A verdadeira magia
11 O revelar
Notas iniciais
Amanda estava usando o efeito de Transformação, por isso nunca pode mostrar.
– Espera aí. — Comecei. — E as vezes que disse que estava guardada?
– E estava. Comigo. — Ela prosseguiu, sempre olhando pra outro lugar, menos pra mim.
– E quando nos conhecemos? — Falei, relembrando. — Você disse que nunca soube que dava pra usar. Falou isso também pro Will.
– Sim, eu sei Nessa parte eu menti. — Ela ficou olhando pras mãos, que mexiam nervosamente.
– Porque você usa ela? — Transformação muda a forma das pessoas, certo? Então tem que ter alguma coisa que ela não gostava antes e que mudou com a carta.
– Não posso — Ela começou. — Se eu te contar você não vai mais querer me ver — A voz dela já ficou mais embargada. — E o Will também Não posso.
Eu me levantei da cadeira que estava, me dirigi até a porta e girei a chave, trancando a porta, e peguei a chave na minha mão. Fechei minha cortina do melhor jeito que pude. Amanda me acompanhou desde quando ouviu a chave girar. Peguei a cadeira e arrastei pra frente dela, com o apoio da cadeira pra frente, ficando de peito nele.
– Eu prometo que não farei isso. — Falei, com convicção. — Eu juro que jamais contarei isso pra alguém até que você queira. — Olhei nos olhos dela. — Pode me contar.
– Não Você vai se afastar quando souber — A voz ficava cada vez mais carregada de choro. Estiquei a mão e mostrei a chave pra ela.
– Aqui. — Falei, pondo a chave na mão dela. — Afastar eu não posso. Confie em mim.
Amanda ficou passando a chave entre os dedos por alguns segundos, e eu esperei ali, sem me mexer.
– Há dois anos — Ela começou, bem baixinho. — Eu estava viajando com minha família de carro. – Oh, droga. Eu conheço esse discurso. — A viajem inteira foi muito divertida. Meu pai contava histórias do passado dele, mas eu nunca acreditei nelas. Mesmo assim eu ouvia com adoração nos meus olhos. — Ela deixou um sorriso leve brotar rapidamente em seus lábios. — Meu pai contava sempre como ele tinha conhecido minha mãe, e sempre era de um jeito diferente. Ele falava isso porque sabia que ela iria falar que ele era convencido e que era diferente. Eu me divertia vendo aquela cena. — Ela expirou com o corpo antes de continuar. — Chegamos no nosso destino, um pequeno parque natural que sempre íamos de férias. Os dias sempre passavam rápido lá, mas eram inesquecíveis. — Férias assim são mesmo inesquecíveis. Eu até tive algumas assim, quando bem pequeno. — Na viagem de volta nós sofremos um acidente. — Ela agora olhava pra baixo, deixando lágrimas caírem. — A pista estava molhada, e numa ultrapassagem infeliz de um carro, nós fomos jogados para um poste. O lado do passageiro havia sido completamente destruído, e eu só conseguia ver ferro retorcido e sangue. Sentia muita dor, mas não conseguia saber de onde. Desmaiei segundos depois. Acordei vendo uma luz branca muito forte. — Era A luz? — Quando me dei por mim estava no hospital. Meu pai logo me viu acordar e foi conversar comigo. Estava aparentando muito cansaço e sono, mas ele me explicou o que aconteceu.
Amanda fez uma pausa, se levantando. O corpo dela começou a quebrar, como se fosse feito de vidro, criando rachaduras longas e múltiplas pelo rosto, pelas roupas, cabelo. Fiquei sem saber o que fazer, simplesmente olhando. As rachaduras continuaram, e quando quase cobriam todo o seu corpo, eu ouvi um barulho de vidro se quebrando, e as rachaduras despencavam como pedaços brancos de luz, sumindo assim que tocavam o chão.
Assim que os pedaços sumiram, olhei para Amanda de novo, mas não a vi mais. No lugar que Amanda estava tinha um corpo muito cicatrizado, com falhas nos pontos de pele visível. Cicatrizes não muito grandes, mas bem próximas, concentradas no rosto e braço direito.
– O acidente matou minha mãe imediatamente, e muitos pedaços, tanto de vidro quanto do metal do carro, me furaram. — Amanda chorava, tentando explicar. Eu fiquei muito assustado de ver seu corpo assim. — Demorou dezoito meses para recuperação completa da minha pele. Fiquei isolada, sozinha, com muito medo, tendo somente meu pai me visitando. Mas ele trabalhava bastante, então ficava solitária. Tive que passar por algumas cirurgias plásticas para tentar amenizar, mas não adiantou muito. Quando resolvi ir pra escola de novo, foi usando muita maquiagem pra tentar esconder o máximo possível dos estragos. Nesse dia fiquei com tanto medo que corri pra biblioteca e fiquei lá durante o dia todo. Achei a carta logo em seguida. Depois de segurar eu percebi seu poder. Consegui quase que instantaneamente usá-la. Fiquei tão feliz, iria finalmente voltar a ser o que era antes. Mas agora você me viu assim. Você vai mudar. Vai se afastar de mim Eu vou ficar sozinha de novo — Amanda chorava de dor. Não conseguia mais falar devido ao que sentia.
Estava chocado de ouvir a história, chocado com seu corpo, mesmo assim não pude aguentar ver o quanto ela se odiava por causa disso. Me levantei da cadeira e a abracei. Abracei com firmeza, pondo minha cabeça em seu ombro direito. Meus olhos também derramavam lágrimas agora.
– Não vou — Falei, com a voz carregada de emoção. — Nunca Eu prometo isso
– O que? — Amanda recuou a cabeça pra me perguntar. — Mas por quê? Eu fiquei horrível — Ela continuou, mas eu interrompi.
– Você continua sendo você. — Falei, menos emocionado. — Eu jamais irei abandonar uma amiga. Os laços que faço são eternos. — Ok, isso foi muito gay.
Amanda me abraçou com força, chorando fortemente em meu ombro. Fiquei ali parado, retribuindo seu abraço. Ficamos ali por alguns segundos, pois logo ouvimos a porta bater.
– Filipe, Amanda, tudo bem aí? — Minha mãe falou. — Vou entrar. — Ela continuou, logo girando a maçaneta. — Porque trancou a porta?
– Mãe, por favor, agora não. — Respondi, com a voz ainda abalada.
Não ouvi resposta, mas Amanda falou logo em seguida.
– Bom Deixa Eu me recompor E aí a gente desce — Ela falou, logo se sentando na cama. Ela esticou o braço. — A carta.
Eu a peguei para ver. Seu símbolo superior direito era um círculo pequeno com uma sombra de um quadrado. Sua coloração era cinza clara, com apenas duas descrições. Dizia que as transformações duravam no mínimo trinta minutos e no máximo doze horas. Não descrevia nenhum efeito além desses. Seu verso tinha uma pessoa modificando algumas formas, não dava pra reconhecer o que.
– Como ela se ativa? — Perguntei curioso.
– Você a coloca no meio do seu tórax, perto do pescoço. — Ela falou. Sua voz não estava mais quebradiça.
Aproximei ela do lugar, e ela sumiu. Logo senti a mudança causada por ela. Senti uma mudança estranha no meu corpo, como se minha pele mudasse de temperatura. Senti meus pelos arrepiar, mas eles estavam baixos. A sensação passou logo depois de alguns segundos, e então retirei Transformação e entreguei de volta para Amanda.
– Aqui Amanda. Está pronta pra descer?
– Sim, agora estou melhor. — Amanda respondeu, pegando a carta e usando ela. Seu corpo lentamente começou a ficar branco, como se estivesse usando uma proteção de luz, e então ela ficou forte, e logo desapareceu, deixando Amanda parecida com antes. Ela levantou da cama e seguiu pra porta, a destrancando. — Vamos descer? Sua mãe deve estar preocupada.
– Ok. — Respondi, seguindo ela pra fora do quarto.
Antes de Amanda descer as escadas, eu a segurei para perguntar.
– Amanda, então o seu pai sabe sobre as cartas.
– Sim, ele sabe. — Ela respondeu me dando um sorriso bobo. — Mas isso já era óbvio, não?
Ri pela minha besteira. Era claro que ele sabia, ele viu as cicatrizes Me entristeceu lembrar disso. Mas ela se mantinha sorrindo pra gente, nem parecia perturbada com isso. Bom, sorrindo e querendo me matar com um livro de História.
– Sim, era. — Falei. — Era muito óbvio e eu não percebi. – Falei, batendo minha mão na testa teatralmente. — Vamos indo.
Descemos a escada e vimos minha mãe na sala, deitada no sofá. Meu pai se distraía no celular, sentado na poltrona, dando umas olhadas pra televisão de vez em quando.
– Mãe. — Comecei. — Estamos aqui, o que foi? — Perguntei, tentando falar com carinho.
– Bom, senhor Filipe, — Não gostei. — o pai de Amanda me ligou e perguntou onde ela estava.
– E você falou? — Eu disse, reparando a reação que Amanda fez.
– Falei que ela tinha vindo aqui junto com o Will. Ele disse que estava vindo em meia hora. Sentem-se no sofá. — Ela falou, sentando e abrindo espaço pra gente.
Olhei para o relógio e vi que seria daqui a alguns minutos. Me sentei no chão, aos pés da minha mãe, e Amanda se sentou no sofá, na outra ponta. Passado alguns minutos de um filme besta, ouvimos a campainha da porta tocar. Fui abrir e encontrei Fred a porta, um terno executivo como sempre, mas parecia agora estar suando e afobado.
– Oi, Filipe, bom te ver. — Ele começou agradavelmente.
– Oi, Fred, bom te ver também. — Respondi. — Entre, sinta-se à vontade.
– Obrigado, obrigado. — Ele falou, entrando rapidamente. — Amanda?
Amanda logo saiu do sofá, indo em direção ao sei pai. Ele, por sua vez, nem esperou ela chegar e já agarrou seu pescoço num abraço apertado.
– Pai, preciso respirar — Ela soltou fracamente, e ele logo a libertou.
– Desculpa, filha, mas ainda não estou muito acostumado com isso. — Ele respondeu.
Minha mãe, que tinha se levantado na hora que tocou a campainha, apareceu da cozinha e se dirigiu a Fred.
– Fred, gostaria de uma xícara de café? — Ela perguntou carinhosamente.
– Depois do café de ontem, eu aceito. — Ele falou mais animado.
Os adultos se dirigiram até a cozinha, e eu voltei para a tevê. Pensei que iria sozinho, mas Amanda me seguiu. Eu tinha me sentado no sofá dessa vez, apoiado pra esquerda com os pés fora do chão. Amanda se sentou na poltrona, perto do sofá.
– Obrigada. — Ela falou simplesmente.
– Pelo que? — Perguntei sem desviar a atenção do programa chato que passava.
– Por aceitar aquilo tão — Ela fez uma pausa. — ... Sabe?
– Oh. De nada por ser tão — Fiz uma pausa. — ... Sabe.
Ela deu uma risadinha, e voltou sua atenção para a tevê.
– Espera aí — Falei, arrastando o aí. — Quando a gente se falou você disse que não sabia que eram mágicas. — Comecei, focando minha atenção nela. — Até agiu surpresa quando usei uma das minhas. O que foi aquilo?
Um sorriso de lado brotou levemente em sua boca. Um sorriso de escárnio, de gozação.
– Eu estava mentindo. — Ela falou na maior cara dura. — Eu tinha aquela carta há quase um ano, e um garoto apareceu com outras, foi instinto. Desculpa se te fiz pensar errado. — Ela concluiu, olhando pra mim com um olhar de riso.
– Então você me enganou só pra conseguir saber sobre as minhas cartas? — Concluí. — Gostei de você. — Falei alegremente.
Ela riu junto comigo. É, ela pode ter mentido no começo, mas conseguir me enganar até agora, isso eu até tiro meu chapéu. Atuação de mestres. Fred chegou após isso e logo chamou Amanda para irem embora. Nos despedimos e eles partiram. Depois disso, minha mãe foi pra cozinha pra organizar as coisas e meu pai voltou pra sala. Eu subi pro quarto de novo. Fiquei um pouco acordado fazendo as pesquisas sobre os gregos para o trabalho. Sabendo que Will não faria comigo, e Amanda não podia fazer comigo, resolvi logo fazer um pouco pra garantir. Depois de alguns minutos eu desci, socializei mais uma vez com os velhos, e logo voltei pra ir dormir, rezando pra ter um sono mais tranquilo hoje.
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