A vida de outro ângulo
4 Nós
Se formos observar bem, seria difícil (de uma probabilidade muito pequena) de formar um grupo tão distinto quanto o nosso. Advocacia, design, medicina. Geralmente, quando um grupo de amigos é formado, as pessoas têm um interesse em comum. É como começar um curso e fazer amigos. Vocês gostam da mesma coisa, por isso estão ali. Mas nós éramos muito diferentes. No começo, como estranhos, estávamos perto de água e óleo. Normal que turmas não se misturem, então eu nem imaginava que pudesse acontecer algo do tipo. Entretanto, depois de um tempo, percebi que tínhamos sim algo em comum: o desejo incessante de fazer música. Claramente, a maioria de nós não pensava em levar isso profissionalmente – alguns só como hobby, alguns só para ocupar o tempo livre, e isso era bem aceitável, já que todos tinham começado uma faculdade. Mas agora que eu penso, não deveríamos nem ter começado a cogitar a ideia de formar algo. Nenhum de nós deveria, para começo de conversa, ter se interessado por aquele cartaz.
Em 2012 nós ingressamos na faculdade estadual de Washington. A prova tinha durado 6 horas e algumas pessoas acharam bem desgastantes, mas o que eram seis horas comparadas a quase o ano todo de estudos? Ao contrário do que a maioria sempre diz, meus últimos três anos no colegial tinham sido mais tediosos do que as palestras que eu fazia sobre a história do país. Eu preferia morrer a ficar em pé explicando algo que ninguém prestaria atenção.
Eu nunca fiz nenhum real amigo no colegial pelo simples motivo de eu sempre estar com a cabeça nas nuvens. Isso sem contar o fato de que ninguém era interessante o bastante para eu me sentir atraída. Perguntava-me, na maioria das vezes, o que tinha de errado com eles, depois comecei a me perguntar o que tinha de errado comigo.
Quando pequena, eu passei por alterações dramáticas de peso. Teve uma época que eu tive uma anemia ferrada. Aí cresci um pouco e só comia doces. Nessa época, meu pai ainda vivia com a gente. Foi graças à minha mãe que a situação normalizou e eu parei com o meu vício compulsivo. Quando alcancei os 17, meu corpo já estava normal, mas ainda magra demais para ser atraente o suficiente para alguém. E aí vive o ponto: eu nunca, na minha vida toda, fui o suficiente para alguém, mas como no colegial já tinha percebido, isso já não me incomodava mais.
— Já pensou no que vocês querem fazer? Esse é o último ano que vocês têm para deixarem de serem vagabundos ruins para, ao menos, se tornarem vagabundos bons. – Dizia o Sr. Smith, nosso professor de sociologia. — Todos nós sabemos que vocês já esqueceram tudo o que aprenderam até agora. Então deixem essas coisas de lado e vamos focar no vestibular. Assuntos que cairão nas melhores provas. Aliás, passei algo ontem que dá uma base boa para nosso começo de estudos.
— Nós já esquecemos isso também, alguém sussurrava, e o burburinho de risadas se fazia na sala toda. A partir desse ponto, eu estava decidida a ser qualquer coisa, menos professora.
Ao contrário de minha irmã, que já estava crescida nessa época, eu não ligava muito para moda e nem para o meu corpo; não ficava tempos me olhando no espelho e me gabando dos quilos perdidos. Falando assim, pode parecer que Lilian era chata ou algo do tipo; ela era apenas muito feminina comprada a mim. Portanto, qualquer tipo de emprego relacionado à moda ou beleza estava fora de cogitação. Eu era péssima em química, física, e fiquei triste por não ser inteligente o suficiente para criar uma bomba atômica e explodir os miolos dos meus primos. Matemática nem pensar, geografia também não e artes muito menos, mal sabia desenhar palitos. Tudo que eu me interessava era inglês, mas nunca escreveria um livro ou poemas. Eu acho que eu era do tipo chato que corrigia tudo mentalmente, na amargura própria de ver um erro gramatical. Por fim, notei que nada daria certo – ou ao menos nada relacionado com o colégio tradicional.
— E então, o que vai ser?
“O que vai ser?” Eu repetia. “Eu não sei. Talvez seja o tipo de vagabunda ruim que o Sr. Smith fale.”
E essa foi minha resposta durante muito tempo. Muito. Aí, um mês antes da prova, eu me decidi.
— Vou ser detetive.
E a maior parte da culpa pertence à Sherlock Holmes. Por quê? Louca. Esse é o melhor adjetivo para descrever o que eu era por ele. Louca de amor. Louca de orgulho, louca de ser louca. Por sua inteligência em física, seu desempenho em psicologia, seus disfarces, ótima habilidade em maquiagem, isso sem contar o talento em dança e violino. Ele era tudo que eu queria, mas nunca seria. E era isso que me movia. O fato de eu querer ao menos um pouco de sua perfeição. Caso isso não desse certo, eu procuraria seguir a carreira de leitora e crítica profissional de livros de ficção ou crítica de comida. Ficar sentada provando comidas aleatórias e só dando notas me parecia bem convidativo. Depois era só escrever uns parágrafos sobre o restaurante e “boom”, tudo começaria de novo, e eu estava disposta a fazer isso dar certo.
O local da prova era relativamente longe, o que me obrigou a sair de casa uma hora antes pra chegar lá uma hora antes. Estávamos (eu e minha mãe) no campus da mesma faculdade no qual eu estava prestando. De fato, era a primeira vez que eu visitava um lugar como aquele. Estava tudo muito organizado. As provas de medicina, por exemplo, seriam feitas em prédio diferente do pessoal que faria prova para administração. Eram como subgrupos de grupos grandes de música. Humanas separado de exatas. Mais tarde, mudaram isso e todos faziam em salas misturadas, independente do curso. Primeiro faziam a prova e usavam a nota numa faculdade que aceitasse a sua pontuação.
Depois de quatro horas e quarenta minutos de ter começado (e finalmente terminado), eu me encontrei sozinha no campus procurando minha mãe, com uma prova na mão. Não importava para qual lado eu olhasse, ela não estava lá. Mandei uma mensagem.
[4:59PM] “Onde você está? Já saí.” Eu dizia.
[5:02PM] “Voltando. Está um trânsito horrível.”
[5:03PM] “Já já eu chego.”
Eu conhecia os “já já” da minha mãe muito bem pra saber que ela demoraria ao menos meia hora para chegar. Nesse caso, não tinha nada pra fazer senão andar por aí testando minhas novas habilidades de psicologia (que havia lido num livro). Eu estava determinada a ser o novo Holmes. Mal sabia que estava prestes a conhecer um dos meus melhores amigos.
— Ei, garota! Psiu!
Essas foram suas primeiras palavras.
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