Kelsey reclamou que podia descer sozinha, mas eu percebi que suas ataduras estavam sujas de sangue e que ela havia pedido ao lenço para reforçá-las. Quando chegamos à piscina, Ren nos esperava. Kelsey ajeitou o tanque e eu lhe ofereci minha máscara, mas Ren me interrompeu:

—A máscara dela está aqui. Sua outra nadadeira também. Fanindra as trouxe.

A cobra dourada colocou a cabeça para fora da água e Kelsey a acariciou.

Depois de conferir o tanque de Kelsey, falei com Ren, que já estava na água:

—O tanque dela está baixo.

—Podemos dividir.

Ren soltou os lastros, mas o disco era pesado demais para que ele pudesse boiar. Kelsey estava preocupada e Ren tentou acalmá-la:

—Eu dou um jeito.

Ren pegou a bolsa que eu tinha feito com o Lenço e ajeitou a alça por cima do peito enquanto Kelsey equalizava a pressão nos ouvidos.

—Teremos que ser rápidos—avisei.—Vamos fazer a travessia nadando para sair daqui o mais rápido possível. Se nos depararmos com o kraken de novo, daremos meia-volta e nadaremos para cá outra vez. E então encontraremos outro jeito de voltar para o iate. Combinado?

—Combinado.

Dei um beijo no nariz de Kelsey e coloquei a máscara. Ela entrou na água atrás de Ren. Fanindra seguiu a seu lado e foi cercada por várias serpentes marinhas que a acompanharam.

Ficou escuro de novo, sem a luz do kraken, mas Fanindra parecia conhecer o caminho. Ela emitia luz suficiente apenas para podermos nos ver envoltos em nosso casulo de cobras. Mas estávamos atentos.

Atravessamos sem incidentes a caverna negra e chegamos à passagem menor. Ren entrou primeiro, rodeado por cobras agitadas. Quando cheguei à passagem, vi que Kelsey e Ren estavam dividindo o respirador e concluí que o tanque dela tinha se esvaziado. Cheguei perto deles e passei a dividir o meu respirador com Kelsey para que Ren seguisse à frente.

O meu tanque também se esvaziou quando estávamos perto da saída da caverna. Então fui atrás de Ren e nós três compartilhamos seu respirador. Nós saímos da caverna devagar e nos dirigimos para a superfície, compartilhando um só tanque de oxigênio. As serpentes marinhas, liberadas da função de escolta, afastaram-se com rapidez pelo mar aberto.

Quando o ar acabou, faltava pouco para chegarmos à superfície. Mas Kelsey parecia estar nervosa e agitada. Ela começou a tentar arrancar a máscara. Eu segurei sua mão e comecei a nadar mais rápido, puxando-a comigo.

Quando chegamos à superfície, eu a abracei e ela engasgou e começou a respirar rápido, Ren subiu à tona logo depois, arfando. O peso do disco deve ter feito com que fosse mais difícil para ele subir à superfície e lá permanecer. Quando sua cabeça afundou na água, nadei até ele para ajudá-lo. Uma outra alça surgiu na sacola de Ren e eu pude ajudá-lo a levar o disco.

Ren e eu nadávamos ao lado de Kelsey, procurando o Deschen.

—Fique perto de nós.—disse Ren. — Não devemos estar muito longe do lugar em que ancoramos. Vamos seguir Fanindra. Você vai ficar bem?

Kelsey assentiu.

Chegamos ao barco e ajudamos Kelsey e Fanindra a saírem da água. Nilima veio correndo em nossa direção e envolveu Kelsey em uma toalha. Kelsey encostou a cabeça na parede e gemeu. Ren a ajudou a retirar os equipamentos e ela arfou de dor quando Nilima tocou em sua perna.

—O que aconteceu?—perguntou Nilima.

—Mordida de kraken —respondeu Ren.—Não sei qual é a gravidade. Ela manteve o ferimento bem amarrado desde o incidente.

Nilima pediu a Ren que fosse buscar um kit de primeiros socorros e a mim que trouxesse uma muda de roupa para Kelsey. Nós dois saímos imediatamente. Voltamos rapidamente e encontramos Nilima limpando uma gosma verde do cabelo de Kelsey. Um pouco da mesma gosma escorreu do meu corpo e caiu no chão do deque. Nilima ficou olhando para aquilo, então disse:

—Vocês dois podem ir tomar banho agora. A coisa verde parece ser tóxica. Provavelmente é algum tipo de ácido. Limpem isso do corpo o mais rápido possível. Não posso permitir que fiquem perto de Kelsey nem toquem nela com isso. Talvez não afete vocês, mas a machuca.

Eu hesitei preocupado. Ren também.

—Não se preocupem—garantiu Nilima.—Ela vai ficar bem. O sangramento está sob controle. Ela está a salvo.

Tomei banho o mais rápido que eu pude, garantindo que nenhuma gota daquela gosma restasse em meu corpo. Me vesti rapidamente e voltei ao deque, onde Kelsey estava sozinha, com a perna enfaixada. Sentei-me a seu lado e segurei sua mão, preocupado e sentindo-me culpado. Logo Ren, Nilima e Kadam juntaram-se a nós. Kadam abriu o zíper de uma bolsa e colocou uma pílula na palma da mão, depois, a ofereceu à Kelsey.

—O que é isso?

—Um antibiótico— Kadam entregou o frasco a mim.—Faça com que ela tome um pela manhã e outro à noite pelos próximos 10 dias.

—Pode deixar—Respondi.

—Agora, vamos ver este ferimento.

Kadam pediu ao Lenço Divino que removesse a atadura e deu uma olhada no corte. Kelsey manteve os olhos fechados.

—Tem razão, Nilima. Ela vai precisar de pontos. Não pensei em trazer material de sutura conosco. A essa altura, a única coisa que podemos fazer é manter a lesão cuidadosamente protegida, limpá-la bem e dar antibióticos para ela, torcendo para que o kraken não seja venenoso. Kishan, pode carregá-la até a cama? Ela precisa descansar.

—Espere—Ren deu um passo para a frente.—Tive uma ideia.

Ele explicou o que queria fazer Kadam olhou para Kelsey.

—Está disposta a tentar, Srta. Kelsey?

Ela assentiu. Ren pediu ao Lenço Divino que desse pontos no ferimento de Kelsey. Ela fechou os olhos e apertou minha mão com força. Eu olhei para sua perna enquanto os fios se afiaram em uma ponta minúscula e deslizaram pelas camadas da sua pele. Em menos de um minuto estava terminado. Pontos minúsculos corriam pela lateral da perna de Kelsey.

Nilima passou creme antibiótico sobre a ferida e pediu ao Lenço que pusesse uma nova bandagem. Peguei Kelsey no colo e a coloquei na cama. Apanhei um comprimido e um copo de água. Ela tomou e dormiu.

Eu a deixei sozinha e fui até Kadam. Ele e Ren estavam analisando o disco. Tentei ajudá-los, mas não conseguia me concentrar. Eu estava incomodado.

Kelsey e eu estávamos namorando. Eu estava respeitando o espaço dela, permitindo que ela se aproximasse de mim quando se sentisse à vontade para tal. Mas isto não estava acontecendo. Nós ainda não tínhamos nos beijado e eu sentia que estávamos cada vez mais longe disto. Kelsey ainda olhava para Ren de uma forma que eu nunca percebi ela olhar para mim. Ren, por sua vez, parece ter se arrependido de abrir mão dela.

Ele terminou com Kelsey porque sentia que não era a pessoa certa para ela, porque se assustou ao não conseguir ajudá-la quando ela se afogou. Mas ele parece ter percebido que fez isso sob forte emoção e agora, não conseguia mais manter-se longe dela. Na realidade, desde que ele e Kelsey consertaram a estrela do dragão vermelho, Ren estava diferente. Algo havia acontecido naquela ocasião, e por algum motivo, eles estavam escondendo isto.

Durante nossa busca pelo disco, no palácio do dragão azul, eu notei como os dois se olhavam, eu vi como Ren era capaz de arriscar a vida por Kelsey, como ele sentiu raiva do dragão por ter colocado a vida dela em risco e como ele se acalmou quando olhou para ela.

Não é que eu não me sentisse da mesma forma, mas Kelsey reagia à proteção dele de maneira diferente à minha. A mim, ela respondia com gratidão, a Ren, ela respondia com ternura. Comecei a achar que ela nunca olharia para mim da mesma forma que olhava para ele.

Kelsey dormiu por doze horas. Quando eu fui a seu quarto para ver se ela estava bem, ouvi que ela estava no banho. Então eu pedi ao fruto que lhe preparasse um lanche. Eu a esperei sair, e então a puxei delicadamente para um abraço.

—Como você está se sentindo?— perguntei, enquanto massageava seu pescoço.

—Melhor. Acho que minhas feridas saram rápido aqui, mas não tão rápido quanto as de vocês.

Eu levei a bandeja com ovos, morangos, um pãozinho de canela, suco de laranja, aspirina e antibiótico e entreguei a ela. Fiquei observando calado enquanto Kelsey comia, mas ela percebeu meu incômodo.

—Está tudo bem com você, Kishan?

Eu olhei para ela e dei um meio sorriso.

—Está. É só que...

—É só que o quê?

Ela continuou comendo enquanto eu pensava no que dizer.

—É só que... eu estou preocupado.

—Não se preocupe comigo. Eu vou me recuperar. Aliás, estou me sentindo muito bem agora.

—Não. Preocupado talvez seja a palavra errada. Às vezes eu acho...— suspirei pensando se eu deveria mesmo falar sobre os meus sentimentos.—Agora não é importante. Você precisa sarar. Não precisa escutar sobre o meu ciúme mesquinho.

—Que ciúme mesquinho?—ela largou a bandeja e segurou minha mão.—Pode me falar.

Eu me inclinei pensativo.

—Acho que talvez...Que talvez você esteja arrependida. Sobre nós.

—Arrependida?

—Eu vejo como você e Ren se entreolham de vez em quando, e fico me sentindo de fora. Sinto que, não importa o que eu faça, não vou poder cruzar o abismo entre nós nem consertar seu coração partido e encontrar um jeito de ficar com você.

—Ah, entendi.—Respondeu ela pensativa.

—Quero que você sinta por mim o mesmo que eu sinto por você. Porém, mais do que isso, quero que você volte a se sentir inteira e feliz, como era no Oregon— eu me inclinei para frente, a fim de acariciar seu rosto.—Eu amo você, Kelsey. Só não tenho certeza se isso é recíproco ou se é possível nós ficarmos juntos.

Ela levou os lábios até a minha mão e beijou a minha palma. Então me olhou e começou a falar, calmamente:

—Sabe qual é o problema? Tivemos muito pouco tempo sozinhos neste navio, e estar no reino dos Sete Pagodes não nos dá muita brecha para o romantismo. Por que não planejamos um jantar à luz de velas hoje à noite, só nós dois? Você coloca uma gravata, e eu vou de vestido. Que tal?

—E se chegarmos ao terceiro dragão até lá?

—A gente improvisa. Vamos ver o que acontece. O Sr. Kadam já decifrou as informações do disco celeste?

—Não. Ele e Ren estão trabalhando nisso. Já nos afastamos da névoa do dragão azul, mas estamos ancorados até eles descobrirem o que fazer em seguida.

—Certo. Então diremos ao Sr. Kadam que precisamos tirar a noite de folga. Assim, minha perna também vai poder sarar melhor.

—Tem certeza?

—Tenho. Se uma garota não pode tirar um dia de folga depois de lutar contra um kraken, quando é que vai poder?

Eu dei uma risada, concordando aliviado.

—Nunca ninguém disse palavras tão verdadeiras.

Deixei Kelsey sozinha o resto do dia. Talvez ela tivesse razão e o problema fosse a falta da oportunidades para ficarmos sozinhos. Todas as nossa missões até aquele momento envolviam o meu irmão. E ele claramente ainda estava apaixonado por Kelsey. Mas agora ela era minha namorada.

Comecei a preparar o nosso encontro. Estava determinado a ter um jantar romântico e fazer todo o necessário para conquistar Kelsey de vez, ou desistir dela definitivamente. Mas eu estava animado e esperançoso. Eu sentia que uma coisa muito importante aconteceria naquela noite e que esta coisa poderia ser nosso primeiro beijo.

Fui até a proa no navio para montar nossa mesa de jantar. Pedi ao lenço para fazer uma toalha de mesa prateada e guardanapos combinando, forrei a mesa e arrumei os guardanapos. Depois coloquei as louças e talheres de prata que peguei emprestado da copa, para dar um ar mais sofisticado. Eu peguei algumas conchas na praia e fiz montinhos pelo chão, onde apoiei as velas acessas, que iluminariam nosso caminho. Pendurei lanternas e providenciei uma música suave tocando ao fundo.

Depois de tudo pronto, fui ao meu quarto para tomar banho e me arrumar. Vesti uma calça preta, camisa de seda cor de cobre e gravata listrada de preto, cobre e dourado para combinar. Eu pretendia lhe entregar flores, mas não encontrei nenhuma. Então, pedi ao lenço e ele fez um buquê de flores de seda.

Na hora marcada, bati na porta do quarto de Kelsey, que não demorou a abri-la. Ela estava linda, usando um belo vestido, da mesma cor da minha camisa, o que me pareceu um bom sinal. Ela havia enfeitado o cabelo com uma flor-de-lótus, e cheirava como Durga. Eu sorri feliz, e lhe entreguei o buquê.

—Desculpe por não serem de verdade. Parece que não há nenhuma floricultura no reino do dragão.

—Tudo bem. Não faz mal.

—Você está linda.

—Você também está ótimo.

Kelsey deu um passo a frente e alisou minha gravata. Eu segurei sua mão e lhe dei um beijo. Depois, lhe ofereci o braço.

—Como está sua perna?— perguntei.

—Está boa. Quase perfeita. Mais um dia e acho que vou estar pronta para enfrentar mais um kraken.

Eu franzi a testa.

—Espero que não seja necessário.

Ela sorriu concordando e nós seguimos para o deque. A lua tinha saído e o mar estava calmo. O céu escuro estava limpo e as estrelas brilhavam. Quando chegamos à proa, Kelsey ficou confusa.

—Nós não vamos comer?

—Vamos. Montei uma mesa aqui. E não se preocupe de alguém nos enxergar da casa do leme. O Sr. Kadam e Nilima tiraram a noite de folga. Todo mundo está nos conveses inferiores.

—Mas não é bom ter alguém pronto para entrar correndo na casa do leme no caso de uma emergência com os dragões ou coisa do tipo?

—Essa vai ser a minha função nas próximas horas. Se algo acontecer, seremos os primeiros a saber.

Ela apertou meu braço:

—Parece legal. Ah, Kishan! Isso é maravilhoso!

Kelsey soltou meu braço e caminhou em direção à mesa, sorrindo animada. Ela estendeu o dedo para tocar uma concha no piso.

—Você deve ter demorado um tempão para fazer isso.

—Não foi tanto tempo. Eu queria que ficasse parecendo especial.

—E ficou.

Eu puxei uma cadeira para que ela se sentasse, depois sentei-me na cadeira à sua frente. Kelsey parecia encantada. Sorri satisfeito.

—Você gostou.

—Dizer “eu gostei” é pouco.

Eu dei risada.

—Que bom. Está pronta para comer, então?

—Estou. Como isto vai funcionar? Imagino que você vá usar o Fruto.

Eu assenti.

—Montei um cardápio. Confia em mim?

—Claro que sim.

Eu fechei os olhos, pensando no cardápio que tinha planejado, e ele surgiu na mesa. Kelsey e eu comemos e conversamos animados. Pedi um bolo de oito camadas de chocolate e framboesa com calda quente e porções de framboesas frescas com chantili de chocolate para a sobremesa. Quando ele surgiu diante de nós, Kelsey fechou os olhos e gemeu.

—Você realmente me conhece bem. Chocolate é o meu fraco.

Eu me inclinei para a frente.

—Espero mesmo que seja.

Ela deu risada.

—O problema é que... agora não aguento comer mais nada.

—Nós temos tempo. A sobremesa pode esperar.—Eu me levantei e estendi a mão.—Quer dançar comigo, Kelsey?

—Eu adoraria.

Ela pegou minha mão e eu a puxei para perto de mim. Kelsey se aninhou em meu peito

—Sabe, esta é a primeira vez que eu danço com você sem ficar com medo de que alguém chegue para arrancá-la de mim.

—Hum... é verdade.

Eu peguei sua mão para girá-la, mas nossos braços se enroscaram. Ela deu risada.

—Desculpe. Sei que não sou o melhor dos dançarinos. É só que...

—O que foi?—Ela perguntou me olhando no rosto.

—Você parece gostar de dançar de um jeito mais sofisticado. Como dançava com Ren. Eu provavelmente nunca vou aprender a fazer aquelas coisas.

—Kishan, você não precisa se comparar a ele. Gosto de você pelo que você é, não porque quero uma xerox.

—O que é uma xerox?

—É uma... não faz diferença. A questão é que você tem que ser você mesmo. Não espero que vá mudar. Se não gosta de dançar, tudo bem...

—Ah, eu gosto de dançar. Só não sou muito bom nisso.

— Não tem problema. Eu também não sou lá muito boa na dança.

—Verdade?

—Verdade.

Kelsey deitou a cabeça no meu ombro e eu ajeitei meu rosto perto de seus cabelos. Fechei meus olhos e fiquei ali, por um momento, sentindo seu cheiro e seu calor. Comecei a me lembrar de quando nos conhecemos e de quando eu voltei pra casa e a encontrei na piscina. Me lembrei de todos os nossos momentos até ali e me senti feliz.

— Sabe quando eu me apaixonei por você?

— Não.

— Foi quando eu vi você cuidar das feridas de Ren depois que nós brigamos na selva. Você ainda não sabia que nós sarávamos rápido, e chorou.

— Eu me lembro.

— Fiquei com o coração partido ao ver você chorando por animais e homens, apesar de selvagens, maliciosos e amaldiçoados. Você demonstrou tanta ternura e preocupação... Minha vontade era consolar você. Deixá-la feliz. Secar as suas lágrimas.

— Você faz tudo isso.

— Lembra quando eu saí da selva e a surpreendi?

— Lembro.

— Eu a estava observando. Você me deixou fascinado. Era quase como se eu pudesse adivinhar o que estava pensando só pela sua expressão.

— Não achei que eu fosse assim tão transparente.

— Você tem o rosto aberto, bondoso.

— Obrigada.

Um vento suave soprou, levando os cabelos dela até seu rosto. Eu os afastei e fiz um carinho em seu pescoço.

— Você sabia que foi a primeira pessoa com quem eu falei em mais de 100 anos?

Ela pareceu surpresa:

— Eu não sabia disso. Você devia se sentir muito solitário.

Eu a olhei nos olhos e segurei sua cintura.

— E me sentia mesmo. Fazia tanto tempo que estava sozinho que eu me achava o último homem na Terra. Então, quando vi você, foi como um sonho. Você era um anjo que finalmente tinha chegado para me resgatar da minha existência infeliz. Para mim não fazia diferença se estivesse vivo ou morto, desde que acabasse com meu isolamento. Então, quando você foi embora, achei que eu poderia voltar a ser como era antes. Não tinha qualquer esperança de que algum dia pudesse ser minha. Era óbvio que Ren tinha tomado você para ele. Então, ignorei a atração. Ignorei meus sentimentos.

Ela me ouvia atenta. Então eu continuei:

— Mas não fez diferença. Eu estava atraído por você. Voltei para a terra dos vivos. Aprendi mais uma vez a caminhar sobre minhas duas pernas. Aprendi o que significa ser homem. Daí você foi embora e uma parte secreta de mim ficou feliz. Minha intenção era lhe dar algum tempo e então procurá-la. Mas não foi isso que aconteceu.

Ela continuava me ouvindo atentamente, silenciosamente. Ela me sorriu quando eu continuei:

— Quando voltei a vê-la, feliz, nos Estados Unidos, resolvi que teria que me contentar em ser seu amigo e protetor. Tentei reprimir meus sentimentos. Fazer o que era preciso para ajudá-la a ser feliz. Mas quando ficamos sozinhos em Shangri-lá, eu me apaixonei ainda mais por você. Quis ficar com você, sem me importar com quem ia magoar ou em como isso iria fazê-la se sentir. Fiquei irritado quando me pediu para recuar. Eu queria que você me quisesse da mesma maneira, e você não queria. Queria que sentisse por mim o mesmo que sentia por Ren, mas você não era capaz disso.

— Mas, Kishan...

— Espere... deixe-me terminar.

Ela fez que sim com a cabeça.

— Não sei se foi algo que aquele pássaro idiota fez comigo em Shangri-lá, mas tenho sido capaz de enxergar com mais clareza desde então... não só no que se refere ao meu passado e a Yesubai, mas a você também, e ao meu futuro. Eu sabia que não ia ficar sozinho para sempre. Vi isso no Bosque dos Sonhos. E, depois daquilo, percebi que você me amava também. Mas apressei as coisas. Forcei a barra. Então ele veio para casa e, apesar de tudo, você ainda quis ficar com ele. Talvez isso nunca mude. Talvez você nunca vá deixar de sentir uma conexão com ele.

Ela ia me dizer algo mas eu a impedi. Não queria que ela me interrompesse.

— Não. Tudo bem. Agora eu compreendo. Eu não estava pronto para ter um relacionamento naquela época. Não tinha nada a oferecer. Não para uma mulher deste tempo. Mas Shangri-lá me deu algo mais valioso do que mais seis horas por dia como homem. Me deu esperança. Uma razão para acreditar. Por isso, esperei. Aprendi a ser paciente. Aprendi a viver neste século. E agora... o mais importante, acho que finalmente aprendi o que significa amar alguém.

Eu toquei seu rosto com o dedo e desci até o queixo, erguendo seu rosto para mim.

— Então, suponho que a única questão restante, Kelsey, seja... Será que os meus sentimentos são correspondidos? Você sente pelo menos uma pequena parte do que eu sinto por você? Há um pedaço seu que pode reservar para mim? Que eu posso chamar de meu? Que eu posso tomar para mim e guardar para sempre? Eu prometo que vou valorizá-lo e defendê-lo ardorosamente por todos os dias da minha vida.

Eu apertei sua cintura e encostei minha testa na dela. Kelsey envolveu meu rosto com as mãos. Uma lágrima desceu pelo seu rosto.

— Claro que sim. Não vou permitir que você fique sozinho, nunca mais. Eu também amo você, Kishan.

— Seu coração chega a bater por mim, meu amor?

Ela se inclinou e encostou seus lábios no meu. Então eu mudei de posição para abraça-la e retribuí o beijo.

Eu queria muito aquele beijo, havia muito tempo. Eu a beijei de leve e com suavidade. Kelsey colocou os braços ao redor do meu pescoço e aproximou seu corpo do meu. Eu a abracei mais forte, desejando que aquele momento nunca se acabasse.

Então, de repente, algo mudou. Kelsey me beijou com mais intensidade e emoção. Eu retribui seu beijo com ardor. Mas Kelsey estava muito intensa. Ela me beijava com uma paixão inexplicável. Eu mal conseguia pensar em outra coisa que não fosse o corpo dela junto ao meu, a boca dela junto à minha. Eu estava plenamente feliz.

De repente, algo pesado foi jogado contra nós e caiu com um baque atrás de Kelsey. Nossos lábios se separaram com o susto e Kelsey se desequilibrou. Eu a segurei antes que caísse.

Uma cadeira de piscina passou voando por nós e caiu no mar, fazendo barulho, levando a louça, as taças, o bolo e as velas da mesa consigo. Kelsey e eu nos olhávamos confusos.

Fiquei paralisado quando ouviu uma voz irada no escuro, vinda de algum lugar acima de nós, que ameaçava:

—Solte-a. Agora.