Notas iniciais
Finalmente atualizando essa belezinha. Ainda tenho muitos planos! ~

Em meus fones uma música bem alta tocava. Eu queria me esquecer do mundo em que vivia, esquecer dos problemas que me cercavam, me separar da realidade e entrar num mundo só meu. Minha cabeça fazia o famoso movimento vaivém pelo toque animado que ouvia, pelo toque animado que, por duas semanas, fui impedida de ter acesso. Foram duas semanas horríveis, nas quais nem no meu videogame eu pude pensar direito. O combinado era esse: eu os esperaria do outro lado da rua, já que, por sinal, o hospital não tinha nenhuma vaga.

Duas semanas antes – aquelas duas semanas chatas –, eu acabei por sofrer um acidente quando voltava da faculdade com Matt num horário diferente quando um carro acabou por perder o controle e me atropelou, sem que eu pudesse ter a chance de pensar duas vezes se ficaria ali mesmo para sofrer o tapa das rodas ou se me esquivaria para o lado. Matt, obviamente, era mais rápido e mais inteligente, o que lhe deu oportunidade de fugir. Eu? Banquei o poste no meio da rua e esperei meu destino chegar. Fui submetida a duas cirurgias no mesmo dia. Estava em estado de emergência, e se não cuidasse logo, era provável de aparecer hemorragias internas. Minha mãe não sabia muito do que se tratava. Recebeu uma ligação do hospital dizendo que eu a indicara como minha guardiã e que precisava urgentemente ser dopada para realizar o tratamento. No meio da primeira delas, Keefe chegara aos gritos de desespero (pelo que me disseram) e preocupadíssima com o meu estado. Matt correu até ela e a abraçou, implorando para que ela acalmasse os nervos. “Tudo vai ficar bem”, ele afirmava. Eu tenho certeza de que aquele garoto é algum tipo de deus disfarçado.

A segunda cirurgia fora mais complicada do que a outra. Se não tivessem cuidado, os pontos da primeira se soltariam, já que os lugares eram bem pertos. No final, eu saí toda enfaixada, escorria baba da minha boca (que também estava dormente) e pelo menos isso a fizera rir e chorar ao mesmo tempo. Dormi logo após. Três dias depois acordei com o vocalista da nossa banda escorado em minhas pernas, dormindo de bruços no colchão grosso de um quarto próprio. Tenho certeza de que foi minha mãe que comprou aquele quarto pelo tempo que eu precisasse e confinara Matt a ficar comigo até que eu me recuperasse. Olhei em volta. Uma mala com roupas, algumas cases (que eu rezei para que fossem meus consoles), um pote de miojo numa mesa próxima... Pareceu durar uma eternidade para quem tivera pesadelos consecutivos – mas que era a mesma coisa. Nele, eu sofria o mesmo acidente, mas apenas meus dentes caíam. Diziam que perder dentes em sonhos significava presságio de morte, mas eu nunca acreditei muito nessas bobeiras. Onde já se viu, sonhos serem presságios? Eu mal acreditava em espíritos, acreditaria nesse tipo de rumor? Ao menos meu corpo estava ali, eu estava bem, e conseguia me mexer.

– Está na hora de acordar. – Chamei pelo garoto que dormia perto de mim. Claro, todos os meus membros doíam, e tive certeza de que cortavam cebola perto dos meus olhos enquanto eu tentava me levantar sozinha. Era extremamente desagradável, como se alfinetassem cada músculo a cada mísero movimento. Limpei meu rosto assim que tive certeza de estar “confortável”. – Ei... A acidentada aqui sou eu. – Cutuquei seu ombro, na esperança de que ele me ouvisse ou sentisse.

Aos poucos, aqueles olhos cansados e que aderiram olheiras em pouco tempo começaram a se levantar, cansados, pesados, como na espera de um milagre. E a surpresa fora tanto que nem rir direito ele conseguiu. Olhou-me, como se eu fosse uma espécime de fantasma, me ignorou por uns segundos, esfregou os olhos – tão normal que eu desconfiei que ele já tivesse sonhado com tal situação, por isso parecia não acreditar muito.

– Eu estou bem aqui. Afirmei, colocando ambas as mãos trêmulas sobre minhas próprias coxas. Ri de lado, esperando que em algum momento ele se tocasse de que... Bom, eu estava mesmo acordada e precisava de ajuda. Além de dor, eu sentia uma terrível moleza, como se não tivesse resistência nenhuma. Se me empurrassem da cama, eu cairia, e pelo chão dormiria o resto das outras noites. Não havia saído para o banheiro e nem comido fosse uma sopinha. Já era de se esperar que algo assim acontecesse. Eles, não eu. Eu não fazia ideia, apesar de conseguir notar o tipo de lugar e o que tinha acontecido. Depois que eu expliquei isso para o médio que ficou responsável por mim, ele se mostrou surpreso e disse-me que “isso pouco acontecia com a maioria dos pacientes”.

– Você está bem? Parece que esperou a próxima vida para eu acordar.

– Estou... Mas não é comigo que nós temos que nos preocupar. – E com a cabeça apontou para mim. De fato, meus braços ainda estavam enfaixados, assim como parte de minhas pernas.

– Foi tão feio assim? Eu nem me sinto tão mal... Ai... – O gemido de dor que eu não pude conter pela risada desnecessária que soltei cortara toda a minha pose.

– Estou vendo, estou vendo.

– Estou o puro pó... Quando é que eu vou poder tirar tudo isso? ‘Tão incomodando.

– Não sei. Depende muito da sua recuperação.

– Entendi... – Nesse “entendi” eu quis, na verdade dizer um “vamos fugir daqui sem que ninguém saiba, que tal?”. – Pode abrir a janela? ‘Tá abafado aqui.

Ele concordou com a cabeça. Enquanto ele levantava, não contive outra pergunta. – Como tá o pessoal?

Um sorriso surgiu em seus lábios. Parecia finalmente estar acordando.

– Preocupados, obviamente. Não esperava menos, não é? Você deu um baita susto em todo mundo, Affy.

As janelas pareciam ser bem limpas, então assim que ele as abriu, empurrando-as para fora, um vento fresco entrou e mexeu em seus cabelos. Estava igualzinho como eu me lembrava da última vez. Grandes até os ombros.

– Keefe esteve aqui de manhã, mas teve de sair. Sua irmã disse que passa aqui depois das aulas complementares, já que sua mãe não quis deixá-la faltar por sua causa, apesar de estar aparentemente preocupada.

– Lilian? Preocupada comigo? Só em outra vida. Brinquei, tirando sarro dela. Éramos bem unidas, mas eu não sabia que o amor por mim chegava a esse ponto.

– O pessoal da banda vai aparecer aqui depois que sua mãe tiver vazado. Nishi quem deu a ideia. Disse que quer puxar sua orelha sem que ela saiba. O advogado vai cuidar de indenizar o cara que fez isso. Alek teve de viajar e pediu desculpas, mas “espera que volte a tempo de te ver toda quebrada pra zoar da sua cara”. – Falara aquilo indicando aspas com os dedos. Era melhor mesmo que ele zoasse da minha cara do que cuidasse de mim. Cursava medicina, e saberia lá que vírus mortal ele criaria para terminar o trabalho, aproveitando o estado em que eu estava.

– E você? ‘Tá aqui desde quando?

– Desde que eu atravessei a rua e você não. As pessoas se reuniram rápido, aglomeraram, e graças algumas ajudaram. Nos deram carona, e eu liguei pra sua mãe assim que te atenderam. Até ontem estavam perguntando “da garota que sofreu um acidente na avenida”, mas resolveram desconversar.

– Consegui mais fama em um dia do que em nossos dois anos com a banda. Eu sou um gênio.

– Um gênio que agora está dependente do namorado. Não é tão gênio assim.

Nós rimos bastante e eu acabei me tocando de que era verdade. Eu estava dependendo não só dele, mas como também da minha família, dos meus amigos... Teria atenção redobrada e ficar nos olhos deles não seria uma tarefa muito confortável. Tratariam-me como um bebê e saberia lá se ao menos Matt me levaria a sério...

No final, ele saiu do quarto por um instante para chamar o médio e eu me encontrei sozinha num quarto de hospital que, por incrível que pareça, não cheirava a remédio. A mobília parecia ser de madeira de boa qualidade... Era um quarto privado, daqueles caros, “Vips”... Minha mãe era mesmo um caso sério.

Notas finais
E minha parte preferida nem chegou ainda.