A viagem do tigre - Pov dos tigres
19 Entre dragões e continentes perdidos - Ren
Estávamos todos procurando por algum sinal nos entalhes do templo quando Kishan percebeu que Kelsey não estava mais ao seu lado. Começamos a procurá-la.
O templo estava escuro e nós já havíamos olhado em quase todos os lugares. Chamávamos por ela, mas não tínhamos qualquer respostas. Eu já estava ficando desesperado.
De repente, olhei para uma parede e vi um entalhe. Eu já tinha visto aquela parede e tinha certeza que o entalhe não estava ali antes. Era a figura de um cavalo com um lenço amarrado no pescoço.
Fixei meus olhos naquela imagem, e de repente, o cavalo se transformou em um homem e apontou para a frente. Olhei na direção em que ele apontava, e um novo entalhe apareceu: uma mulher sentada numa cadeira perto de uma janela, costurando.
Cheguei mais perto e a mulher parecia-se com Kelsey. Ergui minha mão e toquei na figura. Então a minha mão desapareceu dentro da parede. A mulher do entalhe se levantou, movendo-se em minha direção. Eu estendi a mão, toquei nos dedos dela e a puxei. Senti quando ela se chocou contra o meu peito e a abracei. Kelsey estava em meus braços. Ela ergueu os olhos surpresa.
—Ren.
—Está tudo bem com você?
—Está sim. Obrigada.
Eu suspirei aliviado e toquei em uma mecha do cabelo dela, que me olhava com carinho. Ela ia me dizer algo, mas foi interrompida pela voz de Kishan:
—Kells? Senhor Kadam! Eu ouvi alguma coisa!
Kadam e Kishan se aproximaram depressa, vindos de outra sala. Kishan esticou o braço e puxou Kelsey para si, afastando-a de mim.
—Onde você estava?—Ele se voltou para mim.—Como a encontrou?
—Não sei — Respondi, e contei-lhes a história.
Kishan resmungou.
—Está tudo bem bilauta? Está machucada?
—Não, estou bem. Quanto tempo fiquei fora?
Kadam deu um passo adiante.
—Esteve sumida durante uma hora. Todo mundo estava ficando... preocupado.
Kelsey abraçou Kishan e deu tapinhas no meu braço.
—Eu estava fazendo uma visita a Lady Bicho-da-Seda.—Ela olhou para baixo e só então eu reparei no tecido que estava acomodado em seu braço.—Vamos. Precisamos voltar para o iate. Tenho muita coisa para contar.
Voltamos para a lancha e Kishan abraçou Kelsey aliviado.
—Fiquei preocupado, Kells.
—Estou bem. Deu tudo certo, e conseguimos o que viemos buscar.
—Não gosto que você desapareça assim. Não conseguíamos nem rastreá-la no GPS. Você simplesmente desapareceu. Seu pontinho sumiu.
—Sinto muito— ela lhe deu um beijo na bochecha—Até que a maldição seja quebrada, é provável que coisas inesperadas aconteçam a todos nós. Você sabe disso.
—Eu sei — ele beijou sua testa.—Eu só queria estar sempre presente para proteger você. É frustrante quando não posso fazer nada.
Eu sabia o quanto era frustrante não poder protegê-la. Este tinha sido o motivo pelo qual abri mão de Kelsey. Às vezes eu me arrependia. Era doloroso vê-la com meu irmão. Eu pensava nela o tempo todo, sonhava que estava com ela e acordava todos os dias desejando que meu sonho fosse real. Então eu olhava e ela estava com outro homem. Eu me virei para não vê-los e permaneci fitando o mar.
Quando chegamos ao iate, eu desci primeiro e voltei para o depósito, onde eu costumava ir para ficar sozinho. Fiquei me lembrando da dor de não saber onde ela estava e do alivio ao encontrá-la naquele entalhe. Pensei na sensação de tê-la em meus braços, de tocar nela, mesmo que por poucos segundos. Depois me lembrei do meu irmão arrancando ela de mim, dos abraços e carícias entre os dois. Não consegui conter as lágrimas.
Kadam me encontrou algum tempo depois. Eu ainda estava humano e ele sentou-se a meu lado. Eu não estava mais chorando, mas Kadam notou minha tristeza.
— Você está sofrendo Ren, gostaria de conversar?
— Não há o que falar Kadam. Eu fiz o que tinha que ser feito. Kelsey está melhor agora do que antes.
— A senhorita Kelsey está bem sim. Kishan tem cuidado bem dela. Sei que você fez o que acreditava ser o melhor para ela, mas você não pode se martirizar como tem feito, se isolando dela. De todos nós. Nós contamos com a sua ajuda. A senhorita Kelsey precisa de você.
Eu concordei balançando a cabeça.
— O senhor tem razão. Kelsey descobriu algo no templo?
— Sim. Ela nos contou que se encontrou com Lady-Bicho-da-Seda e ela lhe deu isto — Me mostrando o tecido que antes estava no braço de Kelsey.
— E o que é isto?
— Este quimono foi um presente de Lady-Bicho-da Seda para Kelsey. Nós descobrimos que se trata de um mapa.
Ele abriu o quimono. Havia cinco dragões bordados nele. Kadam começou a me explicar:
—Vermelho, branco, dourado, verde e azul. São os nossos dragões.
Um símbolo diferente rodeava cada um dos cinco dragões: estrelas, nuvens, relâmpagos, ondas e flocos de neve.
—Os sete pontos são os sete pagodes. Este aqui é o Templo da Praia. Há números correspondentes escritos em chinês ao lado de cada templo. Está vendo aqui? O Templo da Praia tem o número um ao lado. Cada um destes pontos é um número e corresponde a um pagode. Acredito que vamos encontrar um dragão em cada um dos próximos seis pagodes.
—E o que o senhor acha que encontraremos no sétimo pagode?
— Eu acredito que o perigo que iremos enfrentar encontra-se neste último pagode. Vou me reunir com Kishan e Kelsey para estudarmos mais a respeito deste mapa. Gostaria que você se juntasse a nós.
— Acho melhor não Kadam. Estarei presente quando for absolutamente necessário.
Kadam saiu e eu me transformei em tigre.
No dia seguinte saí do iate para passear na cidade, tentando relaxar.
Minha tentativa de arranjar uma namorada tinha sido desastrosa. Por um lado, Kelsey começou a namorar meu irmão e estava feliz. Por outro lado, eu percebi que não seria fácil esquecê-la. Desde então, não conseguia pensar nem me interessar por nenhuma outra mulher. Kelsey ainda era a dona do meu amor.
Voltei para o iate mais tarde e vi que eles ainda estavam reunidos, estudando. Fui até o meu quarto, tomei banho, e me deitei na cama. Então, senti que o iate começou a se mover, apesar de toda a tripulação ter sido dispensada naquele dia, e eu ter certeza de que ele estava ancorado.
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