A volta dos dragões
3 Lyanna
Ela restringiu as audiências o máximo que pode, havia assuntos particulares que precisava tratar. Lyanna sentava-se no Trono de Ferro a com bastante naturalidade, embora já estivesse desejando se atirar naquelas espadas quando a decima quarta audiência foi anunciada. A princesa fez força para não bocejar, baixando os olhos do lugar alto em que estava para pousar nos dois que se aproximavam.
–Sor Bronn da Água Negra, e Lady Stokeworth.
O homem e a mulher se ajoelharam diante de Lyanna, e ela demorou seu olhar no cavaleiro com uma expressão avaliadora. Aquele era o mercenário a serviço de Tyrion Lannister, ao menos um entre aqueles cortesãos com o qual não precisava de preocupar. Sor Bronn parecia muito confortável com a sua nova condição para se importar com política.
Para o seu deleite, sor Bronn e sua “encantadora” esposa não se demoraram em seus juramentos, sendo, logo em seguidas, levados às tendas que estavam sendo preparadas para o banquete daquela noite. Discretamente, Lyanna mandou que um dos guardas ficasse de olho em sor Bronn, especialmente se ele fosse ter com Lorde Tyrion. O anão podia ter ajudado sua tia, podia até estar genuínamente do lado deles, mas ele ainda era um Lannister, e não se podia confiar plenamente em Lannisters.
Lyanna ergueu-se do trono, parando o guarda que estava prestes a abrir a porta para mais uma audiência.
–Chega de audiências por hoje. Peça que voltem amanhã. — Disse em um tom baixo, mas firme.
A jovem princesa saiu da sala do trono por uma porta lateral, fazendo sinal para os guardas que a seguiam permanecerem onde estavam. Ela havia decorado cada centímetro de passagens secretas que haviam naquele castelo, pelo menos em teoria. Conseguia lembrar com clareza dos mapas que Varys lhe mostrara, agora tinha que torcer para que o eunuco estivesse correto. Entrando em uma sala comum não muito longe da sala do trono, Lyanna trancou a porta atrás de si, jogando uma capa estratégicamente deixada por ali e puxando o capuz para lhe cobrir o rosto. A passagem, de acordo com o mapa, ficava abaixo de uma das mesas de refeições. A princesa empurrou o móvel com um pouco de dificuldade, para então encontrar uma pedra solta no chão, cuidadosamente escondida embaixo de um tapete. Os olhos dela foram na direção da porta, certificando-se de que continuava fechada, antes de mover a pedra do lugar e sumir na escuridão daquele buraco.
A princípio, ela teve medo, uma vez que não podia ver nada a sua volta, mas logo em seguida respirou fundo, tirando de uma cinta na coxa uma adaga e caminhando com cuidado, as mãos tateando a parede ao seu lado, enquanto os pés buscavam os degraus. Lyanna fechou os olhos na escuridão, visualizando o mapa em sua cabeça e tentando se lembrar das palavras de Oberyn. Sempre pensava em Oberyn quando tinha medo. Assim que sentiu uma passagem a sua direita, ela virou, com a segurança de quem andava sob o sol. A princesa pode ouvir o barulho de vozes, não muito longe, e assim soube que estava próxima. Lyanna guardou a adaga, cobrindo-a com o vestido e a capa. A cada passo que dava as vozes ficavam mais e mais altas.
Dois guardas estavam conversando em um corredor na Arcada das Donzelas, ambos com o sol Roinar e lança Martell no manto que enfeitava suas armaduras, mesmo assim, a princesa aguardou paciente até que eles tivessem ido embora, antes de empurrar a pedra e sair da escuridão. Ela se manteve com o capuz do manto, e foi se esgueirando pelos corredores daquela parte da fortaleza, até chegar a uma porta, entrando sem bater e trancando atrás de si.
–Era de se esperar que um princesa tivesse modos melhores.
Uma voz atrás de si falou, mas ela não respondeu de imediato, livrando-se do capuz e da capa enquanto se virava. Os olhos de dragão pousaram na dornesa, e Lyanna, pela primeira vez desde que chegara na Fortaleza Vermelha, sentiu-se segura.
–É difícil perder certos hábitos, quando se é criado como uma bastarda. — Respondeu deixando a capa cair no chão e caminhando imediatamente até a mesa em que uma jarra de vinho e taças haviam sido dispostas. Lyanna serviu uma taça até a metade e tomou um gole pequeno. — Ah, pelos Sete, enfim vinho...
Nymeria Sand deixou escapar um risinho curto enquanto observava o deleite da jovem princesa ao degustar o vinho. Havia chegado há pouco, e sua entrada na Fortaleza Vermelha havia sido bastante discreta, como o tio havia pedido. Ela usava roupas dornesas, um vestido preso por fitas finas, e de um tecido leve e cuidadosamente costurado, um decote farto e as costas parcialmente nuas. Seus cabelos negros estavam presos em uma trança durante a viagem, mas ela já os libertara e os estava escovando quando Lyanna entrou.
–Eles não lhe deixam tomar vinho, vossa graça? — Nymeria perguntou enquanto deslisava pelo quarto na direção dela como uma serpente.
–Não sei quem são “eles”... Mas nesse maldito lugar só há dourado da Árvore, e outros de péssima qualidade que os guardas tomam. — Explicou esvaziando a taça e mantendo os olhos violeta na mulher que se aproximava. — Eu preferiria voltar para Dorne. — Confessou massageando a testa. Lyanna, enfim, deixou a expressão séria, dura e inexpressiva desmoronar, no momento em que teve os braços de Nymeria em volta de seu corpo.
–Não diga isso. — A dornesa puxou a princesa para junto de seu corpo, deixando-a descansar a cabeça em seu ombro, enquanto os dedos finos lhe acariciavam os cabelos. — Esse é o momento para o qual você se preparou todos esses anos…
–Esse é o momento para o qual ELES me prepararam todos esses anos. — Ela corrigiu com pouco humor. — Ninguém nunca me perguntou nada.
Nymeria suspirou paciente.
–É seu direito de nascença, e não ouvi você questionar papai ou Doran em todos esses anos. Qual o problema, Lya? — Ela se afastou da Targaryen, segurando o rosto dela com ambas as mãos e lhe oferecendo um olhar acolhedor.
–Não é meu direito de nascença… É de Aegon. — Respondeu pousando as duas mãos sobre as dela, erguendo o rosto para encarar Nymeria. — Meu irmão tem os exércitos, minha tia tem os dragões… Até Doran percebeu que apostou no dragão errado. — Ela suspirou chorosa. — Ele deu Quentyn para ela, como vai dar Arianne para ele. O que farão comigo quando finalmente chegarem a Westeros? Arianne vai ser rainha, Doran não vai precisar mais de mim…
–Eu não estou ouvindo isso. — Nymeria disse, ainda segurando o rosto dela com as duas mãos. — Você foi criada por Oberyn, não por Doran. A sua vida pertence apenas a você. — A mulher se inclinou sutilmente na direção de Lyanna, tomando os lábios dela com delicadeza. A princesa não se afastou, deixou o beijo acalmá-la, e segurou Nymeria pelas vestes, puxando-a contra si. Quando enfim seus lábios se separaram, Nymeria manteve a testa colada na dela, e um sorriso pequeno nos lábios. — Você quer os dragões da sua tia? Quer o Trono de Ferro? Se for isso, basta uma palavra e guiamos os homens que você tem, as alianças que fez, e o tomamos para você…
–Eu não quero o trono. — Ela disse enfim, suspirando e mantendo o olhar baixo.
Lyanna não sabia como explicar para ela o que estava sentido. Revelar sua identidade acarretou em tantas mudanças dentro dela, tanta coisa estava confusa em um momento em que ela tinha de demonstrar firmeza e segurança.
–Então me diga o que você quer, meu amor, e talvez eu possa ajudá-la a conseguir.
Lyanna segurou as mãos de Nymeria e endireitou-se. Levou alguns segundos para erguer os olhos e encará-la, havia uma tristeza, uma amargura em sua expressão.
–Meu pai era um Targaryen, minha mãe era uma Stark, e eu fui criada por um Martell. Não importa para onde eu vá, me sinto uma intrusa. — Explicou voltando a baixar a cabeça. — Apesar do sangue, eu não pertenço ao Norte. Achei que me sentiria mais a vontade quando chegasse aqui… Mas eu não reconheço esse lugar, não reconheço o irmão que eu tenho, a tia que tenho, os primos nortenhos… Nada disso parece meu. — Ela apertou as mãos de Nymeria e soltou outro suspiro. — Daenerys tem seus dragões, os Stark tem o Norte, Aegon vai ter o Trono de Ferro… Meu futuro continua tão incerto quanto estava antes de rendermos os Lannisters. Eu não tenho nada… Até os homens que seguem minhas ordens foram cedidos por Doran, e vão ser de Arianne no momento em que ela chegar aq…
Nymeria soltou-se dela e pousou uma das mãos em seus lábios, fazendo um sinal de silêncio e depois lhe acariciando o rosto, enquanto a outra mão começava a lhe desprender o vestido. A bastarda se inclinou para frente e roçou os lábios nos de Lyanna, mas acabando por não beija-la, escondendo o rosto na curva de seu pescoço, lhe dando beijos e pequenas mordidas ali.
–Você tem a mim… Você sempre terá a mim. — Sussurrou ao apertar a orelha dela entre os dentes.
Lyanna fechou os olhos um momento, as mãos pousando na cintura da dornesa, rendendo-se, pouco a pouco, às carícias dela.
Nymeria guiou a princesa até a cama, enfim desatando todas as amarras do vestido dela. Lyanna puxou as alças do seu vestido de lado, deixando que ele caísse, revelando o corpo juvenil, as curvas sutis e belas, podia esquecer aquilo por um momento, ao menos durante aquele reencontro.
Aquele era um assunto sério, uma angustia da qual Lyanna não podia e nem conseguia fugir, mas haviam meses que não tinha a outra mulher em sua cama, desde que haviam recebido missões diferentes.
Ela não pestanejou quando Nymeria a deitou na cama. Um arrepio lhe correndo pelo corpo assim que o vestido da dornesa também despencou, revelando seu corpo dourado e suas curvas perfeitas. Lyanna a puxou pela nuca, vencendo a distância que haviam entre ambas, tomou a boca dela com a sua, enquanto suas mãos iam alcançando cada uma das pequenas adagas no corpo de Nymeria, jogando-as ao chão, assim como ela fizera com a sua única lámina. Seu beijo foi tão quente quanto o sol de Dorne, e tão forte e recheado de lúxuria como o vinho dornês. Nymeria a correspondia da mesma forma, seus corpos se enroscavam de uma forma tão fácil e bela, como se dançassem. Uma dança deliciosa. A dornesa abandonou os lábios de Lyanna, escorregando a boca pelo corpo dela, até tomar-lhe um dos seios entre os lábios. A princesa suspirou de satisfação, rendida entre os lençóis macios, deixando que Nymeria fizesse o que quisesse com ela.
O primeiro amor da princesa foi Andrey Dalt, com seu sorriso fácil e suas palavras gentis. Mas quando ficou claro que Andrey só tinha olhos para Arianne, assim como todos os outros da corte, Lyanna acabou por se conformar com seu coração partido, até te-lo consertado por Nymeria. Fora Oberyn quem os aproximara, fazendo de Nymeria sua companheira de cama quando era pequena, embora certamente não pretendesse que se aproximassem tanto. Nymeria lhe ensinou sobre facas, assim como a Vibora Vermelha a ensinara sobre venenos. Apesar da liberdade que o príncipe havia dado às filhas e também a Lyanna, a relação sempre fora mantida em segredo, e as duas sabiam como ser discretas. A única pessoa que sabia sobre elas, era Ellaria Sand, mas Lya sabia que a mulher jamais traíria seu segredo.
–Hmm… — A princesa entreabriu os lábios em um gemido, no momento em que Nymeria tocou a região úmida entre suas pernas, tirando da cabeça dela qualquer preocupação que antes poderia a estar atormentando.
Fale com o autor