Com a decadência da Rede Manchete e a perda do interesse do SBT por animes, os fãs brasileiros ficaram órfãos, tendo que controlar as crises de abstinência com reprises, lendo as revistas antigas e sonhando com o dia em que os animes das matérias um dia estreariam por aqui e vendo cartoons que lembrassem de alguma forma os animes. Foi nesse cenário desolador que a rede Record começou a anunciar um novo anime chamado Pokémon.

No dia da estreia estava lá o Melc pronto para assistir e não se arrependeu nem um pouco. Ele achou uma grande sacada pegar bichinhos esquisitos que alguns animes costumam ter (como Mokona em Guerreiras Mágicas e Piu em Yu Yu Kakusho) e juntou um monte num desenho só. Também foi novidade um anime que não era exatamente de luta, nem de garotas mágicas, enfim, algo bem inovador.

Lembram que eu disse que o Melc não sabia o que era RPG? Bem, quando Pokémon estreou ele já sabia e jogava constantemente, e não falo dos RPGs eletrônicos e sim daqueles de mesa, com dados, fichas e representação. Logo nos primeiros episódios, ele percebeu que poderia criar um RPG inspirado em Pokémon e começou, a cada episódio, a anotar sobre os pokemóns, seus nomes, habilidades e tudo mais.

— O que você tá fazendo? — perguntou a irmã do Melc ao vê-lo com um caderno todo cheio de anotações e prestando atenção no desenho que nem aluno de cursinho na véspera do vestibular.

— Anotando sobre os pokémons – ele respondeu.

Ela não perguntou mais nada, usando da filosofia de que “o psiquiatra mandou não contrariar”.

Enfim, Melc já tinha anotações de cerca de trinta pokémons, quando foi na casa do Tonel, um dos seus amigos do grupo de RPG.

— Fala aí Melc – Tonel cumprimentou – Olha aqui o que eu comprei.

Então Tonel mostrou uma revista, formato americano tão nova que brilhava, toda sobre o novo anime. Ali tinha todos os 150 pokémons daquela primeira geração (e única até então), com imagens, todos os poderes e principalmente, a escrita correta. Quase escorreu uma lágrima dos olhos do Melc ao ver que aquela revista tornou inútil todo seu trabalho de anotações, mas ele segurou a onda.

E falando do seu grupo de amigos, todos viam Pokémon, exceto um, o Gnoma. O desenho começava às onze e meia da manhã e Melc, que no ensino médio estudava de tarde, conseguia ver o desenho sem dificuldades. Já o Gnoma estudava de manhã e nunca conseguia ver e assim, todos tentavam explicar a ele como funcionava.

— Ah, ouvi falar que esse Pokémons é sobre bichinhos – perguntou Gnoma.

— Isso mesmo – responderam todos.

— E o vilão? — Gnoma perguntou novamente.

— Não tem vilão – disse Melc.

— Tem a equipe Rocket – informou Tibenho

— Eles não são bem vilões, estão mais pra bobalhões – falou Melc.

— Mas não tem um garoto de boné que tenta pegar eles? — insistiu Gnoma.

— Não, esse é o protagonista! – Melc tentava explicar.

Não adiantou, eles não conseguiram explicar o anime para o amigo. Só nas férias ele conseguiu ver e finalmente entendeu, logo se tornando fã como todos os outros.

Pokémon fez um sucesso estrondoso que não se via desde os Cavaleiros. Logo vieram os bonecos, roupas, revistas, jogos, um filme no cinema e muito mais. Com esse sucesso toda, uma emissora que nunca foi fã de produções japonesas entrou nessa briga, a rede Globo. A fim de recuperar a audiência que estava perdendo para a Record, ela veio com o famoso Digimon.

Falando sério, Melc odiou digimon. A melhor parte era a abertura, com a musiquinha “Digimons, digitais, digimons são campeões” e a Angélica dançando na abertura (é essa Angélica que vocês estão pensando mesmo, a esposa do Luciano Hulk). Bizarrice pouca é bobagem…

De toda forma, o legado de Pokémon é fortíssimo. Além das inúmeras imitações que surgiram, o próprio original persiste até hoje, com várias temporadas lançadas, além da bem sucedida franquia de games. E o mais importante para nós foi a nova geração de otakus que Pokémon impulsionou.