A viagem do tigre - Pov dos tigres
20 A estrela do dragão vermelho - Ren
Eu sai do quarto e fui em direção à casa do leme. Encontrei Nilima e Kishan no caminho. Ele nos contou que o iate começou a se mover sozinho, apesar de todos os instrumentos estarem desligados. E, segundo ele, apareceu um novo bordado no tecido de Kelsey: Um barquinho dirigindo-se até o ponto vermelho.
Seguimos juntos para falar com Kadam e tentar entender o que estava acontecendo. Quando chegamos, Kadam e Kelsey conversavam preocupados:
—Nada está ligando. Não devíamos estar nos movendo. Os motores estão desativados. A âncora continua baixada, de acordo com isto aqui. Nada está funcionando: satélite, rádio... está tudo fora do ar. — Dizia Kadam.
Nilima foi até Kadam e eles começaram a olhar um mapa para tentar acompanhar nosso progresso. Kishan e eu fomos conferir a âncora. Vimos que ela estava sendo arrastada pelo iate como uma balsa, e tivemos que içá-la manualmente. Tentamos usar os celulares, mas não havia sinal.
Nós cinco passamos a tarde em silêncio na casa do leme, comunicando apenas o necessário. Entendemos que havíamos entrado em outro mundo, e não sabíamos o que teríamos que enfrentar ali.
O ar naquele mundo era diferente: frio e úmido. Nos preparamos para tudo: Kishan pegou o equipamento de mergulho. Eu peguei nossas armas e Fanindra. Entreguei a cobra e um casaco para Kelsey, que me agradeceu, mas não se agasalhou. Eu pedi uma tira de tecido ao lenço e ajudei Kelsey a prender o arco e a aljava de flechas douradas nas costas e disse a ela que treinasse um pouco. Também pedi ao lenço uma fita de cabelo para que ela amarrasse em sua trança. Olhei para o cabelo cortado dela com pesar, então amarrei a fita em seu pulso. Depois, coloquei o fruto sagrado em um saco e o coloquei na aljava.
Pedi ao lenço dois cintos. Em um deles, coloquei a gada e o tridente. Quando Kishan voltou, entreguei a ele o outro cinto, com uma alça para o chakran. Kishan pendurou o kamandal no pescoço e nós ficamos um tempo olhando pela janela, em silêncio.
Quando Kadam e Nilima concluíram que nosso caminho não estava em nenhum mapa, passamos a acompanhar nosso avanço pelo bordado do quimono de Lady-Bicho-da-Seda. No início da noite, estávamos na metade do caminho até o ponto vermelho. Com base na velocidade com que estávamos nos movendo pelo quimono, Kadam achou que chegaríamos por volta da meia-noite.
Não estávamos dispostos a ir para o convés inferior, por isso, Kishan, Kelsey e eu nos dirigimos para o alto da casa do leme. Ela fez almofadas com o lenço e se recostou sobre elas. Kishan ficou com ela enquanto eu observava o horizonte em vigília.
Notei que Kelsey dormiu, encostada no peito de Kishan, o que me deixou melancólico, imaginado a mim, no lugar dele. Eu evitava olhar para os dois. Depois de algum tempo, Kishan sacudiu Kelsey para acordá-la. Ela gemeu e perguntou o que estava acontecendo.
—Não foi nada. É só que a minha perna estava ficando dormente.
Kelsey riu e gemeu baixinho
— Bom, acho que posso dizer com segurança que doeu mais em mim do que em você. Ren? — ela me chamou —Por que não faz um intervalo e deixa que eu ou Kishan fiquemos de vigia um pouco?
Eu virei o rosto para que ela pudesse ver apenas o meu perfil, evitando encará-la.
—Está tudo bem. Pode dormir, Kells.
—Ei, agora vocês conseguem passar mais de 12 horas na forma de homens?
Eu assenti e Kishan disse:
—Para mim, faz 14 horas. Parece que estamos em uma zona em que não há necessidade de ser tigre.
—Estou com fome. Que horas são?— Perguntou Kelsey.
—Quinze para a meia-noite— respondi—Eu também gostaria de comer alguma coisa.
Kishan se levantou e se espreguiçou.
—Eu fico de vigia. Você pode comer algo com Kelsey.
Eu hesitei por um instante. Não sabia se era uma boa ideia ficar próximo dela. Mas ela estava bem, já havia assumido seu relacionamento com meu irmão, então achei que não teria problemas. Ainda assim, me sentei um pouco distante.
—O que você quer?—Perguntou Kelsey.
—Tanto faz. Pode escolher. — Eu tentava parecer frio.
Tigelas cheias de pipoca e garrafas de refrigerante tremeluziram diante de Kelsey. Ela entregou uma tigela a mim e levantou-se, levando outra para Kishan, que lhe deu um beijo na testa. Eu provei a pipoca e achei estranho. Eu costumava comer pipoca sempre, mas aquela era doce, e despertou algo em mim, como um dejá-vú.
—Alguma coisa errada?—perguntou Kelsey.
—Não. Está bom. É só que... o gosto está diferente.
—Como assim? Você já comeu pipoca antes.
—Esta aqui é doce.
—Ah. Você sempre comia pipoca doce no Oregon.
Eu peguei um grão de milho estourado e, enquanto o observava, uma imagem veio à minha cabeça. Era uma mulher. Tentei ver seu rosto, mas não consegui. Resmunguei baixinho, tentando entender:
—Um vestido azul. Eu derrubei a tigela.
—O que você disse?—perguntou Kelsey.
—Hã? Ah. Nada. Está gostosa.
Comemos em silêncio. Kelsey virou a garrafa de refrigerante e olhou para o céu.
—Olhe só para aquilo— apontou.—As estrelas estão tão brilhantes!
Eu me recostei nas almofadas com as mãos atrás da cabeça.
—Tem razão. Elas estão muito brilhantes. Mais do que o normal. Está vendo aquela constelação ali?
—Aquela à direita?
—Não.
Eu deslizei para perto e encostei minha cabeça na dela. Segurei em seu pulso e movi seu braço em direção à estrela que eu queria lhe mostrar. Ouvi o coração dela acelerar.
—Está vendo agora?
Ela prendeu a respiração.
—Estou. É como uma cobra.
Eu concordei e me afastei dela, satisfeito por ver que eu ainda era capaz de lhe causar aquelas sensações.
—Chama-se Draco, dragão em latim.
—Faz sentido.
—Ele vigia os pomos de ouro de Hera, dizem os gregos. Outros afirmam que é a serpente que tentou Eva.
—Isso é interessante. O que você acha de... Ren! Você viu aquilo?
—O quê?— Respondi assustado.
—Ali! Olhe para a constelação Draco. Está se mexendo.
Sem me levantar, fiquei observando o céu escuro, mas não vi nada de diferente. Eu já ia dizer à Kelsey que ela teve uma ilusão de ótica, quando diversas estrelas começaram a piscar. Eu me levantei rápido.
—Eu vi. Kishan, proteja Kelsey. Eu já volto.
Saí para avisar Kadam e Nilima e voltei rapidamente. Kishan e Kelsey haviam assumido a posição de batalha. Toquei no braço dela para avisar que eu já tinha voltado e assumi minha posição a seu lado. Uma forma preta ondulante veio na nossa direção. Ela distorcia a noite como se o céu fosse o lado de baixo de um cobertor e algo grande rolasse pela parte de cima. As estrelas inchavam e tremiam à medida que aquilo se movia.
Uma cabeça surgiu, seguida por um corpo comprido e sinuoso. Ele arremetia e se contorcia no ar. Foi rodeando o iate lentamente, cada vez mais baixo. Sem dúvidas se tratava de um dragão.
Bolsões de ar úmido batiam contra nós, e um silêncio pesado se espalhou ao nosso redor como se nossos ouvidos tivessem sido tapados. O dragão chegou mais perto. O corpo vinha na nossa direção e os bolsões de ar que ele deixava em seu rastro iam de encontro ao iate feito ondas.
O dragão voou ao redor da embarcação mais uma vez. Agora estava tão perto que todo o seu corpo a rodeava. Sua cabeça se aproximou e parou perto de nós. Nós o encaramos enquanto ela subia e descia no ar. Narinas enormes sopravam ar frio sobre nós e um olho enorme com cílios compridos piscou e nos olhou fixamente. Uma íris vermelha com pupila preta nos examinou, pensativa. Dei um passo para a frente e olhei no fundo daquele olho brilhante. Ele reluziu no meio, como se houvesse uma estrela presa lá dentro.
—Chegue para trás, Kelsey—advertiu Kishan, baixinho.
Ela se afastou enquanto nós dois demos um passo para frente, prontos para defendê-la de um ataque. O dragão sacudiu a cabeça e a enorme barba preta ondulou e se assentou. Sua mandíbula se abriu e uma língua comprida e para fora, como se estivesse provando o ar, e depois se recolheu, enrolando-se para dentro da boca cheia de dentes.
O navio de repente tombou para um lado e depois para outro. Kishan e eu ancoramos Kelsey até que o navio se nivelasse. O dragão começou a se comunicar conosco. Kelsey me olhou confusa quando o dragão disse 'Měnghŭ, wŏ jiào Lóngjūn.”. A voz dele era como sinos, mas era possível ouvir as palavras em nossas mentes.
—Ele disse: “Tigres ferozes, meu nome é Lóngjūn, o Dragão do Oeste.”
Kishan deu um passo adiante e falou várias palavras em mandarim, que eu fui traduzindo para Kelsey:
—Ele perguntou se o grande dragão também sabe falar inglês.
Sim. Eu também sei falar esta língua, apesar de não ser tão bonita quanto a minha.Vocês vieram me pedir um favor. Não é verdade?
—Viemos—respondeu Kelsey
Diga qual é o seu favor e eu direi qual é o meu preço.
Nós nos agitamos, pouco à vontade. Eu perguntei:
—Se o preço for alto demais, será que podemos negociar?
Sim.
A língua comprida e bifurcada saiu para sentir o gosto do ar perto de mim. Continuei firme, na mesma posição.
—Tudo bem—disse Kishan.—Estamos procurando o Colar de Pérolas Negras de Durga.
Ah, então precisam visitar meus irmãos. Posso mostrar como achá-los, em troca...
—Em troca de quê?—Kelsey perguntou hesitante.
O dragão ajeitou o corpo enquanto pensava, e o navio tombou para um lado. Kelsey caiu sobre mim, mas eu a segurei firme.
O item de que precisam para encontrar meus irmãos está no meu palácio do céu. Um de vocês teria que me acompanhar até lá para pegar.
Kishan respondeu:
—Eu vou.
Mas, esperem—disse o dragão —Se quiserem levar o item com vocês, devem me dar algo em troca. Esperem um momento enquanto considero... Ah, sim. Uma de minhas estrelas perdeu o brilho. Precisam consertá-la.
—Quer que nós consertemos uma estrela? Como se faz isso?—indagou Kelsey.
Vocês é que devem descobrir a maneira de repará-la.
Ela continuou:
—Certo. Então, como chegamos lá em cima?
A língua comprida saiu para experimentar o ar perto de Kelsey.
Você é corajosa, mocinha?
—Ela é a mulher mais corajosa que eu conheço. — Respondi sem pensar, encarando o dragão.
Se vocês três tiverem coragem, podem chegar às estrelas no meu lombo.
Kelsey caminhou em direção ao dragão, mas Kishan e eu a detivemos. Kishan disse:
—Nós vamos, Kelsey. Você fica aqui.
—Vocês sabem que vão precisar de mim. Os dois estarão comigo. Vai ficar tudo bem.
Ela se aproximou do olho do dragão e abaixou a cabeça.
—Lóngjūn, posso subir no seu lombo?
O dragão abriu a boca e deu uma risada.
Tão educada. Pode sim, minha cara. Você e seus tigres podem subir no meu lombo. Mas eu os aviso agora: se caírem, eu não os salvarei. Deem um jeito de ficar bem firmes. Podem segurar nas protuberâncias da parte da trás da minha cabeça, se quiserem.
Kelsey se aproximou da cabeça do dragão e parecia estar observando algo ali. Eu subi no lombo do dragão e Kishan subiu atrás de mim, deixando espaço para Kelsey entre nós dois. Eu examinei os chifres até encontrar um bom lugar para segurar. Com um solavanco repentino, o dragão ergueu a cabeça e o corpo do navio. Subimos por muitos metros no ar em apenas alguns segundos e então mergulhamos na direção do mar com a mesma rapidez. Kelsey se agarrou à minha cintura e encostou a cabeça nas minhas costas.
Senti algo apertar minha cintura e coxas. Olhei para baixo e vi que um tecido se enrolava a meu redor, prendendo-me ao dragão. Imaginei que tinha sido ideia de Kelsey. Foi bem na hora, porque depois que o dragão soltou o corpo do navio, ele mergulhou e rodopiou no ar numa velocidade assustadora.
Subimos para o céu e viramos de cabeça para baixo, ficando nesta posição durante vários minutos antes de dar início a uma queda livre em espiral. O ar ia ficando mais frio à medida que íamos subindo. Kelsey se agarrou ainda mais às minhas costas.
Eu gostava de tê-la assim tão perto de mim, e por alguns instantes, me esqueci dos efeitos colaterais que esta proximidade me provocava. Kelsey começou a tremer de frio, ao mesmo tempo em que a velocidade do dragão diminuiu.
—Eu queria ter trazido aquele casaco.
Ouvi uma risada tilintante em minha mente.
As estrelas são brilhantes, mas frias. Enquanto eu estiver com vocês, não vão congelar. Olhem ali. É o meu palácio.
O dragão foi avançando com velocidade cada vez maior. Kishan segurou minha cintura, espremendo Kelsey entre nós dois. A cabeça do dragão apontou para cima, e ele subiu na vertical pelo ar. As amarras do Lenço Divino nos apertaram e ameaçaram rasgar. Estiquei minhas pernas sustentando o peso de nós três. Eu já estava me sentido muito enjoado pela proximidade com Kelsey.
Finalmente, o dragão voltou a ficar reto e eu me se inclinei para a frente, arfando. Quando o dragão finalmente aterrissou, Kishan sussurrou para o lenço nos desamarrar e saltou para descer do lombo do dragão. Kelsey escorregou para os braços do meu irmão, que a colocou no chão e veio até mim, que cambaleei e me curvei, segurando em seu braço para me firmar. Eu estava muito tonto e meu estômago se revirava. Kelsey se afastou para trás e depois de alguns instantes eu consegui ficar em pé sozinho.
O dragão estremeceu, e seu corpo começou a ter convulsões. Ele foi encolhendo; sua forma comprida diminuiu e se retorceu. Então, com um estalo, ele desapareceu e um homem tomou seu lugar. Ele tinha a pele negra e os olhos vermelhos e vestes da mesma cor. Ele fez uma breve mesura.
—Bem-vindos ao meu palácio do céu. Posso entretê-los com um jogo? Bebidas?
Kishan sacudiu a cabeça.
—Nós gostaríamos de tratar do que viemos pegar aqui.
—Ah, sim. Peço perdão. Faz muito tempo que não recebo visitas.—ele sorriu—Venham. Vou lhes mostrar o item de que vão precisar.
Ele nos conduziu através de sua mansão de diamante. Tudo brilhava e refletia nossa imagem. O homem-dragão nos levou até um pedestal que tinha em cima um objeto de diamante. Kishan ergueu-o nas mãos e disse:
—Um sextante.
—Sim, é um sextante—disse o dragão vermelho.—Ele vai guiá-los ao meu irmão. Agora, vamos tratar do preço combinado.
O dragão nos conduziu por uma porta que se abria para uma sacada e, além dela, só havia o espaço. Ele apontou para um par de estrelas. Uma tinha um brilho fraco e a outra, forte.
—Vocês concordaram em consertar minha estrela.
Nós quatro ficamos olhando fixamente para as estrelas por um tempo, e então o dragão entrou e nos deixou lá pensando em silêncio sobre como consertar a estrela.
Kelsey tentou usar o poder de raio, mas a estrela estava muito longe. Kishan pensou em lançar o chakran, mas nós desistimos, pois o disco poderia se perder no espaço. Não conseguimos pensar em mais nada. Kishan entrou no palácio para falar com o dragão sobre outras opções e logo voltou.
—Lóngjūn concordou em jogar uma partida de xadrez com um de nós em vez disso. Se nós vencermos, levamos o sextante. Se perdermos, um de nós tem que ficar para trás.
—Isso não é nada bom—Disse Kelsey peocupada.—Sou péssima em xadrez.
Kishan e eu nos olhamos, então eu lhe disse:
—Você joga xadrez melhor. Kadam nem sempre consegue vencê-lo.
Kishan assentiu e entrou no castelo. Kelsey e eu o seguimos para assistir ao jogo. O dragão ficou com as peças de diamante negro e Kishan pegou as claras. Kishan foi o primeiro. Depois de várias jogadas, comecei a temer que ele fosse perder. O dragão se recostou, sorrindo, e ficou esperando pacientemente pelo próximo movimento de Kishan. Kelsey me cutucou nervosa e eu a segui até o lado de fora do castelo. Ela me pediu para amarrar no tridente, a ponta de uma corda enorme que o tecido tinha produzido A outra ponta, ela amarrou na sacada. Eu olhei para ela confuso:
—O que você quer que eu faça com isso?
—Quero que jogue o tridente na estrela e puxe na nossa direção.
—Você acha que ele chega tão longe assim?
—Minha esperança é que o empuxo do espaço ajude a carregá-lo até lá. O Lenço pode criar mais corda conforme ele avançar e, se errarmos o alvo, é só puxar de volta. Eu mesma faria isso, mas você tem mais força no braço.
Lancei uma vez, mas errei o alvo. Kelsey pediu para o lenço trazer o tridente de volta. Quando eu me preparava para lançá-lo novamente, ouvimos o dragão dizer: “xeque”. Kelsey ficou ansiosa.
—Mire mais alto dessa vez. A luz da estrela está refletindo no palácio. Talvez esteja atrapalhando sua pontaria.
Eu lancei o tridente, e desta vez, acertei a mira. Quando o tridente disparou pelo espaço com uma vibração, ele continuou seu trajeto na direção da estrela. O impacto causou um estrondo distante. Nós dois agarramos a corda e fizemos muita força para puxá-la. Puxamos até a estrela se soltar e começar a gravitar com rapidez na direção do palácio. Quando ela se aproximou, Fiquei em pé na sacada e me segurei na parede, inclinado-me para pegá-la.
—E agora?— perguntei.
—Agora usamos fogo.
Kelsey ergueu a mão em direção à estrela e começou a emitir seu poder de raio. Apesar de a estrela ter bruxuleado mais forte, logo perdeu o brilho.
—Qual é o problema?
—Não sei.
—Tente de novo.
Ela tentou de novo. A estrela começou a brilhar, mas Kelsey estava exausta e enfraquecida. Me aproximei dela e segurei seu braço, a fim de detê-la. Mas durante esse breve toque, uma luz mais forte, dourada disparou da sua mão. A estrela brilhou três vezes mais. Kelsey olhou para mim, ambos surpresos. Então ela me pediu:
—Fique atrás de mim e segure meus braços.
Eu a fitei por um instante, esperando uma confirmação. Ela apenas abaixou os olhos e se concentrou. Eu caminhei em direção às suas costas lentamente. Eu estava em dúvidas sobre fazer aquilo. Mas Kelsey levantou o braço e eu sabia que ela precisava de mim.
Fiquei atrás dela, quando ela disparou um raio de luz branca sobre a estrela. Fechei os olhos e encostei meu rosto no dela. Minha pele queimou de dor e se arrepiou de emoção, tudo ao mesmo tempo. Deslizei minha mão pelo seu braço e entrelacei nossos dedos. Abri os olhos e observei o raio que saia da mão de Kelsey: estava dourado. A estrela pulsou, então se expandiu e brilhou com um núcleo dourado que depois começou a queimar em branco, de tão quente. Kelsey continuou enviando o raio por vários minutos.
Eu sentia a energia fluir do corpo de Kelsey e passar pelo meu corpo. Eu sentia o calor dela irradiar em mim e voltar para ela. Era como se minha própria energia potencializasse seu poder. E quando este voltava para ela, era mais intenso e poderoso. Esta troca de energia entre nós dois era impressionante e muito íntima.
Apesar da emoção que aquela experiência tão íntima me proporcionava, eu comecei a me sentir mal. Meu braço começou a tremer de tanto esforço. Kelsey também estava esgotada. Suas pernas ficaram bambas e eu tive que sustentá-la para que ela não caísse, enquanto eu gemia de dor. O calor que saía dos nossos dedos entrelaçados era terrível e brilhante.
Então, ela desabou contra o meu peito e o fogo cessou. Eu a segurei com delicadeza e a levei até à parede. Nós dois nos sentamos encostados nela, ofegantes. Eu me afastei de Kelsey, e então percebi que sua bochecha e braço brilhavam, nos locais onde estiveram encostados em minha pele. Olhei rapidamente para o meu próprio braço e vi que minha pele também brilhava e queimava. Kelsey levantou seu braço e ficou olhando, até que o brilho cessasse.
Eu estava muito cansado, mas sabia que ainda tinha trabalho a fazer. Subi na balaustrada da sacada e segurei firme a estrela, que brilhava forte e queimava minha mão. Em um impulso hercúleo, eu a lancei de volta a seu lugar, onde ela se acomodou e brilhou intensamente.
Eu desci e me encostei novamente na parede. Joguei a cabeça para trás e fechei os olhos. Não sei por quanto tempo eu dormi, mas despertei de repente. Abri os olhos e vi Kelsey, que estava encostada na parede à minha frente. Eu a chamei. Ela tinha os olhos fechados e balançava a cabeça em negação quando ouvia seu nome. Mantive meus olhos nela, lembrando-me da experiência íntima que compartilhamos e imaginado se ela sentiu o mesmo que eu e o que aquilo significava. Então ela abriu os olhos e me viu. Sua pele ficou vermelha.
—Está tudo bem com você?—perguntei.
Ela tentou falar, mas sua voz não saia. Ela lambeu os lábios enquanto eu a observava preocupado. Então ela assentiu com a cabeça.
—Que bom.
Eu sorri e fechei os olhos, tentando relaxar. Neste momento ouvi a voz do dragão e despertei assustado:
—Xeque-mate!
Kishan apareceu na varanda, arrasado, seguido pelo dragão exultante. Lóngjūn juntou as mãos e disse:
—Agora, vejamos. Qual de vocês gostaria de me fazer companhia aqui entre as estrelas?
Kishan imediatamente se ajoelhou ao lado de Kelsey e tirou uma mecha de cabelo do seu rosto.
—Você está legal? O que aconteceu?
Então Kishan se ajoelhou do meu lado. Eu tinha a cabeça entre minhas mãos. Meu irmão tocou meu ombro e perguntou se eu estava bem. Eu lhe respondi que estava cansado, mas já estava me recuperando.
Kishan se levantou, sentou-se ao lado de Kelsey e a puxou para um abraço, enquanto eu a observava. Ela abriu os olhos e nossos olhares se encontraram, cheios de dúvidas. Ouvimos o dragão dando risada:
—Nenhum de vocês vai escolher? Ótimo. Eu mesmo escolho.
Kelsey ergueu os olhos:
—Não vai poder escolher. Nós consertamos a sua estrela.
—Zěnme?—perguntou o dragão, incrédulo.
—Veja por si mesmo.
Ele foi até a sacada e espiou o céu.
—Como fizeram isso?
—Como você mesmo observou antes, nosso trabalho era descobrir como, não explicar para você.
O dragão franziu a testa e coçou a bochecha.
—Ainda assim... um jogo foi perdido. Preciso receber algum tipo de recompensa como vencedor.
Kelsey gemeu e se levantou com dificuldade. Kishan a ajudou.
—Será que isto o satisfaz?
Kelsey colocou as mãos sobre os ombros de Lóngjūn e beijou sua face.Ele pressionou a mão contra a bochecha, chocado.
—O que foi isso?
—Um beijo— eu respondi ao me levantar e ficar ao lado dele.—Há homens que têm lutado muito por este favor.— eu disse, pensando em mim mesmo.
Kelsey baixou a cabeça e corou. Kishan pegou a mão dela e a apertou de leve. Os olhos do dragão piscaram.
—Um beijo. Sim. Estou satisfeito. Podem pegar o sextante e ir embora.
Ele se virou para sair, mas Kelsey falou com ele:
—Lóngjūn? Será que poderia nos dar uma carona de volta ao navio?
Ele parou e pensou por um instante.
—Sim. Se me der outro... beijo. Mas desta vez na minha verdadeira forma.
Kelsey concordou e começamos a seguir o dragão de volta, atravessando a casa de diamantes. Kishan pegou o sextante e pedimos ao Lenço Divino que criasse uma bolsa para carregá-lo. Quando Kishan a prendeu nas costas, Lóngjūn nos deu um aviso:
—Vocês só podem usá-lo enquanto estiverem no meu reino e apenas para encontrar o meu irmão. Assim que deixarem nossos oceanos, ele retornará a mim.
Kishan ajustou o peso e fez uma mesura curta.
—Nossos agradecimentos, grande dragão.
Lóngjūn assumiu a forma do dragão e eu me aproximei para montá-lo. Kelsey tocou meu braço e recolheu a mão rapidamente.
—Você vai ficar bem?—Ela me perguntou.—Precisa descansar mais?
Eu respirei devagar, desejando que minha resposta fosse diferente. Suspirei e respondi:
—Vou ficar bem. Apenas se assegure de que as cordas estejam apertadas.
Kelsey se aproximou da cabeça do dragão e lhe beijou a bochecha. Enquanto Lóngjūn balançava a cabeça enorme, ouvi uma risada tilintante na cabeça.
Que presente agradável. Monte logo, minha cara. As estrelas estão empalidecendo.
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