A viagem do tigre - Pov dos tigres

21 O animal de estimação do dragão azul - Kishan


Quando chegamos ao iate, Lóngjūn estava impaciente e balançava a cabeça para desembarcarmos logo. Ren e eu descemos rápido, mas Kelsey não conseguiu e foi lançada para o alto. Nós nos inclinamos e a agarramos pelos braços. Ela caiu em um baque no deque, entre nós dois.

Depois que conseguiu voltar a respirar, ela agradeceu, e nós três ficamos observando até o dragão sumir de repente. Então Ren pegou o sextante e saiu para mostrá-lo a Kadam. Eu me aproximei de Kelsey e, delicadamente, afastei o cabelo que estava em seu rosto.

— Está tudo bem com você? — perguntei. — Está sentindo dor em algum lugar?

Ela riu, depois gemeu.

— Estou sentindo dor mais ou menos no corpo todo, e poderia passar uma semana dormindo.

— Venha. Vamos colocar você na cama.

Eu a ajudei a descer as escadas do leme e enfiei a cabeça pela porta avisando que levaria Kelsey para o quarto. Kadam assentiu e nos dispensou com um aceno, distraído diante do sextante. Ren ergueu os olhos e examinou Kelsey brevemente antes de se inclinar para olhar algo que Kadam lhe mostrava. Eu a levei até o quarto, retirei seu equipamento e sapatos, então perguntei:

— Roupa ou pijama?

— Depende.

— Do quê?

— De você ficar e ajudar.

Eu sorri e esfreguei o queixo, esperançoso.

— Esta é uma questão interessante. O que você quer que eu faça?

Ela colocou o dedo no meu peito.

— Espere aqui que vou me trocar no banheiro.

Fiz cara de decepcionado e ela deu gargalhadas, saindo para se trocar. Ouvi quando ela esbarrou em algo e parei na porta do banheiro, preocupado. Kelsey abriu a porta, com os olhos fechados e tateou, esbarrando a mão no meu peito. Eu a peguei no colo e a levei até a sua cama. Depois, baixei a luz para o menor brilho possível e me ajoelhei a seu lado. Kelsey se mexeu e gemeu.

— O que está doendo, Kells?

— O cotovelo.

Examinei seu cotovelo roxo e o beijei com cuidado.

— Algum outro lugar?

— Meu joelho.

Puxei o lençol e deslizei o pijama de seda para cima, até que o joelho dela estivesse à mostra. Eu o apertei de leve.

— Está ralado, mas acho que vai sarar — dei mais um beijo carinhoso. — E onde mais?

Sonolenta, ela apontou para a bochecha. Eu afastei seu cabelo e beijei seu rosto, acariciando seus cabelos. Beijei-lhe a testa. Desci meus lábios até a sua orelha, e sussurrei:

— Eu amo você, Kelsey.

Eu a observei por algum tempo, até que caí no sono a seu lado. Acordei algum tempo depois e resolvi ir ao meu quarto e tomar um banho. Deitei na minha cama e dormi.

Na manhã seguinte, voltei ao quarto de Kelsey, que ainda dormia profundamente. Fui até a casa do leme, onde tomei café da manhã com Nilima e Kadam. Ele me perguntou o que aconteceu no palácio do dragão vermelho. Eu contei a ele sobre o jogo de xadrez, explicando que precisei jogar com o dragão, porque não sabíamos consertar a estrela e como eu achei que teria que ficar no palácio depois de ter perdido a partida, mas para a minha surpresa, encontrei Ren e Kelsey exaustos e a estrela consertada.

Ren apareceu na hora do almoço e juntou-se a nós. Ele contou sua versão do palácio de diamantes e Kadam quis saber como ele e Kelsey haviam consertado a estrela. Ele disse que Kelsey usou uma luz dourada para consertá-la, mas não quis entrar em detalhes, dizendo que caberia a Kelsey contar o resto.

Kelsey chegou no início da noite. Ela tinha tomado banho e reclamou que estava morrendo de fome. Nilima preparou algo para ela comer, enquanto Kadam, Ren e eu continuávamos trabalhando no sextante. Kelsey olhou preocupada para Kadam, e pediu um chá para ele ao fruto. Kadam lhe deu uma piscadela de agradecimento e tomou um gole na xícara antes de alongar as costas curvadas.

— Passou a noite... quer dizer, o dia todo trabalhando, não foi? — Disse Kelsey.

Kadam fez que sim com a cabeça e pegou o chá.

— Quando foi a última vez que comeu?

Ele deu de ombros. Kelsey pediu ao Fruto Dourado que criasse um bolinho e lhe entregou. Ele deu um sorriso e se sentou ao seu lado. Ren e eu nos aproximamos ao mesmo tempo do mapa que estávamos examinando, e batemos a cabeça.

— Então, o que descobriram? Estamos nos movendo de novo, não estamos?—ela perguntou.

— Estamos, sim.— Respondeu Kadam.

— Como é possível? Estamos avançando com nossos próprios motores?

— O satélite e alguns outros instrumentos ainda não estão funcionando, mas o motor voltou a ligar, apesar de isso não ajudar muito se não soubermos onde estamos. É aí que isto entra.

Ele estendeu a mão e lhe entregou um livrinho. Kelsey folheou as página.

— O que é isto?

— Por falta de um termo melhor, é um almanaque de dragões.

— Onde o conseguiu?

— Encontrei em um compartimento escondido embaixo do sextante. Estive traduzindo o texto. Agora sabemos qual é a latitude e a longitude do próximo dragão. Este inusitado sextante nos permite traçar nossa rota. Eu só preciso olhar pelo visor e encontrar a estrela do dragão seguinte. Nosso próximo amigo escamado é o azul. Uma vez que a estrela entra no campo de visão, o sextante gira e estala, quase como uma bússola. Esses movimentos nos dão uma longitude e uma latitude. Também diz quantas horas vamos demorar a chegar, dependendo da velocidade.

— Então, para que está usando o almanaque?

— O almanaque nos diz onde encontrar a estrela.

— Entendi. E quando acha que vamos chegar à toca do dragão azul?

— Com nossa atual velocidade e se o clima continuar assim... por volta das oito da manhã.

Kadam pegou um caderno e uma caneta, e começou a ouvir a versão de Kelsey sobre o dragão vermelho. Ela respondeu às várias perguntas de Kadam, mas pareceu constrangida quando ele lhe perguntou sobre a luz dourada.

— Ren já não contou o que aconteceu?

— Ele só me falou sobre puxar a estrela para perto com a ajuda do tridente e do Lenço. Disse que caberia a você me contar o restante.

— Ah.

Eu vi Ren levantar a cabeça. Ele e Kelsey se encararam por alguns segundos. Eu me aproximei dela e coloquei meu braço sobre seus ombros, beijando-lhe o alto da cabeça. Ela pigarreou:

— Eu, hã... devo ter acertado um túnel de lava profundo ou algo assim. Não sei de onde veio a luz dourada. Talvez tenha algo a ver com este reino.

Ren saiu sem dizer nada. Kadam, Kelsey e eu, passamos o resto do dia na casa do leme, enquanto Nilima descansava. Mostramos à Kelsey tudo o que tínhamos descoberto enquanto ela dormia e começamos a ensiná-la os fundamentos relativos aos instrumentos do iate. Kadam estava muito cansado, então conseguimos convencê-lo a dormir enquanto eu terminaria de ensinar à Kelsey.

Para passar o tempo, jogamos algumas partidas de ludo e compartilhamos mais uma refeição. Depois, eu fui para o timão enquanto Kelsey lia e escrevia em seu diário. Após algum tempo, ela veio para perto e esbarrou em mim com o quadril.

— Um tostão pelos seus pensamentos.

Eu sorri e a puxei para mais perto, então abracei sua cintura e coloquei meu queixo sobre sua cabeça.

— Não estou pensando em nada de mais, só que estou contente. Pela primeira vez em... séculos, estou feliz.

Ela deu risada.

— Então, você tem uma queda por lutar contra demônios e monstros?

— Não. Eu tenho uma queda por você. Você me faz feliz.

— Ah — ela se virou para ficar de frente para mim. — Você também me faz feliz.

Eu sorri e toquei seu rosto. Ela tinha a expressão serena. Olhei para os seus lábios e considerei beijá-los. Percebi que não havia medo em seus olhos, nem tristeza, mas ainda havia um pouco de dúvida. Eu beijei sua bochecha e dei vários beijos pelo rosto dela. Então sussurrei em seu ouvido:

— Em breve.

Eu a abracei apertado, e ficamos assim por algum tempo. Então Kelsey pegou o quimono para olhar o bordado. Ela ergueu os olhos, olhando à sua frente. Então se inclinou para fora por uma porta aberta. Ventava muito. O navio balançou com uma onda. Kelsey olhou para o relógio e parecia preocupada.

— Kishan? Acho que está na hora de acordar o Sr. Kadam.

Eu sai e voltei com ele, que se juntou a Kelsey na janela.

— Estou aqui. O que foi, Srta. Kelsey?

— Acho que o dragão azul produz neblina. Será que vamos conseguir navegar através disto?

Kadam me mandou acordar Nilima, então respondeu:

— Acredito que ficaremos em segurança. É pouco provável que haja outras embarcações por aqui para bater em nós, e a maior parte dos nossos instrumentos parece estar em operação. Apesar de o sistema de satélite aparentemente não ser capaz de calcular nossa posição, o equipamento de medição de profundidade está funcionando, então, se depararmos de repente com uma ilha, seremos alertados.

Quando voltei com Nilima, Kadam mandou que eu levasse Kelsey para dormir. Ele queria que descansássemos antes de chegarmos ao próximo dragão.

Kelsey entrou no próprio quarto, enquanto eu fui me trocar. Tomei banho e vesti shorts então fui até o quarto dela, que já estava dormindo. Eu a observei por um minuto, e senti vontade de ficar perto dela. Então eu me deitei a seu lado e dormi.

Senti a porta do quarto se abrir. Era Ren. Ele ficou parado na porta, sem dizer nada. Kelsey acordou de repente e se sentou na cama. Ela virou o rosto confusa e o viu.

— Estão precisando de vocês na casa do leme.— Disse Ren.

Com isso, ele se virou e saiu, fechando a porta com cuidado atrás de si.

Eu ergui o braço e acariciei as costas de Kelsey, que saiu da cama em um pulo, assustada. Eu me apoiei em meu cotovelo e perguntei:

— Está tudo bem com você?

— Eu estou... bem — gaguejou.

— Por que o sobressalto?

— Eu fiquei... confusa. Normalmente, só durmo ao lado de tigres.

— Ah.

— Hã... você não está... quer dizer... você está... usando algo aí embaixo... certo?

Eu sorri e joguei para longe as cobertas. Kelsey deu um gritinho e depois soltou um suspiro de alívio.

— Poderia ter apenas respondido à pergunta, em vez de ser tão dramático.

— Não teria a mesma graça. Mas, sim, estou vestido.

— Hã, mais ou menos. É melhor se vestir. Ren disse...

— Ouvi o que Ren disse — Eu me levantei e lhe dei um abraço forte e um beijo na testa — Vou esperá-la do lado de fora.

Kelsey não demorou. Nós nos dirigimos para a casa do leme e ela parecia pouco a vontade.

O Deschen estava ancorado em meio a uma densa cobertura de nuvens. Kadam nos puxou de lado quando entramos na casa do leme.

— A ilha apareceu do nada — disse ele. — Acho que o sensor de profundidade não está funcionando. Eu só consegui parar o navio porque Ren estava de vigia.

Kelsey e eu ficamos olhando pela janela.

— Como vamos saber o que precisamos fazer? — perguntou ela.

Ninguém respondeu...

Kadam se colocou ao nosso lado.

— De acordo com minhas anotações, estamos no lugar certo.

Ren deu uma olhada no céu.

— Então, onde está nosso amigo escamado? — perguntou.

Eu sugeri que pegássemos a lancha e fôssemos até a ilha. Ren e eu estávamos discutindo essa ideia quando Kelsey chamou Kadam.

— O que foi, Srta. Kelsey?

— Vamos usar os ventos.

— Os ventos?

— Estou falando do Lenço. A sacola de Fujin.

Ele cofiou a barba.

— É mesmo. Talvez dê certo. Vamos tentar.

Kadam pegou o lenço e o entregou a Kelsey, que nos pediu para subir na casa do leme para uma experiência. Quando estávamos todos lá em cima, Kelsey pegou o lenço.

— Sacola de Fujin, por favor

O Lenço se contorceu e se dobrou sobre si mesmo, criando costuras bem-feitas ao longo das laterais.

— Agora, segurem a sacola, vocês dois.

Cada um de nós segurou uma parte da ampla abertura, e ela gritou:

— Lenço Divino, reúna os ventos!

Um vento forte soprou sobre nós e encheu a sacola. Os ventos se agitavam lá dentro enquanto ela crescia como um balão de ar quente. Ren e eu tínhamos dificuldade de segurar a sacola.

Finalmente, estávamos segurando um saco bem cheio e não sentíamos nem o menor roçar de uma brisa no rosto.

— Preparem-se — gritou— Mirem a ilha.

Apenas Ren e eu enxergávamos a ilha, então nós dois fizemos a mira. Abrimos a sacola e nos seguramos como se nossa vida dependesse daquilo. Ela sacudiu e uivou enquanto o vento berrava pela abertura como um ciclone. A neblina começou a se dissipar e nós nos viramos, direcionando os ventos da sacola contra as névoas e vapores, a fim de afastá-los da ilha. Quando a sacola se exauriu por completo, a névoa se afastara o suficiente para se transformar numa leve neblina no horizonte.

Kelsey estava de costas para a ilha e eu segurei seus ombros para que ela visse. A ilha era como uma grande pedra que se erguia diretamente da água e não tinha praia alguma. Ao que parecia, a única maneira de chegar ao topo seria escalando as pedras.

Ouvimos um barulho. Kelsey protegeu os olhos do sol com a mão para ver melhor.

— Aquilo... aquilo por acaso é...

— É sim. É um rabo.

O dragão azul estava enrolado em um castelo em ruínas no alto da ilha, roncando. Lufadas de neblina saíam de suas narinas enquanto ele dormia. Nós ficamos lá, em silêncio, olhando para o dragão azul adormecido.

— O que devemos fazer? — perguntou Kelsey.

— Não sei. Será que devemos acordá-lo?

— Acho que sim. Se não, sabe-se lá quanto tempo ele ficará dormindo...

Kelsey gritou:

— Grande dragão! Por favor, acorde!

Nada aconteceu. Ren berrou:

— Acorde, dragão!

Eu coloquei as mãos em concha e gritei, mas o dragão não acordou. Então me transformei em tigre e rugi alto, mas não adiantou. Nós três gritamos juntos, depois Ren e eu rugimos juntos como tigre, mas o dragão ainda dormia.

Kadam desceu e tocou a buzina de neblina do navio. O som repentino foi tão alto que pedras rolaram do alto da montanha. Uma voz grave e ribombante ecoou a buzina de neblina que reverberava na nossa cabeça.

O que... vocês querem?, disse a voz, mal-humorada. Não estão vendo que estão atrapalhando meu s-s-sono?

A montanha vibrou, fazendo com que a água lá embaixo formasse ondas. Ren gritou:

— Seu irmão, Lóngjūn, nos enviou. Ele disse que precisamos pedir sua ajuda para recuperarmos o Colar de Durga.

Não me importa o que procuram. Estou cansado. Vão embora e não me incomodem mais.

Eu dei um passo para a frente.

— Não podemos voltar atrás. Precisamos da sua ajuda, dragão.

Sim. Precisam. Mas eu não preciso de vocês. Deixem-me agora, ou sofram com a ira de Qīnglóng.

Kelsey falou:

— Então precisamos nos arriscar a sofrer a sua ira, Qīnglóng, porque não podemos ir embora. Mas talvez exista algo que possamos fazer por você, algo que faça valer a pena perder tempo para nos ajudar.

E o que você poderia fazer por mim, menininha?

A montanha tremeu quando o dragão azul desenrolou a parte superior do corpo, afastando-se da torre, e desceu para mais perto de nós. Ele encarava Kelsey com seus olhos amarelos.

E então? Você vai ficar aí feito um peixe, abrindo e fechando a boca, ou vai me responder?

De repente ele chegou mais perto e abocanhou o ar perto de nós. Suas mandíbulas se fecharam e ele riu.

Foi o que pensei. Você é fraca demais para fazer qualquer coisa por mim.

Ren e eu pulamos à frente de Kelsey, nos transformando em tigres. Estávamos irritados e ameaçadores. Não foi o suficiente para assustar o dragão, mas chamou sua atenção.

Ele se inclinou mais para perto e bufou ar enevoado para cima de nós. Nos transformamos em homens e Kelsey deu um passo a frente, ficando entre nós dois.

— Passe uma tarefa para que possamos nos provar — sugeriu Kelsey.

O dragão estalou a língua e torceu a cabeça.

O que você poderia realizar, mocinha?

— Você ficaria surpreso em descobrir.

O dragão resmungou e bocejou.

Muito bem. Seu desafio será fazer a jornada até o meu templo da montanha. Se conseguir, irei ajudá-los. Se não conseguir... bom... digamos que não precisará mais se preocupar muito com o Colar.

Ele se ergueu no ar e começou a se enrolar no templo mais uma vez.

— Espere! — gritou ela. — Como vamos subir aí?

Há um túnel submarino com degraus, mas primeiro precisam passar pelo meu guardião, e ele não é tão... flexível quanto eu.

— Quem é o seu guardião?—Kelsey perguntou.

Yāo guài yóu yú.

Ela cochichou para Ren:

— O que isso significa?

— Hã... é algo como uma lula diabólica.

Qīnglóng deu um rosnado de desdém.

Bah! Chama-se kraken. Agora, caiam fora.

Ren eu eu nos viramos para voltar ao iate e pegar nosso material de mergulho. Kelsey nos interrompeu, perguntando:

— Aonde vocês dois estão indo?

Eu levantei os olhos e respondi com firmeza:

— Vamos nos preparar. Parece que teremos que mergulhar.

— Ah... não... vocês... não! Não escutaram o que ele acabou de dizer?

— Escutamos.

— Mas não parece. O dragão disse que tem um kraken lá em baixo.

— E daí?

— E... o kraken é enorme! Não vai ter como lutar contra ele!

— Kelsey, fique calma. Venha cá e nós vamos conversar sobre o assunto. Não há necessidade de ficar histérica.

— Histérica? Não cheguei nem perto disso. Vocês já viram um kraken nos filmes? Não, não viram, mas eu vi. Eles destroem navios inteiros! Um par de tigres seria só um aperitivo! Insisto para que a gente bole um plano com o Sr. Kadam antes de vocês dois pularem na água.

Ren estava parado no deque, e eu parei ao lado dele . Nós dois erguemos os olhos e fizemos um gesto para que ela descesse.

— Prometam que vocês sabem o que estão fazendo.

Eu disse:

— O que estamos fazendo é ir atrás do Colar, Kells. Agora, desça para conversarmos com Kadam.

Kadam não sabia muita coisa sobre o Krakem, o que deixava Kelsey mais apreensiva. Principalmente depois dele ter dito que nada poderia matar o tal animal.

— Só isso? Não tem mais nada? Como lutamos contra ele?

Kadam suspirou.

— Só conheço alguns fatos insignificantes. No mito, quando o kraken abre a boca, a água ferve. Quando ergue a cabeça acima da água, o fedor é mais terrível do que qualquer criatura viva pode suportar. Seus olhos têm grande poder luminoso; quando brilham, é como olhar para o sol. Pelo que se diz, a única coisa que que os amedronta são os kilbits.

— O que são kilbits?

— Criaturas mitológicas parecidas com vermes gigantes que se prendem às guelras de peixes grandes, semelhantes a sanguessugas marinhas, apesar de as sanguessugas marinhas serem tão pequenas que dificilmente iriam assustar um kraken.

— Só isso? O senhor quer que nós lutemos contra um kraken com vermes?

— Desculpe, senhorita Kelsey. Há um poema a respeito de uma criatura marinha chamada Leviatã que algumas pessoas também chamam de kraken...

Kadam pegou um livro, virou uma página e começou a ler:

“O casamento do Céu e do Inferno

William Blake

Mas agora, do meio das aranhas pretas e brancas,

Fogo e fumaça explodiram e rolaram para as profundezas, escurecendo tudo,

Deixando o subterrâneo negro como um mar,

agitado e terrivelmente barulhento;

Abaixo de nós não havia mais nada a ser visto,

nada além de uma tormenta escura,

Até que, olhando para o leste, por entre as nuvens e as ondas,

Vimos uma catarata de sangue misturada ao fogo,

E, a poucas pedras de nós, o terrível corpo curvado

De uma serpente monstruosa apareceu e voltou a sumir;

Por fim, a cerca de três graus a leste,

Uma crista flamejante surgiu sobre as ondas;

Erguendo-se lentamente como uma cadeia de rochas douradas,

Até que vimos duas bolas de fogo rubro,

Das quais o oceano se afastava em nuvens de fumaça;

E então percebemos: era a cabeça do Leviatã;

Sua testa estava dividida em listras verdes e roxas,

Como as listras na testa de um tigre;

Logo vimos sua boca e suas guelras vermelhas

Pairando acima da enorme espuma enfurecida

Tingindo as profundezas negras de gotas de sangue,

Avançando em nossa direção

Com toda a fúria de um ser sagrado.

Kelsey pegou minha mão.

— Mas que maravilha. Monstruosamente vago. Terrivelmente amorfo.

Kadam começou a descrever teorias e comparações entre a criatura conhecida como Leviatã e o monstro chamado kraken. Kelsey se virou para Ren, que segurava um livro e perguntou:

— O que é isto, Ren? Se encontrou mais alguma coisa, é melhor compartilhar conosco.

— Não é nada. Foi só um poema que eu achei.

O kraken

Por Alfred, Lord Tennyson

Sob os trovões da superfície da água;

Muito, muito além das profundezas do mar abissal,

Em seu sono antigo, sem sonhos e sem invasões,

Dorme o kraken; pálidos reflexos de sol se agitam

Ao redor de seus flancos sombrios; acima dele se avolumam

Enormes esponjas de crescimento e altura milenar;

E ao longe, na luz doentia,

De inúmeras grutas fantásticas e celas secretas

Pólipos inumeráveis e enormes

Perturbam o verde sonolento com seus braços gigantescos.

Ali permanece por séculos e ali continuará adormecido,

Dilacerando enormes vermes marinhos em seu sono,

Até que o fogo final aqueça as profundezas;

Então, para ser visto por homens e por anjos uma vez,

Rugindo emergirá e na superfície morrerá.

Kadam uniu os dedos e os levou à boca, refletindo.

— Aquela parte final faz referência ao fim do mundo. Supostamente, o kraken, ou Leviatã, vai se erguer das profundezas nos últimos dias. Então enfim ele será destruído, e o mundo irá repousar para sempre. Há referências bíblicas ao Leviatã como sendo a boca do inferno ou até mesmo o próprio Satanás.

— Muito bem. Pare aí mesmo. Para mim, chega. Já é bem ruim pensar em lutar contra demônios sem considerar o mal que representam. Prefiro me surpreender. Quanto mais eu aprendo, mais assustador fica, portanto, vamos simplesmente resolver a questão.

Kelsey pegou o fruto, o lenço e suas armas e começou a descer as escadas.

— Kelsey! Espere!

Kelsey pegou sua roupa de mergulho e atravessou a garagem molhada. Ren e eu a seguimos. Ela foi ao vestiário, enquanto Ren e eu nos preparávamos. Quando ela voltou nós já estávamos em nossas roupas de mergulho e com nossas armas.

Kelsey deixou seu arco para trás. Estávamos saindo da garagem quando Kadam chegou correndo e entregou Fanindra a Kelsey. Ren prendeu a faca de mergulho à perna dela e eu lhe entreguei a máscara e o snorkel.

— Acha que ela consegue respirar embaixo d’água? — perguntou Kelsey a Kadam.

— Ela estava enroscada, pronta para sair, quando eu fui apanhá-la. Tenho certeza de que vai ficar bem.

Saímos para examinar a ilha. Ren pulou na água e eu fui em seguida. Olhamos ao redor e estava tudo bem. Kelsey pulou. Examinamos tanto a superfície quanto embaixo d’água. Só quando estávamos prontos para voltar ao iate que encontramos a entrada submersa. Depois que Ren fez uma curta exploração, confirmou que precisaríamos do equipamento de mergulho. O monstro não estava por perto.

Kelsey estava com medo e gaguejou nervosa:

— Provavelmente está só à espera de nós três. Ele prefere o combo especial. Um frango, um queijo e um bife. Eu sou o frango, aliás.

Eu dei risada.

— Eu com certeza sou o bife, e isso significa que Ren deve ser o queijo.

Ren abriu um sorriso falso e deu um soco no meu braço.

— Isso me lembra uma coisa... — eu disse. — Estou com fome. Vamos voltar.

Depois de almoçarmos, voltamos à caverna. Ren e eu seguimos à frente enquanto Kelsey nos acompanhava. Nós nadávamos com cuidado, atentos ao que estava em nossa frente. Eu prestava atenção em Kelsey, mas ela seguia tranquila. A caverna ia ficando cada vez mais escura, e, apesar da minha visão de tigre, temi que ficasse escuro demais para enxergarmos.

Então vi algo brilhando atrás de mim e iluminando a área à nossa volta com um facho de luz. Era Fanindra, que havia se soltado do braço de Kelsey e assumido a forma de uma serpente marinha.

Nós nos aproximamos de outra abertura. Esta era bem menor. Ren parou e se virou para nos fazer um sinal. Ele perguntou se deveríamos prosseguir ou voltar. Eu disse para prosseguirmos.

Ren entrou nadando primeiro, enquanto Kelsey e eu esperávamos. Ele voltou e nos fez sinal de positivo, e em seguida avançamos.

Chegamos a uma área mais larga e flutuamos, examinando a água ao nosso redor. Era tão negra na parte de dentro quanto um poço coberto. Fanindra nadou para fora do buraco e iluminou a área. Estalactites pendiam do teto. O chão de pedra se inclinava para baixo e desaparecia na água turva abaixo. Fanindra disparou à nossa frente e nós a seguimos.

Havíamos usado um quarto do ar dos tubo. Estávamos nos aproximando da marca intermediária, quando precisaríamos voltar. Agora a caverna era larga o suficiente para nadarmos lado a lado. Kelsey estava olhando ao redor, preocupada. Mas até ali, não havia nada perigoso. Então seu corpo foi lançado contra o meu. Ela apertou meu braço e apontou para cima. O que achávamos que eram estalactites, eram tentáculos do Kraken. Peguei o chakram e o lancei contra o monstro.

O Kraken lançou o tentáculo, que passou entre Kelsey e eu. As ventosas eram rodeados de fileiras afiadas e pontudas de quitina e variavam de tamanho entre um pires de chá e um prato de jantar. Ao recuar, encostou em meu ombro.

O monstro se aproximou de nós e lançou dois tentáculos. Um deles bateu no peito de Ren, e o empurrou alguns metros para trás. As ventosas agarraram sua roupa de mergulho e o puxaram para a frente rapidamente antes que Ren pudesse se desvencilhar, rasgando a parte da frente da roupa no processo. Nadei até ele para verificar seu equipamento. O tanque e as correias continuavam firmes.

Outro tentáculo se enrolou na perna de Kelsey. Nadei rápido até ela e cortei o tentáculo com o chakram e o desenrolei de sua perna, que sangrava. Vi uma tira de tecido se enrolando na perna dela.

O Kraken continuou nos atacando com seus tentáculos, enquanto nós três tentávamos revidar com nossas armas. Mas a criatura era enorme e mal parecia se incomodar com nossos ataques. Na verdade, ela parecia ficar mais irritada. Em um ataque, a criatura arrancou meu tubo de respiração, mas eu consegui pegar o reserva.

Ren e Kelsey atacaram o monstro com raios e pontas de lança. O manto se expandiu e, em um clarão de luz e um jorro de água, a criatura desapareceu. Kelsey nadou em direção a Ren, assim como eu. Mas antes que eu chegasse perto deles, o Kraken se aproximou de mim. Dois tentáculos se enrolaram no meu corpo e me sacudiram. Uma das nadadeiras saiu do meu pé. Ren nadou com força para a frente e enfiou o tridente no maior tentáculo. O monstro gemeu, mas não soltou. Eu a ataquei com o chakram enquanto Ren continuava lançando o tridente contra ela.

Quando finalmente consegui me libertar, não vi Kelsey. Ren e eu acendemos nossas lanternas e procuramos por ela, mas Kelsey não estava por perto. Comecei a entrar em pânico e desconfiei que o monstro havia nos distraído para pega-la.

Quando enxergamos a criatura, ela tinha se afastado de nós. Ainda não tínhamos visto Kelsey, mas eu tinha quase certeza de que o monstro a tinha levado. Então eu a vi.

Ela estava presa por um tentáculo que lhe apertava a cintura e balançava seu corpo. O Kraken segurava Kelsey perto de sua boca e eu nadei em sua direção temendo não chegar a tempo.

Algo pareceu ter distraído o monstro. Serpentes marinhas atacavam o Kraken. aglomerando-se sobre ele. A criatura berrava e enchia o manto. De repente, o kraken se afastou dezenas de metros de onde estava, arrastando Kelsey com ele.

Ren chegou primeiro e retirou a língua verde do monstro, que prendia Kelsey, mas ela se enrolou em seu braço. Eu já os havia alcançado e cortei as línguas com o chakram. Um líquido escorregadio e oleoso jorrou em cima de nós. Eu soltei as pernas de Kelsey enquanto Ren libertava seus braços. Depois, eu a abracei como em um salvamento de afogamento e a levei dali.

Ren nadou para cima do monstro. Ele enfiou o tridente bem no fundo da mandíbula da criatura repetidas vezes até que não conseguimos mais enxerga-lo por causa do sangue negro que se espalhou pela água.

Levei Kelsey até o degrau de pedras. Então nos viramos e vimos o animal soltar tinta turva mais uma vez. A última vez que o avistamos foi quando as partes iluminadas dos tentáculos e o kraken caíram para o abismo. Esperamos mais alguns momentos, ansiosos, até vermos primeiro o brilho do tridente e depois Ren vindo em nossa direção do meio da água tingida.

Serpentes marinhas dispararam para fora do abismo às centenas e ficaram pairando em uma nuvem trêmula nas proximidades, encabeçadas por Fanindra. Uma pequena luz acima de nós indicava a saída. Nadamos na direção dela.

Guiei Kelsey pela mão até a superfície. Ren apareceu ao lado de Kelsey e retirou o respirador. Eu retirei o tanque e as nadadeiras de Kelsey e comecei a examina-la, avaliando seus ferimentos.

—Você está bem?— perguntei inocentemente.

Kelsey começou a dar risadas e balançou a cabeça negando.

— Não.

— Onde está doendo?

— Em todo lugar. Principalmente na perna. Mas vou sobreviver.

Peguei minha faca e cortei a perna da sua roupa de mergulho para inspecionar a ferida. Havia uma bandagem no local, feita pelo lenço e não havia sangue nela. Ouvi o barulho de tecido e vi que uma nova camada começou a recobrir a bandagem. Olhei para Kelsey, sentindo pesar por ter deixado aquilo acontecer e lhe perguntei:

— Está muito ruim?

— Poderia ser pior. Acho que vai ficar tudo bem.

Eu me levantei olhado ao redor. Estávamos em um aposento subterrâneo, completamente fechado, a não ser por uma escadaria. Ouvi o gemido de Kelsey, que se levantara e vinha mancando em direção à escada.

Kelsey começou a subir lentamente pelas escadas. Ren e eu a seguimos. Ela se apoiou em mim, subindo com dificuldade. Eu a peguei no colo e subi com ela pelo restante do caminho.

Quando chegamos ao fim da escada, saímos para o telhado de pedra no alto do castelo em ruínas. Coloquei Kelsey com cuidado em um banco de pedras e fui até a cabeça do dragão azul, que dormia. Ren e eu sacudimos sua cabeça, irritados.

— Acorde! — rugiu Ren.

O dragão se mexeu e roncou. Uma nuvem de névoa caiu sobre nós dois.

— Levante-se. Agora!— Exigi berrando.

O dragão bufou e abriu um olho.

O que vocês querem?

Ren retesou o maxilar, irritado.

— Você vai acordar e falar conosco, ou eu vou enfiar este tridente na sua garganta!

Isso chamou a atenção do dragão. A névoa ficou preta e o dragão levou a cabeça para o lado com um gesto brusco, para abocanhar o ar. Ele estreitou os olhos.

Não pode falar comigo desta maneira.

Ren ameaçou:

— Falo com você do jeito que quiser. Você quase a matou.

Matei quem? Ah. A menininha? Nunca toquei nela.

— O seu animal imundo tocou. Se ela tivesse morrido, eu teria subido aqui para matar você.

Ela obviamente não morreu, então, você devia estar contente. Eu avisei que a tarefa seria difícil.

Dei um passo para a frente.

— Dê para nós o que prometeu.

O dragão moveu uma pata pesada e mostrou o pescoço.

Levem isto, então.

Um disco grande estava pendurado no pescoço do dragão por um cordão de couro grosso. Eu me aproximei e, com a ajuda do chakram, soltei o disco. Ren e eu nos viramos e voltamos para perto de Kelsey. O dragão azul mudou de posição fazendo muito barulho.

Não vão nem dizer obrigado? Afinal de contas, o disco celeste não é um objeto qualquer.

Ren pegou Kelsey no colo e virou a cabeça de leve na direção do dragão.

— Ela também não.

Kelsey e Ren se olharam por um momento e percebi a expressão dele se tranquilizar. Ren se virou para mim e disse:

— Ajude-a.— Entregando-a a mim.

Depois ele pegou o disco e começou a descer a escada.