A vida é fruto do amor
1 Descoberta feliz
Hazel estava deitada na cama. Podia sentir o vento entrando pela janela, ouvir o som de Felipe enquanto o aparelho a ajudava a respirar. Enquanto isso, pensava na vida.
Recentemente tinha criado um facebook. Tinha mais pessoas desconhecidas do que conhecidas nos contatos. Alguns foram amigos do Gus, outros, eram amigos do Isaac. Até mesmo amigos de sua mãe, pessoas da antiga escola, do hospital, ninguém com quem ela realmente se importasse.
Naquela manhã ela estava tendo um debate consigo mesma acerca da reversibilidade de situações ruins, usualmente atrapalhada pela falta de capacidade das pessoas de tentarem mudarem suas situações.
Quando chegou a uma conclusão, começou a escrever. Quando Augustus morreu, foi como se seu mundo tivesse acabado. Ela o amava, e ele se fora. Então, para não morrer de desgosto, começou a ajudar sua mãe na produção de material para ajudar outras famílias.
Quase tudo o que escrevia era dotado de significados implícitos e metáforas inesperadas, mas sua mãe soubera como trabalhar com tal material, e ele estava sendo particularmente útil. Principalmente quando as famílias eram informadas de que eram produzidos por alguém que estava morrendo de câncer e ainda tinha forças para ajudar uma causa tão nobre.
"Sinceramente, estou à procura de entendimento sobre a passividade das pessoas em relação à morte."
Esse com certeza não seria um texto para curar corações partidos. Ela preferia pensar que seria algo parecido com um Encorajamento, um pouco menos carinhoso.
"Perder alguém amado é pior do que todas as dores de um câncer juntas. É como se o véu da realidade fosse rompido e passássemos a viver em um universo de dor e desespero, enquanto o relógio do tempo, que não para, continua a nos levar para o nosso próprio fim.
Mas abandonar a própria vida por isso, é um erro fatal. Vítimas do câncer sabem que vão morrer, só esperam que suas famílias sobrevivam a isso. Não querem ver mães perderem o sentido de viver, ou pais abandonarem tudo por não serem capazes de conviver com as memórias.
Diariamente vejo pessoas que perderam pessoas amadas agirem como se elas mesmas tivessem morrido. Na vida, tudo tem sua chance de reversibilidade. E muitos desperdiçam essas chances sofrendo, enquanto poderiam estar tentando ser felizes.
Tudo parece motivo para reclamar. São como as pessoas que vejo no facebook, insatisfeitas, mas imóveis.
Se seu cabelo não está legal, corte, pinte, raspe! Se seu corpo não te agrada, comece a fazer academia. Se gosta do seu corpo mas seu parceiro não gosta, ame-se e verá ele enxergando os pontos positivos. Keep moving!
De nada adianta ficar postando fotos de insatisfação no facebook, reclamando com os amigos, se sentindo frustrado, e não correr atrás da mudança que deseja.
Famílias que perderam alguém para o câncer passam pelos mesmos problemas. Aceitar que ele se foi é o primeiro passo. Isso não significa que você parará de chorar a noite sozinho, ou que esquecerá as lembranças boas que não te deixam dormir.
Não significa que você esquecerá a pessoa que amou, ou que sua vida voltará ao normal como se ela nunca tivesse existido. Significa que você a deixará partir, tendo na memória o quanto ela foi especial, o quanto a amou e viverá, por ela e por si mesma. Aproveitará a chance que ela não teve."
Talvez tenha ficado um pouco exagerado, pensou Hazel. Mas isso era tudo o que ela queria dizer.
Augustus se fora a dois meses, e ela, para sua surpresa, tivera uma mudança significativa. Não tinha tido crises, nada de líquido nos pulmões, tinha ganhando quase 4 quilos. Era como se estivesse curada.
Pensou em ligar para Isaac, mas decidiu deixar para mais tarde. Ele compartilhava sua dor, e talvez as palavras que ela tinha escrito pudessem machucá-lo no momento.
Desconectou Felipe, instalou o cilindro de oxigênio e foi até a porta. Só teve tempo de gritar por sua mãe antes do mundo escurecer e cair ruidosamente no chão, desmaiada.
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