de Ferro com quase metade da Guarda Real para protegê-la, enquanto sua pobre irmã, esposa legítima, havia sido morta da maneira mais brutal. — Varys parou um momento, seu suspiro de tristeza não pareceu tão falso como os que ele costumava dar quando precisavar contar uma má notícia para Cersei, ou para o senhor seu pai. — Mas o príncipe Doran é um homem mais comedido. Ele viu a oportunidade… Junto com a carta para Lançassolar, também mandei uma mensagem para sor Arthur Dayne, de que deveria entregar a criança à casa Martell, e contar à mãe que o bebê havia morrido. Se Lyanna Stark sobrevivesse, Robert a tomaria como esposa, não seria bom se ela deixasse escapar ao marido que havia um possível pretendente ao trono ainda vivo.

–Ela não era uma pretendente, era uma bastarda. — Tyrion lhe lembrou. Aquela história ficava cada vez mais interessante. Sor Arthur Dayne era conhecido como um exemplo de cavaleiro, não podia imaginá-lo mentindo para uma mãe sobre seu filho… Mas talvez ele não o tivesse feito. Não fazia diferença, ele morrera, e Lyanna Stark também.

Quando abandonou suas divagações sobre os ultimos momentos da espada da manhã, Tyrion encarou Varys, notando um sorrisinho no canto dos lábios dele. Pelos Sete, ainda havia mais coisas para se surpreender? Havia alguém ali que não tivesse tido a vida manipulada pelo eunuco? Talvez Cersei tivesse razão, terem lhe arrancado o membro viril fazia de Varys uma pessoa muito perigosa.

–Lyanna Stark era a segunda esposa de Rhaegar Targaryen.

–Isso não é possível! — Tyrion exclamou, ficando aturdido com aquelas novas informações.

–Claro que é, milorde. Deve se lembrar que Aegon, o Conquistador, casou-se com suas duas irmãs, Visenya e Rhaenys, e as manteve como esposa durante toda a sua vida. — O eunuco falou com um ar tranquilo.

–Aegon, o Conquistador, era rei, Rhaegar Targaryen não. — Tyrion lembrou como se aquilo fosse obvio.

–Mas Rhaegar tinha permissão do rei Aerys para o casamento. — Varys continuou. A tranquilidade dele era o que mais assustava Tyrion. Aquela informação era… Chocante. — Não que vossa graça soubesse dessa permissão… É uma boa lição, nunca por o selo real sem ler os documentos antes. — Completou soltando mais um risinho.

Dentro da cabeça de Tyrion, as coisas pareciam se encaixar, pouco a pouco. Todos os esforços, ou não esforços de Varys naqueles anos. Toda aquela trama…

–O casamento tiraria qualquer dúvida quanto à legitimidade… Ela poderia ser a herdeira de algo acontecesse com Aegon…

–Sim. Uma legítima princesa. Um par ideal para um príncipe de Dorne, na minha opinião, juntos poderiam levantar o reino em rebelião. — Varys colocou um pouco de vinho que havia em uma bandeja ali perto e tomou lugar em uma das cadeiras em volta da grande mesa retangular que se postava bem no meio da sala. Sim, uma princesa legítima, casada com um príncipe dornês… Não seria preciso muito para outra rebelião, ainda mais quando ela se revelasse como metade Stark, abalaria a aliança de Robert com o Norte. Eddard Stark podia ter sido o melhor amigo de Robert, mas Tyrion não tinha certeza se ficaria do lado do amigo em uma situação como essa. Mesmo o homem mais honrado e o servo mais leal fraquejaria se tivesse de lutar contra o próprio sangue. — Mas o príncipe Doran ficou ambicioso demais. Ele ouviu sobre os dragões de Daenerys e decidiu que seu filho deveria almejar uma pretendente que possuísse um exercito, dragões… Uma pena como o pobre rapaz terminou.

Tyrion não precisou olhar para Varys para ter certeza de que ele não tinha a menor empatia com a perda do soberano de Dorne. Ou talvez até sentisse um pouco, mas esta era encoberta pela frustração de ter seus planos alterados. O anão foi até a mesa em que Varys pegara o vinho e também se serviu, mas com uma dose mais generosa.

–Sempre me disseram que não se pode confiar nos dorneses. — Ele falou com um suspiro, bebendo um gole generoso de vinho enquanto a cabeça ainda corria pelos fatos recém descobertos.

–Engraçado… Ouvi a mesma coisa, mas sobre Lannisters.

Tyrion colocou sua taça sobre a mesa e ficou imediatamente de pé, assim como Varys. O anão amaldiçoou-se 100 vezes por ter aberto a boca, assim que viu a princesa Lyanna entrando na sala.

–Desculpe, vossa graça…

–Está tudo bem, Lorde Tyrion, vamos nos poupar de desculpas constrangedoras. Não sou dornesa, no fim das contas. — Falou com pouca emoção. Naquele dia, ela escolhera um vestido cinza escuro, quase preto, com estampas vermelhas de dragões nos braços. Os cabelos dela haviam sido presos em uma trança raiz e agora ficava mais fácil ver as feições delicadas da jovem. — Lorde Varys, eu preciso dos relatórios dos seus “passarinhos” sobre estes homens. — E entregou a ele uma lista bem extensa de nomes que Tyrion não pode ver. — Meu irmão pretende ser muito cauteloso com a sua corte, e com seu pequeno conselho. — Explicou cruzando os braços e então virando-se para Tyrion. — Eu recebi notícias do Vale, a comitiva de Lady Sansa chegará em alguns dias… Imagino que deseje recebê-la em pessoa.

–Sim, vossa graça, obrigado. — Tyrion respondeu com um meio sorriso.

–Eu vou providenciar os relatórios imediatamente, vossa graça. — O eunuco falou, colocando-se de pé e prestando uma reverência para a jovem. — E fico feliz em informar que o novo Grande Meistre já chegou da Cidadela, mandei que o levassem aos seus novos aposentos. — Acrescentou antes de se retirar.

Aquela informação fez o anão sorrir com satisfação. Tinham substituído Pycelle, esperava que também tivessem decapitado o maldito.

A princesa esperou Varys sair, antes de voltar-se novamente ao anão. Os olhos de dragão dela causavam um certo incomodo em Tyrion, sempre parecia que ela estava vendo dentro de sua cabeça. Lyanna encarou Tyrion por um momento, antes de lhe dar as costas e também se servir de vinho, uma porção mais generosa que a do anão. Elas tomou a cadeira que se encontrava de frente para ele, e passou uma das mãos sobre alguns papeis, prolongando o silêncio.

–O Alto Septão mandou a mensagem, informou que não é possível anular seu casamento com Lady Sansa. — O tom que ela usava era cuidadoso, até parecendo um pouco preocupada, o que fez Tyrion imaginar o quanto o casamento de Sansa com Willas Tyrell devia ser importante para os planos da nova família real. — O senhor se tornou conhecido por seu… Desempenho viril. Sua santidade manda dizer que não irá desfazer um juramento sagrado diante dos deuses baseado em alegações que ele julga falsas, apenas para livrar um lorde de um casamento indesejado. — Ela continuou a falar, soltando um suspiro frustrado. — Esse Alto Septão não parece se intimidar tão facilmente.

Tyrion não sabia bem como reagir àquela notícia. Quando pedira pela anulação fora em proveito da garota Stark e não de si próprio. Mesmo tentando fazer algo totalmente altruísta, era mal interpretado. Que os sete infernos carregassem o Alto Septão! O que mais poderia fazer?

–O que mais podemos fazer? — Ele perguntou erguendo o olhar para a jovem.

–Nada. — Ela respondeu com um ar sério, e até tranquilo. — Você continuará casado com Lady Sansa. — Lyanna olhou as próprias mãos um momento e então suspirou erguendo o olhar para ele. Era impossivel dizer o que se passava pela cabeça daquela mulher. — Eu sinto muito, Lorde Tyrion, mas a coroa não irá se indispor com o Alto Septão por tão pouco. Precisamos que ele dê a benção dos Sete ao rei, para que o povo comum aceite as mudanças mais facilmente. Eu espero que compreenda, já que possuímos tarefas similares.

Ela tomou uma golada de vinho, não parecendo gostar muito. Também pudera, aquilo não era nada comparado ao tinto dornês.

–Eu compreendo, vossa graça. Temos que apaziguar Westeros, para que sua tia não precise usar a força bruta ao chegar. Deixaremos 3 dragões e um Khalasar sedentos por sangue, extremamente frustrados. — Brincou com um leve sorriso, acompanhando a mulher e também tomando seu vinho. — Tenho certeza de que Sansa e eu podemos chegar a um entendimento. — O mesmo entendimento que tinham antes, só que agora poderia oferecer aposentos separados para ela desprezá-lo a distância.

–Agradeço sua compreensão. — Ela disse com a ameaça de um sorriso no rosto. — Assim que a caravana de Lady Sansa chegar, vocês devem ir para Casterly Rock. Faça um torneio, alguns banquetes… Ajude os vassalos a reconstruírem as estradas. Precisamos que seus vassalos comecem a amá-lo, e assim também o façam ao rei. — Ela tomou mais um gole do vinho e então pousou a taça sobre a mesa. — Talvez Lady Sansa possa ajudá-lo nisso… — Acrescentou olhando-o de lado. Lyanna encarava Tyrion com uma certa expectativa, uma expectativa que o homem realmente não conseguia compreender. — Ellaria Sand costumava dizer que há males que vem para o bem, talvez seja esse o papel de Sansa Stark na sua vida. — Lyanna colocou-se de pé e deu a volta na mesa, caminhando na direção da porta que daria para a sala do trono. — Há cortesãos que desejam jurar fidelidade ao meu irmão, preciso recebê-los… Passar bem, Lorde Tyrion.

–Obrigado, vossa graça. Espero que as audiências sejam curtas e pouco tediosas. — Estava entorpecido pelas reflexões daquela realidade que teria de se acostumar, acabara esquecendo-se de conter seu humor sincero.

Lyanna saiu, deixando Tyrion com os próprios pensamentos. Durante algum tempo, enquanto viajava a mando da mãe dos dragões, quando provara que merecia estar na corte dela, quando conquistara Casterly Rock, ele achou que poderia fazer tudo. Iria eclipsar o pai e construir uma vida ótima para si, corrigir os erros e as crueldades de Lorde Tywin… Por um tempo, ele achou que pudesse fazê-lo, com tudo. Mas mesmo ele estando morto e Tyrion vivo, Tywin ainda conseguia estragar a vida de algumas pessoas. Condenara a filha de Ned Stark a passar a vida com uma aberração, e condenara Tyrion a ser senhor de uma mulher que o desprezaria para sempre.

O senhor de Casterly Rock terminou seu vinho, pousando a taça sobre a mesa e pulando da cadeira com um suspiro frustrado, rumando para a outra saída. Como ele mesmo dissera a senhora sua esposa, no dia que se casaram… Era para isso que os deuses haviam criado as putas, para amenizar a magoa de criaturinhas atrofiadas como ele.