A viagem do tigre - Pov dos tigres
4 Phet - Ren
Levantamos cedo no dia seguinte e nos preparávamos para seguir viagem. Eu estava acordado havia algum tempo. Abri os olhos e vi Kelsey dormindo a meu lado. Fiquei olhando para o seu rosto e vi o quanto ela era linda, ouvi sua respiração tranquila e senti o cheiro dela. Ela tinha um cheiro doce, bom. Senti ternura e alegria.
Me transformei em homem e toquei seu rosto. Ouvi ela suspirar e dizer meu nome. Senti a minha pele queimar, então recolhi a mão. Comecei a ficar enjoado, então voltei a ser tigre e esperei até que Kelsey e Kishan acordassem.
Kishan pediu ao lenço que lhe fizesse roupas e saiu para a mata a fim de vesti-las. Eu peguei uma vareta e fiquei remexendo as cinzas da fogueira distraidamente. Kelsey mantinha distância de mim, mas eu vi que ela me observava.
Eu queria me aproximar dela como Kishan fazia. Queria andar de mãos dadas com ela e abraçá-la para ver o pôr-do-sol , assim como meu irmão. Mas eu sequer podia ficar perto dela por muito tempo, exceto como tigre. Kelsey se ajoelhou à minha frente e sorriu:
— Você não vai trocar de roupa também? Ainda temos mais um dia inteiro de caminhada pela frente.
Joguei a vareta nas cinzas e levantei os olhos frustrado:
— Não.
— Está bem. Mas os seus pés descalços não vão aguentar muito tempo. A selva está cheia de pedras afiadas e espinhos.
A pele de Kelsey já estava um pouco queimada pelo sol. Então fui até a mochila e peguei o frasco de protetor solar e o joguei para ela.
— Passe isto no rosto e nos braços. Você está ficando cor-de-rosa.
Ela começou a esfregar o creme na pele enquanto eu observava, desejando poder ajudá-la.
— Acho que hoje vou de tigre.
— O quê? Por que faria uma coisa dessas? Ah. Deve ser mais confortável para os seus pés. Não o culpo. Se eu tivesse a opção, provavelmente também ficaria na forma de tigre.
— Não é por causa da caminhada.
— Não? É por quê?
Dei um passo em sua direção, para dizer a ela que eu queria ficar perto dela sem me sentir mal, que a companhia dela me fazia bem. Mas naquele momento, Kishan surgiu da selva com o cabelo penteado para trás e Kelsey me ignorou.
— Não é justo! Você tomou banho?
— Tem um riacho logo ali. Não se preocupe. Você vai poder tomar um bom banho quando chegarmos à casa de Phet.
— Ótimo. — Sorriu — Então, estou pronta. Vão na frente, vocês dois.
Os dois interagiam naturalmente e não perceberam quando eu me transformei em tigre. Kishan ergueu a sobrancelha e retesou os músculos do maxilar ao olhar para mim.
— Tem algo errado? — perguntou Kelsey a ele.
Kishan se virou para ela com um sorriso e ofereceu a mão.
— Nadinha.
Kelsey segurou a mão dele e os dois começaram a caminhar alegremente, me deixando para trás. Eu me senti rejeitado, mas resolvi deixar esse sentimento de lado. Me aproximei dela e rocei meu corpo em sua outra mão.
Kelsey me olhou preocupada e acariciou meu pescoço, depois, continuou conversando animadamente com Kishan.
Quando chegamos à casa de Phet, ele estava do lado de fora cuidando de suas plantas. Ele pareceu feliz em ver Kelsey:
— Olá, Quel-si! Encontros felizes acontecem com você!
Kishan subiu no muro de pedra, ergueu e pousou Kelsey com cuidado do outro lado. Eu saltei facilmente sobre o muro. Kelsey andou apressada até o jardim para cumprimentar o xamã:
— Oi, Phet! É bom ver você também!
Phet espiou por cima de um pé de alface e riu todo contente.
— Ah! A minha flor cresce resistente e forte.
Ele se levantou, limpou as mãos e a abraçou. Depois, olhou para os pés de Kishan e foi subindo o olhar até o seu rosto.
— Homem de tamanho considerável viaja a seu lado.
Ele deu um passo à frente ficando bem perto de Kishan, pôs as mãos em seus ombros e ergueu a cabeça até fitar os olhos dele.
— Ah, entendo. Olhos profundos. Muitas cores aí. O pai de muitos.
Phet se virou para recolher as ferramentas de jardinagem enquanto Kelsey fazia uma expressão de surpresa para Kishan e dizia sem emitir som:
— Pai de muitos?
Kishan mudou de posição, pouco à vontade. Kelsey o cutucou com o cotovelo e cochichou:
— O que você acha que ele quis dizer com isso?
— Não sei, Kells. Acabo de conhecer o sujeito. Talvez ele seja louco — respondeu Kishan, nervoso, como se estivesse tentando esconder algo.
— O quê? Como é? Espere um pouco. Você já é pai? Você e Yesubai por acaso...
— Não!
— Hum. Nunca o vi tão desconcertado. Tem algo aí que não quer me contar. Bom, não faz mal. Eu arranco de você mais cedo ou mais tarde.
Ele se inclinou e sussurrou no ouvido dela:
— Eu devoro bisbilhoteiras no café da manhã.
Ela sussurrou em resposta:
— Eu sou muito esperta. Você não vai me pegar.
Eu ficava cada vez mais desconcertado com a interação dos dois. Me deixava curioso e um pouco irritado o fato de ela dizer que me amava tanto, mas ainda assim, estar tão à vontade com meu irmão.
Phet dirigiu-se à cabana cantarolando, depois chamou por Kelsey:
— Venha, venha, Quel-si. Hora da conversa.
Eu me transformei em homem e toquei o braço de Kelsey com carinho, depois dei alguns passos para trás para ficar perto de Kishan:
— Phet não é louco — eu disse a Kishan, que olhava para Phet desconfiado, depois me virei para Kelsey e sorri. — “É melhor um tolo espirituoso do que um espirituoso tolo.”
Kelsey sorriu para mim e respondeu:
— “Quando o tolo fala, o sábio escuta.”
Fiz uma mesura teatral e perguntei:
— Prosseguimos?
Kishan resmungou e me empurrou para o lado.
— Primeiro as damas. Vá na frente, Kelsey.
Kishan colocou a mão nas costas de Kelsey, guiando-a até a casa, depois, manteve as mãos em sua cintura e me olhou de lado, rapidamente. Percebi que ele ficou com ciúmes, e confesso que isto me deixou satisfeito.
Phet começou a remexer na cozinha para nos preparar uma refeição. Kelsey lhe disse que não era necessário, mas Phet ignorou, colocando na mesa travessas cheias de legumes refogados temperados e bolinhos fritos de berinjela. Kishan encheu um prato para Kelsey e saiu para se servir. Kelsey passou o prato para mim, que pisquei para ela e lhe sorri agradecendo. Kishan me olhou de cara feia, enquanto Kelsey caminhava sem graça para a mesa, e eu a observava sem disfarçar. Kishan entregou o outro prato a Kelsey que agradeceu a ele e a Phet.
— Phet sabe você vem, Quel-si. — Ele encostou o dedo no nariz e piscou. — Voz suave do passarinho no ouvido de Phet. Diz tigres chegando perto.
Ela deu risada.
— Como você sabia que eram os dois tigres certos?
— Passarinhos olham tudo. Passarinhos sabem muita coisa. Diz dois tigres enfeitiçados. Uma moça. — Ele deu uma risada ruidosa, sorriu e deu tapinhas na bochecha dela, todo feliz. — Lin-da flor encanta muitos. Antes só um botãozinho. Agora botão abriu, quase desabrochado. Depois, botão redondo vira flor. Então florada perfeita e vida da flor completa.
Kelsey riu e perguntou a Phet se poderia tomar um banho. Kishan encheu a banheira para ela e depois, nós dois acompanhamos o xamã até o seu canteiro. Phet começou a nos ensinar a como cuidar das flores. Ele falava com firmeza que nós deveríamos cuidar da flor, não arrancar a flor e outras coisas. Quando ele terminou de falar, percebi que não havia flores no canteiro e imaginei que ele estava falando de outro tipo de flor.
Voltamos para dentro de casa e Kelsey estava sentada na cama, lendo. Ela vestia um pijama e seu cabelo molhado estava preso em uma trança jogada sobre um dos ombros. Ela havia arrumado a mesa com lanches. Kishan e eu nos sentamos à mesa e Phet entrou na casa e pendurou o chapéu de palha.
—Ah. Quel-si. Está limpa? Sente-se refrescada e revigorada?
— Sim. Eu me sinto cem por cento melhor. Obrigada. Fiz um lanche para você. É de Shangri-lá.
Ele se sentou perto de nós à mesa e esfregou as mãos. Kishan esticou o braço para se servir, mas Phet lhe deu um tapa na mão e se serviu primeiro.
— Ah. Phet não vai a Shangri-lá faz muito tempo. Comida lá deliciosa.
Kishan se virou para Kelsey e perguntou:
— Quer um pouco, Kells? É melhor falar agora.
— Não, obrigada. Ainda estou satisfeita com o jantar. Você já foi a Shangri-lá, Phet?
— Sim, sim. Há muitos anos. Há muitos cabelos — disse ele, caindo na risada.
Kelsey se ajeitou na cama:
— Então, Phet, você queria falar com a gente? Pode ajudar Ren?
Eu olhei para Kelsey e vi seus olhos brilhando, cheios de esperança. Desejei que o xamã pudesse recuperar minha memória, só para vê-la feliz. Phet bateu as mãos para limpá-las do açúcar.
— Phet pensando nisso faz muito tempo. Conserto ou talvez não. Amanhã melhor momento para olhar nos olhos do tigre.
— Olhar nos olhos dele? Por que precisa fazer isso?
— Olho é vidro. Não espelho. Dentro do olho tem zumbido igual abelha. Pele é carne? Não importa. — Ele pegou um punhado de cabelo. — Cabelo não é nada. — Sorriu para Kelsey. — Dente e língua? Não tem zumbido. Palavra não é zumbido. Só o olho fala.
Eu entendi o que ele queria dizer. Aparentemente, o xamã esperava ouvir a minha alma, não através das minhas palavras, mas através dos meu olhos.
— Está tentando dizer que os olhos são a janela da alma?
Phet deu uma risada alegre.
— Ah! Muito bem, Quel-si. Menina inteligente!
Ele bateu na mesa e apontou para Kishan e para mim.
— Vou dizer, rapazes. Minha Quel-si muito rápida.
Nós dois concordamos com a cabeça, sérios, enquanto Kelsey segurava uma risada.
— Certo. Então você quer fazer um exame geral nele amanhã. Trouxemos as armas de Durga, que pediu para ver.
Phet se levantou, empurrou a cadeira e acenou com os braços.
— Não, não. Amanhã é hora de arma. Esta noite é para presentes. Presentes para a liiin-da deusa.
— Ah! Você quer os presentes. — Kelsey mexeu na mochila. — Vai ser difícil abrir mão deles. São bastante úteis. Graças ao Fruto não precisamos carregar tanta coisa em nossas longas caminhadas pela selva e também não temos que ficar comendo barras de cereal o tempo todo. Mas, tecnicamente, eles não nos pertencem. São para Durga.
Kelsey colocou o lenço e o fruto na mesa e se afastou rápido quando eu me remexi desconfortável. Phet começou a acariciar os presentes e dizer palavras carinhosas, como se estivesse falando com eles.
— Ah. Phet com saudade dos presentes há muito tempo. Muito, muito bom, Quel-si. Presente bom para você também. Dá dois presentes ganha dois presentes.
O xamã colocou o fruto cuidadosamente em minhas mãos e entregou o lenço a Kishan, encarando-o ao ver o lenço mudar de verde para preto. Kishan rapidamente dobrou o lenço e o guardou. Phet pigarreou fazendo barulho.
— Phet confia a vocês pela segunda vez. Alivia, deixa coisas mais fáceis para vocês.
— Quer que a gente continue usando os presentes? — perguntou Kelsey.
— Sim. Agora Phet concede novo presente para vocês.
Ele se levantou e juntou várias ervas e alguns frascos contendo líquidos. Despejou colheradas de ervas trituradas numa xícara, adicionou gotas de diversos frascos e então usou uma concha para adicionar um pouco de água fervente. Mexeu tudo devagar e salpicou açúcar.
— Phet? Isso é açúcar? — Perguntou Kelsey curiosa.
Ele se virou para ela com um sorriso.
— Bebida amarga, açúcar melhor.
Ele deu risada enquanto mexia o caldo e começou a cantarolar “bebida amarga, açúcar melhor” sem parar. Quando ficou satisfeito, levou a xícara para Kishan que, com uma expressão confusa, passou-a para mim. Phet estalou a língua.
— Não, não, tigre de preto. É seu.
— Meu? Eu não preciso de remédio. Ren é que está com problema.
— Phet sabe tudo sobre problema. Para você, esta bebida.
Kishan ergueu a xícara, cheirou-a e fez uma careta.
— O que isto vai fazer comigo?
— Nada e tudo — o xamã deu risada. — Dá para você o que mais deseja no mundo e deixa faltando, sem incluir o que mais quer.
Kishan pegou a xícara e hesitou.
— Eu tenho mesmo que beber?
Phet jogou as mãos para o alto e deu de ombros.
— Escolha é sua. Escolha sempre beber, não beber. Comer, não comer. Amar, não amar — ele ergueu um dedo no ar. — Mas sua escolha molda muitas.
Kishan deu uma olhada na xícara e fez o líquido girar, então olhou para Kelsey. Seus olhos se apertaram, e ele levou a xícara aos lábios e bebeu tudo. Phet pareceu satisfeito.
— Presente um, agora dou outro.
— Aquilo foi um presente? — perguntou Kelsey.
— Sim. Dois e dois.
— Mas você nos devolveu o Fruto e o Lenço. Ainda vai nos dar dois presentes?
Ele fez que sim com a cabeça.
— Se aquela bebida foi um presente para Kishan, o que era?
Phet se recostou na cadeira e, com uma expressão estranha no rosto, disse:
— Soma.
Eu fiquei paralisado, enquanto Kishan começou a tossir com violência.
— O que é soma? — perguntou Kelsey.
Eu me virei para ela e respondi:
— Soma é a versão hindu da ambrosia. É a bebida dos deuses. No mundo moderno também é um alucinógeno.
— Ah.
Phet resmungou:
— Meu soma nada de sonho.
— Isso significa que ele vai se transformar em um deus? — Perguntou Kelsey.
Kishan e eu nos viramos para o xamã, esperando pela resposta, mas ele deu de ombros.
— Phet não sabe tudo, só algumas coisas. Agora presente para outro.
Ele retirou da prateleira um frasco que continha uma substância pegajosa, transparente e rosada.
— Você, tigre branco, sente aqui— apontando para um banco no meio da sala.
Ele inclinou minha cabeça para trás e espalhou uma gosma rosa na minha cabeça. A substância estava gelada e eu me assustei, levantando-me rapidamente.
— Não! Não! Phet não terminou. Sente, Tigre!
Eu me sentei e Phet ficou cantarolando enquanto espalhava mais daquela goma pelo meu cabelo e massageava minha cabeça. Eu estava constrangido. Kishan e Kelsey riam de mim, o que me deixou bastante irritado.
— O que isso faz, afinal? — perguntei a Phet, que me ignorou e continuou alisando minha cabeça.
— Agora hora de dormir.
— Você quer que eu durma assim?
— Quero. Dorme a noite inteira. Observa o que acontece de manhã.
— Ótimo.
Kishan deu uma gargalhada. Phet foi até a pia lavar as mãos e eu olhei para Kelsey emburrado. Ela sorria e pediu ao lenço uma toalha. Então se aproximou de mim no momento em que uma gota da gosma rosa caia em meu rosto.
— Pronto, deixe que eu ajudo. Vou tentar não encostar em você.
Eu assenti com a cabeça e outra gota de gosma gelada caiu pelo meu pescoço. Kelsey pegou um pente e começou a passar pelo meu cabelo para retirar a gosma, que caia na toalha. Ela pediu outra toalha, a umedeceu e passou pelo meu pescoço e rosto. Seu polegar passou suavemente pela pele do meu rosto e eu pude sentir seus batimentos se acelerarem e sua respiração mudar.
Ela ficou paralisada por alguns segundo. Os olhos dela se encheram de lágrimas e eu senti ternura, carinho, gratidão. Mas também me senti enjoado.
Toquei seu pulso e ela levantou o rosto, olhando-me nos olhos. Eu sorri e agradeci baixinho.
Kelsey se afastou rapidamente e virou as costas, indo arrumar a cama. Olhei ao redor e vi que Kishan nos olhava carrancudo, assim como Phet, que parecia curioso. Kelsey virou-se sorrindo:
— Phet tem razão: está na hora de ir para a cama.
Phet bateu palmas.
— Quel-si na casa. Tigre lá fora. Phet — ele sorriu — com Lenço.
Ele deu uma gargalhada de contentamento e criou uma bela barraca para si mesmo. Então abriu a porta e esperou até que saíssemos. Kishan tocou a bochecha de Kelsey.
— Boa noite, Kells — disse ele e saiu, abaixando a cabeça para passar pelo toldo da porta.
Eu também queria tocá-la, mas ao invés disso, a encarei e lhe sorri. Kelsey segurou a respiração por alguns segundos enquanto eu deixava a casa.
Na manhã seguinte, Phet nos acordou e mandou que fôssemos tomar banho no rio. Kishan e eu andamos em silêncio. Então nos transformamos em tigre e entramos na água. Depois de nadarmos um pouco, eu me transformei em homem e tirei as roupas brancas para me lavar. Kishan fez o mesmo.
Depois de nos vestirmos, voltamos para a casa de Phet. No caminho Kishan comentou:
— Você e Kelsey parecem estar retomando a relação.
Fiquei sem jeito, sem saber o que dizer, pois sabia que Kishan a amava.
— Não sei se posso dizer isto, afinal, eu não me lembro de nenhuma relação anterior. Mas eu gosto de estar com ela.
— você ainda lê o diário dela?
— Eu o li mais de uma vez. No início me incomodava ter minha vida contada por outra pessoa e não me lembrar de nada. Para mim era como se tudo aquilo fosse uma mentira.
— Entendo. E agora, como é?
— Agora, é como se eu estivesse lendo um romance e querendo viver a história contada. Então, a personagem principal sai do livro para a vida real, mas todas as vezes que eu me aproximo, ela se desfaz em tinta.
Kishan não disse nada, mas percebi a compreensão em seu olhar.
Quando entramos na cabana, Kelsey e Phet estavam à mesa, tomando o café da manhã. Kelsey tinha uma expressão triste no rosto. Eu a cumprimentei com a cabeça e me sentei do outro lado da mesa. Kishan apertou a mão dela.
Kelsey perguntou baixinho para Kishan se eu tinha me lembrado.Ele sacudiu a cabeça e se sentou. Ficamos todos em silêncio enquanto comíamos.
Depois do café da manhã, Phet pediu para ver as armas. Kelsey pegou todas, inclusiva a cobra Fanindra, e entregou cada uma a Kishan, que as depositava na mesa. Kishan tocava de leve na mão de Kelsey e sorria. Ela sorria de volta.
Senti raiva, tristeza. Eu queria estar ali. Aquele lugar onde Kishan estava, eu queria ocupar. Apesar de não me lembrar da minha relação com Kelsey, eu me sentia decepcionado por ela estar seguindo em frente. Com meu irmão. Kelsey olhou para mim e eu a encarava, então, desviei os olhos rapidamente.
Phet analisou cada peça com atenção antes de entregá-la à pessoa a que Durga tinha dado originalmente.
— Como você sabia? — perguntou Kelsey, incrédula. — Como sabia que o arco e as flechas eram meus e a gada era de Ren?
— Cobra explicou para mim.
Como que em resposta, Fanindra se desenrolou, levantou a cabeça com o pescoço dilatado e olhou nos olhos de Phet. Ele começou a cantar e a mexer a cabeça. Ela balançava para a frente e para trás, como se estivesse sob o comando de um encantador de serpentes. Quando ele parou de cantar, a cobra baixou a cabeça e ficou imóvel outra vez.
— Fanindra declara ter preferência por você, Quel-si. Você é uma boa mulher e demonstra consideração por ela.
Ele apanhou Fanindra e a devolveu com cuidado para Kelsey, que a colocou cuidadosamente no centro de um travesseiro. Depois olhou o travesseiro curiosa, antes de encarar a mim e a Kishan pensativa.
Phet anunciou que estava na hora de olhar nos meus olhos. Ele afastou duas cadeiras da mesa e nos sentamos um de frente para o outro. Kelsey estava ao lado de Kishan e eu olhei nervoso para eles. Phet deu um tapa na minha mão.
— Olhe no meu olho, Tigre!
Virei-me irritado e Phet olhou nos meus olhos. Depois começou a virar minha cabeça de um lado para o outro e estalar a língua. Então ele parou e me olhou nos olhos novamente. Eu fiquei imóvel, assim como ele. Depois de vários minutos na mesma posição, Phet se levantou com um salto.
— Não posso consertar.
Kelsey se levantou confusa.
— Como assim?
— Tigre muito teimoso. Me bloqueia.
— Bloqueia você? — Ela se virou para mim. — Por que está bloqueando Phet?
— Não sei.
— Phet — pediu — será que pode me dizer o que sabe?
Phet suspirou.
— Consertei a dor da faca e da jaula. Mal negro neste momento se foi. Mas lembrança é confusa, tem ativador, só o tigre branco sabe.
— Certo. Esclarecendo: você foi capaz de consertar o estresse pós-traumático, as dores e as lembranças da tortura? Todo o trauma de Lokesh se foi agora? Ele ainda se lembra disso?
— Sim. Ainda me lembro. Estou bem aqui, sabia? — resmunguei.
— Mas Phet diz que levou a escuridão embora. Você sente alguma diferença em relação a isso?
Eu me concentrei.
— Não sei. Acho que teremos que esperar para ver.
— Mas a memória dele continua bloqueada? Como assim, tem um ativador?
— Significa que o tigre recua. Não do criminoso, não do maldoso. Da mente do tigre. Só ele é capaz de consertar.
— Está dizendo que ele está causando isso a si mesmo? Está bloqueando as lembranças de propósito?
Phet assentiu. Kelsey me olhava boquiaberta, magoada.
Olhei para Phet esperando uma resposta. Depois fitei minhas mãos confuso. Eu não conseguia entender como eu estava bloqueando as memórias sobre Kelsey, nem porquê estava fazendo isso. Eu não entendia o significado daquilo tudo. Eu a ouvi dizer baixinho:
— Por quê? Por que você faria uma coisa dessas comigo?
Levantei os olhos e ela estava chorando. Tentei me justificar, mas não tinha o que dizer. Kelsey recuou até a porta, então a abriu. Eu me levantei.
— Kelsey! Espere.
Ela sacudiu a cabeça.
— Por favor, não fuja — supliquei.
— Não venha atrás de mim.
E correu para dentro da selva.
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